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Fernanda Verdi/Arquivo pessoal

“O público precisa comprar os artistas locais”, diz co-idealizadora do Circuito Orelhas

Patricia Wisnieski*

Com mais de 15 anos dedicados à música, a cantora, compositora e produtora cultural Miri Brock tem vivido um novo momento em 2022. Ela conhece bem o cenário cultural do Rio Grande do Sul e as dificuldades de ser artista no Brasil, não só por sua longa jornada como cantora, mas por ser uma das idealizadoras do Circuito Orelhas, projeto que busca impulsionar a cena musical gaúcha e dar espaço para artistas independentes mostrarem seu trabalho. 

O projeto foi contemplado pelo edital Natura Musical de 2020 – que só pode ter as atividades realizadas entre o final de 2021 e o início de 2022, por conta da pandemia – o que possibilitou que percorresse as cidades de Porto Alegre, Caxias do Sul, Santa Maria, Uruguaiana e Pelotas, oferecendo shows, palestras e mentorias, e fomentando o cenário artístico desde a Capital até o interior do Estado. 

Aos 36 anos, a artista gaúcha se prepara para lançar o primeiro álbum da sua carreira solo – com previsão de estreia para o mês de agosto. Entre as músicas, os hits já lançados “Corre amor”, “Nem me responde mais” e “Me diz o que que é” compõem o EP, que conta ainda com outras duas produções que virão com a estreia da obra completa. 

Em um misto de boas expectativas sobre seu novo momento da carreira e também de desespero pelo cenário cultural do Brasil atualmente, Miri conversou com o Nonada sobre sua produção e os problemas enfrentados diariamente por artistas independentes que buscam espaço em meio ao cenário caótico de desvalorização da cultura no país. 

A partir da tua vivência com o Circuito Orelhas, como tu avalia o cenário cultural do RS? 

Miri Brock – Tem várias questões para avaliar. Primeiro, a gente lançou um edital para que artistas de todo o estado se inscrevessem. Aí a gente notou que as cenas autorais no interior são muito escassas. Se aqui na capital a cena já não é tão desenvolvida, no interior, em algumas cidades, a gente teve pouquíssimas inscrições. Mesmo com muita divulgação, impulsionamento de publicações e conversa com todos os produtores culturais das cidades, não tinha. Com isso, a gente percebeu que a cena precisa de mais incentivos como esses para que as bandas tenham onde tocar, tenham onde mostrar seu trabalho, tenham como se desenvolver. 

Em POA, a gente recebeu uma enxurrada de inscrições, a gente vê que aqui não faltam bons artistas, foi dificílimo escolher as apresentações. A gente tinha uma ajuda de custos para os artistas, como eram muitos, a gente não tinha um cachê, e tinha pessoas super experientes pleiteando as vagas, então aí tu vê o problema. 

Aqui no RS, a gente tem uma cena que eu considero uma das menos desenvolvidas no Brasil, e é, porque se tu for ver, circula por aqui gente do Brasil inteiro, mas onde estão os artistas daqui circulando no resto do país? Então essa é uma questão que precisa ser resolvida. Além disso, na parte técnica também tem isso, porque o nosso edital também seleciona o pessoal para trabalhar e não tinha mulher fazendo a parte técnica no interior. Ainda tem poucas mulheres inseridas nesse cenário, é algo que precisa ser desenvolvido, na minha opinião, mais mulheres, mais minorias como um todo nessas áreas. 

Por fim, falta profissionalização, porque as bandas que foram selecionadas e as pessoas que foram contratadas, muitas não tinham CNPJ, não sabiam como tirar uma nota fiscal, não tinham a menor noção. Pra resumir, eu acho que a nossa cena está desprofissionalizada, ela precisa de mais incentivo, mas tem gente boa, tem gente com vontade de fazer. 

O que você percebe em relação aos incentivos e investimentos no setor cultural atualmente? 

Miri Brock – São poucos. O maior edital de música hoje é o da Natura e tinha que ter uns 50 como esse por aí, tinha que ter mais. São poucas empresas que estão dispostas a fazer isso, até por uma questão cultural, no sentido de que ainda tem muitos empresários que não enxergam a cultura como um bom investimento. A cultura é muito marginalizada no nosso país, a gente tem um presidente que é contra a cultura e as pessoas que têm muito dinheiro, e apoiam ele, também acham que o que a gente faz não tem valor, que é tudo bagunça. Essas pessoas não conseguem entender que esse dinheiro que vem da isenção fiscal para um projeto cultural tem retorno. 

A gente produz, sim, riqueza, e a gente faz a roda girar, mas existe muito preconceito ainda na nossa área. E por causa da desprofissionalização tem muita coisa que acaba saindo errado. A nossa classe artística está agonizando desde que o governo Bolsonaro começou. O jeito é manter a esperança de novamente ter um governo que valorize a arte e a cultura, porque sem esses incentivos fica realmente muito difícil. 

O que tu tem percebido de produção cultural no estado através de cada edição do Circuito Orelhas? O que a gente pode esperar desses artistas que estão buscando espaço no RS?  

Miri Brock – O nosso cenário ele tá, assim como o cenário brasileiro como um todo, passando dificuldades, são poucos os editais e os que vêm são muito demorados e muito burocráticos. Eu vejo que tem uma cena, especialmente aqui em Porto Alegre onde eu estou mais inserida, que está tentando fazer parcerias, se unir para lançar coisas legais, se profissionalizar e entender que é uma caminhada. Mas faltam espaços na nossa cena e falta também o público comprar os artistas locais, falta uma educação maior nesse sentido pra coisa andar um pouco mais. A nossa cena tem potencial, mas ela precisa de ajuda.  

Na última edição do Orelhas tinha uma cota de 70% destinada para negros, LGBTQIA+, indígenas e mulheres. Como e por que esses critérios foram estabelecidos?

Miri Brock – Esse edital era de diversidade, precisava ter uma curadoria que fosse voltada para as minorias. Aí primeiro a gente escolheu as cinco artistas de fora que participaram e eram todas mulheres, dentre elas duas mulheres trans, duas mulheres pretas (uma delas também trans) e uma indígena. Elas já eram a cara do projeto, então a gente precisava encontrar artistas que também pudessem se assemelhar. E óbvio que a gente teve que selecionar bandas também de homens e mulheres cis brancas, mas eu acho que esses recursos que vêm de lei de incentivo têm que ser colocados para tentar dimiuir alguma disparidade. E a gente tem uma disparidade de gênero na música visível, é só pegar os cartazes de festivais. Isso foi algo que a gente prometeu pra Natura porque, além de ser algo que a Natura estava querendo, a gente sempre teve no Orelhas essa ideia de valorizar o trabalho das pessoas pretas, LGBT, indígenas e mulheres. 

Como está sendo a retomada do setor cultural após dois anos de pandemia e qual é o esforço necessário para que a cena volte ao que era antes da pandemia? 

Miri Brock – Eu acho que a retomada está tendo várias características. Por um lado, tem um público muito sedento por assistir shows de novo, pois foram dois anos de privação de poder assistir a estes eventos. Por outro lado, para a cena que já era mais prejudicada, que é a independente e a menor, está ainda mais difícil, porque, embora o público também esteja querendo ir, as logísticas estão inviáveis para os artistas, por conta da inflação e da crise econômica que está se instalando e que vai piorar cada vez mais. 

Como tu vê os ataques constantes do governo aos artistas e ao setor cultural?

Miri Brock –  Primeiramente, Fora Bolsonaro. Eu tô amando que a Anitta, com sua tatuagem, nos ajudou a mostrar mais uma hipocrisia desse governo, a grande hipocrisia que os governos de direita mais fazem: acusar a esquerda de fazer o que eles fazem. 

O Bolsonaro e esse governo não me surpreendem porque eu espero realmente sempre o pior deles, eles não são pessoas cultas, não são pessoas que sabem valorizar a arte, então não tem como esperar deles que alguma coisa vai vir. É muito triste, eu fico arrasada. 

A gente fez 20 shows, 15 palestras, festival online, tudo isso com logísticas, com o nosso trabalho por meses, comunicação, equipe de áudio e vídeo, 60 profissionais contratados diretamente e 100 indiretamente, com R$ 200 mil, e aí os caras vão lá nas prefeiturinhas que nem saneamento básico tem na cidade e cobram R$ 1 milhão por um show. É desestimulante, desesperador. Mas eu sou uma eterna otimista, eu acredito que esse pesadelo está acabando e que as pessoas que porventura elegeram esse cara tenham se dado conta.

Miri tem mais de 15 anos de experiência musical e vê novo momento como a realização de um sonho (Fernanda Verdi/Arquivo pessoal Miri Brock)

Como iniciou a tua carreira como artista? 

Miri Brock – Eu sempre fui uma artista, desde criança eu sempre fui das artes. No colégio, eu era aquela criança que fazia parte do grupo de dança, de música. A arte sempre esteve muito presente na minha vida. Mas por muito tempo isso foi uma coisa que eu deixava ali como um hobby, sempre em segundo plano na minha vida. 

Eu vim do interior, nasci em uma cidade bem pequenininha chamada Espumoso e cresci em Três de Maio. Esses são lugares onde eu não tinha nem referência de pessoas que tinham conseguido fazer a vida como artistas, muito menos de mulheres. Isso foi lá entre os anos 80 e 90, naquele momento eu não conseguia enxergar muito futuro na arte. Então com 15 anos eu me mudei para Santa Maria para estudar, e aí na faculdade eu comecei a fazer minhas primeiras bandas e comecei a cantar em barzinhos, ali pelos 17, 18 anos. Foi um período fazendo cover em barzinho, enquanto eu cursava a faculdade de Comunicação Social, eu sou formada em Publicidade e Propaganda.

Aos 25 anos eu fiz a minha primeira banda autoral, a “Louis e Anas”, ainda lá em Santa Maria, e a gente também começou como uma banda cover de música soul, pop e black music. Depois fomos compondo as nossas primeiras músicas. 

E como tu vê esse novo momento de carreira solo? 

Miri Brock – Eu vejo esse momento como um sonho realizado. É algo que eu protelei por muito tempo, mas já tem uns anos que eu tô investindo de verdade na música e isso está sendo maravilhoso. Porque tanto na Louis, que era a banda autoral que eu tive antes, quanto no Glitch, que foi um  projeto experimental que eu tive durante a pandemia, sempre eram músicas que, algumas até eram minhas, mas que eram criadas em conjunto com outras pessoas e tal. E agora poder mostrar quem realmente eu sou e o que eu quero expressar, da minha forma, está sendo muito incrível. Às vezes eu penso “Poxa, eu já tenho 36 anos” e eu acho que isso me dá uma vantagem porque eu já sei o que eu não quero, eu já errei um monte de coisa, então começar essa carreira solo já um pouco “tardio” me dá uma segurança, justamente por saber o que eu quero e como eu quero que as coisas sejam feitas. 

Fala um pouco sobre as histórias por trás das músicas “Nem me responde mais”, “Corre amor” e “Me diz o que que é”? 

Miri Brock – “Corre amor” eu escrevi depois de um Carnaval em que eu meio que me apaixonei por um carinha, a gente ficou o Carnaval todo juntos, aquela coisa super romântica, que nós mulheres romantizamos o rolê pra caralho, e eu achei que ele estava sentindo a mesma coisa que eu, uma paixão fulminante, uma coisa muito forte. Um mês depois do Carnaval eu fui pra São Paulo, onde ele mora, e aí a gente se encontrou e foi legal, mas foi muito mais frio do que eu esperava que ia ser. Foi um balde de água fria e eu pensei “Nossa, cadê aquele amor, aquela intensidade do Carnaval?”. Foi legal, mas não foi aquela coisa que eu esperava, e aí eu meio que me decepcionei. Eu voltei pra POA e ficou aquela coisa “Ah, deixa pra lá que eu vou ficar aqui sozinha mesmo”. E foi louco porque eu dei uma dormida no sofá e acordei com as estrofes dessa música prontas na minha cabeça – claro que teve uns ajustes depois, mas foi mais ou menos isso.

“Nem me responde mais” já foi um quase amor pandêmico. Eu comecei a ficar com um menino e a gente se relacionou por uns 6 meses, se vendo a cada 15 dias, um mês. Até que chegou aquele momento “ou namora ou não namora” e eu, de fato, não estava apaixonada por ele, mas a conchinha era uma delícia, o sexo era bom, e tinha virado aquela coisa confortável, eu não queria retornar para a “selva” da internet na pandemia. A gente teve uma conversa final e ele falou “a gente pode seguir se falando, vamos seguir amigos, uma hora se a gente quiser a gente pode dormir juntos”. A gente ficou um tempo sem se falar e então ele ressurgiu na minha vida e começamos a nos falar muito, quase todos os dias. Quando chegava o final de semana ele me respondia até umas 4, 5 da tarde e depois ele sumia e só voltava no domingo. Não deu dois meses e ele estava namorando. Na letra tem a parte “quando isso acabar eu vou te achar tão pouco”. Ele é uma pessoa muito legal, mas hoje em dia eu vejo que realmente eu não estava apaixonada, a gente não tinha nada a ver, ia ser um namoro por pura carência. 

Já “Me diz o que que é” fala sobre uma pessoa que eu nem beijei. Com isso de produzir shows, em 2019, eu conheci muitos artistas legais de perto e teve um que eu nem achava ele bonito, mas sabe aquelas pessoas que têm uma aura, que eu pensei “Nossa, que pessoa interessante”. A gente passou o dia juntos e chegou a rolar um climinha, mas não aconteceu nada. O show foi incrível, foi o melhor show do Circuito Orelhas. No outro dia, ele foi embora e eu fiquei obcecada, só que era isso, como eu não tinha nem beijado, foi uma coisa assim “Mas o que que essa pessoa deixou aqui dentro de mim?”. 

Miri encontra inspiração em tudo, mas principalmente, nas suas relações com as pessoas. (Rafael Bauer/Arquivo pessoal Miri Brock)

Quais são as tuas inspirações? 

Miri Brock – Tem várias, meu cotidiano e as relações com as pessoas são coisas que me inspiram muito. Esse EP vai ser todo sobre as minhas relações afetivas com as pessoas e muito das minhas inspirações vem daí: viver uma coisa e ter um sentimento e aí ter a necessidade de extrapolar esse sentimento para aprender a lidar com ele. Músicas que eu gosto também me inspiram. Em “Nem me responde mais” eu tava ouvindo muito “On my mind”, da Jorja Smith e Flora Matos, que me inspirou muito para fazer uma música nessa vibe mais soul, pop. Além disso, cinema, moda, fotografia, a gente acaba pegando um pouquinho de tudo que a gente vê por aí e vai se inspirando e colocando nas criações. 

Nos próximos meses tu vai lançar teu primeiro EP. Quais são as expectativas para essa estreia? 

Miri Brock – Outra coisa boa que vem com a idade é aprender a manejar as expectativas. Eu já venho desse processo aí lançando singles, mas eu sinto que muitas pessoas ainda estão tentando entender quem é Miri Brock sonoramente porque os singles são muito diferentes entre eles. Eu acredito que, quando as pessoas ouvirem o disco, elas vão entender a coerência que existe nele, porque as músicas, embora sejam diferentes, têm uma coesão ali de temas e tal. Então eu estou com a expectativa de conseguir lançar esse trabalho. Ter um disco é algo que vai me abrir portas para outras oportunidades. Vai ser um marco muito importante da minha carreira. Eu estou muito empolgada, com essa expectativa de que vai ser bem recebido pelo público, pela crítica, pelas pessoas em geral. Espero que as pessoas ouçam e comprem o meu trabalho porque eu tô me propondo a fazer um negócio que tem esse clima pop divertido. Quero poder realmente representar o Sul no Brasil. 

O que o público pode esperar desse lançamento? 

Miri Brock – As pessoas podem esperar cinco hits de quase amor. São histórias contadas com base em experiências que eu vivi. É um disco que vai ter quatro músicas que são bem dançantes e uma que é um pouco mais baladinha, mas não chega a ser uma balada, pois é uma das mais profundas, que surgiu de uma dor mais profunda. As pessoas podem esperar um disco de música pop brasileira, gostosinho de ouvir, gostoso de dançar. É um EP feito, principalmente, para as mulheres se identificarem, porque eu acho que as histórias que eu trago muitas já passaram ou vão passar. Dá para esperar um disco para ouvir e sentir “Poxa, não sou só eu que sinto isso”. É isso que eu espero que as pessoas sintam. 

*Estudante de Jornalismo da Unisinos. Essa entrevista é uma parceria do Nonada com a Beta Redação, portal experimental do curso de Jornalismo da Unisinos, e foi realizada sob supervisão dos professores Débora Lapa Gadret e Felipe Boff.

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