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Stefan Costa, de Duque de Caxias, 2021 (Gabz/divulgação)

Fotógrafo não-binário registra as muitas possibilidades de Ser.Trans

Enquanto Gabz vivia o início de seu processo de transição de gênero, percebeu um padrão nas buscas sobre o assunto na internet: a presença frequente das “listas de passabililidade”, isto é, instruções de como ser uma pessoa trans parecendo ser uma pessoa cis. Ou, então, de listas com uma série de itens que você precisaria cumprir para saber se vive ou não um processo de transição. Os conteúdos eram mais restritivos do que informativos, e pareciam indicar que você só é trans “se” – se passar pela hormonização, se sentir disforia em relação ao corpo, se desejar parecer-se apenas com o gênero binário contrário.

Incomodado com a circulação de tantas informações erradas, que reforçam estigmas sociais sobre a transgeneridade, Gabz começou a desenvolver o desejo de que as referências e as histórias fossem ampliadas. Que quando alguém buscasse saber mais sobre a vivência de uma pessoa trans, como ele fazia naquele início, não se deparasse com a angústia de precisar se enquadrar em uma maneira única de ser. Em maio de 2020, a partir de um manifesto lançado no Instagram, criou o projeto Ser.Trans. “Que essas pessoas sejam vistas e ouvidas, para que outras pessoas possam ser vistas e ouvidas”, anunciava a primeira publicação.

Fotógrafo e videomaker, nascido em Porto Alegre, Gabz entendeu que para que outras narrativas fossem contadas, novas imagens precisam ser criadas. O projeto une texto e fotografia, trazendo retratos e entrevistas de pessoas trans, não-binárias e travestis. “Ser.Trans nasce dessa parte de coisas muito ruins, de faltas e necessidades não atendidas. Mas também nasce de afeto, amor, carinho e cuidado. De uma vontade que as pessoas, principalmente as mais novas, tenham acesso a narrativas que são diferentes da disforia, do ódio, da exclusão”, explica. Gabz começou fotografando amigues e pessoas próximas, com quem já trocava experiências. Achava importante, desde o início, que as histórias fossem contadas em primeira pessoa por quem participa do projeto.

Ávine, de Bento Gonçalves, 2022 (Gabz/divulgação)

Prestes a completar dois anos, 25 histórias já foram contadas. Os retratos são construídos em dupla, com a pessoa fotografada, em um ambiente que seja confortável para ela. A prioridade é que seja em casa, já que o Ser.Trans procura trazer uma perspectiva íntima e pessoal de cada vivência. Mas cada ensaio é único e o artista procura entender as subjetividades daquela pessoa, para então, construir a imagem. “A gente está falando de um marcador muito específico que é a transgeneridade, mas as pessoas moram em lugares diferentes. Habitam corpos completamente diferentes. Têm famílias diferentes. Crescem em comunidades diferentes. Tem acesso ou não a uma escolarização. São muitos outros marcadores”, lembra.

Encontro de processos

A história do projeto confunde-se com a própria jornada de Gabz enquanto uma pessoa trans. Quando se percebeu em transição, o fotógrafo recém tinha completado 28 anos. Para ele, aquele foi um momento marcado pela importância de ouvir muitas histórias que pudessem dialogar com os processos internos que vivia. “Me deparei com os relatos em uma época que eu queria experimentar muito. Desejava experimentar meu corpo, experimentar com a hormonização. Na época, não queria ter barba, não pensava em fazer cirurgia. Foi importante para mim ter tido espaço para pensar sobre essas coisas.”

“Passei muito tempo tentando escantear isso da minha vida, de uma forma inconsciente”, conta Gabz. A falta de referências positivas e a constante violência comum em infâncias e adolescências dissidentes fez o artista levar um tempo a se dar conta de outras possibilidades de ser, para além de binariedade. O cis-tema (em que o cis é uma estrutura opressiva e normativa) promove a poda e segue tentando patologizar e marginalizar existências que desafiam a norma.

Lazuli Ricci (direita) e Caru (esquerda),Porto Alegre, 2022 (Gabz/divulgação)

“Foram vários momentos na infância, e na adolescência, em que eu volto e me pergunto ‘o que poderia ter sido?’. Tenho muito orgulho de tudo que aconteceu na minha vida, mas não gostaria que outras pessoas demorassem tanto para poderem experimentar com quem elas são. E não é nem ‘demorar tanto para perceber que são pessoas trans’. E, sim, para poderem experimentar, se sentirem livres, para também mudar ”, conta. O encontro com outras vivências reveberou no próprio processo de Gabz, que ao longo do projeto passou a se sentir mais confortável em se identificar enquanto não-binário – seus pronomes são ele/dele.

Atualmente, o Ser.Trans é realizado por uma equipe de três pessoas: Lau Graef (responsável pelas transcrições dos relatos), Luka Machado (redes sociais) e Morgan Lemes (assistente de fotografia). A expansão foi possível graças ao recurso vindo do Edital “Eu Sou Respeito”, promovido pelo Ministério Público com a multa paga pelo Santander Cultural devido à censura contra a Exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, em 2017.

Contemplado pelo Edital, o projeto, que antes era mantido apenas por financiamento coletivo, pode também viajar para outras cidades do Rio Grande do Sul, fotografando e entrevistando pessoas trans. Em 2021, Gabz e Morgan realizaram dez ensaios, nas cidades de Bagé, Bento Gonçalves, Capão do Leão, Caxias do Sul, Santa Cruz do Sul, Santa Maria, Porto Alegre e Rio Grande. O movimento foi importante para concretizar outro desejo do projeto: descentralizar as narrativas.

Imagens

Uma palavra que Gabz fala com frequência ao descrever o trabalho feito no Ser.Trans é “autoamor”. Isso porque, apesar de ser um termo que vem sendo usado massivamente nas redes, a relação que costuma ser vinculada a pessoa trans com seus corpos é a contrária. “Somos ensinados a nos distanciarmos dos nossos corpos. Dizem que tu tem que se odiar, que tu tem que querer ter um corpo diferente, que tu tem quer ter nascido de outra forma”, reflete. “É um dos discursos mais violentos que existem entre a gente e que muitas vezes é reforçado por nós mesmes, de uma forma até internalizada”. Entre as propostas do projeto é falar também de beleza e potência quando se narra as histórias. Que seja um espaço seguro de desabafo, de partilha, mas também de celebração.

Morgan Lemes, Porto Alegre, 2020 (Gabz/divulgação)

É possível ver as imagens mudando ao longo do tempo. Os primeiros ensaios traziam fotografias em tons mais sóbrios, puxados ao azul, com menos luz. As imagens mais recentes são, na maioria, em cores vibrantes, tons abertos. As escolhas estéticas do projeto foram sendo construídas organicamente, conta Gabz. O artista, que nunca estudou formalmente fotografia, acredita que a estética é fruto de experiências diversas de sua trajetória, como o estudo de direção cinematográfica, em 2017, quando viveu no Rio de Janeiro.

Uma das características do projeto é o uso da fotografia analógica. Inspirado por um movimento de retorno ao filme que aconteceu nos últimos anos na internet, como #filmisnotdead, Gabz conta que começou a gostar do resultado e do processo longe do digital. A materialidade diferente dada pelo analógico e o cuidado maior para pensar nos enquadramentos e cliques, fez o artista querer experimentar mais com o filme. “O digital é muito futurístico, por mais que a gente esteja vivendo ele agora. No analógico tu não vê o que está fazendo, até se materializar, explica. “Com o Ser.Trans eu trazia a fotografia analógica de forma muito tímida, porque o filme era caro, a revelação era cara. Todo processo era inacessível. Eu usava um rolo de 36 poses para quatro ensaios. Com o recurso, consegui usar um rolo de filme por pessoa.”

Corpos livres

Morgan Lemes, Porto Alegre, 2020 (Gabz/divulgação)

Apesar de o Instagram ser a principal ferramenta de divulgação do projeto, a plataforma ainda é limitante para o trabalho. Por isso, a equipe incentiva as pessoas a visitarem o site do Ser.Trans, onde as entrevistas estão completas e as fotos não são sujeitas à censura do Instagram. Gabz lamenta que precise sempre estar atento à publicação das fotos, pois já foi notificado algumas vezes e teve, inclusive, uma conta pessoal perdida ao publicar imagens do corpo. “Quando a gente fala de pessoas trans, pessoas não-binárias, travestis, essa censura não tem muito um padrão que segue. Ela existe”. Ele conta que algumas vezes já conseguiu boicotar com hashtags, como #homemtrans, quando a foto é de uma pessoa que não fez a mastectomia. “Com a hashtag, muitas vezes esse corpo não é censurado, mas geralmente só se esse é um corpo magro, se é um peito pequeno.”

Gabz, ao observar métricas da plataforma, percebe que o algoritmo tende a favorecer a visualização de corpos que atendem mais à correspondência com a cisgeneridade. Apesar de lamentável, não surpreende. Inclusive quando se fala em experiências trans, que já são estruturalmente marginalizadas, há expectativas e padrões que insistem em se impor. Mas a própria existência, e cada vez mais crescimento do projeto – hoje com mais de 6 mil seguidores no Instagram, mostra que há como romper.

O desejo do artista agora é que o Ser.Trans se multiplique também fora do digital. Como resultado das viagens pelo interior do Rio Grande do Sul, Gabz está trabalhando em uma série de três zines com lançamento previsto para o fim de abril. As publicações terão, inicialmente, distribuições gratuitas em lugares como ambulatórios, escolas e hospitais. Os pequenos livros vão permitir que os dez ensaios recentes possam ser vistos por um público mais amplo.

Nas páginas, os corpos estão livres. “Não vão estar censurados e não tenho vontade nenhuma que estejam”, enfatiza. O projeto segue com o propósito de que diferentes narrativas sejam contadas. “Que a gente tenha acesso a muitas referências. E não a só um tipo” . “A questão das possibilidades vai além para questão da transgeneridade. Esse projeto é sobre isso também: qualquer pessoa pode se beneficiar de uma pessoa sendo livre, de alguém falando sobre a liberdade de ser se é”, conclui.

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estudante de jornalismo da Ufrgs e artista visual. Gosta de ouvir histórias - vividas e sonhadas.
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