Em fazendas da região do pampa, no Rio grande do Sul, mulheres são tão silenciadas quanto os animais de criação, e seus corpos, objetificados e explorados. Essa poderia ser a sinopse de um livro distópico de Margaret Atwood. Na verdade, é o tema de Mugido (editora Garupa, 2017), livro de poemas de Marília Floôr Kosby, que traz uma representação inédita do meio rural gaúcho machista e misógino, cultuado pelo tradicionalismo e pela mídia tradicional.

Em um mundo no qual a palavra “homem” ainda é utilizada como termo universal, o livro nos mostra que a experiência de humanidade das mulheres pode se aproximar mais das vacas do que dos homens, se levarmos em conta a indústria cultural e do agronegócio, em especial. A publicação é o terceiro livro de poemas de Marília Floôr Kosby (o primeiro foi em parceria com o artista visual Zé Darci, que entrevistamos em 2016). O livro surgiu a partir da vivência da autora no ambiente rural do pampa no Rio Grande do sul, no período em que ela foi doula nas fazendas, acompanhando o pai veterinário – uma vivência, como conta a autora, de mulher branca, da família dos patrões.

Mugido é um livro difícil de se escrever sobre. É, antes de tudo, um livro para se sentir. Sentir asco, pena, resignação, revolta, sentir até mesmo as entranhas em um movimento inesperado à medida que o cérebro processa os versos e as violências a que são submetidas mulheres e fêmeas do campo. Marília escreve sem pudor uma obra de imersão que nos põe, mulheres, em raro contato com outras mamíferas do gênero feminino, de forma que estranhamento e identificação se misturam a sentimentos quase que biliares.

Diz a escritora no posfácio, em entrevista a Angélica Feitas, se referindo às mulheres cisgêneros: “A mulher do campo, que convive tão próxima a esses animais de criação – que são aqueles que a gente também come – que os vê morrer, copular, parir, tem uma experiência transespecífica com os corpos de outras mamíferas, que é visceral. São fêmeas todas, a mulher reconhece seu útero , suas tetas, sua vagina, sua libido, seu fenecer, pelas vacas, as porcas, as cabras (…) Que modelo, que espelho tem a mulher urbana? Como será existir dentro de um espectro de humanidade que se impõe como condição única de relação, criando pets obesos, hipertensos, depressivos? Será a mulher urbana mais docilizada? Mas por que  elas ainda são assassinadas? O que está implícito no fato de olhar uma carne no supermercado e não saber de que corpo ela veio, de que vida? O que tem para nos dizer uma mãe nega da periferia de qualquer cidade brasileira sobre crescer com os pés no sangue?”

Ainda que a condição da mulher do campo apareça – pontual e superficialmente – em livros como O Continente, de Erico Verissimo, e Concerto Campestre, de Assis Brasil, o homem sempre foi protagonista na lista de clássicos históricos da literatura gaúcha. A bravura masculina é, em geral, uma virtude exaltada nessas obras que espelham o tradicionalismo inventado. Os casos de violência sexual, moral e física sofridas pelas mulheres são narrados como casos isolados, situações malfadadas ou ainda episódios menores, que não pesam no caráter dos Capitães Rodrigos, exaltados como domadores que são.

Muito antes, nos séculos XVIII e XIX, as mulheres escritoras já traziam como tema a violência que viviam, abordada de forma aprofundada por meio de diversos recortes. Como explicou Rita Schmidt, professora-titular do Instituto de Letras da Ufrgs, em entrevista ao Veredas, [em relação à época], “são os textos mais sombrios, que deixam à mostra, por exemplo, a miserabilidade da escravidão. Deixam evidente o que acontecia nas casas dos senhores: casos de incesto, a violência sexual contra escravas, que eram forçadas a abortar (…) Nossas escritoras brasileiras colocaram dedos nas feridas que nenhum dos nossos escritores homens colocou”.

Mugido, ao mesmo tempo em que se aproxima dessas obras que foram invisibilizadas, também inova ao inserir a violência provocada pelo agronegócio aos corpos dos animais subjugados pela cultura patriarcal capitalista, algo ainda raro de ser problematizado na literatura. “Uma mulher escrevendo de dentro desse mesmo universo, com a sua cabeça de vaca louca, seu corpo confinado de vaca louca, a menos que se mutile, não dirá palavras com a mesma língua que um homem, por mais inovador que este se julgue ser”, diz Marília.

Cabe destacar também a hostilidade que o sistema capitalista causa na região e a consequente exploração de outros corpos considerados inferiores. Ainda que não seja o tema principal, o livro também lembra do passado escravocrata do Rio Grande do Sul, que continua ainda hoje com o desrespeito às comunidades quilombolas e aos trabalhadores das indústrias de minério.

Essa experiência ética e estética que nos proporciona tem como cenário um estado onde as expressões culturais – em especial as músicas – produzidas no campo comparam as mulheres a cavalos para considerar ambos os corpos como propriedade de direito dos homens. E é nesse sentido que a subversão trazida pelo livro nos liberta do absurdo da misoginia. Somos mamíferas confinadas por barreiras físicas ou culturais impostas pelos homens. Mas podemos ser todas vacas loucas.

O livro está à venda na livraria Baleia, na Aldeia (rua Santana, 252, Porto Alegre).

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