Ester Caetano

Foto de capa: Adriana Marchiori/GRUPOJOGO

Por meio da música, dos espetáculos ou da literatura, a arte foi uma válvula de escape para muitas pessoas durante a pandemia da Covid-19. Quem imaginava aproveitar shows gratuitos em tempo real no sofá de casa? Por intermédio das iniciativas de artistas, patrocinadores e editais voltados à cultura, foi possível conferir peças de teatro, espetáculos de dança, performances e diferentes filmes de diversos festivais de cinema através das telas, mas, para isso, muitos profissionais do setor precisaram se adaptar a novas linguagens.   

Um novo corpo que dança

No mundo híbrido entre tela e movimento, está a videodança. De acordo com a performer, educadora e artista audiovisual Sarah Guerra, a produção de videodança teve um aumento exponencial durante a pandemia e, com isso, foi preciso incorporar a linguagem audiovisual na criação coreográfica. Termos como ângulo, enquadramento e corte tornaram-se necessários para facilitar essa expressão.

Como o vídeo seria a única alternativa de segurança de contato e comunicação entre as pessoas, o audiovisual teve que ser explorado, a partir das suas ferramentas, também de forma criativa. Sarah conta que “muitos artistas que antes não trabalhavam com câmeras, programas de edição e aplicativos de conferência perceberam nestes recursos formas de continuar ensaiando, dando aulas e criando obras que circulam o mundo por meio da internet”.

O artista da dança se concentra no corpo como expressão, mas como fica a transição para o virtual? “O corpo que dança no ambiente online é um corpo que se transformou de uma matéria para outra. Não é mais o corpo carne, e sim o corpo luz”, descreve Cynthia Domenico, artista e pesquisadora. Ela conclui que, tecnicamente, o dançarino tem um desafio de explorar um novo corpo que surge no cenário online, relacionando as extensões da dança com a câmera, já que agora é preciso pensar no enquadramento e em uma nova forma de coreografia, na qual o corpo pode ser fragmentado e apresentado em partes. “Essa coreografia pode ser construída agora não apenas pelo corpo, mas também pelos cortes do vídeo, pelos efeitos na pós-produção, por exemplo”, diz.

Para o público, que se reveza a cada postagem, a recepção se difere do presencial para o virtual. No espetáculo presencial, o que se apresenta não será repetido e quase sempre se transformará em algo novo. Sarah reflete que é “o público que faz o recorte do que ver pelo próprio olhar, sentindo a atração naquele momento”. Já no âmbito virtual, a obra pode ser assistida mais de uma vez e não se restringe a um determinado lugar, como os teatros e salas de espetáculos. “Atualmente estamos em um espaço virtual global, convivendo e interagindo com pessoas de diferentes estados e países. Mas o que se apresenta pode ser repetido fidedignamente, porque é uma obra que já tem o olhar e os recortes definidos e criados neste espaço específico do audiovisual, que nos permite reproduzir a obra sem alterações”, afirma. 

Com seus desafios, o Tik Tok se tornou um fenômeno em relação à dança, e apropriado pelo Instagram com recursos como o Reels, ambas as redes converteram-se nas plataformas mais utilizadas para a divulgação da linguagem audiovisual na criação coreográfica. Cynthia pondera que, com a pandemia, as redes sociais se tornaram o lugar da dança por excelência, seja ela cênica ou videodança. “E eu acredito que isso tenha vindo para ficar”, aponta.

Teatro fora dos palcos

O Grupo Jogo reinventou o espetáculo Deus é um DJ para a linguagem das redes sociais (Foto: Adriana Marchiori/divulgação)

Outra arte demasiadamente impactada pela pandemia foi o teatro. Os artistas tiveram que trilhar novos caminhos e a mudança do corpo no palco para o corpo na tela foi marcante para muitos grupos. Alexandre Dill, ator e diretor do GRUPOJOGO, relata que as adaptações que o grupo fez neste último ano foram no sentido de levar todas as técnicas de palco para casa, criando, por exemplo, a iluminação e a cenografia a partir de objetos caseiros.

Também foi perceptível a mudança das experiências na recepção da obra, tanto pelo grupo atuante quanto pelos espectadores.“Eu, enquanto encenador, percebo que, na verdade, o que muda agora é o olhar. Não a obra, mas o olhar para a obra. As nossas obras digitais, geralmente, são apresentadas no Instagram e ficam vinte e quatro horas no ar”, descreve Dill. O primeiro experimento do grupo nessa linguagem foi realizado com a exibição online da peça Deus é um DJ, no dia 13 de junho de 2020, e movimentou mais de 600 pessoas no Instagram, que interagiam com os atores em tempo real nos comentários. 

Para entender a linguagem das redes sociais e ajustar ao lugar cênico, o ator conta que foi preciso analisar cada plataforma e seu estilo de utilização. “Acredito que basicamente é entender como as redes sociais funcionam, qual a velocidade e qual rede social usar. É linguagem cênica mesmo, de encenação”, afirma Alexandre. Aliados às artes cênicas estão a publicidade, o cinema e as artes visuais, que contribuem para uma evolução na percepção digital. “Então eu acho que o primeiro passo foi entender isso. E depois, sim, construir a obra”, reflete o diretor.

Para aqueles que trabalham com a questão pedagógica das artes do corpo, o ambiente online pode atrapalhar mais, de acordo com Alexandre, porque  o orientador ou o diretor não consegue ter muita noção do corpo do outro através da câmera. “Essa questão fica um pouco mais difícil de ser trabalhada tecnicamente, mas ao mesmo tempo traz uma horizontalidade para o trabalho”, avisa Alexandre. Apesar das limitações, ele acredita que o aluno, no ambiente virtual, tem a possibilidade de descobrir seu corpo sozinho e quais são suas possibilidades – o que à primeira vista pode parecer menos técnico acaba por ser mais verdadeiro.

Outra novidade para o teatro é o público. Alexandre considera que atualmente existem dois tipos: aqueles que já consumiam o trabalho e outros que passam a conhecer a linguagem do teatro com o novo modelo de divulgação mais massivo. “Acredito que essas adaptações vieram agora para revolucionar quem não tinha ainda contato com as mídias, tanto dentro da cena quanto fora dela. Tanto dentro da concepção de um espetáculo quanto para criticar esse próprio lugar”, completa. 

Performance para conscientizar

Projeção de Quase-Oração em Porto Alegre (Foto: Kevin Nicolai/divulgação)

O espaço virtual também pode suscitar, no público, diversas interpretações. Mais do que entretenimento ou diversão, para aqueles que estão em isolamento social em casa, os espetáculos artísticos se tornaram um alento, um gatilho para soltar o riso ou choro preso. A cultura se fez importante e necessária também para o respiro, que leva à reflexão do momento.

Nascido pela necessidade de sensibilizar as pessoas quanto à gravidade da pandemia, a performance artística Quase-Oração carrega a característica de homenagear as vítimas fatais e famílias afetadas pela Covid-19. Através do Instagram, em formato de lives, os integrantes do grupo de artistas voluntários enunciam ao vivo cada morte ocorrida no Brasil, na tentativa de humanizar as estatísticas e os óbitos, que viraram só mais uma contagem. Centenas de colaboradores fazem a contagem dia após dia. 

A performance, que dialoga com a manifestação política, se expressa pela magnitude dos números: já são mais de 400 mil mortos no Brasil pelo coronavírus e o Quase-Oração citou 326.260 dessas vidas perdidas até o fechamento desta reportagem. As pessoas que se agregam ao grupo buscam uma forma de chamar atenção para essa tragédia. O objetivo é criar uma ruptura a partir de uma espécie de grito silencioso. “É uma maneira de olhar para como a saúde pública no Brasil está sendo manejada e de dizer que não podemos concordar com isso. Então, nos organizamos e começamos a levar adiante essa ação dessa forma”, expõe Patrícia Rangel, uma das idealizadoras do projeto.

O luto é o que se enfatiza. A cada número contado, uma expressão de tristeza, dor e desespero emerge. “Algumas pessoas trazem um caráter mais político; outras, suas questões pessoais, de necessidade de humanização, de trabalhar o seu luto pessoal”, explica Patrícia. São diversos indivíduos que tentam expressar de várias maneiras um sentimento em comum.

Quanto à mídia escolhida para o projeto, Patrícia conta que enxerga o Instagram como uma possível galeria de contestação. “Eu acho que essa é a grande questão social de um espaço como o Instagram, porque nele está todo mundo. Estamos propondo isso, um espaço também de performance artística, um espaço que seria virtual e que se assemelharia a uma galeria, um espaço artístico”, pondera. 

Bienal de arte e tecnologia

A relação entre arte e tecnologia, que marcou a pandemia e se intensificou entre os artistas e a sua produção, parece que veio para ficar. Para o curador da 13ª Bienal do Mercosul, Marcello Dantas, a tecnologia saiu de ser uma coadjuvante para ser a protagonista do nosso tempo. “Ela invadiu o imaginário, as relações humanas, os meios de produção e as formas como distribuímos nossa expressão. Ela também se apresentou como criadora de muitas novas camadas de originalidade, o que em si é desafiador”, acredita.   

O eixo narrativo da 13ª Bienal é o trinômio “trauma, sonho e fuga”, refletindo diretamente sobre o período pandêmico que vivenciamos. Como parte do evento, também ocorrerá a exposição Transe, que pretende trazer de modo disruptivo a fusão entre arte e tecnologia. Marcello diz que as ferramentas de trabalho mais importantes nesse sentido são a inteligência artificial, machine learning, mostra inclusiva e muito disruptiva, trazendo essa fusão entre arte e tecnologia. “Mas o mais importante de tudo tudo mesmo é a biotecnologia e as expansões de consciência e estados cognitivos, isso pode realmente ser revolucionário”, aponta. A Bienal do Mercosul está marcada para acontecer em 2022.  

Esta reportagem integra a Revista Nonada: sobre viver de cultura. Saiba como adquirir sua edição. 
Jornalista engajada nas causas sociais e na política. Gosta de escrever sobre identidade cultural, representatividade e tudo aquilo que engloba diversidade.
Tags:
%d blogueiros gostam disto: