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Terreiro na rede: influenciadores falam sobre umbanda e candomblé na internet

Maria Mulambo, Ogum e Oxum estiveram entre os assuntos mais comentados do Twitter na última semana. Elas são entidades das religiões de matrizes africanas, como a Umbanda, o Candomblé e a Jurema. Um comentário na rede dizia: “O terreiro está aberto nesse site. O macumbeiro chegou de mansinho e já está ocupando espaço.”

Do twitter ao TikTok, é cada vez mais presente na internet conteúdos sobre os povos de terreiro e suas expressões culturais. Perfis com vídeos, cards, podcasts, colocam a identidade das religiões de matrizes africanas como tema principal e compartilham desde o cotidiano no Terreiro até conselhos a partir de Itãs, por exemplo. No Tik Tok, se você pesquisa #umbanda, um dos primeiros vídeos que aparece é o de uma mulher cantando um ponto de Dona Maria Mulambo, entidade da falange de pomba giras. 

Ela veste preto e segura uma taça na mão enquanto dança. Aparece sozinha, mas também escutam-se vozes de pessoas que cantam junto. Por trás do vídeo, está Roberval Borges. É ele quem filma e que, desde o início desse ano, compartilha no Tik Tok pontos de umbanda do terreiro que faz parte, localizado em Teresina (PI).  A mulher que canta é sua mãe-de-santo, Mãe Joelfa de Xangô, responsável pela casa. 

@roberval.borges

A língua é a maior arma de quem não pode ser você, de quem inveja sua vida, mas não está disposto a lutar metade do que você já lutou. Muitos querem sua fama, mas ninguém quer estar como você fica nos bastidores. Podem invejar seus bens materiais, suas conquistas. Mas não querem invejar suas orações, sacrifícios e dores.#umbanda #macumba #axe #umbandadearuanda #pontosdeumbanda #exu #laroye #pombagira #mulambo

♬ som original – Roberval Borges

“Testei vários formatos antes de começar a postar os pontos que a gente canta na nossa Casa de Umbanda São Jerônimo Quilombo do Pai Zé Pretinho”, conta Roberval, que é artista e educador, formado pela Universidade Federal do Piauí. Para ele, a importância desses conteúdos na internet é de trazer a heterogeneidade da Umbanda, ou como diz Luiz Antonio Simas em seu livro sobre o tema, das Umbandas. “Estamos cantando desde uma periferia de Teresina. É importante falar disso porque se tem a ideia de que todo lugar do Brasil é a mesma umbanda. Só que ela é muito diferente, de um estado pro outro, de uma região para outra. Cada terreiro tem a sua particularidade”, explica. 

Os comentários dos vídeos viram espaço de debate. Enquanto algumas pessoas saúdam a entidade, outras dizem que o vídeo desperta interesse pela religião. Tem quem pergunte a origem do ponto e o que significa. As diferenças regionais aparecem também. “Em um dos pontos que ficou muito famoso no TikTok, o da puta pobre despencada com a Rica, muitas pessoas ficaram questionando se aquilo era ponto de umbanda ou de jurema. Só que a entidade transita, às vezes trabalhando na umbanda, na jurema, e até no candomblé.” Roberval tenta levar para a rede músicas que não são tão conhecidas em outros estados, de outras linhas de umbanda, como  a Família de Légua, a corrente das águas, e os caboclos.

Internet como lugar de conhecimento 

Ao mesmo tempo em que possibilitam vídeos curtos, de até 30 seg, as redes podem ser espaços de aprofundamento sobre as religiosidades de terreiro. Naíse Domingues, jornalista formada pela UFF e candomblecista, percebeu que as religiões afro-derivadas continuavam restritas a uma mesma editoria: a policial. Os casos de ataques a terreiros e as violências religiosas seguem sendo os principais motivos para pautar as religiões na mídia. Pensando em novas abordagens, ela e Gabriel Sorrentino, criaram a Kobá Exu, uma revista afrorreligiosa. “A gente criou a Kobá com a ideia de um conteúdo jornalístico de qualidade, feito a partir de um olhar que não exotiza a religiosidade, mas que traz uma perspectiva de dentro. É importante falar do terreiro que foi incendiado, mas o problema é quando isso se torna uma abordagem monotemática”, explica Naíse. 

Desde 2020, a revista já teve seis edições online publicadas. Os conteúdos são pensados para promover debates dentro das próprias comunidades de terreiro e de seus praticantes. Já foram pautados temas como o sincretismo, a relação entre gênero e axé e a presença indígena na constituição das religiões afro-brasileiras.  “Quando levamos o sincretismo para a revista, precisamos pensar, primeiro, que ele existe e que a gente não vai conseguir negar ele. Então vamos, de forma crítica, analisar, pensar no impacto disso a partir de quem vive religião”, explica a jornalista. A partir da fala de colunistas e da produção de reportagens, a Kobá Exu traz assuntos que estão longe de serem consensos. 

“Tem quem fale de sincretismo e que associe a uma produção de apagamentos e esquecimentos. Outros falam que o sincretismo é o que ajudou a por exemplo a umbanda se manter viva. Por que não trazer esses dois pontos de vista? É um debate de opiniões que existe. A gente não pode entender as religiões de Matriz Africana como uma única voz,  ou pensar que todo mundo concorda com tudo.”

Para David Dias, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP, o compartilhamento de conteúdos tem o fim principal de “levar a umbanda para além das paredes do terreiro”. Pai de santo no Templo Umbandista Pai João de Angola, em São Paulo, ele acredita que a comunidade de axé é mais ampla. “Tem aquela comunidade religiosa formada pelo orixá e pelos filhos e filhas de santo. Mas tem também essa grande comunidade que se integra na sociedade”, explica. “Há uma gama de pessoas que se interessam muito mais pela cultura do orixá, pela cultura de terreiro do que única e exclusivamente pela religião. Esse público se interessa também pelas questões sociais que a umbanda está atrelada” 

No Instagram, David é @davidumbanda e, quase diariamente, publica conteúdos. Com mais de 30 mil seguidores, ele percebe que o público mais jovem (de 20 a 30 anos) é o que mais acompanha e interage. Em cards e textos, ele leva para a internet temas como a mediunidade na umbanda, práticas para frequentar um terreiro pela primeira vez e indicações de leitura. Considera-se um pesquisador-sacerdote-comunicador, já que sempre atua de forma integrada – e esse é um fundamento para as filosofias africanas. 

Limites e cuidados 

Mas pode compartilhar tudo? O pesquisador Ricardo Freitas, professor da Uneb, já tinha essa dúvida 20 anos atrás, quando defendeu a tese Web-terreiros d’além-mar: transnacionalização e ciberinformatização das religiões Afro-Brasileiras. Na pesquisa, analisou listas de transmissões que afro religiosos tinham para trocar informações com pessoas de terreiro que estavam fora do país. Os canais depois viraram grupos de Orkut, e que hoje se organizam nas novas redes. 

Ricardo analisa que a midiatização do candomblé acontece há muito tempo. “O candomblé já está midiatizado, não tem mais retorno. O que você vai ter é algumas possibilidades de sacralizar o que já tem sido divulgado, mas que talvez  tenha sido ainda menos divulgado do que outros aspectos que não tenham sido divulgados do universo religioso”. O pesquisador dá o exemplo da incorporação, que ainda é um tema em debate. “Vejo muitos terreiros aqui na Bahia que tem dificuldade de lidar com a filmagem dos filhos e filhas de santo adeptos incorporados. Na Bahia, você vê alguns lugares com plaquinhas de não fotografe, que há 20 anos já existiam e que seguem até hoje.”

Outra discussão sobre a presença do terreiro na rede são as simplificações que acabam acontecendo, como reduzir um Orixá a uma lista de características ou compartilhar um passo a passo para fazer um padê, ou uma simpatia. “A gente vê uma fetichização da estética de terreiro. Tem um interesse pelo arquétipo do Orixá parecido com o que se faz com o arquétipo dos signos, o que leva para uma banalização, mais do que um aprofundamento”, questiona David. “É importante a gente discutir sobre sintetização na internet do que se tem como cultura de axé”. 

Terreiro político 

Omilade é Ialorixá e também utiliza as redes para contar vivências que abordam o candomblé. O nome do seu perfil no Instagram veio de uma conversa com um amigo, que apresentou a ela o cantor Baco Exu do Blues. “Se Exu é do Blues, Yemo é Jazz”, brincaram. Assim nasceu o @yemojazz no Instagram, onde ela compartilha experiências e seu cotidiano religioso. “No perfil, passei a publicar as minhas vivências de cura a partir de uma depressão pós- parto que vivi, e como eu consegui me curar junta a Yemonja e todos os orixás. Isso foi agregando mais pessoas que estavam passando pela mesma situação que eu”, conta Omilade. 

Para ela, o espaço virtual é um lugar não só para as religiões serem divulgadas, mas também para fazerem o caminho inverso, levando para as casas, barracões, congás, ilês, discussões que estão acontecendo na sociedade. “Trazemos temas latentes para comunidade e falamos sobre transexualidade, racismo, por exemplo. Isso é uma maneira de fortalecer a cabeça (orí) das pessoas para que elas possam perceber o mundo que vivem. A casa de candomblé, como um grande quilombo, sempre foi um lugar de espiritualidade, de cultura e de política.”

Yemojazz também fala da importância de ir além da internet, porque a vivência de terreiro acontece em comunidade, e não sozinho. “O pensamento eurocêntrico fez com que as pessoas se afastassem da política e isso foi prejudicial para nós. Dizem que não se pode misturar, mas a partir do momento que você faz parte de uma comunidade de candomblé, você é um ser político. E não dá pra ser só isso na internet. Eu posso subir muitas hashtags, mas se eu não fizer parte de uma comunidade, aquela hashtag some no outro dia e o orixá some junto.” 

David Dias é um dos fundadores da Terreiro Resiste, iniciativa criada em 2021, para combater o racismo religioso. Como mapeado pela Firmina, newsletter do Nonada, são semanais os casos noticiados de ataques às comunidades de terreiro. De acordo com reportagem do portal G1, o Brasil registra três queixas de intolerância religiosa por dia em 2022. “A causa de combate ao racismo religioso não é unânime. Boa parte dos terreiros se negam a combater o racismo religioso por colocá-lo num lugar quase que inatingível. E geralmente quem faz isso é o pai de santo branco, que mantém os seus lugares de privilégios garantidos a partir de pactos que se fazem até mesmo com a imagem e semelhança do orixá que eles constroem – que é branco”.

“Então não dá pra gente discutir racismo religioso sem falar da formação dessa sociedade que se reflete naturalmente dentro do terreiro. Combater o racismo religioso é combater o racismo. E aí vem a pergunta. Quem está disposto?”, questiona. O Terreiro Resiste é uma rede formada por trinta e seis advogados, organizado por Renata Pallottini. Conta também com comunicadores interessados no enfrentamento dos casos. 

Nas ruas e nas redes

A jornalista Naíse Domingues (Foto: divulgação)

“A presença dos conteúdos afro religiosos na internet indica que podemos usar esse espaço para falar também para fora, e não só para dentro. Podemos tentar tirar um pouco dessa cultura de se esconder. Ter orgulho da religião é importante, poder expressá-la publicamente, ter a liberdade de fazer isso em qualquer lugar” , defende Naíse sobre o assunto. Hoje a Kobá se encontra em uma pausa, mas preparam a edição #7 para um lançamento em novo formato. 

Para David, as mídias sociais podem ser aliadas da umbanda. “Diferente de outras religiões, nós não temos uma emissora de canal aberto, verba pública ou uma concessão para veicular as nossas informações. Pelo contrário, o que a gente tem é uma concessão que se entende por pública, mas que ali se promove uma outra religião em detrimento das religiões de matriz africanas” .

Os terreiros também têm utilizado a internet para questões práticas, como angariar fontes de manutenção dos seus espaços físicos, divulgar seus trabalhos espirituais – como jogo de búzios e limpezas, convidar para suas festas. 

Na edição #6 da Kobá, a cantora de funk MC Tha foi a capa da revista. Essa é uma das estratégias que Naíse considera importante: tirar a religiosidade do cochicho, do campo do segredo, como aconteceu por muito tempo, com gerações mais velhas, por medo da violência. “Quando a gente vê figuras públicas expressando nossa religiosidade é uma forma de fazer a pessoa se sentir mais segura, vai professar a sua fé de forma mais aberta. Sem precisar esse medo de esconder porque você naturaliza”, explica. “Naturalizar e trazer conhecimento são duas frentes que combatem o racismo religioso. E uma galera jovem tem puxado bastante isso.”

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Estuda jornalismo na UFRGS. É também artista visual. Tem especial interesse na escuta e escrita de processos artísticos, da cultura popular e da defesa dos diretos humanos.
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