Renan Silva Neves*

Foto: Fernando LCS/Gresil

Uma brincadeira que se tornou séria. Assim pode ser descrita a trajetória do compositor Gabriel Mello. O jovem que começou compondo samba-enredo para o Carnaval Virtual, que reúne desfiles produzidos no computador, se aventurou nas escolas de samba tradicionais e já obteve um resultado histórico: venceu o concurso que escolheu o samba que embalará o desfile da Imperatriz Leopoldinense, do grupo Especial do carnaval do Rio de Janeiro, em 2022. Oito vezes campeã na história, a escola do bairro de Ramos cantará na avenida o enredo Meninos, eu vivi… onde canta o sabiá, onde cantam Dalva e Lamartine, que homenageia o patrono da agremiação, Luiz Pacheco Drummond, falecido em 2020, e o carnavalesco Arlindo Rodrigues, morto em 1987.

Aos 33 anos, Gabriel inscreveu sozinho a sua composição na disputa. Antes dele, o último competidor a vencer  com uma composição individual no carnaval carioca havia sido Martinho da Vila, na Vila Isabel, em 2010. Em entrevista ao Nonada Jornalismo, o compositor paulista falou sobre a forma que encarou diversos desafios, como concorrer em um festival de uma escola carioca e as emoções de ter sua vitória transmitida ao vivo para todo o país, durante o programa Seleção do Samba, na Rede Globo.

Casado com Robson Lourenço, o compositor também falou sobre concorrer em um ambiente machista e LGBTfóbico e como a sua família e amigos o ajudaram nesse processo desgastante que é uma disputa de samba-enredo. “Recebi provocações que partiram de pessoas que são nômades na escola. Pessoas que surgem na disputa de samba, um território propício para destilarem todo seu preconceito, e somem no restante do ano. Sei que a comunidade, quem realmente é Imperatriz, não é preconceituosa”, desabafou na conversa realizada por vídeo.

Nonada – O que te motivou a competir sozinho?

Gabriel Mello – Na verdade, geralmente os sambas não são compostos pela quantidade de pessoas que as parcerias divulgam. Existem os compositores, propriamente ditos, os divulgadores, os patrocinadores, os financiadores, os organizadores de torcida… Pessoas que também assinam o samba, auxiliando de alguma forma. No meu caso, nesta disputa da Imperatriz, a criação foi totalmente independente. Eu compus o samba, eu criei a campanha de divulgação e defini quem seriam os cantores que defenderiam minha obra. Não fazia sentido alguém assinar comigo. Considero que meu exemplo é interessante, inclusive, para mostrar que algumas coisas são folclóricas. Muitos também escrevem sozinhos, mas acabam inflando as parcerias por conta dos custos elevados para disputar um samba. Aliás, este custo elevado é culpa dos próprios compositores.

 Nonada – E como foi concorrer sozinho contra parcerias de até dez pessoas em um mesmo samba?

Gabriel Mello – Concorrer sozinho tem ônus e bônus. Recebo os louros da vitória sozinho, mas também levo as flechadas sozinho. Não tive um grupo para absorver as críticas comigo. Numa disputa dessas, é natural, em algum momento, estar mais sensível. Em outro, mais confiante… E eu tive que lidar sozinho com esse turbilhão de emoções. O grande lance dessa disputa foi que eu tive um apoio maciço da comunidade. Mesmo sendo uma parceria de um compositor só, existia um exército gigantesco ali por mim. Não só da Imperatriz. Torcedores da Mocidade, do Salgueiro e tantas outras escolas que abraçaram o meu samba. Ajudou a suplantar as dificuldades.

Nonada – Você sofreu algum tipo de preconceito durante a disputa por ser homossexual?

Gabriel Mello – Existiram ataques. Em uma disputa, as pessoas lutam com as armas que possuem. Infelizmente, algumas pessoas acharam que essa era a melhor delas. Mas também não posso dizer que isso foi problema. A Imperatriz é uma escola extremamente democrática. Nunca houve tabus em relação à presença de homossexuais na agremiação, inclusive com destaque dentro da escola. Obviamente, o segmento do mundo dos compositores é machista, não é segredo para ninguém. Porém, é fundamental saber lidar com as situações. Recebi provocações que partiram de pessoas que são nômades na escola. Pessoas que surgem na disputa de samba, um território propício para destilarem todo seu preconceito, e somem no restante do ano. Sei que a comunidade, quem realmente é Imperatriz, não é preconceituosa.

 Nonada – Já que citastes o apoio da comunidade, gostaria que falasse sobre o sucesso do samba em redes sociais. Como a disputa ocorreu em lives, as redes eram praticamente o único termômetro para avaliar a aceitação do público. Esperava esse fenômeno?

Gabriel Mello – Logo que as composições foram inscritas, houve uma reação enorme em redes sociais em cima do meu samba. Mas isso não me impressionou. A Imperatriz, historicamente, é coerente na escolha de seu hino para o carnaval. Em diversas oportunidades, ela deixou de escolher sambas mais populares ao público da disputa e optou por obras que contavam com menos torcida, mas que a escola via com mais qualidade musical. Existem diversos exemplos de sambas concorrentes belíssimos da Imperatriz que acabaram perdendo, mas ficaram na memória dos torcedores, exatamente por isso.

Na gravação do programa Seleção do Samba, da Rede Globo, Gabriel se emocionou ao reverenciar o pavilhão da Imperatriz Leopoldinense. (Foto_ Fernando LCS_GRESIL)

 Nonada – E neste momento, além da disputa com os concorrentes, quais os obstáculos principais que você observou?

Gabriel Mello – Sempre tive muita confiança na obra, admito. Mas o momento em que senti que realmente estava no páreo foi quando realizamos a primeira apresentação no palco. Ali senti a adesão dos segmentos. Percebi baianas, ritmistas, componentes de barracão e ala de comunidade cantando. Quem conhece disputa de samba sabe. Quando há adesão interna, a chance de vitória é grande. A partir dali, o trabalho é manter pessoas favoráveis à obra e aproveitar esse plus, que não é definitivo, mas que auxilia na chance de vencer.

Porém, esse mini sucesso, digamos assim, também desencadeia críticas. Houve questionamentos, houve farpas. Disseram que o samba era muito grande, que era exageradamente romântico para a escola que será a primeira a desfilar no domingo – quando (o Sambódromo da Marquês de) Sapucaí ainda não está no clima dos desfiles -, que o andamento definido pelos músicos não era o ideal, que o samba ficava cansado durante a apresentação… Literalmente, tivemos que derrubar um mito por semana. Esses burburinhos são criados internamente com o objetivo de prejudicar um samba. É até normal em uma disputa no carnaval carioca, mas é preciso saber lidar com isso. Em um momento, por exemplo, reuni os músicos e expliquei que precisávamos ajustar nosso andamento no samba, pois não batia com o estilo da escola, que desfila de forma mais cadenciada, sem correr. Levar o perfil da escola em consideração é essencial.

 Nonada – Há quem diga que o grande diferencial do seu samba foi a letra, que pegou pela emoção. Você concorda?

Gabriel Mello – É preciso dizer que o samba-enredo possui um formato padrão de composição. Uma fórmula de bolo. Quando você desconstrói a típica narrativa de samba-enredo funcional e adere a outro formato, obviamente chama a atenção. Isso aconteceu com meu samba e também com as obras vencedoras nos festivais de Unidos da Tijuca, Unidos do Viradouro, Vila Isabel e Mocidade Independente, por exemplo.

O samba-enredo é um gênero específico. Possui uma função específica, que é ser a trilha sonora de um grande espetáculo que tem como tema o que é escrito e cantado naquela canção. Porém, ele também é um reflexo da musicalidade do país. Ele se transforma com o tempo. Vivemos, por exemplo, o domínio da música sertaneja no Brasil, que possui uma característica intimista, falando de amor e sentimento, com narrativa definida: o romance. Isso tem feito a cabeça das pessoas. Eu optei por trazer esse romântico para meu samba. E quebrar paradigmas é muito Imperatriz. “Liberdade, Liberdade”, por exemplo, foi considerado um marco. Totalmente diferente do que tínhamos no gênero naquele ano de 1989. Pensando até mesmo nesse exemplo, chamei o Dominguinhos do Estácio, que foi quem cantou esse samba na avenida, para gravar o meu concorrente. Essa emoção, já que o “Domingos” já estava com a saúde bem debilitada quando gravou, também influenciou. Apostei na emoção e deu certo.

Nonada – O enredo foi um facilitador para compor?

Gabriel Mello – Inegavelmente. Arlindo Rodrigues é um dos maiores nomes da história da Imperatriz e do carnaval carioca. Um ícone. Já Luiz Pacheco Drummond, além de patrono da escola, foi uma pessoa extremamente importante na minha chegada na Imperatriz. Comecei na Beija-Flor de Nilópolis e lá integrei diversas funções, tendo na figura do Laíla – lendário integrante da escola nilopolitana, falecido neste ano – meu guru nesse início de vida carnavalesca. Minha saída da Beija-Flor foi um pouco traumática. Quando conheci a Imperatriz, “seu Luiz” me estendeu a mão. Disse pra eu ficar ali. E assim foi. Contar um samba-enredo em sua homenagem é uma emoção indescritível. Dele e do Arlindo somados, então, é uma dádiva. Além disso, tive a minha vitória confirmada na voz de Rosa Magalhães, simplesmente a maior carnavalesca da Imperatriz. Escrever um samba para esse enredo e ter a vitória na voz da Rosa é demais pra mim. Talvez a saudade dessas pessoas que citei possam também ter influenciado nessa emoção.

 Nonada – A disputa de samba-enredo é um processo extremamente desgastante e que exige uma enorme disponibilidade da pessoa. Como sua família lidou neste momento?

Gabriel Mello – Não foi fácil. O Robson, meu marido, é meu maior fã e meu maior apoiador. Mas também é vice-presidente de relações públicas e diretor de projetos da Imperatriz Leopoldinense. Pela lisura da disputa, ele teve que se manter longe de mim na quadra de ensaios durante o processo. Então, não tive quem sempre esteve comigo. Na quadra, era eu e Deus. Em momentos em que fiquei desestabilizado, não tinha ele ao meu lado. Além disso, meu cunhado, que sempre assinou sambas comigo, faleceu no dia 23 de abril.

Soma-se a isso que meu guru de carnaval, Laíla, e o intérprete que gravou meu samba, Dominguinhos do Estácio, também faleceram durante a disputa. E, obviamente, a morte do seu Luiz Pacheco, mesmo tendo ocorrido há mais tempo, ainda mexe comigo. Tive que ter uma frieza quase que doentia. Em boa parte da disputa, decidi tentar ser à prova de qualquer emoção. O choro em rede nacional, quando fui anunciado vencedor na Rede Globo, é o momento do desabafo. Ali, extravasei e pude colocar pra fora todos os sentimentos que precisava.

Nonada – A ficha de ter vencido o concurso de samba-enredo do Grupo Especial do Rio de Janeiro já caiu?

Gabriel Mello – Sinceramente, ainda cai aos poucos (risos). As pessoas me encontram na rua e dizem que torciam pelo meu samba, que estão felizes com o resultado… Eu abro as redes sociais e vejo aquela enxurrada de mensagens, quase que diariamente. Choro todo dia (risos)! E não poderia ser diferente. No dia da gravação do programa na Globo, quando a comunidade soube do resultado, foi emocionante chegar na Ramos e observar aquela multidão cantando meu samba. Algo inimaginável e indescritível. No desfile, terei que tomar um remedinho, pois a emoção será grande. Não sei quais serão meus próximos passos no carnaval, mas sei que a Imperatriz está neles.

* Estudante de Jornalismo da Unisinos. Esta entrevista é fruto de um projeto especial de parceria do Nonada com a Beta Redação, portal experimental do curso de Jornalismo da Unisinos.