Amanda Calazans*

Fotos: Allyne Lays

Quando o Jongo Iracema fez sua primeira roda aberta à comunidade de Anápolis (GO), em 2012, perdeu todos os seus alunos. É que os pais evangélicos associaram as batidas dos tambores à “macumba” e retiraram os filhos da atividade. Mesmo assim, o jongueiro Tuísca insistiu com as aulas, mas de agora em diante com uma nova abordagem: explicar aos responsáveis o que era o jongo antes da inscrição das crianças.

O jongo é uma manifestação cultural de origem dos negros bantos que foram escravizados no Brasil. Em uma roda, um homem e uma mulher dançam enquanto tamboreiros tocam e o grupo canta pontos, cantigas com letras cifradas que os escravos usavam para se comunicar sem que seus senhores entendessem. Existem comunidades tradicionais de jongo, localizadas principalmente no Sudeste, e grupos de estudo independentes como o Jongo Iracema. No Centro-Oeste, são quatro ao todo.

De qualquer forma, mestre Tuísca sabia como lidar com evangélicos. Nascido há 60 anos na cidade goiana de Morrinhos como Carlos Antônio dos Reis, ele chegou a estudar teologia e ser co-pastor em uma igreja pentecostal. Hoje, Tuísca trabalha como porteiro de prédio e, além do jongo, ensina capoeira angola, machete — espécie de esgrima com facões — e samba chula na Associação Artística e Cultural de Anápolis (Acaa). Em entrevista ao Nonada Jornalismo, ele fala dos primeiros passos do grupo até os desafios que ainda enfrenta.

Nonada — Qual foi seu primeiro contato com o jongo?

Mestre Tuísca — O jongo é amplo, não é só uma coisa. Meu primeiro contato foi por uma entrevista do mestre Darcy em um programa cultural. E o mestre Darcy estava lá, um camarada bacana, mestre descontraído, falando sobre seu jongo, como ele cresceu em uma família de tradição no jongo. E ele, como jongueiro, teve o intuito de tirar o jongo do terreiro e levar para os palcos. Com esse trabalho dele, eu tive contato, conheci o jongo pela internet. Quando ele cantou as cantigas, bateu os tambores, aquilo ali me tocou bastante. Eu me comovi na hora ao ver aquela pulsação dos tambores, as cantigas, algo ancestral que vem do povo preto, do povo negro, do povo que foi sofrido. E ali me despertou. Falei assim: “Uai, eu preciso também praticar esse jongo”. Eu fiquei maravilhado. Mas como fazer para me envolver com essa cultura? Difícil, porque era lá no Rio de Janeiro, Minas, Espírito Santo, nas regiões do Sudeste.

Em 2011, entrei em contato pelo Facebook com os grupos. Queria ver o que eles podiam fazer para me ajudar, para dar início ao trabalho. Falaram assim: “Olha, Tuísca, de início, você vai ter que levar umas duas pessoas daqui para aí, para poder passar o jongo, as batidas de tambor, as cantigas, os rituais, os fundamentos”. E eu, como estava iniciando, não tinha projeto, não tinha dinheiro, não tinha nada para poder trazer os mestres para poderem participar com a gente aqui. Falei para ela que não tinha condição. Ela me deu “boa sorte”. Falei “muito obrigado”, arregacei as mangas e parti para cima.

Nonada — Sem essa ajuda, como o senhor se tornou jongueiro?

Mestre Tuísca — Pontapé inicial? Conhecer os grupos. Pesquisei o Jongo da Serrinha. Em que sentido? As batidas dos tambores, as cantigas e a dança. Aí, eu fui para São Paulo. Onde tinha jongo eu estava lá pesquisando, ouvindo os mestres e as mestras falarem sobre o ponto de jongo e os fundamentos, como se dança, como se faz o passo, o que significa a umbigada, o que significa o ponto tal. Isso demorou de três a cinco meses. Mas eu me identifiquei com o da Serrinha. 

O que eu fui fazer? Agora é aprender a tocar os tambores do Jongo da Serrinha. Como? Não tinha nada na internet, não achei ninguém ensinando. Então era com o ouvido. Tentei copiar a batida ouvindo. Ficou próximo dos tambores, não é exato. Mas aproximou. Depois que eu dominei, falei: “A batida vai ser esta”.

Agora aprender a cantar cantiga. Aí, procurei o ponto mais fácil, que é o “quer mamar, boi preto” (Pisei na pedra). Aí, estava firme na cantiga. Agora, conciliar a cantiga com o tambor. Deu um trabalho, minha filha. Levou tempo, mas consegui coordenar com a cantiga com a batida.

Agora, a dança. Coloquei os vídeos da Serrinha, do Lazir (Silval) ensinando o amassa café, tabiado, contratempo, os passos do jongo. Lá em casa eu entrava no meu quarto e trancava a porta, porque a família era religiosa, olha o problema aí. Eu ficava lá. Porque, quando a porta estava aberta, o pessoal passava e ficava curiando, pescoçando. Eu assistia e copiava os passos. Dominei três. Falei: “Com esses três aqui dá para começar o trabalho”.


Nonada — Como o senhor chegou até a Associação Artística e Cultural de Anápolis (Acaa)?

Mestre Tuísca — Depois disso, vou começar o trabalho onde? Em qual lugar? Aí, lembrei de um aluno meu de capoeira, o Pena, Amir Brasil, muito conhecido na educação física que executava um trabalho no Sesi da Jaiara como professor de natação. Começou com capoeira regional e depois veio comigo para a angola. E lá falei com ele e ele fez o corre lá dentro, conseguiu e falou: “O senhor vai dar aula na sala de dança no dia tal, tal e tal”. Peguei os tambores e fui para lá. Fiquei com o tambor, cantando, vendendo meu peixe, para ver se atraía alguém. Porque o tambor chama. Alguém chegava e eu explicava. E lá eu consegui granjear seis pessoas. Fiquei lá no Sesi da Jaiara três meses. Pensei: “Aqui não vai virar um negócio, vai ficar gato-pingado”.

Então me lembrei desta associação aqui, a Acaa na Boa Vista, ao lado do postinho de saúde. Aí, encontrei a dona Zeneide (Lucena) aqui, artista plástica, e me apresentei. Senhorinha bacana que me recebeu muito bem e falou: “Pode vir, traz os tambores para cá, a casa é sua, cuida da casa, pode desenvolver seu trabalho aqui”. Assim eu fiz. Seu Vicente, do Bumba Meu Boi da Família Maranhão, nessa época estava aqui também, tinha uma kombi e me ajudou a trazer os tambores. Comecei a divulgar com um panfletinho. O pessoal foi chegando, mas quem chegou mesmo foram as crianças. Criança gosta de batucada, bater tambor, fazer barulho. E fui ensinando: “Vamos embora aprender o jongo, meu povo”. Levou tempo. Devagarinho foram aprendendo, assimilando. Depois veio a dança. De repente vieram uns adultos para dar uma força. Aí, foi chegando também o pessoal do Bumba Meu Boi, que vinha, participava mas não se identificava. E eu precisava firmar um grupo, alicerçar pessoas que realmente se identificavam e quisessem trabalhar, crescer, se desenvolver e levar a cultura.

Preparamos os meninos, todo mundo bonitinho. “Bora fazer a nossa roda. Chama o papai, mamãe, vovô e titio que vamos apresentar.” Fizemos uma roda aqui bacana. Dançamos, os meninos cantaram, bati tambor, ficou uma maravilha. Foram embora. Na próxima semana, atividade. Estava aqui esperando os meninos. “Cadê meus alunos, meu povo?” Eles não vieram. Aí, me falaram: “Tuísca, o pessoal de Anápolis é evangélico e em volta da associação está tendo um zum zum zum que aqui está tendo macumba. Aí, os pais vieram e viram você com o tambor e associaram o jongo à umbanda. Por isso que os meninos não vão mais vir fazer o jongo contigo”.

O que eu fiz? Vamos mudar agora o raciocínio. Se a criança quiser fazer o jongo, eu vou orientar os pais primeiro sobre o que é, para ele saber se deixa o filho comigo ou não. E assim foi feito. Passou por este espaço aqui muita gente. Se viesse todo mundo que entrou aqui e ficasse, não caberia a turma.

Nonada — Além das batidas de tambores, que outras diferenças o Jongo Iracema tem se comparado ao jongo de comunidades tradicionais?

Mestre Tuísca — Como somos independentes, não somos de tradição, a diferença é a batida de tambor. Eu que elaborei a batida, não consegui executar a mesma técnica e célula rítmica da Serrinha. Tentei aproximar e aproximou, mas não é exato. Depois, quando visitamos em Goiás Velho o Ronaldo na Vila Esperança, ele tocou a batida da Serrinha. Falei: “Essa batida que ouvi lá com o mestre Darcy. Depois vai lá em Anápolis para a gente ter uma oficina com você”.

Aí, comentei com meus jongueiros aqui, só que os meninos não aceitaram. Não me apoiaram em mudar a batida. Eles se identificaram com a batida que eu tinha criado já há seis anos. Para mudar a turma não aceitou: “Essa é a batida que nós queremos, a que o senhor criou, é a nossa identidade “. Nas minhas pesquisas, vi que de comunidade para comunidade as batidas são diferentes. Então agora nós temos a nossa também.

O interessante também é que nós sempre cantávamos os pontos da Serrinha e de outros grupos de tradição. Hoje me alegro muito porque os meninos jongueiros daqui estão tão empenhados no jongo, dando o sangue e a alma, que agora eles estão compondo também os pontos. E compondo bem, os meninos. Acontece alguma coisa, eles já pegam a caneta e escrevem, porque o ponto é de cotidiano. Vão acontecendo as coisas, você está ali esperto, vendo tudo, de repente vem a inspiração e você cria um ponto.

Mestre Tuísca. Foto: Allyne Lays

Nonada — Quais as características dos pontos de jongo? 

Mestre Tuísca — Quando você abre uma roda de jongo, você tem que cantar um ponto de abertura. Esse ponto é você pedindo licença para os ancestrais, para o dono da casa, para o mestre daquele local. Você vai cantar, jongar, brincar e se divertir ali. E no decorrer dessa roda tão gostosa e maravilhosa, você pode cantar ponto de visaria, que é para cima. Um ponto alegre para a gente brincar. E tem aquele ponto que não é tão alegre assim. É um ponto de desafio. Eu posso cantar um ponto desafiando o mestre daquele local. Se o mestre aceitar meu desafio, aquilo pode crescer e não terminar muito bem, a situação. No meu ponto de vista, isso não é legal.

E tem o ponto de amarração também. Eu canto assim: “Debaixo de papai velho, menino foi sepultado”. Cantei, se você não conhecer e não responder, fica amarrada. Aconteceu esse episódio. Cantou e ninguém na roda sabia. Aí, alguém lembrou que tem um mestre antigo que consegue responder a esse ponto: “Busca o homem”. Falou para o mestre a situação, o mestre se preparou, tomou seu banho, botou seu terno lindo e maravilhoso. Chegou lá e cantou para responder ao ponto: “Meu irmão, sendo o mais velho, licença eu peço a ocê / Vou disinterrá menino pra nós tudo aqui beber”. Agora vamos decifrar. O papai velho era o tambor, o mais antigo que estava naquela roda. Naquela época se chamava papai velho. E debaixo do tambor, alguém, antes de começar a roda, pegou um menino. O que é menino? Uma garrafa de cachaça. E colocou debaixo do tambor e cantou o ponto. O mestre chegou e decifrou. Aí, levantou o tambor e estava lá a cachaça. Ele tirou, abriu, todo mundo bebeu, formou a roda, e o camarada lá ficou tranquilo, aliviado.

Você participa da roda, você dança, você brinca, mas sempre atento ao que está sendo cantado. De repente falam mal de você e você nem percebe. Por exemplo, nós estamos aqui nesta conversa boa e gostosa e chega um camarada ali. Aí eu canto para ele: “Oi, quimboto, quimboto / Deixa eu moer fubá”. O que eu quis dizer? O cara que entrou aqui é quimboto. Quimboto é linguagem dos bantos que significa sapo. Lembra daquela expressão que você vai na festa e fala “ixe, chegou um sapo aí”? Um cara que não foi convidado. Essa é uma expressão antiga. Então o quimboto é o cara que participou do nosso evento mas não foi convidado. Aí, a gente canta para ele. Quando estamos numa roda e canto, todos os jongueiros estão ligados que chegou alguém, aí já ficam ligados naquela pessoa estranha no nosso meio, que não conheço o coração. É desconhecido o coração, não sabemos qual a intenção da pessoa. E era assim que os escravos usavam essa linguagem. Falam mal do coronel sem o coronel perceber. Porque o jongo era jogado quando tinha as festas católicas, as ladainhas, as novenas, as rezas. Aí, após as rezas é que se abria uma roda de jongo. Se fazia uma fogueira no terreiro. Antigamente era terreiro, hoje é quintal. Vai mudando, mas eu prefiro a linguagem antiga.

Nonada — Como as comunidades tradicionais de jongo lidam com os grupos independentes?

Mestre Tuísca — Vou falar da minha experiência. Quando tinha um encontro de vários grupos, sempre tinha alfinetadas cantando. Quem está lá percebe que estão falando de você porque você não é de tradição. Quando fui, foi bom, mas teve um lado também que não foi legal. Eu segurei bem, acho que me saí bem, mas meus alunos ficaram arretados, doidos para pegar. É que fui questionado logo de cara: “Uai, você aprendeu jongo onde?”. Falei: “Calma, estou chegando agora, vamos tomar uma água primeiro, fazer um lanche, tem muito tempo ainda para a gente prosear”. Meus alunos me chamam de mestre não por ser mestre de jongo, só tenho nove anos de jongo. Sou reconhecido pela comunidade como mestre pelo meu trabalho na arte, na capoeira, na cultura. Na capoeira vou completar 45 anos. Então lá teve um lado bom e esse lado negativo também. Mas tudo para mim recebo como aprendizado. Pego o que é ruim e procuro transformar aquilo em coisas boas. E criei um ponto, mas o ponto meu não foi aceito (risos).


Nonada — Além da capoeira e do jongo, o senhor trouxe também para a cidade outras manifestações de cultura negra como samba chula e machete. Por causa disso, como está hoje a relação com os evangélicos?

Mestre Tuísca — Melhorou porque, no decorrer desses nove anos aqui, o pessoal já entendeu que não era aquela linha de pensamento do início. Entende que o trabalho é cultural. Passo nas ruas e as pessoas evangélicas já me cumprimentam. Já vêm aqui na associação, dão uma olhada. Nesse ponto eles já abriram a mente. Porque as pessoas têm medo do desconhecido. Mas nessa linha já melhorou.

E a questão de a gente estar trazendo mais culturas como o machete e o samba chula, eu deveria ser pelo menos uns 10 Tuíscas para poder participar de todo esse caldeirão de cultura que nosso Brasil tem. Porque eu gosto de tudo. Mas aquilo que eu puder fazer, trazer para cá para a associação, e os meus alunos se identificarem e se desenvolverem, para mim é um prazer maravilhoso contribuir. Porque é cultura nossa, uma herança deixada para a gente. Acho que a gente deve valorizar, cultivar e preservar, e não ficar buscando cultura de fora. O pessoal fica muito invocado com Europa, culturas de fora, e nós aqui temos essa beleza ancestral. Devemos colocar nas faculdades.

Poderia dar um curso na faculdade para a galera lá, mas será que vão me aceitar? Eu não tenho formação acadêmica. Meu diploma é a vida. E com isso eles perdem porque conhecimento são saberes. O que você sabe, eu não sei. O que eu sei, você não sabe. Então vamos trocar as informações. Isso é só ganho. Não desprezar outras pessoas que não têm o canudo. Eu não sou o senhor dos anéis, mas tenho um conhecimento na cachola, tenho experiência para passar e ensinar. E este conhecimento aqui ninguém me tira, aonde eu for eu vou levar. E quando eu viajar, eu não vou precisar deste conhecimento lá. Então preciso passar aqui para as pessoas que têm interesse. Meus alunos estão aqui bebendo desta fonte.

Nonada — Qual o perfil dos jongueiros do grupo Iracema? O que o senhor acha que os motiva a permanecer?

Mestre Tuísca — Eu acho que é a cultura em si. Quando o aluno chega e vê a batida dos tambores, ele se motiva. Tem preto que se identificou e está comigo até hoje. Outros vieram aqui, pretos, e não se identificaram. Essa menina de pele branca, falei para ela que nasceu na pele errada (risos), porque ela se identificou e está caminhando comigo e crescendo cada dia mais. Vale a pena eu estar aqui e ensinar esse pessoal. E é tudo moçada jovem. Eu pensei que ia trabalhar com crianças, que é o futuro, porque a gente vai viajar um dia e as crianças vão tomar conta. Mas não, são pessoas adultas. E eles realmente têm me dado muito prazer na questão do empenho e interesse deles. Quero que eles cresçam e apareçam. Eu não tenho ciúmes. Mestre tem ciúmes de aluno querer aparecer mais que o mestre. “Não, meu filho, vai com Deus, cresça e vá embora. Segue seu caminho e vai levar a cultura.” Para mim, em cada esquina deveria ter um grupo de jongo. É nossa essência, é a força ancestral presente nos nossos dias. Isso não pode acabar.

Nonada — O Jongo Iracema costuma ser procurado mais nas datas de orgulho negro, como Dia da Consciência Negra e 13 de Maio (dia da abolição da escravidão). Como o senhor avalia isso?

Mestre Tuísca — É ótimo. É assim que a gente consegue divulgar nosso trabalho, mostrando a cara. Então isso é válido. Quando começamos, falava em jongo aqui e ninguém sabia o que era jongo. Era uma herança nossa e ninguém tinha conhecimento. Hoje já melhorou o conhecimento porque nós estamos aqui há nove anos. O pessoal sabe que aqui tem jongo. E acho que no Brasil todo as pessoas estão sabendo que nós estamos aqui com este trabalho, fazendo uma cultura viva.

*Jornalista pela UFG, Amanda Calazans é repórter freelancer e já colaborou em veículos como Estadão, UOL TAB e UOL VivaBem. Antes disso, foi trainee no 31.º Curso Estado de Jornalismo e atuou por quatro anos na comunicação do MPF/GO e de instituições de saúde de Brasília.