Élle de Bernardini (Foto: Filipe Conde/divulgação)

Élle de Bernardini: “Meu desejo como artista é transformar o imaginário sobre as mulheres trans”

Leila Donhauser*

Quantas mulheres transexuais você conhece que estão inseridas no mundo das artes e que conseguem tornar o seu nome conhecido? Difícil pensar em um nome sem dar uma busca no Google, não é mesmo? Foi assim que conheci a história de Élle, uma artista transexual que acredita que o seu trabalho precisa ter uma função social. Ela não consegue ficar presa numa inércia, fingindo que os problemas não existem, pois eles estão aí, na sua própria vivência. 

Ao longo dos seus 31 anos, Élle já teve várias experiências, como bailarina, estudante de Jornalismo, de Filosofia, na academia de teatro, mas foi nas artes visuais que encontrou o seu lugar. A artista natural de Itaqui, interior do Rio Grande do Sul, mas  atualmente divide residência entre São Paulo e Paris. 

Uma das primeiras bailarinas trans a se formarem na Royal Academy of Dance, em Londres, Élle foi impedida de continuar a carreira porque pessoas trans não tinham acesso à prova para entrar no The Royal Ballet. Atualmente, ela vem rompendo outras barreiras enquanto artista visual. “O meu desejo como artista é justamente fazer parte do imaginário popular, modificando esse imaginário de como as pessoas veem uma pessoa trans ou uma mulher travesti, porque as pessoas só veem a gente ocupando dois locais, o local da comédia ou o local da tragédia”, diz.

Em suas obras, faz uso de diversas formas de linguagem, como performance, vídeos, fotografias, pinturas e objetos, abordando principalmente questões de gênero, sexualidade e identidade. Bernardini também foi a primeira artista transexual a ter sua obra incorporada no acervo da Pinacoteca de São Paulo. 

Confira a entrevista concedida pela artista de sua casa em São Paulo, por videoconferência, no início de outubro: 

Nonada Jornalismo – Você nasceu aqui no Rio Grande do Sul. Me conta um pouco sobre a tua adolescência, como foi todo esse processo…   

Élle de Bernardini – Foi tudo muito natural, diferente de outras mulheres trans e travestis, principalmente negras e periféricas, que vão ser expulsas de casa, que sofreram violência. No meu caso, foi um pouco mais suave. Não é que não tenham ocorrido situações de violência, ocorreram, mas nunca foram violências físicas, foram violências verbais, que não causaram tantos traumas. Eu sempre me identifiquei como uma pessoa trans, porém eu não sabia desse termo. Eu só fui saber o que era transexualidade quando eu tinha 17 anos e entrei na faculdade. 

Na época, na faculdade de Jornalismo, uma professora minha, de Jornalismo Literário, me falou que eu deveria, na opinião sincera dela, procurar um outro nome, porque o nome que eu usava era o meu nome de registro, Felipe. Ela dizia que não precisava ser um nome feminino, mas um nome que eu me identificasse. Falei para ela, num primeiro momento, que eu não achava necessário, que o nome era uma coisa pequena. Mas eu me propus a pensar. Com 17, 18 anos, é que vem a palavra Élle, que eu troco de nome e aí eu começo a me entender como uma pessoa em trânsito. 

De 2018 pra cá, eu me coloco dentro da categoria de mulher, porém uma mulher trans. Não mais uma pessoa de gênero indefinido, como diz na Wikipédia, e também não sou uma pessoa de gênero não-binário. A minha mãe é professora pedagoga, ela já fez lives comigo sobre a transexualidade, então sempre foi bem administrada essa questão. Obviamente que com o meu pai a gente teve alguns problemas. Ele é agricultor, dono de engenho, é de família italiana, aquela coisa tradicional, rígida, onde os filhos são criados para herdar o que o pai e os avós construíram, e aí vem uma mulher trans. Para ele foi um pouco mais difícil. Mas hoje nós nos damos super bem, meu pai é um grande amigo meu, eu sou filha única, acho que isso também pesa. 

Na escola e na faculdade também, porque eu sempre fui uma pessoa que se impôs, e não só por mim mesma. O prefeito da cidade na época era meu avô, então eu sempre ocupei um local dentro da sociedade, um local de poder ou um local que estava junto com as pessoas que tinham poder. Então, eu sabia me defender depois mais velha, e tinha recursos financeiros para me defender caso alguém fizesse ou dissesse alguma coisa contra mim. Eu conhecia as leis, tinha advogado, eu tinha como ter acesso a eles. Mas isso é uma pessoa entre milhões e milhões e milhões de pessoas trans e travestis que têm esse recurso à sua disposição. Havia um respeito imposto por uma questão financeira, eu acho que isso é importante de ser dito mesmo que possa soar para alguns como arrogante, porque é um fato e faz parte da minha vida.

Élle de Bernardini, hoje com seus 31 anos, coleciona conquistas, e descobertas. (Foto: Renato Custódio/divulgação)

Nonada – Você comentou que teve alguns desafios, que não foram de violência física, mas sim verbal. Pode comentar um pouco dos empecilhos ao longo dessa etapa? 

Élle – Eu tive um desafio muito marcante na minha vida quando eu fui bailarina clássica. Minha formação é em balé clássico. Eu estudei para ser bailarina desde muito jovem. Eu recebi uma bolsa para estudar no The Royal Ballet de Londres, na Royal Academy of Dance, e aí eu mudei para Londres. Uma parte da minha família morava lá. Como bailarina clássica dentro da Royal Academy of Dance, me foi colocado que, como mulher trans, eu poderia fazer as aulas. Porém, na minha vida profissional como bailarina, dentro da companhia, eu só iria poder ocupar os cargos no corpo de baile. Eu consegui tanta coisa, e aí quando vou me formar não consigo exercer a profissão. 

Eu não poderia participar na prova na turma masculina, porque eu nunca aprendi os passos masculinos. E eu não iria poder aplicar na prova feminina porque, aos olhos do júri – aquelas pessoas que têm o poder – elas entenderam que eu estaria em vantagem sobre as outras meninas por ter uma dose maior de testosterona. Isso me tornou artista plástica. Comecei trabalhando com performance, que era a minha formação. Eram temas relacionados à política e às questões de sexualidade. Eu sempre digo e costumo brincar que eu me tornei artista plástica através de um trauma, de uma frustração profissional no balé clássico, porque eu estudei para ser bailarina clássica e, se me perguntasse qual era o sonho da minha vida, eu responderia para você que era ser uma bailarina clássica, não uma artista plástica famosa.

Nonada – O que você conseguiu absorver de tudo isso? O que conseguiu passar para as pessoas que estavam ao teu redor? 

Élle – No Brasil, a gente começa discutir questões de gênero a partir de 2015. Então, se a gente olhar, nós, as pessoas trans, só saem da CID, Manual Mundial de Doenças e de Transtornos Mentais, em maio de 2019. Se olhar para a história das artes plásticas no Brasil, eu fui a primeira artista plástica a ser acervada do museu público, a primeira artista plástica [trans] a ter uma obra no acervo da Pinacoteca de São Paulo. Fui a primeira artista plástica a ser comercializada e vendida no mercado de arte formal. 

No Brasil a gente tem uma coisa muito engraçada que é o que a gente chama de fiscal de gênero, que são pessoas que fiscalizam o gênero das outras baseado no que a gente está vendo. Apareciam muitas pessoas que aparentemente poderiam parecer do gênero não-binário, mas que se identificavam como mulheres trans na academia querendo fazer aula na turma feminina e a professora impedia, porque na visão dela elas não tinham o corpo que eu tinha. Eu sou magrinha, baixinha, pequenininha e tive um treinamento desde criança, que pega a parte do crescimento, e isso foi moldando a minha musculatura através do exercício do balé para ter o corpo que eu tenho hoje, porque eu nunca tomei hormônio nem fiz cirurgia plástica.

Depois de ter ido embora de Santa Maria [onde morou por oito anos], durante alguns anos, ouvi relatos de pessoas que continuavam voltando à academia pra fazer aula, me usando como exemplo. Eu acho que todas nós, quando conquistamos algo, essa conquista entra para o grupo. Aqui no estado de São Paulo, a Erika Hilton foi eleita deputada federal. Uma mulher travesti negra que vem da periferia, isso é uma grande conquista para todas nós. Óbvio que virão outras, porque o mais difícil é o primeiro passo. E esse primeiro passo já foi dado. No caso da Erika, foi no campo da política; no meu caso, foi no campo da arte. 

Sem Título, 2019 (acervo pessoal da artista/Enciclopédia Itaú Cultural/divulgação)

Nonada – Você comentou sobre a área da Filosofia, como você chegou no curso? Isso te incentivou nas artes? 

Élle – Eu cheguei na área da Filosofia quando fui morar em Londres, em 2011. Fazia licenciatura em Teatro na Universidade Federal de Santa Maria, então eu tranquei a faculdade e fui para Londres. Quando eu voltei de Londres, com tudo isso que tinha acontecido lá no balé, eu vi que eu não cabia no teatro, eu não queria decorar texto, eu não servia pra ser atriz . Não era o meu lugar. 

O que é engraçado é que o start mesmo que eu era uma mulher trans e que isso me traria problemas e impedimentos foi no mundo do balé, quando me disseram que eu não poderia, porque até então tudo tava acontecendo sem nenhum grande problema. Aí existia um impedimento que era insolúvel, eu não iria conseguir resolver nem com advogado.

Uma prima minha já formada em Filosofia e vários dos meus amigos eram da filosofia, então  eu pensei, vou fazer para pesquisar melhor a história da sexualidade. Mas acabei não concluindo em função da minha demanda no mundo das artes plásticas. Quando a carreira começa a crescer, a gente tem que viajar.

O meu trabalho é todo baseado em questões teóricas e conceituais, e embora seja um trabalho visualmente colorido, que chama atenção e que tem um apelo tátil, a gente quer tocar, quer passar a mão, chegar perto. Ele é simples na hora de atrair as pessoas, é um trabalho bastante sedutor e simples. Eu utilizo esses materiais e esses símbolos que são do imaginário comum das pessoas. 

O meu desejo como artista é justamente fazer parte do imaginário popular, modificando esse imaginário de como as pessoas veem uma pessoa trans ou uma mulher travesti, porque as pessoas só veem a gente ocupando dois locais, o local da comédia ou o local da tragédia. Ou a gente é aquela que faz todo mundo rir, que é o que geralmente aparece na televisão aberta no Brasil, é espalhafatosa, escandalosa, ou a gente é criminosa. As travestis também ocupam esse local. Eu tenho um trabalho chamado Imperatriz onde eu tento modificar um pouco isso, fazendo um exercício de ver a pessoa trans, travesti ocupando um local de poder e não um local de marginalidade. É um trabalho de formiguinha, que eu vou morrer e outras vão ter que continuar, porque é modificar o imaginário popular. 

Nonada – Na obra Bárbaros, que aconteceu em 2015, você apresentou performance-protesto na Praça Saldanha Marinho, em Santa Maria, onde você usou o seu corpo para isso. Como foi a experiência? 

Élle – É uma obra de performance, ela foi apresentada três vezes em três locais. A primeira vez foi na praça Saldanha Marinho, em Santa Maria, em 2015. A segunda vez, em 2016, se não me engano no Sesc Santos, São Paulo, na beira da praia, e em 2018, no Pivô Arte e Pesquisa, que é um centro de arte e residência aqui de São Paulo. 

No caso da Saldanha Marinho, foi um choque para as pessoas que assistiram, teve gente que desligou a caixa de som, achei que eu tinha queimado o microfone, aí depois o som voltou. Fiquei sabendo pela produção que um cara desligou. Teve censura por parte do público, não por parte das autoridades, porque a performance teve autorização da prefeitura. Muitas pessoas ficaram tensas, nervosas e preocupadas, outras não entenderam o que estava acontecendo. Eu dizia “Bárbaros!”, contava até três segundos e dizia “Bárbaros!”, era uma coisa mecânica, coreografada. 

No final, várias pessoas ficaram meio perdidas, sem saber o que fazer ou onde ir. Teve um pouco de tudo, como é o que normalmente acontece quando você apresenta um trabalho de arte contemporânea na rua, acontece todo tipo de reação. Todos nós somos bárbaros, eu também era, inclusive estava gritando, descabelada e descalça, pra mostrar que todos nós precisamos parar e olhar para o nosso processo civilizatório. Nós agimos, e agora eu acredito muito mais que em 2015, de uma maneira completamente bárbara, no sentido de barbárie. 

Nonada – Seguindo com as tuas obras, Efeito Colateral, de 2018, traz à tona a sua relação com a política também nas artes. Como foi o desenvolvimento deste trabalho?

Élle – Essa obra causou muita polêmica no Brasil, ela existe enquanto foto e performance. Eu escrevo no meu peito a palavra “Marielle”, com batom que tem o mesmo tom de pele da Marielle Franco, escrevo a palavra dela e um líquido azul, que é nanquim de caneta, escorre pela minha boca e vai cobrir esse nome. Tinta de caneta porque o poder da Marielle, como uma parlamentar, era o poder da caneta. Esse poder de mudar as leis, de interferir na legislação, foi uma morte política. É isso que eu tento passar com essa performance. Se chama Efeito Colateral por causa do efeito colateral de ser como somos, figuras que se impõem, que se empoderam. Isso causou muito problema no Brasil, nesse trabalho, dentro do círculo artístico, por eu não ser uma mulher negra. O que a gente tem que entender é o local de fala e a exclusividade de fala. Local de fala é você entender o local que você ocupa dentro daquele discurso. Eu sou uma mulher branca, não tenho uma vivência negra, portanto eu não posso falar da negritude enquanto vivência, eu só posso falar da negritude a partir daquilo que eu li e o que eu ouvi. 

Performance apresentada no ano de 2018, trazendo para discussão o caso do assassinato da parlamentar Marielle Franco (Foto: Bruno Makia/divulgação)

Curiosamente, eu fui fazer uma exposição numa galeria e ia colocar esse trabalho, aqui em São Paulo, numa individual, e a curadora indicou que não porque o trabalho era muito forte, que o trabalho não fosse exposto. Então ocorreu essa espécie de, entre aspas, censura. Mas eu expus este ano na minha individual, que eu abri em Roma. É curioso que eu não consigo expor um trabalho sobre uma pessoa brasileira no meu próprio país, mas eu consigo expor esse trabalho na galeria comercial em Roma. 

Nonada – Você tem obras expostas em todas as partes do mundo. Como foi esse processo fora do Brasil? 

Élle – A gente conta a carreira profissional do artista a partir da primeira exposição individual que ele faz no museu. A primeira exposição individual que eu fiz foi no museu de Santa Maria, é um museu público que tem recursos públicos. Este ano eu fiz, além da exposição individual de Roma, uma residência na Cité Internationale des Arts, que é a maior residência de arte do mundo, e fica em Paris. Morei dentro dessa instituição durante dois meses pra gravar um documentário sobre a arte latino-americana. Esse trabalho não tinha nada a ver com a sexualidade, era sobre como ser artista latino-americano, independentemente de ser negra, branca, pobre, rica, trans ou não trans, mas latino-americana na cidade de Paris. 

Hoje eu tenho trabalhos expostos no mundo inteiro, nos Estados Unidos, no México, na Itália, na França, na Inglaterra, em vários locais. Na coleção mais importante da Europa, que é a coleção do governo francês e inclui todas as obras do Louvre, eu tive cinco trabalhos meus da Imperatriz, que ficam na Biblioteca Nacional da França. 

E a gente aparece muito nas feiras internacionais. Agora eu vou fazer duas feiras que são muito importantes, que é a Artissima, em Torino, na Itália, agora no começo de novembro, e no final de novembro eu passo à feira da Basel Miami, nos Estados Unidos. As feiras que eu sempre faço no Brasil são a SP-Arte e a ArtRio. É o meu calendário anual. 

Nonada – Como você vê o incentivo à cultura nesse governo atual, e como isso funciona fora do Brasil?  

Élle – A  maioria dos artistas que vivem em Paris se sustentam não com a venda de obras de arte de galerias, eles se sustentam com dinheiro público, com recursos de instituições privadas ou do dinheiro do governo. Existe em Paris uma coisa que são as associações de arte  de bairros. Cada bairro tem a sua associação, que compra as obras de artistas que vivem e têm o seu atelier naquele bairro. Existem muitos programas de residência que te dão casa, comida, roupa lavada, dinheiro para produzir, dinheiro para se manter, é um investimento muito alto. 

No Brasil, não existe isso. Aqui a gente paga para trabalhar. Eu pago pra fazer residência,  aluguel, para ter o atelier, e pago molduraria. Se você não está nesse eixo Rio-São Paulo e não tem dinheiro próprio, você não consegue produzir, porque no Brasil tá tudo muito centrado, mesmo que a gente tenha a Bienal do Mercosul em Porto Alegre. Eu fiz a Bienal do Mercosul na época da pandemia, que infelizmente não pôde ser feita presencialmente. Acho que a curadora Andrea Giunta deveria ter feito a mesma coisa que a Bienal de São Paulo fez, ter adiado a mostra, poderia ter acontecido muito bem este ano. Achei um grande erro. 

Essa Bienal não tem importância, ela não tem visibilidade, as pessoas não viajam. Os grandes curadores, os grandes colecionadores não viajam aqui do Rio de Janeiro e de São Paulo para Porto Alegre pra ver a Bienal do Mercosul. Porque se eu for depender do governo, nas artes plásticas, não tem. Tudo custa muito caro. Uma tela redonda de 20cm custa R$ 50 a mais barata, um tubo de tinta de 37ml, boa, nacional, custa mais de R$ 40 uma única cor. Só quem tem condições de produzir arte no Brasil é quem tem dinheiro, ou dinheiro de família, ou quem tá no mercado de arte que consegue fazer dinheiro com o seu próprio trabalho. 

“As marcas que carreguei” (acervo da artista/Enciclopédia Itaú Cultural/reprodução)

Nonada – Sei que você já sabe sobre a importância de levar essas histórias, assim como a sua, para gerações futuras conhecerem e entenderem. Então, eu te pergunto: por que você, Élle, faz arte? Qual o significado disso tudo pra ti? 

Élle – Eu faço arte porque nós temos um problema histórico. Nós temos um problema estrutural, um problema do modelo de sociedade no qual a gente vive e isso vai atravessar e afetar todas as pessoas, uns mais e outros menos.

Nós precisamos mudar o modelo de sociedade, porque senão nós vamos estar falando de questões identitárias, e não é sobre questão de ter identidade, é sobre uma questão estrutural. Nós já chegamos num nível de conhecimento que a gente entende que o problema não é eu ser trans. O  problema é a estrutura que não permite. 

Eu vou propor que as pessoas pensem, alarguem o seu pensamento e comecem a pensar em novos modelos de sociedade. O Paul Preciado, no seu livro O Manifesto Contra-Sexual, propõe um modelo de sociedade chamado sociedade contra-sexual. É um modelo onde não existe a categoria de homem e de mulher e toda a sociedade se reformula. Nós temos que pensar novos modelos de sociedade. Acho que a arte permite imaginar como seria essa sociedade diferente. A arte não permite que a gente vivencie no dia a dia uma sociedade diferente, porque a arte acontece em locais específicos. 

Acho que esse mundo melhor começa com a gente mudando esse modelo de sociedade. A arte tem esse poder de propor o que a gente vislumbre no campo do imaginário, no campo do sentimento, das sensações, das emoções, um mundo diferente que a gente possa viver. Mas a gente só vai transformar esse mundo de fato através das políticas públicas, do nosso comportamento pessoal, da criação dos nossos filhos, da próxima geração e da educação de base. A arte não tem esse poder, mas ela tem essa função, de propor e de fazer as pessoas imaginarem o mundo diferente. 

A gente precisa usar o que a arte tem para nos oferecer em nosso benefício, em benefício da sociedade, não em benefício próprio. A arte não pode se dar ao luxo de perder esse tempo, de perder esse feeling, porque ela tem esse poder, de alargar a mente das pessoas. É um desperdício e uma irresponsabilidade, em nível mundial e social, eu me trancar no meu atelier e ficar somente me preocupando com a relação de uma cor com outra cor. E eu, Élle, não consigo ficar nessa inércia, fingindo que as coisas não existem, adoraria inclusive, porque eu tomaria menos remédio, seria menos nervosa, teria uma vida mais tranquila, iria menos ao psiquiatra, mas eu não consigo ser indiferente. 

Trabalhar com arte é um estresse gigantesco e, para concluir, eu queria te dizer uma frase que a gente usa no Brasil, um jargão que a gente usa entre nós do meio, que é assim: “Quem vê o glamour não vê o corre”. A gente abre o Instagram e vê o glamour, murais expostos em vários locais do mundo, tem obras e várias coleções, mas tem um corre por trás disso que é extremamente estressante. Você precisa fazer passar um projeto numa instituição que é transfóbica, mas ela está disposta porque agora tem a cota, ela vai precisar de você, mas precisa de você por uma obrigação. Você precisa ouvir muita coisa absurda. Precisa fingir que não tá ouvindo, precisa viajar que nem uma louca, carregando peso. É difícil, é muito difícil. Requer um jogo de cintura gigantesco, e tem que saber trabalhar sob pressão. 

*Estudante de Jornalismo da Unisinos. Essa entrevista é uma parceria do Nonada com a Beta Redação, portal experimental do curso de Jornalismo da Unisinos, e foi realizada sob supervisão dos professores Débora Lapa Gadret e Felipe Boff.

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