Na última década, se intensificaram as iniciativas que buscam recontar e resgatar mestres e manifestações da cultura popular, além de bens do patrimônio cultural gaúcho. O movimento acontece também na esteira da busca pela valorização do protagonismo negro e indígena na essência da cultura. No Rio Grande do Sul, parte dessa tendência tem buscado dar visibilidade a diversos aspectos relacionados à cultura afro-gaúcha e aos diversos saberes e fazeres ainda pouco reconhecidos oficialmente. Por isso, listamos 7 documentários produzidos no RS sobre cultura popular e patrimônio cultural presentes no estado.

Trinta povos (2020)

Foto – Anti Filmes

A partir de uma visão que ultrapassa as fronteiras geográficas e olha para os elos culturais entre Brasil, Argentina e Paraguai, o documentário de Zeca Brito tem como foco a história e a cultura dos 30 povos que compuseram as Missões Jesuíticas. Com entrevistas com moradores da região, historiadores e guias turísticos brancos e guaranis, o longa vai apresentando alguns pontos que demarcam o roteiro: a religião, o genocídio e a subjugação imposta pelos jesuítas, a luta por reforma agrária. Pelas vozes dos entrevistados, ouvimos reflexões sobre o que une esses três países, sobre o legado jesuítico para a arte (especialmente o barroco) e ainda sobre a visão dos guaranis acerca das ruínas das missões, uma vez que muitos o consideram uma espécie de memorial do genocídio sofrido pelos antepassados.  Assista > https://canalcurta.tv.br/filme/?name=trinta_povos

O sal e o açúcar (2018)

Foto – reprodução

Com entrevistas com doceiras e pesquisadores, o documentário dirigido por Boca Migotto aborda as tradições doceiras de Pelotas. Uma das forças do filme é o mergulho no trabalho de pesquisa e inventariado dos pesquisadores do Iphan, que resultou no registro dessas tradições entre os bens culturais imateriais do Brasil. O documentário também traz as vivências atuais das doceiras e um panorama histórico, com foco na mistura de fazeres e saberes de Portugal e das mulheres negras escravizadas nas charqueadas. Assista > https://vimeo.com/257075389

O grande tambor (2010)

Foto – reprodução

Vale muito ver cada minuto do documentário de duas horas do Coletivo Catarse. O filme entrega um panorama histórico-cultural sobre o sopapo, tambor de grandes dimensões criados pelos negros escravizados nas charqueadas gaúchas. A importância do sopapo para a história do carnaval pelotense e para músicos contemporâneos da cultura popular no estado, como o Alabe Oni, são alguns dos temas abordados. Marcantes também as cenas com mestres como Giba Giba (que, aliás, foi tema de matéria especial publicada aqui no Nonada). Documentário disponível no Youtube. Assista > https://www.youtube.com/watch?v=xIL6Hfq4ZTw

Projeto Gema (2017)

A Regional de Ibicuí na comunidade quilombola (Foto: Lucas Luz/Gema)

O projeto é na verdade uma série de documentários em curta-metragem, cada um com foco na vida e obra de um mestre da cultura popular do Rio Grande do Sul, com foco na musicalidade. Como contamos nesta matéria, cada episódio é um encontro com o Rio Grande do Sul profundo e a reafirmação de que a cultura gaúcha é formada por um mosaico diverso de referências e de pessoas. Entre os entrevistados, estão Mestre Paraquedas, mãe Vera de Ossanha, Adelar Bertussi, além de manifestações como o maçambique de Osório.  Assista > https://www.youtube.com/c/ProjetoGema/videos

Caminhos da Religiosidade Afro-Riograndense (2010)

Foto – reprodução

Com base em diversas entrevistas, o documentário é uma boa pedida para quem quer compreender melhor a diversidade das religiões de matriz africana no RS. O filme é dividido em três partes – Batuque, Umbanda e Quimbanda. Com diferentes rituais e saberes, o documentário foca em se aprofundar em cada uma dessas manifestações, também abordando o que elas têm em comum. O filme é o produto final de ação de extensão registrada no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Assista > https://www.youtube.com/watch?v=_ao-lrP8TOo

KA’AGUY RUPA (2018)

Foto – reprodução

O documentário é uma realização do coletivo de jovens cineastas Mbyá-guarani Comunicação Kuery. No filme, legendado em português, a mata (Ka’aguy), condição para a existência dos Mbyá-guarani, é o ponto de partida para a narrativa com foco na ancestralidade e na sabedoria dos mais velhos, com registros em diversas aldeias. A importância da mata para a alimentação, o artesanato e a espiritualidade dos guaranis também são assuntos abordados.

Segundo os guaranis, “Nhanderu (Deus) nos criou para vivermos na mata. Tudo que tem nela nos beneficia. É de onde tiramos nosso remédio tradicional. Vivemos num lugar onde tem mata, mas já não é como antigamente porque desde que os jurua (brancos) tomaram nossas terras, eles só querem lucrar com as matas, ganhar dinheiro. Nós Mbyá-guarani somos parte da natureza, vivemos e morremos com ela e isso os jurua não compreendem”. Assista aqui > https://www.facebook.com/kuerycomunicacao/videos/1310915095708153/

A casa elétrica.doc (2009)

Foto – reprodução

Com cenas de ficção, o filme foge da estrutura tradicional comum dos documentários, uma vez que o objeto principal da narrativa – A Casa Elétrica, uma das primeiras fábricas de discos de vinil no mundo – só aparece lá pelos 25 minutos. Antes, o documentário se dedica a entrevistar músicos do RS, do Rio de Janeiro e da Argentina, com foco no samba e no tango. A introdução parte da premissa bairrista do folclorista Paixão Cortes (ele próprio é um dos entrevistados) de que a primeira gravação de samba no país teria sido realizada em 1913, Porto Alegre, para a Casa Elétrica. Fora elementos como a participação inusitada do ator Nicola Siri, é um bom filme para quem quer conhecer a história da fábrica, patrimônio tombado da cidade. Assista >  https://vimeo.com/234576970

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