Como as cineastas do Cariri colocam a defesa do meio ambiente no centro do roteiro

No Chapada do Araripe, as mulheres têm apontado as câmeras para o chão como forma de defender o território que está em risco
Imagem promocional do curta-metragem Faísca. Foto: Divulgação.

Chapada do Araripe (CE) – As onças sumiram e o concreto rasgou o chão. É assim que uma parte significativa do cinema feito por mulheres no Cariri cearense vem sendo pautada. A destruição do território e seus impactos nas comunidades que residem em uma das regiões mais ricas em biodiversidade no mundo deixaram de ser personagens secundários e tomaram o centro dos roteiros, tanto de ficção quanto dos documentários.

É dentro do território que abriga parte da Chapada do Araripe – planalto sedimentar que engloba os estados do Ceará, Pernambuco e Piauí –, que as câmeras têm apontado para o chão, a partir do propósito de defender o que está em risco. Os números ajudam a explicar o tamanho do problema: De acordo com dados do Map Biomas, somente em 2024 a Área de Proteção Ambiental (APA) da Chapada do Araripe foi a 3ª mais desmatada do país, ameaçada pela expansão das monoculturas e pelo avanço do agronegócio — dois fatores que acarretam diversas perdas socioambientais. 

Duas das realizadoras que utilizam as lentes do cinema como ferramenta de escuta, memória e denúncia desses e outros impactos na conhecida Caixa d’Água do Sertão são Bárbara Matias Kariri e Nívia Uchôa. Nos últimos anos, em diferentes gêneros cinematográficos, elas transformaram em filmes o que viveram e vivem junto às comunidades. 

Faísca, mas não de fogo 

Foi no processo de escuta da própria comunidade que nasceu Faísca, lançado em 2025 pela roteirista e diretora Bárbara Matias Kariri. O que era para ser uma obra sobre o cansaço e a rotina do trabalho, transformou-se completamente durante as férias em sua comunidade natal, a do Marreco, no distrito Quitaius, em Lavras da Mangabeira, uma das 29 cidades que compõem o Cariri. 

À época, o assunto passado de casa em casa era a aparição de uma onça na cidade, que havia sido observada por alguns moradores após um período sem que nenhum animal da espécie aparecesse. Tomada pela repercussão do acontecimento, a artista decidiu contar a história, mas em um tom ficcional, unindo o teatro – de onde ela vem –, a performance e ao cinema. 

Na narrativa do filme, o desaparecimento das onças do território, causado pelas queimadas, deixa a comunidade devastada. Mulheres de diferentes gerações enfrentam esse conflito, que exige a descoberta de segredos ancestrais para trazer as onças de volta antes que todos os outros desapareçam. 

Para construir o roteiro, Bárbara mergulhou na escuta das mulheres mais experientes da comunidade. Foi delas que veio uma informação importante que deu força ao roteiro: o sumiço das onças adoece o corpo. A cineasta ouviu das pessoas com mais idade que antigamente os moradores não tinham problemas de saúde na mesma intensidade que hoje. Segundo elas, os sintomas se intensificaram quando as onças, consideradas seres ancestrais, foram sumindo por diversas razões, dentre elas o desmatamento. 

A partir da pesquisa de campo, desenhou-se a estética do filme. No curta, há uma cena onde uma das quatro mulheres dança coco com uma máscara de onça, pisando em um chão batido de terra. A encenação não é um mero adorno teatral, e sim uma forma de recontar essa história a partir das práticas culturais e da sabedoria das mulheres indígenas Kariri.

Faísca já foi exibido em diversos festivais estaduais, nacionais e internacionais. (Foto: Divulgação)

“Por isso que tem essa brincadeira com o nome faísca. Faísca não é o fogo que tacam na mata, mas essa coragem, essa fagulha acesa nos olhos das pessoas, no coração das pessoas que fazem elas se moverem. Daí que vem a presença das onças nos territórios, elas produzem isso nas pessoas. Parece filosófico, mas tem a ver com o sistema de vida, é muito mais real”, explicou Matias.

Construído ao lado de sua família e junto a comunidade, o filme é uma espécie de reconhecimento de um legado de saberes populares. Ele percorre ensinamentos que se transmitem entre gerações, pauta a degradação que avança sobre o solo e fortalece o vínculo de pertencimento. “O filme traz esse sentido de um episódio que acontece na comunidade, mas também um sentido estético e do imaginário das pessoas. A arte como um todo tem o poder de produzir saúde imaginativa”, comenta. 

Essa participação direta das pessoas que habitam a região nas obras que contam suas próprias histórias não é um detalhe secundário no cinema feito no Cariri. Pelo contrário, é uma de suas marcas mais recorrentes. “Eu trabalho com ficção, então isso é uma coisa que me interessa, trabalhar com pessoas que são atores e não atores, ou que estão atores naquela ocasião, mas que na verdade são agricultores, são outras funções”, pontua. 

O cinema da urgência 

Os passos que guiaram Bárbara para o engajamento na pauta remontam a sua infância, quando aos seis anos de idade acompanhou o desmonte da comunidade do Marreco para a construção da barragem do Açude do Rosário, concluída no início dos anos 2000. 

Segundo a multiartista, o processo foi um trauma coletivo que marcou os moradores, devido à derrubada de casas e da vegetação nativa. Muitos se viram obrigados a romper laços e mudar a morada para conseguir viver. “Eu vivi um crime ambiental. As pessoas da minha comunidade viveram esse crime ambiental. Eu acho que a arte é uma forma de eu canalizar tantas dores, mas também poder denunciar, reelaborar, recontar essas coisas”, comenta. 

Uma das formas que encontrou para reescrever a violência territorial vivida por seu povo foi desenvolver a primeira versão do projeto de longa-metragem Dentro do Rio. No desenvolvimento inicial do roteiro, a sinopse era: em uma comunidade nativa, os moradores são expulsos de suas casas por conta da feitura de um açude. Um sinal da natureza é alerta para as famílias que protestam contra a chegada das máquinas e derrubada das casas e árvores. Um ser encantado retorna para alertar ao povo sobre a ancestralidade indígena do Povo Kariri do Ceará. E, em meio ao caos, as pessoas têm sua natureza ancestral despertada. 

Bárbara durante durante atividade da Escola livre de Cinema e Audiovisual destinada ao povo Anacé e aos povos de luta de Caucaia .(Foto: Arquivo pessoal / Reprodução)

É justamente esse tipo de aproximação, onde a experiência vivida dentro do território alimenta a criação artística, que a produtora cultural Monica Batista destaca como um dos pontos altos do cinema feito por mulheres no Cariri. “Esse cinema nasce muitas vezes da urgência, da vivência cotidiana e do compromisso com as comunidades. Ele denuncia, mas também cuida, preserva e propõe outros caminhos. É um cinema que não está distante da realidade, ele está dentro dela”, aponta. 

Registro da ferida aberta

Enquanto os impactos ambientais também são trabalhados na ficção, Nívia Uchôa aposta em outros gêneros cinematográficos para registrar a ferida aberta. No curta-metragem documental Indígenas Kariri (2025) , a obra acompanha a comunidade de Poço Dantas, situada no distrito de Monte Alverne, no Crato, outro município que integra a região.

O filme revela como a construção do Cinturão das Águas do Ceará (CAC), que faz parte do Projeto de Transposição do Rio São Francisco, impactou a vida do povo Kariri. Pensado, produzido e finalizado em dois anos, a peça audiovisual buscou os próprios moradores, que compartilharam suas memórias, seus saberes ancestrais e sua visão crítica sobre os efeitos do CAC em seu cotidiano, na organização comunitária e na continuidade de seus modos de vida. 

A demanda para narrar o acontecimento surgiu de dentro do próprio círculo de moradores. Realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo, a obra teve co-roteirização de Suelen Kariri e Vanda Cariri. Segundo Nívia, o filme foi construído em diversas partes, envolvendo em maior tempo a pesquisa em campo, a escuta da comunidade e a elaboração do mapa social. 

“Era necessário fazer com que outras pessoas vissem o que estava acontecendo aqui e pela perspectiva de quem está sofrendo as consequências. Embora eu também fale de quem está causando tudo isso, porque a obra do Cinturão das Águas do Ceará  está cortando o tempo, massacrando essa memória”, pontua Uchôa. 

Para ela, questões coletivas devem ser tratadas com urgência. Não há tempo para o silêncio. E, apesar dos debates acerca da preservação ambiental terem se intensificado nos últimos anos, sua primeira produção ao abordar o tema socioambiental nasceu em 2010, com a escrita do livro Água pra que te quero, que posteriormente tornou-se, também, um curta-metragem. 

Realizado em parceria com os integrantes da aldeia, em Crato, o curta de Uchôa é também um testemunho de resistência cultural e territorial (Foto: Divulgação)

Nele, ela percorreu as principais bacias hidrográficas do Ceará. Visitou lugares onde famílias sobrevivem da comercialização da água. Viu mulheres carregando água de barreiros, nascentes e açudes sendo usados para lavar roupas, para beber, para cozinhar. Crianças e idosos transportando água em carroças, em lombos de jumentos e em latas d’água equilibradas na cabeça. Além da relação com as águas, também documentou os problemas. 

“Em áreas urbanas, vi as dolorosas incompreensões e atitudes quanto aos rios que passam por dentro de cidades e que, lamentavelmente, servem como esgoto, deixando assim os seres vivos aprisionados pela sujeira e fedentina no lugar”, diz em trecho do diário de campo do livro. 

No Cariri, muitas pautas unem os diferentes tipos, estilos, escritas e formas de fazer cinema. Mas uma delas é a própria dificuldade em tirar os projetos do papel. O roteiro pode estar pronto. A escuta com a população feita e a vontade em contar mais uma história com a chama acesa. Mas sem recurso, ou com pouco dele, o filme não acontece. 

Histórias podem ser escritas no papel ou permanecer apenas como ideias na mente, mas para se tornar cinema precisam ser filmadas, tratadas e distribuídas. É o que defendem e desejam todas as profissionais ouvidas. Não basta somente o corpo, nem a voz. “Enquanto mulher atuante no audiovisual, percebo que ainda enfrentamos muitos desafios, principalmente relacionados ao acesso a recursos, editais e estruturas de produção”, desabafa a produtora Mônica. 

O sentimento é compartilhado pelas outras artistas. Entre as principais dificuldades apresentadas, elas apontam a disparidade de vagas em editais públicos entre a capital e o interior, a burocratização dos processos e um orçamento que mal cobre os custos de produção, pós-produção e distribuição. 

“Tem uma luta gigante que precisa ser cada vez mais endossada, relacionada à procura de políticas públicas e do fazer valer as leis de incentivo ao audiovisual. Que a gente possa cada vez mais equalizar, de alguma forma, as vagas entre interior e capital”, reflete Bárbara. 

Não é incomum que as obras sejam desenvolvidas com recursos que variam de R$ 40 mil a R$ 100 mil. Esse foi o valor, por exemplo, utilizado nas produções de Nívia. “Isso precisa dar conta de uma série de pagamentos, como de equipe, acessibilidade, elenco, transporte, alimentação, hospedagem, enfim”, desabafa.

Cenário

A pedido do Nonada, a Secretaria de Cultura do Ceará (Secult) forneceu um panorama sobre os editais voltados ao audiovisual nos últimos cinco anos. Ao todo, foram nove editais que contemplaram as áreas de produção, difusão, pesquisa e formação. 

Segundo a pasta, em todos eles é garantido que, no mínimo, 50% dos recursos sejam destinados aos municípios que não sejam a capital do Estado, desde que haja projetos suficientes acima da nota mínima. Na prática, a concentração das oportunidades em Fortaleza ainda é expressiva. 

No período de recorte, 50 projetos foram selecionados no Cariri. Destes, 33 foram realizados por pessoas físicas. E, dentro dos proponentes pessoas físicas, apenas 12 foram mulheres. Conforme a Secult, os números apresentados dizem respeito aos agentes culturais que realizaram as inscrições dos projetos selecionados na plataforma Mapa Cultural. 

Apesar das dificuldades, os dados não contam a história inteira. Paralelo aos entraves, cresce um movimento de organização com a formação de cineclubes, mostras regionais, coletivos e redes de articulação entre cineastas na região. Boa parte delas, encabeçadas por mulheres, em busca de ocupar os espaços e fazer o cinema acontecer independente dos problemas apresentados. 

“O Cariri tem uma força criativa enorme, e as mulheres têm sido protagonistas nesse processo, trazendo novas perspectivas, novas estéticas e, principalmente, novas formas de contar nossas próprias histórias”, avalia Mônica. 

Defensora de que as melhores histórias do mundo estão no Cariri, Bárbara Matias aponta que a melhor forma de fortalecer a cena é continuar fazendo. “Tem que fazer e,junto a isso, entender o contexto. Acho super importante entender os contexto político e social e, realmente, acordar para isso. A região do Cariri cearense é fértil de histórias e de grandes narrativas.” 

No mesmo caminho, Nívia Uchôa aposta na coletividade para pautar questões emergentes. “Nessa crescente tem muitas mulheres geniais, que se juntam para fazer trabalhos coletivos, até mesmo sem grana, ou com pouca, mas que estão ali na força para poder vencer”, diz. Entre onças que podem ter sumido e águas documentadas, a pergunta que fica é: quantas histórias ainda podem ser contadas antes que o território do Cariri perca o que o faz ser tão rico? A resposta pode estar com elas, com as câmeras apontadas para o chão.

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