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Erik Petersen

Diébédo Francis Kéré e o tradicionalismo

Por Rodrigo Adonis Barbieri

Tratando-se do maior prêmio mundial de arquitetura e do primeiro negro a ser agraciado, a notícia recente que o arquiteto Diébédo Francis Kéré recebeu o Pritzker provocou menções mundo afora, inspirando, inclusive, seus pares brasileiros. Mas como e por que isto nos afeta, sobretudo em nosso longínquo e remediado Rio Grande do Sul?

Patrocinado pela Fundação Hyatt, a láurea é internacionalmente concedida desde 1979, sendo entendida como equivalente ao prêmio Pullitzer no jornalismo ou ao consagrado Nobel. Ela objetiva destacar “a consistente e significativa contribuição à humanidade e ao ambiente construído pela arte da arquitetura”, seja de um determinado profissional ou de uma equipe. Quanto ao Brasil, apenas os finados Oscar Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha foram contemplados, respectivamente em 1988 e 2006.

Por si só o fato de um arquiteto não branco conquistar este reconhecimento já mereceria notoriedade em um campo onde as referências conceituais são basicamente eurocêntricas ou norte-americanas e acabam por se perpetuar como dogmas. Isto pode ser facilmente constatado na América Latina, muito no Brasil, ainda que abordagens culturalmente mais afinadas com as nossas realidades reclamem seu quinhão.

 Devemos lembrar que em nosso país, a Arquitetura (no caso, Arquitetura e Urbanismo) é uma profissão de mercado restrito, predominantemente realizada por brancas, (as mulheres predominam), o que destoa da composição étnica da população, de evidente presença afrodescendente, também desproporcional em relação à graduação acadêmica, por exemplo. No RS, fica mais pronunciada essa distorção, só amenizada nos últimos anos com a implementação das necessárias ações afirmativas que democratizaram os corredores universitários, entre outras searas, não sem contestação. Como universitário nos anos 90, praticamente não tive colegas negros (ou indígenas) e, sem dúvida, não assisti nenhuma disciplina com algum professor negro, até porque não havia. Quiçá acontecimentos como este do Kéré nos tragam ventos de mudança e alguma esperança.

Nascido em Burkina Faso e com escritório em Berlim, ele é o único africano a figurar em tal deferência, fruto de um trabalho “contemporâneo” marcado por uma base cultural consciente, não comprometida por estereótipos ou fetiches. Da síntese de um repertório moderno e tradicional, em obras não limitadas ao continente de nascimento, surgem soluções climáticas e econômicas pertinentes ao lugar, acompanhadas de uma preocupação social e simbólica que potencializa as várias dimensões da prática arquitetônica enquanto forma, função e técnica.

Eis aqui um mote que nos interessa diretamente: mutatis mutandis, tal raciocínio pode nos desvelar inúmeras oportunidades ao olharmos para  espaços culturais como os ligados ao tradicionalismo gaúcho. Sem esgotar outras possibilidades, as edificações que abrigam estas manifestações mereceriam enfoques diferenciados enquanto objetos arquitetônicos (e urbanísticos), de maneira que suas questões sejam pensadas com amplitude, conectando o erudito ao vernacular, condição que enriqueceria a concepção de equipamentos que já consomem consideráveis investimentos, incluídos nesse rol recursos públicos via leis de incentivo.

Haveria avanços se visões como as de Kéré atravessassem nosso importante movimento tradicionalista, incentivando este segmento a aproximar  suas demandas ao tema, com impactos para além do meio cultural. Então, quem sabe, em um futuro viável, algum prêmio seja destinado a um singelo, mas não menos complexo projeto de CTG, resultado de nossas múltiplas identidades traduzidas e tensionadas. Seria uma façanha!

*Arquiteto e Urbanista, Conselheiro Estadual de Cultura e membro do SAERGS