Dando prosseguimento à série de entrevistas Ouvidoria, nosso estrevistado da semana é o escritor Gustavo Melo Czekster. Formado em Direito pela PUC-RS, Gustavo é mestre em Letras (Literatura Comparada) pela UFRGS e doutorando em Escrita Criativa pela PUC-RS. É palestrante de temas ligados à literatura, resenhista de sites e ministrante de oficinas literárias. É escritor, autor de dois livros de contos: “O homem despedaçado” (2013) e “Não há amanhã” (2017). Com o segundo livro, foi vencedor do prêmio Açorianos 2017 (categoria Contos), do prêmio AGES de Literatura (categoria Contos e categoria Livro do Ano) e do prêmio Minuano de Literatura (categoria Contos), tendo sido finalista do Prêmio Jabuti 2018 (categoria Contos).

Leia aqui todas as entrevistas da série.

Data de início da carreira: em termos oficiais, seria 24/07/2011, quando foi lançado meu primeiro livro, mas, não-oficialmente, começou em 11/11/1976 (assim que nasci)

Livros publicados: Dois livros de contos, o terceiro (um romance) no prelo.

Como você descreveria sua essência enquanto artista?

Inconformidade. Não consigo me conformar com aquilo que chamam de mundo real, então fico criando digressões, alternativas, desvios, novas possibilidades.

O que mais irrita na cena cultural?

O excessivo compadrio apoiando obras frágeis, a ausência de uma crítica de arte consistente e as fofocas e os boatos substituindo uma lapidação constante do próprio estilo.

Que qualidades são imprescindíveis a um artista?

Disposição de observar o mundo sem julgamentos. Tentar entender o outro ao descrevê-lo. A humildade de saber que a obra é mais importante do que ele. O desejo de sempre buscar o aprimoramento do estilo.

Qual o momento de maior dificuldade que já passou na carreira?

Logo depois de lançar meu primeiro livro, quando, durante um ano inteiro, ninguém falou absolutamente nada sobre ele. Mas também foi bom, pois notei que teria escrito o mesmo livro e publicado igual, pois eu gostava de “O homem despedaçado” mesmo sem ninguém mais gostar. No entanto, passado um ano, muitos leitores surgiram em uma tacada só, e isso foi espantoso.

E de maior felicidade?

Sempre vai ser encontrar um leitor ou leitora, ou seja, estou em constantes relances de felicidade.

Um artista não deve… achar que possui completo domínio do seu ofício ou que não tem mais nada a aprender. E não deve nunca subestimar o seu público.

5 coisas que mais te inspiram a criar (vale tudo): Água corrente. Andar de ônibus. Bibliotecas. Conversas interessantes. Caminhadas.

Acredita em arte sem política?

Não acredito, assim como não acredito em arte política ou em política artística. Fazer uma obra de arte é ter uma posição sobre o mundo, e isto já é uma decisão política.

Qual seria o melhor modelo de financiamento da arte?

Na falta de modelo melhor, o público ainda é muito importante, mas o ideal é que, neste caso, existissem critérios mais claros do ponto de vista artístico e de diversidade cultural e, principalmente, avaliadores externos.

Existe cultura gaúcha?

Sim, e é uma cultura riquíssima para quem escapa dos estereótipos ditados pela intelectualidade. Tantas pessoas acham que outros Estados do Brasil ou outros países possuem culturas vibrantes e nem desconfiam a força da cultura gaúcha, que precisa arcar com indisfarçável esnobismo e elitismo.

Que conselho você daria a Jair Bolsonaro?

Um deputado federal trabalha menos que um presidente e ganha quase a mesma coisa, além de não ter tanta cobrança da mídia, hein: fica a dica.

Todo artista tem de ir aonde o povo está?

O artista sim, a obra não. O artista precisa se embebedar da realidade e circular entre o povo, mas a obra precisa se desvincular da sua origem para tocar no que temos de mais humano e único.

Ser brasileiro é…para quem mexe com a arte, um longo exercício de esperança e fé.

O que você mudaria no jornalismo cultural?

Por tentativa de parecer neutro, o jornalismo cultural se esquece da importância que é se empolgar e saber empolgar os outros. A cultura não é um objeto morto que demanda análises a posteriori sob pontos de vista sociológicos, políticos, econômicos, sociais, entre outros, mas algo vivo e pulsante. As pessoas precisam ler um texto de jornalismo cultural capaz de empolgá-las a consumir e discutir esta e outras formas de cultura, não um texto frio e distante.

Um livro: a “História da Leitura”, de Alberto Manguel. É bom saber quando se pertence a uma seita.

Um espetáculo: “Cão sem plumas”, da Companhia Deborah Colker, que abordou a obra de João Cabral de Melo Neto.

Um álbum: qualquer álbum do Conjunto de Câmara de Porto Alegre (Trovadores Medievais), que até hoje me inspira bastante e nunca canso de ouvir.

Um filme: gosto de filmes e documentários sobre arte e, entre eles, o meu favorito é “Pina”, de Wim Wenders.

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