As Vozes do Sótão é o terceiro livro do escritor Paulo Rodrigues. (Crédito: Cosac Naify)

Por Edgar Aristimunho*

A capacidade de uma obra literária em garantir ao leitor o prazer do texto é algo tão raro como subjetivo. Muitos são os caminhos que podem levar a um livro: um título, a carreira de um autor, alguma referência, uma resenha. Quando nos deparamos com uma obra desconhecida de um autor, e ele próprio um tanto quanto pouco conhecido, a dúvida nos abate: valerá a pena tal leitura? Optar pela leitura de um livro como As vozes do sótão (Cosac Naify, 2009, 144 pg.) do escritor paulistano Paulo Rodrigues é como ouvir as vozes de um lugar distante, que nos vem lá do alto, de cima: a polifonia e multiplicidade cultural da boa literatura.

A motivação do leitor para encarar essa obra única dentro da literatura brasileira talvez não esteja naquilo que acontece ao longo do livro. As vozes do sótão não é exatamente uma obra de grandes feitos ou de narrativas longas, histórias paralelas, personagens recheados de nuances. Não. Definitivamente esta é uma pequena obra intimista sobre a memória. Esse é um livro sobre as vozes que por vezes escutamos e que nos guiam, seja para as grandes ações, seja para o vazio sem sentido e sem razão que se nos apresenta a vida. O relato se divide em duas partes. Na primeira, chamada “Estrume”, conta a história de Damiano/Guido, sujeito que vive atormentado por suas memórias, pressionado pela família e que um certo dia decide morar no sótão. De lá ele houve vozes. Conversa com elas. Faz confissões. É a quem ele pede apoio (e por vezes se sente abandonado). De lá também é que sua memória vai aos poucos se confundindo com os seus atos e gestos, levando-o a ações impensadas e de grandes ressentimentos. Damiano é um incompreendido no mundo em que criou ao seu redor. Por isso ele foge. A segunda parte, intitulada “Calle Mercedes”, conta essa fuga sem aparente explicação para Montevidéu, onde, já usando um outro nome (Guido) e morando em uma pensão recheada das mesmas situações vividas, ele conhece pessoas que irão compor, aos seus olhos e percepção, os mesmos impasses vividos no seio de sua família – a mesma que lhe chamava de Estrume. Tanto aqui como lá, Damiano, ou nessa parte do relato, Guido, foge de si mesmo, cabendo ao leitor, pouco a pouco, desprender do texto o complexo painel lírico e fabuloso sobre as relações humanas a partir da imaginação desse sujeito.

Paulo Rodrigues protagoniza um caso exemplar: estreou como escritor em 2001, aos 53 anos, ao lançar a novela À Margem da Linha (Crédito: Arquivo)

Escritor de poucos e premiados livros, Paulo Rodrigues recebeu o prêmio de autor revelação 2001 da Associação Paulista de Críticos de Arte pela novela À margem da linha. Elogiado por escritores como o mítico Raduan Nassar e resenhado por cineasta de peso e da competência de um Luiz Fernando Carvalho, é nítida a confluência de sua literatura a esse tipo de escrita forte e densa. Também não é por acaso que Paulo Rodrigues tem na forma de sua escrita a força visceral de um relato ao estilo de Um copo de cólera e Lavoura arcaica, em que o mundo ideal pensado foge do indivíduo que se atormenta com seus atos. A propósito, o mundo primitivo em que seus personagens transitam muito bem poderia evocar a epopeia de uma salvação, mas este jamais é alcançada. Não há redenção. As vozes falam, e nem sempre escutamos.

Em As vozes do sótão, o leitor tem diante de si um mundo em ebulição dentro da cabeça em compasso de transformação; temos um quebra-cabeça multicolorido e disfuncional; uma veia pulsante que troca de ambientação e muda o nome do personagem, mas que ao fim e ao cabo do relato continua ecoando dentro do leitor, como a dizer: era isso mesmo? A literatura de Paulo Rodrigues não é algo que esse leitor possa molhar os dedos e fechar o livro após a última linha. Esta é uma leitura que vai ficar reverberando dentro do imaginário de quem se dispor a encarar essa pequena fera da literatura brasileira.

A obra pode ser encontrada no site da Editora Cosac Naify.

* É escritor e revisor, com pós-graduação lato senso em Letras pela UniRitter. Tem publicado pela Editora Dom Quixote o livro de contos “O homem perplexo” (2008) e participou da antologia “Ponto de Partilha”. Escreve no blog O Íncubo (http://oincubo.blogspot.com).

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