Por Priscila Pasko*

Foto: me4o

Uma notícia que rodou o mundo no início do mês de junho ainda perambula em ziguezague na minha cabeça. Compartilhavam os sites nos mais diversos idiomas que o artista italiano Salvatore Garau, de 67 anos, havia vendido na casa de leilões Art-Rite uma escultura de sua autoria por 15 mil euros. A obra chamada Io Sono (Eu Sou) é imaterial, ou seja, invisível. Isso mesmo. O valor do lance inicial quase que quadruplicou. Nem o artista esperava por tamanho interesse. O caso se faz tão presente nos meus dias que, suspeito, o artista pode ter alcançado o objetivo: provocar a imaginação, com a diferença de que não precisei gastar um centavo para isso.

Pensei no comprador anônimo que recebeu um certificado, atestando a existência da obra (vai que). Conforme as instruções de Garau, o proprietário da escultura deveria expô-la em uma “casa particular, livre de qualquer obstrução, em uma área de cerca de 1,5 x 1,5m”. Em uma entrevista, Garau informa ter usado a matéria que domina o planeta, a “ausência”, para compor a obra.  Defende que o vácuo nada mais é “do que um espaço cheio de energias e mesmo que o esvaziemos, de acordo com o princípio da incerteza de Heisenberg, o vácuo tem um peso”. O vazio alheio nos olhos dos outros é refresco. Quero ver escancarar a própria intangibilidade.

Não me intriga tanto o resultado da obra. O feito, verdade seja dita, não é o que se poderia chamar de novidade e, justamente por isso, Garau foi acusado de plágio. Em 1969, outro artista italiano, Gino De Dominicis, expôs Cubo Invisível na galeria Attico di Roma, um perímetro traçado no chão da sala. Bastante semelhante à proposta de Garau. Mas quem poderia garantir, e baseado em quais critérios, a não ser o traçado no chão? Seria apenas um exemplo dentre outros.

Essa, aliás, não é a primeira obra imaterial de Garau. Em fevereiro deste ano, ele apresentou Buda em contemplação, na Piazza della Scala, em Milão. Entretanto, o artista, que também é músico e escritor, trabalha com pintura desde o ano 2000. Já teve obras expostas na Bienal de Veneza e, em 2016, aqui em Brasília.

Voltando: o que me surpreende, confesso, é o fato de alguém ter comprado a obra. Por 15 mil euros. Uma pessoa que tenha pago pelo vazio. Olho para o cubo invisível no meio da minha sala e cogito: qual seria o lance inicial que dariam a ele em um leilão? Que tipo de vazio vale mais?

Isso me faz lembrar do documentário Faz de conta que NY é uma cidade, dirigido por Martin Scorsese (2021), em que a escritora e humorista Fran Lebowitz se diz surpresa nos leilões em que se aplaude não o nome de um Picasso, mas o preço pelo qual a obra dele é vendida. O que diria Lebowitz para as obras intangíveis?

Levei o assunto para a terapia. Minha psicóloga não ficou tão surpresa e ainda me deixou sem resposta ao sugerir que eu pagava a ela toda a semana para dar conta dos meus vazios, compreendê-los e, com sorte, enxergá-los. Ainda não sei se concordo, porém, faz certo sentido. Conheci vazios durante esta pandemia que eu nem sabia que existiam.

Ficou claro que a proposta de Garau é emprestar significados novos à obra, transformando-a em um recipiente de reflexões, como ele mesmo afirma. Levando em conta o bombardeio de imagens, sons, movimentos que nos estimulam o tempo todo, ter um espaço dedicado ao vazio pode ser desafiador e, por que não, valioso, visto que Io Sono não saiu barato. O bom e velho capitalismo, que nos vende até mesmo o sossego ou o pavor que o vazio pode proporcionar (os mais céticos em relação à arte conceitual insinuam, pelas redes sociais, lavagem de dinheiro).

O filósofo e historiador de arte Georges Didi-Huberman (1953) contesta no livro O que vemos, o que nos olha, a tradição iconológica da história da arte. Diz ele que o ato de ver sempre nos abrirá um vazio, pois o vazio também nos enxerga. Ficar diante de um túmulo, por exemplo, nos expõe aos olhos da morte. De certa forma, entre outras reflexões que faz, Didi-Huberman acredita que o invisível está presente o tempo todo, mesmo diante das imagens. E que o vazio possui a capacidade de disparar ideias que, sem ele, não surgiriam.

Dia desses, assistia a um leilão de arte brasileira ao vivo em um desses canais de TV a cabo. Entre as obras, havia a escultura de um artista do interior de um estado da região nordeste. Dou-lhe uma, duas, três e nenhum lance. O leiloeiro narrou a biografia do artista, os trabalhos realizados, as exposições das quais participou. Eu, que estava quase deitada sobre o sofá, fui erguendo o meu corpo como quem acompanha um pênalti em uma partida decisiva. Nenhum lance. E, veja bem, era visível a obra. Eu a teria comprado, se dinheiro tivesse para isso. O programa seguiu, uma pintura de R$ 9.000,00 alcançou a cifra de R$ 18.000,00, e eu ainda pensava na escultura sem lance algum.

Pensando aqui, o atual governo federal no Brasil, e as instituições que o apoiam, se interessaria muito por produções artísticas invisíveis. Aliás, desde que assumiu o poder, a extrema-direita deixa claro o empenho de enfraquecer o setor por inanição, até que desapareça, até que se torne invisível, até que restem apenas armas como valor cultural e que sejam elas a circularem livremente pela Secretaria Especial da Cultura, por galerias de arte e museus. Seria um artifício para que, finalmente, a extrema-direita frequentasse estes espaços. O Observatório da Censura à Arte, projeto comandado pelo Nonada Jornalismo, que mapeia a censura às expressões artísticas no Brasil, mostra que já estamos nesse  caminho. Entre 2017 e 2021, 56 casos de censura foram identificados. Cinquenta e seis vezes em que a arte foi forçada a desaparecer.

Após um tempo, me pareceu tentador ambientar a proposta de Salvatore Garau em outros contextos geográficos. Impossível não considerar que, enquanto alguns se arriscam a vender o seu vazio – ou comprá-lo -, outros buscam preenchê-lo por meio de significados, trabalho ou resgate dos apagamentos de alguns sujeitos da historiografia da arte.

Justamente por isso, a memória me cutucou e fui buscar as minhas anotações da leitura do ensaio de Adrian Piper, A tríplice negação de Artistas Mulheres de Cor (Zazie Edições; tradução de Larissa Bery). Nele, a artista e filósofa critica o pós-modernismo, dizendo que a tentativa do movimento em mudar algumas regras revela o intuito dos agentes envolvidos de preservar a estatura dos vencedores [eurocêntricos].

Piper acrescenta que, paralelo às quantidades cada vez maiores de dinheiro, poder e discurso que são investidos na arte euroétnica, aqueles que foram excluídos do sistema têm inventado linguagens, visões e estilos de expressão próprios a partir da necessidade. E é o que, de fato, percebemos em vários movimentos pelo mundo e no Brasil.

Por exemplo, a artista visual brasileira Rosana Paulino (1967) levou cerca de 20 anos para ver uma obra sua exposta em uma instituição tradicional, mais precisamente na Pinacoteca de São Paulo (Rosana Paulino: a costura da memória/2018). Rosana Paulino é uma mulher negra. O vazio se faz muito presente em sua obra (ainda que de forma bastante diversa da de Garau), uma metáfora da falta de visibilidade e reconhecimento da população negra no Brasil. Como diz o artigo da historiadora Juliana Ribeiro da Silva Bevilacqua (O vazio na obra de Rosana Paulino), sabe-se que o vazio acompanha “de diversas formas todos os seres humanos, mas há vazios vivenciados quase de forma exclusiva por negras e negros”. Juliana também lembra o relato de Frantz Fanon (1925-1961) e de sua percepção do vazio das poltronas à sua volta, quando tomava o trem, denunciando o racismo que sofria. 

Me pergunto: quem tem coragem de encarar este vazio? Quem se responsabilizaria por ele? 

Então o comprador anônimo da obra Io Sono volta a assaltar meus pensamentos. De que forma a obra chegou até a sua casa? Quando percebeu que o vazio à sua frente era o que, de fato, havia comprado? E, principalmente: o espaço onde se encontra a escultura invisível conta com porta e chave? Afinal, nunca sabemos se estaremos preparados para que o vazio nos encare enquanto dormimos.

*Priscila Pasko é escritora e jornalista. É autora do livro de contos Como se mata uma ilha (Zouk, 2019). Também integra a coletânea Novas contistas da literatura brasileira (Zouk, 2018).

Este ensaio integra a Revista Nonada: sobre viver de cultura. Saiba como adquirir sua edição. 
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