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arquivo pessoal

“Por um sindicato das drags”: uma conversa sobre a profissionalização das drag queens

Douglas Glier Schütz*

“Ser LGBT é um ato político. Transformar isso em arte, transformar num trabalho, é ainda mais político. Principalmente no país que mais mata LGBTQIA+s no mundo”, explica Luis Borges, que dá vida à drag queen Dylan Summers.

Estudante de Teatro pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e bolsista do Programa de Extensão “Quem Quer Brincar”, ele explica que desde criança já sentia mais proximidade com personagens ditos femininos. “Conversando com algumas amigas drags, as personas drags, a história é bem parecida até. Eu gostava de brincar sempre com brinquedos ‘de menina’. Quando brincava, eu interpretava personagens femininos o tempo todo e isso também refletiu na minha carreira como ator mais tarde”, conta Luis.

No período que os teatros ficaram fechados, por conta das restrições da pandemia, Luis queria experimentar outras formas de arte. “Me vi fora do teatro e percebi algumas pessoas atuando nas redes sociais, mas não foi muito a minha vibe. Fui convidado a participar de uns projetos assim, mas não me senti contemplado, abraçado”, relata. O universitário, que já acompanhava o cenário drag por meio de reality shows como RuPaul’s Drag Race e tinha referências nacionais como Pabllo Vittar, Gloria Groove, Silvetty Montilla e Selma Light, percebeu-se mais interessado em experimentar essa arte.

Luis explica que no início o processo era difícil e demorado. O artista já havia pensado na maquiagem e no estilo, mas sua arte, a drag que estava nascendo, ainda não tinha um nome. Acostumado a assistir a filmes de ação protagonizados por mulheres fortes e consumir músicas, séries e outros produtos da cultura pop, decidiu que essas seriam algumas de suas referências. “Também me inspirei em pessoas da minha família, nas mulheres fortes da minha família. Porque a minha família é composta por muitas mulheres e elas é que mandam, entendeu? Os homens só obedecem ali. E elas sempre me abraçaram muito nesse quesito”, afirma.

Assim, em um dia 24 de fevereiro, aniversário de Luis, a artista Dylan Summers veio ao mundo. Daí em diante, Dylan e Luis caminham juntos para serem conhecidos pelo trabalho que realizam e dar ainda mais voz ao cenário drag no Rio Grande do Sul. “É importante pra gente, que é artista e que é artista LGBTQIA+, usar também esse papel, esse mainstream da nossa região como uma oportunidade de fala. Nós somos formadores de opinião. A gente tem a oportunidade de poder se expressar em prol da causa, tem que usar essa ferramenta”, afirma.

Confira a entrevista na íntegra:

Como tu explicaria para uma pessoa o que é a arte drag?

Luis Borges – Olha, eu explico da forma mais didática possível. Digo que é o meu trabalho, assim como o palhaço, o ator e o personagem no teatro. Ele é aquilo em cima do palco e eu estou agora aqui performando, montada. Quando eu tiro tudo isso, eu volto a ser o Luis depois do show, depois do evento que estou participando.

É um personagem, uma persona que acontece naquele momento e depois ela não acontece mais, não existe mais depois daquilo. É muito complexo falar sobre isso. Eu até fui convidado pra fazer uma fala sobre gênero e sexualidade na educação aqui na Faced [Faculdade de Educação da UFRGS] e falei um pouco sobre as diferenças entre trans e drag.

Drag não é gênero. Drag é arte, é profissão, é uma categoria dentro do teatro. E trans é gênero, é o que a pessoa é 100% da sua vida e do seu dia-a-dia. Drag, não. Drag é só quando a gente tem um trabalho, um evento, é uma profissão, assim como o palhaço, o bufão, o clown e a commedia dell’arte.

Como funcionou esse contato entre a arte e o artista?

Luis Borges – Dentro da arte drag, em menos de um ano e meio de experimento, eu aprendi mais coisas sobre indumentária, maquiagem e cabelo do que dentro da universidade de Teatro. Acho que dentro da faculdade a gente aprende muito mais coisa teórica do que realmente a prática da construção do espetáculo. Até não [aprende] tanto também sobre o mercado de trabalho, e a gente carece, né.

Falando sobre aceitação, eu só fui mais um homossexual na minha família. Da minha vó por parte de pai, todos os filhos dela, os meus tios, são gays. Inclusive meu pai, que assumiu há pouco tempo também. E aí a aceitação deles é maravilhosa. Eles me acompanham nos shows, inclusive no The Queens [maior competição de drag queens do Rio Grande do Sul], no concurso, todos eles foram lá me assistir, só da minha família eram 30 pessoas.

E a Dylan é isso, ela é uma referência forte dessas pessoas da minha família, das pessoas que eu “consumo”, esses artistas do cinema, da música, da televisão, é basicamente isso. Eu pego tudo, coloco no liquidificador, balanço e estou lá eu, “bum”, Dylan.

Começou na pandemia, mas como foi esse processo?

Luis Borges – Eu resolvi abrir uma conta no Instagram, que seria o primeiro veículo para poder divulgar o meu trabalho com drag. Comecei a trabalhar através de lives, né, ali no Instagram mesmo. Tentei no YouTube, mas não deu muito certo, daí eu fiquei no Instagram e através das lives me inscrevi, durante a pandemia, num edital da Lei Aldir Blanc. Fui contemplado e a proposta era fazer lives com lip sync [dublagem de músicas] ali e também falar sobre a arte drag, sobre o percurso histórico dos artistas transformistas.

Como funciona a questão da cultura pública para a arte drag? Existe apoio do setor cultural?

Luis Borges – Eu acho que fui privilegiado com a Lei Aldir Blanc. Ela é um repasse que foi para os municípios e eu moro em Viamão, aqui não tem tantos artistas ativos, entendeu? Então, tinha um número X de pessoas que poderiam ser contempladas. O edital aconteceu em Viamão três vezes, pois não tinha o número de pessoas suficientes para se inscreverem. Então, basicamente, quem se inscrevia acabava sendo contemplado,

Em Porto Alegre eu conheço drags que colocaram os projetos na roda, inscreveram seus projetos no edital e quase nenhuma foi contemplada. Na verdade, o único projeto que foi contemplado eu acho que foi o POA In Drag. Ele é uma parceria da Workroom com a Cassandra Calabouço e a Júlia Frans. São pessoas influentes em Porto Alegre e foi o único projeto.

Tinha muita gente se inscrevendo. Pessoas até que eram do teatro, pararam de fazer teatro, ingressaram na carreira drag, mas não foram contempladas em projetos sobre drag. Acho que não só sobre drags, mas projetos queer e LGBT como um todo. Tem um grande preconceito, a gente mora no Rio Grande do Sul, um estado que é super conservador e os artistas também são.

Aqui em Porto Alegre, na classe artística, existe o teatro, existe a música, existe a dança e daí existem os artistas LGBTs, separados, que quase nunca participam de festivais como Porto Alegre em Cena e Porto Verão Alegre.

Por que existe essa separação de não ver a arte drag como algo do setor artístico?

Luis Borges – Ela [a arte drag] é vista como uma “não-arte”. Tem gente que recusa, que nega e não afirma que drag é teatro. Só que drag é teatro puro. Inclusive, a arte drag nasceu dentro do teatro. Mas sim, existe esse preconceito com os artistas, mesmo dentro da universidade.

Pensando sobre, até por isso que acho que eu demorei pra entrar na arte drag, porque houve esse embate ali, de o pessoal não aceitar o estudo da arte dentro da universidade. São pessoas na maioria hétero e também de idade. A maioria dos professores de teatro da universidade tem mais de 50 anos, entendeu? Então, é uma outra visão de arte, de teatro. É uma visão muito arcaica. Daí já é uma visão arcaica apenas do teatro, imagina trazer drag e arte LGBT. É super estranho pra eles.

O interesse em personagens andróginos ou personagens que não tinham gênero foi importante para a criação de Dylan Summers (Foto: arquivo pessoal)

Tu acredita que tem espaço pra arte drag dentro do teatro? Tu, como estudante, consegue levar isso pra dentro da universidade?

Luis Borges – Olha, é bem difícil. Conheço poucas pessoas que levaram, na verdade conheço uma só, que é a Lollita, que é uma drag da licenciatura. Acho que é a única, tirando eu, que tá tentando colocar isso na roda e transformar num debate. É muito legal Stanislavski, muito legal Anthony Gatto, Fernanda Montenegro, mas olha só isso aqui, olha o que eu tenho pra apresentar, também é arte. Vamos falar de drag também?

Drag, assim como o bufão, assim como a palhaçaria, assim como a commedia dell’arte, também é uma categoria teatral. Claro, não envolve uma dramaturgia, mas commedia dell’arte também não envolve, palhaço também não envolve e ainda assim é arte, é uma categoria do teatro. Então, sim, é muito difícil. Como eu vou apresentar a fala drag ali dentro da universidade, a gente só consegue através de uma peça de teatro, onde a gente interpreta um personagem, entendeu? Basicamente é isso que eles aceitam.

Mas eu estou pensando numa proposta bem diferente assim para o meu TCC, eles vão ter que me engolir. Não vai ser o Luis, vai ser a Dylan que vai apresentar lá. E o meu TCC é voltado para o mercado de trabalho drag, sobre esse viés, para provar que existe um mercado de trabalho drag artístico. Então, porque existe essa recusa de aceitarem que é arte e que é teatro também, existe uma movimentação aí, entendeu? Essa vai ser a minha tecla que eu vou estar aqui, ó, batendo.

Tu acredita que a arte drag é uma força de resistência, que ela é política?

Luis Borges – Eu tenho performances que são especialmente criadas com um cunho mais político e acho que é super importante a gente ter esse local de fala e usar ele corretamente. Não é só close [gíria que significa arrasar ou atrair os olhares]. O close é político, mas não é só o close. A gente tem que ir um pouquinho além, por isso que a nossa participação na Parada Livre, em debates, reuniões, fóruns é muito importante. A gente tem que conquistar esses espaços e estar inseridos em todos, pra gente conseguir os nossos direitos.

E é em tudo, na música, no meu figurino, na performance e na mensagem que eu quero trazer ali. Claro, a gente tem que fazer as pessoas pensarem. Causar a dúvida é maravilhoso, mas neste momento a gente também tem que ser didático, ainda mais em performances, que as pessoas vão ficar “O que ela está querendo dizer com isso? O que ela está me provocando, entendeu?”.

É legal a gente acordar as pessoas, dar aquele choque de realidade, mas também dar ferramentas para essas pessoas saberem o que fazer depois que elas acordam, né? A gente não pode só acordar: “Olha, está acontecendo isso, hein. Isso não é legal, e aí?”. Só deixar a pessoa confusa ali, não. É através da performance, através da arte que a gente instiga, causa aquela coceira e aí inspira essa pessoa também através do nosso trabalho.

O governo Bolsonaro é abertamente homofóbico e posicionado contra a cultura. Como é ver esses retrocessos no setor cultural? O que precisamos evoluir para que a arte LGBTQIA + e a arte drag sejam mais aceitas? Quais são os próximos passos?

Luis Borges – Eu acho que primeiro é a profissionalização, a aceitação da profissionalização das próprias drags que fazem shows e que trabalham com eventos. Porque muitas fazem por hobby ou têm um outro emprego. Claro, eu também tenho uma outra renda, não só drag, mas eu quero não ter, quero trabalhar só com drag. A gente tem que, dentro do micro ali das drags em si, se unir mesmo e “Olha, a gente precisa fazer alguma coisa, a gente precisa profissionalizar e dar mais importância pro nosso trabalho”.

Uma coisa que me chateia muito é quando a gente cobra um cachê justo pelo nosso trabalho e uma outra drag vem e faz show pelo valor de deslocamento ou às vezes só por uma entrada free num evento ou uma consumação. Como diria a própria Gloria Groove, “consumação não paga peruca”. Não paga nada, sabe?

Então, acho que a gente tem que começar por dentro, de dentro, das próprias drags aceitarem que drag é arte, sim, porque tem muitos que não aceitam como arte. “É um hobby, é uma coisa que eu faço porque eu gosto de fazer”, uma grande maioria é que pensa desse modo. Então, acho que a primeira coisa que a gente tem que fazer é, dentro da nossa classe, dessa comunidade drag, pensar nisso. Começar a pensar drag como profissão, como um trabalho. Não é só close, não é só um hobby.

Onde entram a Workroom, a Taverna ou o próprio The Queens? Qual é a importância desses espaços de show drag em Porto Alegre?

Luis Borges – Eles são importantíssimos pra gente. Primeiro que são poucos, né. Até um ano atrás, quando eu comecei, tinha só dois, o Workroom e o Vitraux. Meu primeiro show foi no Vitraux, depois que eu já tinha me vacinado, que as coisas começaram a andar de novo.

Depois de fazer dois shows no Vitraux eu já me inscrevi no concurso Pintosa e fiquei em segundo lugar. O concurso foi bem legal. Depois dele, por ter ficado em segundo lugar, fiquei com uma euforia. Fui pesquisar mais lugares e conheci a Workroom. Fui lá, acho que fui umas três semanas seguidas, enchi o saco do dono e depois do terceiro show ele me chamou e me colocou já no elenco.

Nesse ano ainda aconteceu o The Queens, o concurso que a Suzzy B anunciou acho que no final de dezembro do ano passado. O concurso começou em janeiro e eu fui a grande vencedora. Foi uma experiência maravilhosa, ele te coloca num lugar de produção muito forte, te desafia.

É o maior concurso de drags do Rio Grande do Sul e o prêmio também chama atenção. Não só o prêmio, mas a visibilidade que se adquire. A Workroom hoje em dia é o lugar que é referência, mas o Vitraux é uma grande vitrine para os artistas. Muita gente passa no Vitraux e o concurso é um momento que tem muita gente que vem de fora de Porto Alegre, até de fora do estado. O concurso já é antigo dentro do Vitraux, já teve outros nomes, mas se oficializou The Queens há uns quatro anos.

Como foi ser chamado para participar do show da Gloria Groove? Teve a participação no show da Gretchen também. Como é para o Luis e como é para a Dylan participar?

Luis Borges – É surreal. O show da Gloria Groove fazia parte do prêmio do The Queens. A Bolico Produções, que foi quem trouxe a Gloria para Porto Alegre, assistiu ao concurso e entrou em um parceria com o Vitraux, que a vencedora e também o segundo lugar iriam abrir o show da Gloria Groove. Foi assim, sensacional, né, conhecer a Gloria. Conversei com ela e desde então também foi uma vitrine enorme, porque tu está te apresentando para um Pepsi On Stage. Um Pepsi lotado de gente, então tu ganha muita visibilidade e começa a ser chamado para outros eventos maiores.

Foi assim com o bloco do Puxa, que teve a Gretchen agora aqui no Opinião. Eu fui convidada para fazer presença VIP. Estava fazendo show no Taverna, fiz o meu trabalho de hostess, saí de lá e fui para o Opinião. Lá, o pessoal da produção perguntou “Ah, vocês querem conhecer a Gretchen?”, daí eu “Claro. Como assim não quero conhecer a Gretchen?”. Dai consegui tirar uma foto, ela é super simpática, um amor. A produção também nos tratou super bem. Diferente da produção da Gloria Groove, que foi bem ácida com a gente, e acontece muito, né. O pessoal valoriza quem vem de fora, mas não valoriza os seus, não valoriza quem tá aqui segurando a arte drag.

Daí a produção da Gretchen perguntou pra gente, tinha outras drags que foram convidadas: “Ah, vocês não querem abrir o show?”. Daí colocaram lá uma música pra gente e a gente abriu com Born This Way, da Lady Gaga, o show da Gretchen.

Como foi o apoio da família nos primeiros shows?

Luis Borges – Eu vou te contar assim, ó, que eles foram decisivos para eu estar dentro, por exemplo, da Workroom. Nos três dias seguidos que eu fui, eles lotaram o lugar para me ver lá, para me divulgar, e eram uns dos meus primeiros shows, né? Eles estão sempre lá, porque eles me aceitam. E porque já existem outros homossexuais dentro da minha família, entendeu?

E também não só em drag, mas em trabalhos com o teatro sempre me acompanharam, então acho que em drag não seria diferente. Eles entenderam que é o meu trabalho, não veem como outra coisa a não ser o meu trabalho. E eu sou super privilegiado nesse quesito, ter a aceitação da minha família, que me aceitou como gay e que me aceita como drag. É um privilégio enorme.

Porque tem famílias que tu não consegue nem se montar dentro de casa. Quando tem show tem que se montar em outro lugar ou às vezes até no próprio lugar que faz o show, chegar muito mais cedo pra poder se produzir lá dentro. Então eu tenho consciência dentro desse privilégio, não há como negar.

Qual é o futuro da Dylan? O que o Luis quer para a Dylan?

Luis Borges – Quando as pessoas me perguntam isso, costumo falar que eu trabalho com etapas, com metas. Tipo, quando comecei, a minha meta era fazer show em todos os lugares que têm a arte drag. Agora já consegui essa meta. Depois foi o The Queens e agora a meta é fazer realmente o meu nome aqui. Fazer o meu nome e também ter uma grande referência no nome da Dylan, não só como performer, mas também como uma grande ativista da arte drag. Ativista que foca na profissionalização.

Por mim, eu construiria um sindicato das drags. Porque existe o Sated, que é dos artistas, mas eu não conheço ninguém que tirou um registro, um DRT como performer drag. É ator, dançarino, músico, cenógrafo, produtor, iluminador, mas drag queen, eu acho que não existe, ainda. E eu quero muito ser, assim, ativista nesse quesito de profissionalizar a arte drag.

Qual o teu conselho para quem está começando no mundo drag?

Luis Borges – Desiste. Assim como a Fernanda Montenegro disse quando perguntaram para ela, “desiste”. Para imediatamente. Agora, se tu parou, e está sentindo falta daquilo, tu sente necessidade, aí tu continua. Aí tu investe teu tempo, teu suor, tuas lágrimas e teu sangue nisso. Continua e, claro, né, com respeito ao teu trabalho e respeito ao trabalho dos outros também.

*Estudante de Jornalismo da Unisinos. Essa entrevista é uma parceria do Nonada com a Beta Redação, portal experimental do curso de Jornalismo da Unisinos, e foi realizada sob supervisão dos professores Débora Lapa Gadret e Felipe Boff.

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