Diego Lopes/Câmara Rio-Grandense do Livro

Recortes | Feira do Livro, A Feira do Livro, Uma Feira do Livro 

(Essa é a primeira coluna de literatura Recortes, que terá periodicidade quinzenal, sempre na terça-feira. Tem sugestões de pauta? Manda para o e-mail rafaelgloria@nonada.com.br)

Quem será que foi a primeira pessoa que teve a fantástica ideia de colocar bancas em um espaço público e organizar um evento girando em torno do objeto livro? 

Aqui em Porto Alegre temos a Feira do Livro de Porto Alegre, sem nenhum artigo, configurando, então, uma espécie de evento em que sempre há um ar misterioso. Com eleições constantes para a presidência na Câmara Rio-Grandense do Livro, a organizadora do evento, e escolhendo a cada ano patronos diferentes. Agora, em 2022 chega à sua 68º edição, que acontecerá de 28 de outubro a 15 de novembro, na Praça da Alfândega, sendo que o poeta Carlos Nejar foi o homenageado escolhido, sucedendo ao seu filho, Fabrício Carpinejar, o patrono de 2021…  

Lá em São Paulo, capital, aconteceu dias atrás a primeira A Feira do Livro, nascida como uma uma afirmação, composta pelo artigo definido. Também em um espaço público, em frente ao estádio Pacaembu, como deve ser. A Feira juntou, em cinco dias, editores, livreiros, autores e público leitor. Paulo Werneck, o idealizador do evento ligado à Associação Quatro Cinco Um, me explicou que o evento de Porto Alegre é uma das inspirações. “Então tentamos ir atrás de um nome neutro para que as pessoas chamassem apenas de ‘a feira do livro’ como em Porto Alegre as pessoas dizem ‘vou na feira do livro’. Um nome neutro”. 

Fico pensando em como seria Uma Feira do Livro. Sem o caráter definitório de São Paulo, sem o mistério e as homenagens de Porto Alegre. Apenas indefinida: mais uma Feira entre várias outras Feiras. E que bom. Porque, no fim, o que importa não é quem fez primeiro, e sim que continue acontecendo, com diferentes formatos e focos. Afinal, é preciso voltar a ocupar as ruas (tomando todos os cuidados devido à Covid que ainda nos assola), porque 2022 é um ano-chave em todos os sentidos.

Curtas 

–  Ainda continuando na linha de eventos literários, a Flip volta a ser totalmente presencial esse ano e repete a curadoria coletiva, com três visões para formar o evento. Em 2022, será composto por Milena Britto, professora da Universidade Federal da Bahia, o crítico literário Pedro Meira Monteiro, que é docente de literatura brasileira na Universidade de Princeton e participou como co-curador na edição de 2021, e a jornalista e escritora Fernanda Bastos. Bastos é autora dos livros de poesia Dessa cor, em 2018, e Eu vou piorar, em 2020. Atua também como apresentadora na TVE RS e como produtora de conteúdo na Plataforma Feminismos Plurais. Além disso, ela também é uma das fundadoras da editora Figura de Linguagem.

– A antologia Contos da SEPÉ reúne 50 contistas publicados ao longo das suas edições de 2020 e 2021. Organizada por Lucio Carvalho, editor da revista, a publicação está com uma campanha de financiamento. Procurando espelhar a diversidade literária do Rio Grande do Sul, o livro é uma amostra do vigor do conto contemporâneo produzido nesse estado. Saiba mais aqui

– Já estão abertas as inscrições para “O Desafio Literário”, que ocorrerá no período de 30 de outubro a 3 de novembro, no Pavilhão de Autógrafos da Feira do Livro de Porto Alegre. Os inscritos no Desafio deverão produzir textos literários em cinco gêneros diferentes – miniconto, poetrix, poema livre, crônica e conto – nos quais deverão ser abordados temas sorteados momentos antes do início das atividades. Inscrições aqui

– O livro Estela Sem Deus, do escritor Jeferson Tenório, vai ganhar um relançamento em agosto agora pela Companhia das Letras. Lançado originalmente em 2018, trata-se do segundo romance do autor e traz como protagonista Estela, de treze anos, que quer ser filósofa. A obra agora terá orelha da escritora Djamila Ribeiro e arte de Antônio Obá. Relembre nossa entrevista com ele. 

Para ler  

Em maio, a escritora Irka Barrios lançou o livro Júpiter Marte Saturno que traz 14 contos que trabalham com a literatura fantástica, aproximando o horror do cotidiano e vice-versa. As histórias são variadas e conseguem instigar o leitor, seja capturando a angústia e a crueldade de um linchamento a partir de uma história de nascimento em A Letra A, passando por um aparente normal jantar e que se transforma em uma verdadeira história de terror relacional (até quando conhecemos uma pessoa?) em Conceito comida semelhante e transformando um bonecão de uma loja de departamentos em um monstro real (e será que não é mesmo?) no conto Bonecão. Vale muito a leitura. 

Para acompanhar 

O escritor, poeta, filósofo e ensaísta Ronald Augusto também é uma personalidade interessante de acompanhar nas redes sociais. Principalmente o Facebook, apesar dessa rede social já ter visto dias melhores, seus comentários (muitas vezes sarcásticos) e discussões ainda valem a entrada por lá. Aliás, ele acabou de publicar o livro Crítica Parcial, em que parte da ideia de que “toda crítica é parcial,  mesmo que o crítico não perceba, ele assume um lado”.  

Fala

Perguntei para a escritora Natalia Polesso como ela conhece o mundo atualmente

“Acho que nossa informação está sempre muito mediada pelas telas e às vezes dependendo do veículo, a coisa é muito espetaculosa, acho que a pandemia foi muito pesada para todo mundo em termos de informação. Eu, por exemplo, fiquei viciada em noticiários e tudo mais, porque eu queria saber os dados da covid, e chegou uma hora que eu pensei…A morte está espreitando, e é bizarro isso. Eu assisti recentemente uma série chamada Working in Progress e tem um momento em que estoura a Covid e a personagem começa a ver a morte assim, tipo, passeando com o cachorro, varrendo uma casa. E era meio assim que eu me sentia com essa mediação constante da tv, da notícia…Era estar com essa mediação da morte. E pensando em termos políticos, um ano de eleição com o projeto de morte do Bolsonaro acho que a gente continua com a mediação assim. Então, por vezes, eu tento me afastar, de fato, eu gosto de acompanhar notícias e ver os jornais. Eu leio, vejo twitter, acompanho as notícias que estão sendo compartilhadas nas redes sociais, mas, muitas vezes eu tento me evadir. Para a nossa saúde e para o nosso projeto de vida, projeto coletivo. O que é ser decolonial? O capitalismo ele está no colonial, no projeto de extermínio e morte, das alteridades, tudo o que não é o homem branco, rico, do norte global, que é de tradição…E para a gente conseguir sucesso no nosso projeto decolonial, de escapar disso, não dá para ficar sempre mediado por essas notícias, porque se não a gente não tem saúde para isso. E olha que estou falando de uma posição super privilegiada, porque pensando em todas as tensões que nos atravessam em questões de raça, gênero e classe, né, ainda estou em um lugar que é menos tenso, por exemplo, do que uma sapatão preta de periferia”. 

A entrevista completa com a escritora você acompanha no Nonada na primeira semana de julho.

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Jornalista, Especialista em Jornalismo Digital pela Pucrs, Mestre em Comunicação na Ufrgs e Editor-Fundador do Nonada - Jornalismo Travessia. Acredita nas palavras.
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Um comentário em “Recortes | Feira do Livro, A Feira do Livro, Uma Feira do Livro 

  1. Rafael, parabéns! Vai fazer sucesso. Matéria inicial e depois um balaio de informações.
    Sucesso pra você!!

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