Ester Caetano
Foto: divulgação

Fundada em meio a um cenário de intensas discussões sobre racismo e branquitude no Brasil, a editora independente Figura de Linguagem, com sede em Porto Alegre, completa 2 anos despontando no mercado editorial na vanguarda dos lançamentos literários no país, ao lado de nomes como a Malê, a Elefante e a Dublinense. A editora tem sido responsável, por exemplo, por trazer aos brasileiros autores como a afro-americana June Jordan, com o lançamento de Somente nossos corações vão debater bravamente.

Elaborada e dirigida por editores negros, a Figura de Linguagem remete a um enfrentamento ao racismo e à falta de sensibilidade de editoras brasileiras brancas. Desde o começo, houve muitos impasses, conta e editor-executivo Luiz Maurício Azevedo, doutor em Teoria e História Literária pela UNICAMP. “As pessoas diziam que não havia a necessidade de criar uma editora negra, de fazer um enfrentamento de forma tão radical. As pessoas diziam que a ideia central era importada dos Estados Unidos e que o racismo no Brasil não era tão grande e não teria um porquê.” 

No início, o foco estava na produção local, mas o professor Luiz Maurício Azevedo e a jornalista Fernanda Bastos, fundadores da editora, começaram a se interessar por títulos dos escritores negros americanos, dos negros sul-africanos e negros franceses. Com o objetivo de visibilizar um amplo campo de desenvolvimento da literatura local em contato com as diversas literaturas mundo afora, a editora tem no catálogo títulos de ficção e não-ficção internacionais, além de autores clássicos, como Luís Gama e Mário de Andrade e escritores porto-alegrenses, como Ana dos Santos e Ronald Augusto. “Descobrimos que a vocação da editora era, através da literatura, interligar lutas raciais que estavam acontecendo ao redor do planeta”, avalia Luiz Maurício.

Em março de 2021, a Figura de Linguagem dá mais um passo nesta direção, publicando Dimensões éticas do pensamento marxista, do filósofo Cornel West, referência da crítica cultural bell hooks, uma das intelectuais mais influentes da atualidade. Ainda em 2020, em meio à pandemia, chegam os títulos Quem quer ser o escritor judeu?, de  Adam Kirsch, Memória de mim, primeiro livro de poemas da cubana Teresa Cárdenas (entrevistada em 2018 pelo blog Veredas) e Mugido, reedição de Marília Floôr Kosby, que estreou pela Garupa (leia aqui a resenha)

Parte do catálogo da editora (Foto: reprodução)

Muitos dos autores e autoras de fora do país lançados pela Figura de Linguagem são escolhidos conforme a necessidade identificada pelos editores de trazer para o Brasil edições que já estavam esgotadas ou então obras inéditas, como foi o caso do livro de June Jordan, traduzido pela própria Fernanda. “A velocidade de aquisição destes títulos é muito lenta, porque é difícil convencer uma editora americana ou francesa a publicar numa editora negra brasileira. De cada 10 livros que tentamos comprar os direitos, conseguimos dois.” Ainda assim, a luta é satisfatória, uma vez que a recepção dos leitores é sempre muito boa.

Já com relação aos livros nacionais, a curadoria passa por um conselho editorial formado por oito pessoas e segue a regra da paridade entre homens e mulheres, mais precisamente, 51% de mulheres para 49% de autores do gênero masculino. Um dos principais critérios é a definição de quais títulos têm peso publicitário. A ideia central é de não transformar a Figura de Linguagem em uma cooperativa ou ONG e, sim, fazer com que os autores tenham a experiência de ser editados por uma editora como qualquer outra. “Tem que funcionar positivamente para o livro e para a editora. O livro tem que fazer parte do catálogo no sentido amplo, simbólico e no sentido prático”, diz Luiz Maurício.  

Com a desaceleração causada pela pandemia de covid-19, houve impacto na logística e nos prazos de entrega. Além disso, a ausência de eventos públicos de lançamento, que possibilita o encontro mais próximo da editora com os leitores, levou a uma queda no faturamento. “É muito complicada a situação do mercado livreiro e, no próximo ano, as coisas vão piorar, pois o ritmo de retomada vai ser muito lento e nao temos mais gordura para queimar”, acredita o editor. 

Ainda assim, foi possível lançar em 2020, a partir deste nomes, livros como Eu vou Piorar, de Fernanda Bastos, O Fim do Cânone (e nós com isso), de Luís Augusto Fischer e O Leitor Desobediente, de Ronald Augusto que, aliás, para o editor, representa a essência do trabalho realizado, de “reconhecer os ganhos da comunidade negra e reconhecer os ancestrais, que sofreram bem mais que nós em tempos bem mais difíceis e que deram o sangue para que pudéssemos passar”. 

O devir do enfrentamento

Uma característica marcante da editora é a sua política interna de cotas para brancos, que a levou a uma visibilidade de abrangência nacional na mídia. Azevedo conta que muitos achavam que a cota para brancos era uma provocação publicitária. “Não queríamos que a editora fizesse com sinal trocado a mesma coisa que as editoras brancas faziam, selecionando as pessoas do mesmo círculo e deixando a qualidade estética para segundo plano”, explica. 

Nos dois anos de trabalho, acontecimentos como a visibilidade do movimento Black Lives Matter contribuíram para que a proposta da Figura de Linguagem fosse compreendida. No Brasil, uma nova forma de luta foi percebida, um enfrentamento mais incisivo. Com isso, as pessoas começaram a enxergar a editora como mais uma forma de levantar e ecoar a luta contra o preconceito e o racismo.  

“Somos de uma geração cansada de fazer negociações imaginárias com o racismo, e o nosso conceito de negociação é sentar numa mesa com objetivos e sair com algum ganho. A comunidade negra tem sido tratada há algumas décadas como uma eterna depositária de paciência política. Nós cansamos, queremos fazer nossas pautas valerem. O Brasil tem que mudar em relação a isso e, nos últimos dois anos, o país deu uma guinada forte na questão do tratamento do racismo”, destaca o editor. 

A partir desta avalanche de ideias antirracistas e do crescimento do movimento negro,  várias editoras começaram a embarcar no tema, que está em evidência. Segundo Luiz Maurício, “várias dessas editoras que se dizem antirracistas eram abertamente anti-participação negra nas decisões. Não tinham editores negros nem autores negros em destaque. A Figura de Linguagem sempre teve a ideia de ser uma editora para fazer os enfrentamentos.”

Em meio a este contexto, a Figura de Linguagem se afirmou no cenário nacional. “Temos que ter uma editora que seja capaz de dar aos autores negros o status e a participação dentro do sistema literário que antigamente se acreditava que só editoras brancas poderiam fazer. Por isso, é importante que uma editora possa garantir que esse dinheiro vai ser gerado por pessoas negras para ser investido em pessoas negras para produzir cultura negra, que não vai ser usada como massa de manobra nem como cosplay publicitário para fazer limpeza da marca”, diz Azevedo. 

Próximos lançamentos:

quem quer ser o escritor judeu? | adam kirsch Coletânea de ensaios do autor americano que analisa o alcance da influência da cultura na produção de obras literárias. O livro traz ainda ponderações sobre a relação entre poesia e política, além de considerações sobre o futuro da reputação literária na era da internet. 

memória de mim | teresa cárdenas estreia da autora em poesia, escritora cubana, que já ganhou prêmio da Casa das américas, uma autora presente nos debates de literatura no brasil e carrega a marca da ancestralidade africana, traz o volume traduzido pela professora Lilia Ramos da UFRGS. Em uma edição bilíngue de poemas originais quanto as traduções. A obra apresenta a majestosa estética da autora.  

mugido | marilia floôr kosby um livro de poesia, que traz um posfácio da poeta Angélica Freitas, é a aposta da figura de linguagem para o final do ano. 

Jornalista engajada nas causas sociais e na política. Gosta de escrever sobre identidade cultural, representatividade e tudo aquilo que engloba diversidade.
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