É difícil não associar o nome do pintor colombiano Fernando Botero às figuras marcadamente gordas e coloridas que povoam os seus quadros, tais como a simpática e rechonchuda Monalisa em releitura. Mas as cores e o volume não remetem a sua produção só à vivacidade da cultura latino-americana – a sua obra relacionada à crítica social e política é chocante, forte, e dilacera o olhar. Os porto-alegrenses terão a oportunidade de conhecer esta faceta temática do artista através da exposição “Dores da Colômbia”, que abre no CEEE Erico Verissimo neste final de semana (dia 20, sábado, a partir das 11h), comemorando também o décimo aniversário do espaço cultural. E é com a obra política de Botero como tema que o Nonada lança o Recortes | Arte.

"Masacre en Colombia" faz parte da série "Dores da Colômbia (Crédito: Fernando Botero, divulgação)

“Nunca acreditei no colonialismo cultural que desgraçadamente existe na América Latina, com pintores que seguem o que se faz em Londres, Paris e Nova Iorque”, afirmou certa vez Botero em entrevista. Acreditando, por outro lado, que a arte tem raízes, ele desenvolveu um estilo único, tendo como marca registrada a forma de lidar com os volumes no quadro, exagerando-os. A universalidade da arte, para ele, reside justamente na peça que se mostra proveniente de um lugar sendo ao mesmo tempo capaz de comover todo o mundo. E se a sua plasticidade segue uma linha clara, a liberdade da temática permite-o abordar a violência e o sofrimento de um país entre outros diversos assuntos. Pode-se dizer que há aí um diálogo com Picasso e sua Guernica, ou ainda com a obra política de Goya, como consta na divulgação da mostra.

"Alarido" retrata tortura (Crédito: Fernando Botero, divulgação)

Sabe-se que conflito interno colombiano é um dos mais violentos e antigos da América Latina, tendo gerado inúmeros deslocados e desaparecidos políticos. Apesar de já não viver na Colômbia há aproximadamente quatro décadas, Botero mantém uma forte ligação com o seu lugar de origem. Os abusos sofridos pelo povo colombiano, consequência principalmente da ação de políticos, paramilitares e do narcotráfico, aparecem em seus quadros tirando a usual sensualidade das suas figuras, ainda quando nuas. A violência traduz-se em torturados, apunhalados, baleados, caixões e outras representações de morte, sempre através das cores fortes e vívidas, mesmo em se tratando dos dramas do conflito social. Ele mesmo afirmou, conforme consta no catálogo da exposição: “Sou contra a arte como arma de combate, mas em vista do drama que sofre a Colômbia senti a obrigação de deixar um registro sobre um momento irracional de nossa história”.

"Sin titulo" faz parte da série sobre o sofrimento do povo colombiano (Crédito: Fernando Botero, divulgação)

Se o assunto é a obra política de Botero, vale lembrar ainda a emblemática série que explora o horror da tortura norte-americana na prisão iraquiana de Abu Ghraib – outra linha de trabalho que dialoga com os quadros que serão expostos em Porto Alegre, ainda que não as possamos ver dessa vez. Trata-se de um retrato das atrocidades vivenciadas pelos prisioneiros iraquianos, cometidas pelos inavasores gringos, mantendo o estilo visual volumétrico das formas. A crítica do jornal The New York Times chegou a afirmar na época de seu lançamento que as pinturas causam uma impressão ainda mais chocante que as fotos divulgadas pela internet sobre o caso: são mostrados corpos amarrados, pendurados pelos pés, vestidos com lingerie feminina, de vendas nos olhos ou capuzes na cabeça. Ainda assim, a dignidade das pessoas representadas parece ser recuperada pelas formas vivas e sensuais de Botero. A série foi doada à Universidade de Berkeley, afinal, a nenhum país interessa mais essas imagens do que aos Estados Unidos e ao Iraque, segundo o autor.

Pintura da série sobre Abu Ghraib (Crédito: Fernando Botero, divulgação)

A mostra “As dores da Colômbia” conta com seis aquarelas, 36 desenhos e 25 pinturas doadas pelo artista ao Museu Nacional da Colômbia. Segue em cartaz no CCCEV (Rua dos Andradas 1223, Porto Alegre – RS) até o dia 8 de março, e a visitação pode ser feita de terças a sextas-feiras, das 10h às 19h, e nos sábados, das 11h às 18h, com entrada franca. Por mais que o estômago embrulhado seja uma possível consequência da visita, deve valer a pena conhecer os sofrimentos de outro país latino-americano através das tintas de um pintor com o reconhecimento e força expressiva de Botero.

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Falando de exposições internacionais em Porto Alegre, impossível não citar a “De Chirico: o Sentimento da Arquitetura”, que segue em cartaz no Museu da Fundação Iberê Camargo até 4 de março. A seleção de obras mostra a produção do artista relacionada à ideia da pintura metafísica. Pensando a arte “para além das coisas físicas”, ele criou um jeito particular de trabalhar com significados, e não com as formas (como priorizaram determinadas vanguardas artísticas do século XX). A arquitetura à qual o título da exposição refere-se é a do interior do homem em relação à cidade – a dimensão psicológica e cultural dessa relação com a urbe é representada como construção social sensível. O museu fica aberto de terça a domingo das 12h às 19h, e na quinta-feira o horário de encerramento estende-se até às 21h.

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