O escritor Mario Peixoto ainda é pouco conhecido pelos escritores e o público, de modo geral (Crédito: Arquivo)
O escritor Mario Peixoto ainda é pouco conhecido pelos escritores e o público, de modo geral (Crédito: Arquivo)

Na coluna de hoje, uma homenagem a um escritor brasileiro fundamental em nossa literatura: o lendário Mário Peixoto, que também foi cineasta. Relativamente pouco conhecido – até entre os escritores –, Mário Peixoto é daqueles autores que não podem ser enquadrados em nenhum período da Literatura Brasileira, da mesma forma que não existem sucessores à altura de sua escrita. Seu caso é único, e o relevo de sua obra está no fato de ter escrito o monumento literário intitulado O inútil de cada um. A primeira versão, bem menor, foi lançada em 1934 e passou despercebida naquela época (apenas duas resenhas). Após 50 anos de trabalho incessante e compulsivo do escritor, Mário Peixoto ampliou a obra para mais de 2.000 páginas. É o primeiro volume dessa obra (dos seis que idealizou em vida) que veio a ser lançado no ano de 1984 pela editora Record; a versão original do romance, com 153 páginas, foi relançado em 1996 pela Sette Letras. Aquele primeiro volume da obra completa, curiosamente chamado de Itamar e com 382 páginas, é o texto em destaque de hoje; os outros volumes ainda aguardam lançamento pelo Arquivo Mário Peixoto, no Rio de Janeiro, onde está parte do acervo desse artista plural.

A primeira coisa que precisa ser dita é que O inútil de cada um não é um livro fácil de ser lido.  Como escreveu o crítico Emil de Castro no lançamento do primeiro volume (Itamar) em 1984, esta é uma obra sobre a visão trágica de um mundo decadente, “num romance que não tem princípio e que não terá fim, algo como uma sinfonia inacabada”. O plano da obra contempla cada um dos personagens que ao redor de Orlando, o principal protagonista da saga, têm seus movimentos pelo mundo descritos pelo autor, e não os fatos que se passam ao seu redor deles – por vezes banais, como um carro que estaciona no meio fio. E a partir da mentalização desses fatos – as impressões de olhar pela janela do carro inclinado e ver novas formas e tons –, isto a cada instante, isso a cada descrição de cada coisa que circula ou emerge ao redor dessas pessoas, os indivíduos cujas histórias são cheias de perguntas e cujas descobertas são descritas com o passar lento do tempo, no arrastar sincronizado e erudito da obra. Não há vento a pautar esse tempo, somente a areia da beira da praia como a dizer que tudo pode ser arrastado pela próxima onda, tal a transitoriedade das coisas. Por esse peculiar desenvolvimento, a escrita de Mário Peixoto não tem pressa, não faz julgamentos, é contemplativa. Com capítulos recheados de títulos poéticos, em níveis que são verdadeiras peças literárias independentes entre si, os capítulos têm nomes que são um trabalho de arte à parte: o primeiro, por exemplo, chamado “Nuanças” começa com as percepções do protagonista em um barraco e todos os elementos sensoriais que o circunda numa manhã de sol em que o criado vem lhe acordar a contragosto. São inúmeras páginas apenas para descrever isso; outras tantas para revelar “A cor brique” de seus mais existenciais pensamentos e sensações naquela manhã de revelações.

Capa do livro de Mario Peixoto (Crédito: Arquivo)
Capa do livro de Mario Peixoto (Crédito: Arquivo)

Esta é, aliás, a estratégia narrativa que preenche de forma lírica, poética e relativamente densa as quase 400 páginas do romance. Um romance que se renova a cada instante, porque a cada momento está nos lançando num espaço de imagens, em que cada capítulo vai sendo formado por imagens dos pensamentos dos protagonistas, criando no imaginário do leitor a fantástica viagem a que se destinam os que buscam entender o mundo. Como um cineasta que de fato ele era, Mário Peixoto vai criando imagens, avançando de forma lenta, descritiva, sensorial, intimista, isso tudo posto em longas frases cheias de inferências e autorreferências, de parágrafos intermináveis em capítulos enormes em extensão e profundos em capítulos que se entrechocam como ondas e que produzem ecos por horas e horas no leitor. Capítulos cujos títulos são verdadeiros poemas em construção, assim chamados: “Nuanças”, “Hibernação”, “O mar invisível”, “Difusas cavernas espanejadas nos abismos das algas” “Peneiração salitrada do mar”, “Íncubo”, “Na virada do dorso de uma onda quebrando”, “Imagens retardadas” e outros nomes que demonstram não só a ligação da narrativa com o meio ambiente (boa parte se passa numa ilha), mas a profusão poética de sentidos e de calamitosa profundidade. A tal ponto que o subtítulo de O inútil de cada um, chamado de forma exata e sensacional de “O ruído persegue”, é uma espécie de senha dessa intransponível obra-prima da Literatura Brasileira: a tentativa do homem de alcançar a felicidade e a constatação de que isso não termina. O ruído prossegue.

Mário Peixoto também foi cineasta, e diretor do emblemático Limite, de 1931
Mário Peixoto também foi cineasta, e diretor do emblemático Limite, de 1931

Do ponto de vista da época em que foi escrito, o O inútil de cada um possui estreitos vínculos com a literatura francesa do início do século XX, principalmente com a obra de Marcel Proust, em particular o catatau Em busca do tempo perdido, mas é também uma conversa bastante séria com outra obra profunda e sensorial do período, o revolucionário romance Orlando, de Virginia Woolf. Contudo, engana-se quem pensa que esse enciclopédico trabalho literário de Mário Peixoto veio sozinho ao mundo. Ainda que tenha escrito poucas coisas além de O inútil de cada um, Mário Peixoto é também diretor de um longa-metragem experimental bastante singular, extremamente representativo e cultuado por cineastas brasileiros ao longo de quase 90 anos, e isso por ter sido um dos primeiros filmes de arte produzido no Brasil – Limite, produção de 1931 é hoje um legado arqueológico do começo do cinema brasileiro. Que deveria ser considerado mesmo patrimônio histórico… Em literatura, Mário Peixoto é um escritor peculiar, pois sua obra além de volumosa é única e até hoje insuperável em seu estilo tenso e carregado de inferências (pensamentos dentro de pensamentos). Se caminhando ao seu lado temos outros monumentos literários em nossa literatura (Os Corumbas, de Amando Fonte, Vila dos Confins, de Mário Palmério, O tempo e o vento, de Érico Verissimo, Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa e o impressionante Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro), o certo é que a solidão das personagens desse romance – e tema também de Limite, o filme – é a matéria-prima bruta pela qual o autor nos mostra sua visão de mundo.

Tratando-se de uma verdadeira arquitetura literária de grande porte, ainda que pouco conhecida, mesmo assim O inútil de cada um deve ser respeitado como uma obra que ainda está por ser compreendida e devidamente reconhecida, tanto pela crítica como pelo grande público. Aos corajosos que se dispuserem a procurar este livro em sebos pelo país afora, e mais, ao que se propuserem à empreitada de ler tal esta caudalosa obra, a recompensa será bela, preciosa e exata: a humanidade contida nos personagens que circulam pelas tantas centenas de páginas. Ali onde a brevidade, também chamada vida, se encontra com o ser humano.

Boa leitura.

Um comentário sobre “O inútil de cada um”

  1. Eu lerei esse livro, assim como vi o filme e fiz uma resenha sobre. Terei a coragem e analisar a mente desse homem…

Deixe uma resposta

Page Reader Press Enter to Read Page Content Out Loud Press Enter to Pause or Restart Reading Page Content Out Loud Press Enter to Stop Reading Page Content Out Loud Screen Reader Support