Joyce Rocha

Ilustração: Gustavo Caboco

“Num dia qualquer, uma menininha quis saber onde ela poderia encontrar as histórias que eu contava para que pudesse ler. Aquela pergunta me pegou de ‘calças curtas’, como se diz. Eu não poderia dizer a ela a bibliografia da USP e nem soube indicar os livros que continham as histórias. Na verdade, fiquei sem resposta.” Assim, Daniel Munduruku relembra a dificuldade de identificação de livros escritos por indígenas no começo de sua carreira, que conta com mais de 20 anos de caminhada. O doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Antropologia Social faz parte da etnia Munduruku e é um dos precursores da chamada literatura de autoria indígena, principalmente da produção destinada ao público infanto-juvenil. Com mais de 50 títulos publicados, entre eles o vencedor do prêmio Jabuti de 2017, Vozes ancestrais: dez contos indígenas, o escritor destaca a necessidade de uma literatura protagonizada pelos próprios povos de origem.

Por muito tempo, o caráter criativo dos povos foi marcado pelas oralidades. Porém, o aprendizado da escrita alfabética e o domínio de um segundo idioma, a língua portuguesa, impulsionaram o ativismo indígena relacionado à publicação literária de sua cultura, traduzida em palavras compreensíveis também aos não-indígenas. Os escritores partem das suas ancestralidades para contar não só as dificuldades de um povo originário e resistente aos genocídios, mas também suas alegrias, histórias e crenças. Dessa forma, as narrativas indígenas compõem um instrumento de reafirmação, recuperação da memória e luta por direitos. Esse movimento literário tem crescido desde o seu surgimento e, nos últimos anos, conta com ferramentas que contribuem para a expansão e divulgação dos seus trabalhos, como a internet e as mídias sociais.

Uma semente que germina

Daniel Munduruku (Foto Diego Lopes/CRL)

A semente da literatura indígena germina nos anos 90. Em busca da construção de outras perspectivas sobre os povos, as obras surgem como alternativa às tradicionalmente trabalhadas nas escolas brasileiras. A partir da Constituição de 1988, que os assegura uma educação diferenciada muito devido à luta de lideranças e intelectuais como Ailton Krenak, os povos indígenas desenvolvem a escrita em português como um instrumento de diálogo com a sociedade.

Segundo Daniel Munduruku, outro marco importante para o crescimento da produção literária acontece em 2008. “Houve um crescimento maior por conta da Lei 11.645, assinada pelo presidente Lula, que obrigou as escolas brasileiras a trabalharem a temática para além do Dia do Índio. Isso gerou demanda, editais para compra de livros de temática indígena e um mercado editorial mais forte. Esses editais, lançados pelo governo, eram justamente uma tentativa de levar a temática indígena para além dos autores famosos”, reforça o escritor.

Doutoranda em Letras pelo Programa de Pós-graduação da PUC-RS, Julie Dorrico tem um trabalho com enfoque na produção literária indígena e destaca que é possível estabelecer uma correlação direta entre o movimento organizado pelos povos originários e o surgimento das obras como ativismo. “Desse Movimento Indígena, nós vamos observar a presença dos indígenas em movimento, esse conjunto de escritores, atores, artistas plásticos, que vão começar a fomentar um diálogo. A literatura é a busca por um encontro, pelo diálogo com a sociedade nacional, para desconstruir os equívocos construídos historicamente e que permanecem no imaginário da nossa cultura sobre os povos indígenas”, aponta a pesquisadora natural de Rondônia e de origem Macuxi.

O ativismo literário

As reivindicações dos povos indígenas aparecem na literatura da mesma forma que suas identidades: marcadas pela pluralidade. As produções não se resumem a um tipo de texto, pelo contrário, misturam suas lutas aos contos, poesias, ilustrações e até cordéis, como nas rimas de Auritha Tabajara. Indígena da comunidade Tabajara do Ceará, Auritha expressa em seu último trabalho, Coração na aldeia e pés no mundo, a vivência na cidade, a separação de sua aldeia e as dificuldades enfrentadas por uma mulher indígena nordestina. Em seus versos, a escritora também retoma a força das mulheres nas suas comunidades.

 

 

 

“Nós mulheres indígenas
Somos raiz deste chão
Somos fortes para parir
Cuidar e dar educação
O homem é só semente
Que fecunda e nasce gente
E mulher, terra pra criação”

Auritha Tabajara

 

 

 

 

 

O perfil ativista da literatura dos povos originários serve como ponte para a visibilidade, o enfrentamento e a reelaboração da questão indígena. A cobrança por um sistema de saúde de qualidade, a educação diferenciada nas aldeias, a demarcação de terras e a apropriação das tecnologias da sociedade urbana são alguns dos assuntos que compõem as obras.

Entre os autores, Ailton Krenak, Davi Kopenawa e Álvaro Tukano têm destaque no enfoque da resistência política. Sob a forma de contação de histórias, Daniel Munduruku, Eliane Potiguara, Cristino Wapichana, Yaguarê Yamã, entre outros nomes, são conhecidos por atingirem públicos de diversas faixas etárias. Nesse sentido, a pesquisadora Julie Dorrico reforça a literatura não só como fortalecimento das pautas políticas, mas também culturais: “Esse movimento literário é uma luta cultural, que diz: nós viemos para ficar, temos nossas identidades étnicas e queremos que elas sejam respeitadas”.

web como ferramenta

Ilustração: Gustavo Caboco

Aos 55 anos, Daniel Munduruku é um dos inúmeros indígenas atuantes na internet. Em seu canal no YouTube, o escritor produz vídeos informativos sobre as obras, além de trazer convidados e olhares diversos sobre o movimento literário ameríndio. O escritor reforça que a apropriação das tecnologias pelos indígenas não prejudica suas heranças culturais, mas servem como ferramentas atualizadoras da memória. “As pessoas acham que a cultura indígena é algo congelado no tempo. Elas se esquecem que a cultura é dinâmica, ela precisa se atualizar para se manter viva. Então, para nós fazermos jus à ideia de circularidade do tempo, nós temos que fazer um caminho de atualização das nossas memórias ancestrais e, ao dominar os equipamentos e tecnologias, nós estamos fazendo exatamente isso, renovando nossa própria ancestralidade.”

De origem Wapichana, o curitibano Gustavo Caboco também utiliza as mídias sociais para dar visibilidade ao seu trabalho, que mescla desenho e poesia. Em abril deste ano, o artista lançou o livro de produção independente Baaraz Kawau ou “O campo após o fogo”, obra composta por ilustrações e pequenos textos em papel vermelho sob tinta branca. O ilustrador conta que a escreveu em memória ao seu tio Casimiro Manoel Cadete. Já falecido, Casimiro foi um kuadpayzu,“homem que conta história”, e autor de Paradakary Urudnaa: Dicionário Wapichana-Português/Português-Wapichana, publicado em 1990 e marcado pela grande contribuição para a transmissão e resistência do uso da língua. Caboco utiliza principalmente seu site e perfil no Instagram para a divulgação e atualização dos seus trabalhos. “A arte funciona como produção de memória, uma forma de recontar, atualizar, exercitar e ampliar a própria memória, mas também informar uma comunidade que tem pouco acesso a esse tipo de informação”, explica o artista.

A internet facilita o acesso às publicações indígenas, que nem sempre estão disponíveis nas livrarias físicas e tradicionais. A Livraria Maracá é exclusivamente online e especializada em autores indígenas no Brasil, com obras de diferentes povos e regiões do país. O site ainda abriga um blog em que os escritores registram suas contribuições. Em uma das postagens disponíveis, a livraria disponibiliza, por meio da plataforma Wikilivros, a bibliografia das publicações indígenas no Brasil. A relação de autores foi coordenada pela bibliotecária e pesquisadora Aline Franca, pelo escritor Daniel Munduruku e pelo bibliotecário e pesquisador Thulio Dias, e conta com 46 nomes desde a última atualização em 23 de março de 2019.

Exemplo para os Curumins

As publicações indígenas têm contribuído para a reelaboração do imaginário dos curumins da cidade, palavra de origem tupi cujo significado é crianças. Uma das iniciativas que reforça a importância da literatura indígena em sala de aula é o concurso promovido pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), em parceria com o Instituto Uk’a — Casa dos Saberes Ancestrais. O Concurso Curumim incentiva a leitura de obras indígenas para crianças e jovens, com premiações aos educadores que trabalham essa temática com seus alunos.

A professora Ana Cristina da Motta, da escola municipal Ana Íris do Amaral, na zona Leste de Porto Alegre, foi a vencedora do prêmio nacional nas edições de 2017, com o projeto Curumim Contou, e de 2018, com o Crianças e Infâncias, olhares e sabores. Em ambos os projetos, os alunos realizaram uma vivência na aldeia Tekoá Pindó Mirim, em Viamão, onde interagiram com os colegas da escola estadual Nhamandu Nhemopuã. Os projetos resultaram em dois livros compostos por ilustrações e textos dos alunos da aldeia e da cidade. “Eles gostam muito de fazer o livro, porque é a culminância de um ano todo de estudo que aperfeiçoamos, construímos conhecimentos e sistematizamos em forma de livro, junto com a aldeia.” A professora conta que no início do trabalho os alunos costumam ter uma visão estereotipada em relação aos indígenas, mas, ao longo do ano, muitos acabam identificando algum parentesco com os povos. “É um trabalho de base para nos reconhecermos como parte integrante dessa sociedade, valorizar as culturas e os povos originários”, reforça Ana Cristina.

O trabalho dos alunos da escola municipal de Porto Alegre e as obras escritas pelos povos de origem indígena são duas maneiras diferentes de expressar a necessidade de valorização e visibilidade de uma cultura que resiste há mais de 500 anos. As histórias indígenas saltam entre as capas duras e páginas de livros. Cada vez mais, germinam as possibilidades de escuta dessas vozes de origem que ganham forma em folhas de papel.