Rio Branco (AC) — Depois de um dia intenso de trabalho no seringal, um seringueiro chega em um bar em Assis Brasil, limite entre Acre com ‘os peruanos’, na cidade de Inãpari. Aquele homem, que veio do nordeste, chegou na Amazônia atrás do “ouro branco”, a borracha. Com saudades de casa e desiludido com tanta exploração, ele vai atrás de ouvir uma música que lembre de casa. “Mulher Rendeira”, era sua favorita. Até que, cerca de 200 metros de onde está, ele ouve alguns acordes familiares. Era “Mulher Rendeira”, a mesma melodia, mas cantada em espanhol peruano.
O seringueiro chega no bar e ouve o som, que dizem ter sido composta pelo próprio Lampião, o cangaceiro mais famoso do Brasil. Dizem que foi dedicada a Maria Bonita. Na tríplice fronteira acreana, que junta Brasil, Bolívia e Peru, Juaneco López misturou com seu som tradicional local, como a cumbia amazônica. Ritmo sincopado que vem dos povos originários, que serve como uma base melódica. Sobre essa base, foram se inserindo outros gêneros: a cumbia original da Colômbia, o chachachá e o rock, que traz sua influência a partir do uso da guitarra elétrica.
Enquanto do lado de cá, os seringueiros, sob lideranças como Valdiza Alencar, Wilson Pinheiro e Chico Mendes se levantavam contra os proprietários de terras que queriam desmatar a Floresta, no Peru, a história também é sangrenta. Um dos maiores genocídios documentados aconteceu no território peruano, na época da borracha. Os barões da borracha, donos de extensos territórios ou se apoderavam deles, e escravizavam povos originários entres as árvores de seringa. Indígenas e outros países também eram sequestrados e levados para lá. Por lá também chegaram brasileiros e, dessa proximidade cultural que existiu nesse encontro, também chegou essa sonoridade.
Tríplice fronteira sonora
“Os ritmos caribenhos também entraram nessa mistura. Tudo isso é uma confluência feliz que faz com que se crie, justamente, a cumbia amazônica”, explica o produtor cultural peruano Carlos Marin, que é cineasta, nascido na Amazônia Peruana. Vindo da cena alternativa, ele está produzindo um longa-metragem que retrata a história dos criadores da cumbia psicodélica, gênero criado em Pucallpa, acompanhando grupos como Juaneco y su Combo. “A música deles soava em algumas festas como, por exemplo, na festa de San Juan, em 24 de junho. O tema da festa de San Juan aqui é Juaneco y su Combo. Também na semana jubilar de Pucallpa, que é a data em que se recorda a criação da cidade,Juaneco volta a tocar. No entanto, o grupo nunca era levado em consideração”, diz Marin.

Não existe muita documentação sobre toda a história do coletivo, mas nos últimos anos, eles se mantêm presentes em festivais e bares, como no Festival Varadouro, um festival de música independente do Acre. “Sinto que essa cumbia psicodélica está presente neste pedaço da fronteira. Há uma relação próxima entre o Juruá, a região de Cruzeiro do Sul e Pucallpa, porque muita gente fez esse movimento de ir e vir antigamente, quando havia menos pressão de tráfico”, defende Karla Martins, produtora do evento.
Para ela, os acreanos se identificam com o repertório, como as produções de Juaneco, porque tem esse som fronteiriço, “que mexe com a gente e faz requebrar”. Karla continua falando que essa identidade sempre aconteceu na região amazônica como um todo. “Do contrário, a lambada não seria um sucesso, nem a guitarrada [ritmo presente, principalmente, em Belém do Pará], que também chega para nós”.
No lado boliviano e peruano, a cumbia amazônica (ou chicha) mistura a psicodelia das guitarras elétricas dos anos 70 com cadências tropicais e influências andinas. Na Bolívia, a cumbia contemporânea, ou “cumbia boliviana”, caracteriza-se pelo uso de sintetizadores e por ser acelerado, dominando as festas populares e as mixagens de DJs em Cobija, cidade boliviana que também faz fronteira com o Acre. Ritmos brasileiros, como o forró e o samba, também acabam entrando no caldeirão de ritmos.
Carlos Oliveira, mais conhecido como Carlão, é um sambista na faixa de fronteira do Acre com a Bolívia, no município de Epitaciolândia. Com quase 20 anos de carreira, desde pequeno é compositor. Atualmente, ele é gestor na escola em que trabalha. Mas, nas noites de Cobija, ele canta samba e pagode em bares, aniversários (durante a entrevista, ele parou para marcar sua presença em um, inclusive) e outros eventos.
“O meu gênero preferido é o samba […] Onde a gente toca, os amigos da Bolívia vêm, já conhecem o nosso trabalho, tanto que a gente vai até lá e faz o nosso pagode também”, explica. Pensando nesta adesão do público boliviano, Carlão conduz algumas melodias em espanhol para o pagode e o samba e sua banda canta sucessos brasileiros na língua espanhola.

Bases para a melodia do presente
As sonoridades desta zona trinacional estão enraizadas em cosmologias milenares. Som e imagem estão interligados para povos como os Shipibo, que desenham cantos, literalmente, por meio de seus kenês, ensinados pela Anaconda, em um de seus contos. Os rituais de cura de povos como Pano, Nukini e Huni Kuin, também reverberam esta expressão artística em sua concepção.
Projetos contemporâneos de artivismo, como o podcast “Vozes da Floresta”, organizado pela Rede de Comunicadores Indígenas do Acre, fortalecem essas narrativas frente à pressão da criminalidade e do apagamento social-histórico. E o conjunto musical Shane Yamã Keneya do povo Shanenawa e os Manchineru também reinventam a cena com a ancestralidade de sua cultura.
Outra característica desta sonoridade fronteiriça é que ela é poliglota. O “portunhol” une faixas de reggaeton com samba e com outros gêneros amazônicos que ganham espaço em lugares de festa por toda a região. “Essas fluências do ir e vir, esses ritmos populares, eles se concentram e se encontram na medida que as pessoas fazem as cruzes de fronteira. Eu diria que esse intercâmbio sempre aconteceu, sempre esteve próximo e que faz todo sentido entre essas cidades fronteiriças”, diz Karla Martins.
Esta circulação é marcadamente informal por meio da venda de CDs e pendrives em comércios populares em Cobija e Inãpari, divulgando os DJs que ainda não chegaram nas plataformas digitais, pelas rádios locais e, claro, pelo Youtube e também por grupos de WhatsApp, que funcionam como repositórios de mixes.
Se na “Belle Époque”, a ocupação pela extração da borracha, na segunda metade do século 19, gerou um processo de urbanização, depois do Tratado de Petrópolis, em 1903, o Acre viveu marcos diplomáticos, como a fundação da cidade de Assis Brasil, em 1976, que antes era o seringal Paraguaçu. Nesse período, as cidades de fronteira viraram “cidades gêmeas”, por conta da linha divisória pequena. Era Assis Brasil-Inãpari, era Epitaciolândia-Brasiléia-Cobija.
“Assim, chegamos mais ou menos aos anos 2000, 2005, quando se pode encontrar em mercadinhos da América Latina e até da Europa algumas coletâneas em fita cassete de música peruana dos anos 70. Nelas, há grupos de rock emblemáticos como Los Saicos e Los Belkings. Também se encontram Los Destellos, considerados os fundadores da cumbia peruana, que surgiu quase ao mesmo tempo que a cumbia amazônica”, esclarece Marin.
O programa de rádio “Correspondente Difusora”, da Rádio Difusora, permitia que moradores de seringais distantes e comunidades de difícil acesso recebessem notícias de familiares e ouvissem dedicatórias. Nessas coletâneas radiofônicas também havia o Grupo Celeste, embrião de uma cumbia mais limenha, ligada à Lima, capital do Peru, que depois se consolidou com Los Shapis.
Nos anos 80, com o advento da violência urbana, muitos artistas peruanos de cumbia viajaram para a Argentina e estabeleceram os pilares da bailanta argentina. No caso do Brasil, Juaneco também seguiu pelos rios e chegou a zonas bastante afastadas. “Eu diria que a música brasileira chegou primeiro ao lado peruano e, depois, o resultado desse encontro retornou pelos rios para estados como o Pará, onde se pode escutar músicas com influências da cumbia peruana”, explica.
Contudo, poucos restam hoje em dia, por conta da morte, idade avançada e doenças. Um exemplo são os Los Wembler’s de Iquitos, que misturaram sons tradicionais da selva peruana com batidas tropicais brasileiras. Depois da construção da Ponte de Integração, em 2010, uma nova camada de interculturalidade se iniciou, motivada, principalmente, pelo boom da internet no território, tendo como exemplos mais atual, a banda L4.
Carlão conta que, mesmo em 2026, o samba raiz ainda é o que levanta seu público na Bolívia, como os clássicos dos anos 90, como Raça Negra, Só pra Contrariar, Negritude Júnior. Mas nomes atuais, como o cantor Ferrugem também fazem sucesso. Um dos motores para esta mistura são as universidades de medicina, que possuem muitos estudantes brasileiros. “Quando você canta um repertório de pagode dos anos 90 agrada bem mais, assim como o pagode atual […] A gente tem que unir uns três gêneros para tentar agradar a todos. Além disso, também pegamos aquele sertanejo mais tocado e transformamos em pagode, e aí a galera vai junto com a gente também.”
Harmonias interrompidas pelo preconceito

Programas de incentivo à cultura estão presentes nos três países. Contudo, o acesso continua limitado, por questões financeiras, como aponta Karla. Para a entrevistada, o desafio é arcar com despesas como passagens aéreas que dificultam a chegada desses artistas em regiões mais afastadas do país. Além disso, ela avalia que o Brasil precisa entender sua real intensidade. “Às vezes, a gente acaba se embatendo na ideia de que o agro ganhou força por ser uma narrativa estética e política, enquanto essas outras narrativas parecem se perder por não estarem na grande mídia. Mas eu acho que, na hora em que o Brasil olhar para essa foto real, ele vai se entender, porque a cultura conversa entre si independentemente de qualquer língua.”
Quando a cumbia surgiu nos anos 70, havia muita marginalização, sobretudo das produções musicais que eram criadas para fazer o povo dançar. Carlos Marin relembra que termos como “serrano, provinciano, colonheiro” eram empregados de forma pejorativa para quem escutava. “Agora, o fato é que você pode ouvir cumbia em uma festa de brancos, entre aspas, em festas de classes sociais altas; já é algo aceito. Antes se duvidava da qualidade, mas agora não. Hoje existem estudos e, além disso, tem o fato de essa música ter viajado sozinha para o exterior”, explica o cineasta.
Este processo se deu, justamente, pela aglutinação de todo este histórico cultural em festas de pessoas mais ricas. Mas o entrevistado afirma que esta conversa se encontra em melodias mais calmas. “Pertence a todos. Agora mesmo, se você for ao centro de uma cidade como Pucallpa, a música é mais roqueira, mais hegemônica; você vai ouvir mais gente escutando reggaeton e tudo mais. Mas, se você for um pouquinho além, nas periferias, o pessoal continua escutando sua cumbia dos anos 70, dançando e aproveitando.”
Uma só voz (amazônida)
No Brasil, festivais com o Varadouro e o Jovens do Futuro estão dispostos a abraçar essa característica fronteiriça em seus artistas convidados. “Aqui a gente vai nos baques acreanos, a guitarrada e o carimbó, nos ritmos que têm ali na Venezuela e os caribenhos das Guianas”, evidencia Karla Martins.
Para o Marins, você escuta o carimbó, por exemplo, e a primeira coisa que te dá vontade de dançar. Escuta a cumbia e a primeira coisa que quer é dançar. Mas é preciso que existam “varadouros” (nome do festival, mas também nome dos caminhos que os seringueiros usavam para coletar seringa) tanto no Brasil quanto no Peru, que possibilita a chegada de expressões, como as toadas de Parintins. O produtor até cita que já existem alguns concursos de toada em terras peruanas, embora poucos.
Felipe Cordeiro, artista paraense e atração do Festival Varadouro de 2025, também mistura estes sons em sua “cozinha musical”, como diz Carlos Marin. A organizadora do Varadouro, porém, tem uma análise mais profunda sobre o papel do nosso país nessa discussão. “Falta o Brasil olhar para si de forma menos colonizada, com menos complexo de vira-lata; olhar para si mesmo em vez de estar olhando para o que está longe, para o que está fora. Se enxergar. Eu acho que isso é o mais importante e é o que faz a Tríplice Fronteira se entender.”