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Texto Laura Pacheco

Se a segunda temporada já mostrava que Piper não era mais a protagonista da série, a terceira veio para demarcar que Orange Is the New Black é a história de todas as detentas de Litchfield, em toda a sua diversidade de personagens femininas fortes e marcantes. A temporada é dividida em treze capítulos, cada um focando na história de uma mulher. Com o balanço entre a comédia e o drama, a trama consegue manter a melhor característica do seriado: retratar histórias de mulheres que precisam se superar e se ajudar dentro de um ambiente hostil. Os personagens homens são muitas vezes fracassados, sendo um elo fraco em comparação com as personagens femininas, mesmo elas sendo prisioneiras.

O primeiro capítulo da temporada já é um dos destaques. Em “Mother’s day”, são mostrados flashbacks sobre o Dias das Mães de cada uma das mulheres, o que revela o peso da família em seus futuros e dá o tom para o restante da temporada. O episódio demonstra como a falta de estrutura familiar e a realidade social podem influenciar no futuro das presidiárias. No episódio, também acontece um excelente diálogo sobre aborto.

Já o assunto da transfobia é abordado com mais força através da personagem Sophia, interpretada pela atriz transexual Laverne Cox que, após uma briga com outras detentas, começa a sofrer ameaças e provocações por conta da sua transexualidade. É o primeiro momento em que a série retrata a violência física contra essa parcela da população, uma realidade muito presente na vida das transexuais. No final, as consequências da agressão acabam recaindo sobre a própria vítima, que é encaminhada para uma solitária, novamente ficando marginalizada e desemparada.

A relação entre as detentas rende alguns dos melhores momentos da temporada. Anteriormente, Big Boo e Pennsatucky não se toleravam, pois uma é religiosa fanática e outra é gay. A interação entre as duas mostra um caso de sororidade feminina já que, mesmo apresentando crenças tão diferentes, ela conseguem passar por cima disso e se ajudar, pensando primeiro nas questões das mulheres. As histórias pessoais das duas são também as mais fortes. No caso de Big Boo, é abordada a questão da dificuldade dos pais em aceitarem a homossexualidade da filha, que tentam constantemente mudar o seu jeito desde a infância. Já no episódio dedicado a Pennsatucky, se reflete sobre a repressão da sexualidade feminina e o estupro, temas que aparecem de forma reflexiva e ao mesmo tempo sensível.

Outro assunto que traz mudanças para Litchfield é a privatização da prisão. Com problemas financeiros e com risco de ser fechada, o diretor, Caputo, decide ir atrás de uma empresa privada para administrar o local.  A série traz diversas críticas a essa forma de administração, como a desvalorização dos policiais – sendo que novos são contratados sem nenhuma experiência – e a diminuição do salário dos antigos funcionários. A alimentação deixa de ser produzida pelas prisioneiras e passa a ser servida em refeições prontas, sempre em busca de uma diminuição dos custos e maior lucratividade para a empresa. Entretanto, o seriado mostra que de qualquer jeito, sendo uma gestão pública ou privada, o sistema carcerário sempre acaba excluindo, com a falta de investimento e as dificuldades das prisioneiras para reingressar na sociedade.

O último episódio da temporada não retrata uma personagem específica, com o foco em mostrar as relações entre as detentas. Esse episódio apresenta uma das cenas mais bonitas de todas as temporadas, em que as prisioneiras se juntam somente para se divertir e ter um momento de felicidade. Assim, deixam de lado as suas diferenças e a divisão de grupos entre latinas, brancas e negras – segregação que é estimulada pelo próprio sistema prisional, que as separa por raça e etnia.

Por vezes, a série é caricata em algumas situações, o que pode não agradar quem procura uma forma mais realista de retratar o sistema carcerário e os seus problemas. Em alguns momentos esquecemos que as moças estão encarceradas e até pensamos que poderia ser divertido estar em convívio com elas. A série por vezes peca em demonstrar as dificuldades da vida na prisão, indo para um lado mais humorístico. Entretanto, isso não desmerece todo o trabalho da produção que consegue retratar questões sobre feminismo, estupro, aborto, transfobia, homofobia e racismo, temas ainda pouco abordados em grandes produções americanas.

 

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