Ester Caetano

Foto: Pedro Isaías/divulgação

O Brasil vivia sob o regime da ditadura militar quando a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz iniciou seus trabalhos, mudando para sempre o teatro no Rio Grande do Sul (e em outros territórios) ao influenciar gerações de artistas. Na época, o grupo já procurava impactar a sociedade com uma atuação que fugia ao ideal de teatro clássico para um público de classe média. É na contracultura que a tribo pauta o debate, contestando o sistema e erguendo reflexões sobre temáticas sociais, como a injustiça, a desigualdade e o autoritarismo. Ao longo da trajetória, a tribo desenvolveu estética e linguagem próprias, priorizando o experimentalismo. 

Em todas as suas produções artísticas, desde A Felicidade não Esperneia Patati, Patatá (1978), passando por, entre outros títulos, A Saga de Canudos (2000), O Amargo Santo da Purificação (2008), Medeia Vozes (2013) e Meierhold (2018), o grupo preza por expressar a realidade e compor uma crítica social, a partir de elementos basilares como o compartilhamento, a formação e a memória, através do teatro de rua e popular, do teatro de vivência e da performance.

O grupo tem sua base de atuação no espaço Terreira da Tribo, que completa 37 anos de “existência e resistência” em 2021. Esta semana, a Tribo realiza uma série de encontros virtuais no Youtube para celebrar a Terreira, localizada no bairro São Geraldo, em Porto Alegre.  (Confira a programação no fim da matéria)

Nesta entrevista ao Nonada, os artistas falam sobre as dificuldades de viver de cultura no Brasil e sobre resistir em tempos de pandemia. “A Terreira da Tribo está com as portas fechadas para o público desde março de 2020. Antes, se o nosso trabalho era promover o encontro, agora as atividades presenciais foram todas interrompidas”, conta a atuadora Keter Velho.

Foto: Pedro Isaías/divulgação

Na avaliação dos atuadores, a gestão da cultura no governo Bolsonaro é “calamitosa”. “Os princípios éticos fascistas e discursos de ódio não toleram aqueles que provocam reflexão crítica e que alimentam as subjetividades das pessoas em busca de novos mundos e novas possibilidades, ou seja, justo o que a arte provoca na humanidade”.

Neste sentido, a situação da pandemia agravou as dificuldades de se fazer cultura no Brasil, uma vez que são escassas as políticas públicas voltadas à classe artística. “Artistas de todo o país se mobilizaram juntos e com força para serem implementadas as leis emergenciais para o setor. Mas a luta avança para que tornemos essas leis políticas públicas de fomento à cultura. A luta é longa”, argumenta Paulo Flores, atuador na Tribo.

Para ajudar a cobrir os custos de manutenção da Terreira, o grupo realiza uma campanha de financiamento coletivo nesta plataforma e também aceita pix, através da chave 95123576000152.

Nonada – Qual é o foco do trabalho da Ói Nóis?

O nosso principal compromisso é com a Arte Pública, uma arte acessível a todos os públicos. Esse trabalho se desenvolve em três vertentes principais: o teatro de rua com apresentações em praças e bairros populares; o teatro de vivência – pesquisa sobre o trabalho do ator e investigação do espaço cênico, fundamental para o desenvolvimento das artes cênicas; a ação artístico-pedagógica com a constituição da Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo com oficinas de iniciação teatral, formação, treinamento e pesquisa de linguagem, tanto na Terreira da Tribo, sede do grupo, como na periferia. Também desenvolvemos uma ação importante ligada à Memória com publicações e audiovisuais que registram a nossa trajetória estética e política, e agora com a criação de um repositório digital, primeiro passo para a constituição do Museu da Cena Ói Nóis Aqui Traveiz. Se até então, o nosso trabalho parte do princípio de promover o encontro entre as pessoas, seja em espetáculos, seja nas oficinas nos espaços pedagógicos ou espaços de diálogos e reflexão de diferentes eventos culturais que conseguimos promover, e de forma gratuita, esse trabalho foi drasticamente ameaçado com a pandemia. 

Nonada –  Como vocês avaliam as dificuldades de trabalhar com arte no Brasil? 

Os artistas brasileiros nunca tiveram reconhecimento por parte do poder público da sua importância no aprimoramento do ser humano e na construção da cidadania. Não se constituiu no nosso país uma política pública de fomento aos trabalhadores da cultura. E desde o golpe de 2016 as condições pioraram muito. Principalmente a partir da ascensão do pensamento fascista com a eleição de Bolsonaro e o desmantelamento das instituições culturais. Neste quadro, onde vivemos sob a égide de um governo que é inimigo da cultura, sofremos diversas dificuldades. As principais são a falta total de apoio à produção e circulação da criação artística, não haver nenhum incentivo à democratização do acesso à arte e a cultura para a maioria da população e ainda a carência de espaços culturais em nosso país. 

Foto: Pedro Isaías/divulgação

 Nonada – Qual foi a maior mudança com a pandemia? 

A Terreira da Tribo está com as portas fechadas para o público desde março de 2020 com o início da pandemia. Antes, se o nosso trabalho era promover o encontro, agora as atividades presenciais foram todas interrompidas. Mas não paramos de produzir. Começamos a pesquisar novas formas de alimentarmos nossas subjetividades e promover o encontro com o público. Claro que tudo virtual. Todavia, não pesquisamos, como muitos grupos o fizeram, o teatro virtual, mas começamos a pesquisar mais a fundo a linguagem audiovisual e cinematográfica. 

Recentemente lançamos um primeiro episódio de um estudo do teatro de Beckett com este intuito, chamado Quase Corpos – Ep 1 – A Última Gravação. Lançamos também uma Desmontagem do espetáculo Meierhold, que foi nossa última encenação com público. Durante o ano passado, através do audiovisual, criamos uma websérie registrando as nossas ações artístico-pedagógicas e também encontros virtuais para debater os diferentes aspectos da história e da criação do grupo. Durante todo ano apresentamos no nosso canal do youtube uma programação criativa que ao mesmo tempo foi um inventário dos processos cênicos do grupo, como comentários de peças passadas e processos de criação, como também, o que chamamos de Leituras Drama-Cinematográficas. E estamos cada vez mais próximos de uma nova criação mais profunda de um produto cinematográfico. Mas com o desejo de que logo possamos voltar à relação direta com o público, fazendo o teatro que acreditamos. 

Neste semestre, além de participações em lives sobre política cultural e também sobre a nossa criação e a realização de oficinas teatrais on-line, o Ói Nóis Aqui Traveiz criou em audiovisual a ‘Desmontagem Meierhold’ e a encenação ‘Quase Corpos – Episódio 1: A Última Gravação’. E agora estamos começando um trabalho de pesquisa sobre a personagem Ubu de Alfred Jarry e o tropicalismo, que resultará no audiovisual ‘Ubu Tropical’. A pandemia interrompeu o nosso trabalho diário na Terreira da Tribo com aulas de teatro, ensaios do grupo, e apresentações públicas de teatro, música e cinema. Estamos vivendo um momento muito difícil, e contamos com poucos apoios. Apesar desse tempo sombrio em que vivemos, acreditamos que a Terreira da Tribo, que está completando 37 anos de atividades, continuará e em breve estará aberta novamente a todos os públicos. E que nós, enquanto grupo que já carrega uma trajetória de 43 anos, vai resistir para continuar seu trabalho. 

Como o grupo tem visto a situação da cultura no atual governo? 

Calamitosa. Nós sabíamos que seria horrível, afinal de contas, a cultura sempre é a principal inimiga de governos fascistas. Os ensaios de censura às artes que começaram desde o Golpe já anunciavam o que viria. Os princípios éticos fascistas e discursos de ódio não toleram aqueles que provocam reflexão crítica e que alimentam as subjetividades das pessoas em busca de novos mundos e novas possibilidades, ou seja, justo o que a arte provoca na humanidade. Não à toa, a primeira ação do governo Bolsonaro foi extinguir o Ministério da Cultura, reduzindo-o a uma secretaria especial com gestores que não correspondem em absolutamente nada com as demandas dos trabalhadores da Cultura, pelo contrário. 

Estão para atacar, quando ainda não se utilizam de tons violentos e ameaçadores. Lembramos que um deles, Roberto Alvim, diretor de teatro paulista, propôs inclusive, criar uma “máquina de guerra cultural”, um completo absurdo horrendo mas nada surpreendente para o governo que aí está. Todavia, conseguem impôr ainda uma outra censura que é muito cruel: a econômica. É quando te impedem de trabalhar. Quando não há um mínimo apoio nem fomento. Quando se desmantela o pouco que se tem construído enquanto leis de incentivo e políticas públicas. Quando tentam barrar quem dá o apoio. O que começaram a fazer com o sistema S, por exemplo. Com a pandemia a situação piorou um tanto. Mas a Cultura resiste bravamente. A construção da Lei Aldir Blanc e as novas que estão em fase de elaboração são frutos, sobretudo, da luta da categoria. Artistas de todo o país se mobilizaram juntos e com força para serem implementadas as leis emergenciais para o setor que mais sofre com a pandemia. Mas a luta avança para que tornemos essas leis, políticas públicas de fomento à Cultura. A luta é longa.

Foto: Pedro Isaías/divulgação

Programação – 37 anos da Terreira da Tribo

Dia 14 de julho às 20 horas – QUASE CORPOS – EPISÓDIO 1: A ÚLTIMA GRAVAÇÃO

Versão livre da peça Krapp’s Last Tape, de Samuel Beckett, a encenação mostra o confronto de um homem de 69 anos com o seu passado. O velho homem escuta no gravador a fita-registro de 30 anos atrás. Escuta sua própria voz narrar extintas aspirações, lembranças de amores perdidos, a morte da mãe, a esperança não confirmada de êxito comercial literário. Depois gravará uma nova fita, como faz todos os anos, no dia do seu aniversário. Um homem amargurado, a remoer-se em plena solidão, parece nada ter de relevante a evocar ou perpetuar.

Dia 15 de julho às 20 horas – SARAU DA CAVALO LOUCO

O Sarau trás leituras de poemas contidos nas diferentes edições da revista, entrecruzadas por músicas e uma conversa do conselho editorial sobre a concepção da revista com os seus principais tópicos, seu histórico e o significado desta publicação para o grupo. A Cavalo Louco Revista de Teatro com edições anuais, surgiu em 2006, como a realização de um antigo deseja da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz. A Revista traz reflexões sobre o fazer teatral contemporâneo e os espaços de criação. 

Dia 16 de julho às 20 horas – DESMONTAGEM MEIERHOLD

‘Desmontagem Meierhold’ é uma produção audiovisual sobre o espetáculo “Meierhold”, que homenageia o ator, diretor e teórico russo Vsevolod Meierhold. Na Desmontagem o público navega entre depoimentos, cenas e reflexões que contribuíram para a construção da encenação e instiga a refletir sobre o momento e lugar em vivemos. “Meierhold” é um relato póstumo da personagem intercalando lembranças fragmentadas sobre marcos de sua vida e trajetória artística. A encenação explora diferentes linguagens e recursos, como poesias surrealistas e cenografia construtivista.

Assista à programação aqui. 

Esta reportagem é uma produção do Programa de Diversidade nas Redações, realizado pela Énois – Laboratório de Jornalismo, com o apoio do Google News Initiative.