Ensaio: É a psicanálise uma experiência artificial?

Por Roberto Amaral*

“A gente não sabe o lugar certo

De colocar o desejo”

Caetano Veloso

Para Dhieine Caminski

Uma questão que me mobilizou para a discussão sobre a formação do/a psicanalista, enquanto práxis, foram duas afirmações de Daniel Omar Perez¹, presentes no vídeo “O que é a psicanálise? – parte III”²,  apresentadas a seguir, e que, a meu ver, embora tenham sido enunciadas em momentos diferentes, de certa forma se complementam, porém, a despeito disso, me causaram estranhamento: “Lembremos que, para Lacan, a psicanálise é uma experiência artificial”, pois,

Com efeito, a noção de sujeito suposto saber nos permite marcar o ponto de passagem de algo que, na ciência, se reconhece como a resposta a um problema, para a experiência do sujeito, como aquilo que não tem resposta. Mas não porque faltam recursos para a pesquisa, senão porque se trata de um problema sem resolução […]. É essa experiência singular que se acolhe na artificialidade da análise (PEREZ, 2022, grifo meu).

Ressalto que meu estranhamento em relação à afirmação de Perez, acerca da psicanálise ser uma experiência artificial, adveio de minha posição de analisando, posto que ainda não havia ainda vivenciado a função de analista. Desde tal posição, portanto, compreender o processo intenso, inquietante, impetuoso, aflitivo, angustiante, penoso, dramático, numa palavra, vívido, no que se traduz, para mim, a experiência singular da análise, é demasiado estranho pensá-la como resultante de um procedimento artificial. Artificial, por mim aqui compreendido, a princípio, como algo dissimulado, fingido, postiço, factício. Em outras palavras, uma experiência que não envolveria sensações, sentimentos, emoções e enunciações autênticas, enfim, um encontro entre inumanos. Volto a repetir: o que relato aqui é desde a posição de um analisando que viveu (e ainda vive) intensamente as suas sessões de análise e que se sentiria completamente traído se elas se constituíssem em encontros artificializados.

Mas, e para o/a analista, como funciona essa questão da artificialidade da experiência de análise? Se, como dito anteriormente, falo da posição de um analisando, não falo, entretanto, de uma posição solitária, pois, diante de mim, nas sessões de análise, há alguém a quem dirijo a minha palavra, aquela que me escuta e que me dá mostras de que não se artificializa para tal: a minha analista. Todavia, não posso falar por ela em relação à sua perspectiva analítica, posso apenas descrever como a vejo, como a ouço e, sobretudo, como a sinto, a partir do, às vezes cômodo, às vezes incômodo, divã em que tomo assento ao longo das sessões. E o que vejo, o que ouço e o que sinto nela/dela não me dá mostras de um manejo artificial, muito antes pelo contrário, me dá provas de uma relação de transferência analisando/analista vivaz e plena, para dizer o mínimo. Poderia dizer, mesmo conferindo os papeis que a cada um de nós corresponde na experiência analítica, a ela, como analista, e a mim, como analisando, há um fenômeno que nos reúne: ambos testemunhamos o inconsciente por meio da linguagem na hiância transferencial.

É certo que, enquanto ainda não experienciava a função de analista, não podia enunciar sobre ela um discurso de, apenas um discurso sobre. Porém, a linguagem do inconsciente que transborda nas sessões entre o analisando que era/sou e a minha analista, foi aos poucos me deslocando de uma completa ignorância sobre o ato analítico, do qual sou parte integrante, à construção de um determinado saber sobre ele, cuja verdade trazida à tona não diz respeito a outro sujeito senão a mim mesmo. 

O entre-lugar em que eu ainda não era um analista (mas que já manifestava o desejo de sê-lo) e a condição de analisando foi me libertando da ignorância do ato analítico, a ponto de compreender e falar sobre a artificialidade da experiência psicanalítica, como enunciada por Perez.

A própria atitude de dois estranhos, a minha analista e eu, se reunirem num consultório para um processo de fala e escuta sobre a minha narrativa pessoal que seria impronunciável em outro espaço e com outros sujeitos, diz muito sobre a experiência artificial da psicanálise. No entanto, esse gesto  por si só, não diz tudo. Os dois sujeitos, a minha analista e eu, que nos colocamos frente a frente para uma fala e uma escuta singulares, encontramo-nos em polos distintos, diria mesmo numa relação desigual, pois eu, o analisando, me apresento com uma queixa, com uma demanda, com uma dor, com um sofrimento, e enxergo nela, a minha analista que se posiciona diante de mim, aquela que, supostamente, estabelecerá, por meio de suas pontuações e intervenções, o processo de cura pelo qual anseio. Com vistas a esse fim, eu, o analisando, numa alusão à peça O mercador de veneza, de Shakespeare, ofereço a ela uma libra de minha carne³ a cada sessão. Não há em meu procedimento, por conseguinte, enquanto analisando, nenhuma espécie de artificialidade, senão uma postura visceral.

Já a minha analista é aquela que, malgrado o seu desejo, posiciona-se artificialmente como sujeito suposto saber diante de mim, o analisando, para marcar, como afirma Perez (2002), um ponto de passagem na experiência analítica, na direção de uma (im)provável resposta à minha queixa, à minha demanda, à minha dor, ao meu sofrimento. A resposta virá, se é que ela há de vir, da escuta de minha própria enunciação, mediada, necessariamente, pela presença artificial de minha analista, nesse caso, não enquanto pessoa, mas como função. Que função? A função de analista, ou seja, aquela que, por meio de pontuações e intervenções, pode vir a possibilitar com que nós dois, ela e eu, possamos dar testemunho do inconsciente mediante a linguagem, posto que, conforme Lacan, “O inconsciente [é], no fundo dele, estruturado, tramado, encadeado, tecido de linguagem” (1988, p. 139).

O fato, pois, segundo Lacan, de o inconsciente ser estuturado como uma linguagem é o que me leva a inferir que, se há uma uma artificialidade na experiência analítica, esta se evidencia de maneira incontestável no manejo clínico executado pela minha analista, ora perceptível, ora imperceptível à minha compreensão subjetiva como analisando, no percurso de cada sessão. Dito de outro modo, no momento em que estou a enunciar retalhos de minha fala plena4, a minha analista, de forma concomitante, está exercitanto uma escuta ativa e uma interpretação de sintonia fina sobre o meu dito, de modo a operar uma psicanálise que se quer virulenta e impertinente, como a preconizada por Lacan no Seminário 3, em que discute as psicoses:

A experiência freudiana não é de forma alguma pré-conceitual. Não é uma experiência pura. É uma experiência realmente estruturada por algo de artificial que é a relação analítica, tal como é constituída pela confissão que o sujeito vem fazer ao médico, e pelo que o médico dela faz. É a partir desse modo operatório primeiro que tudo se elabora (LACAN, 1988, p. 17, grifos meus).

É justamente neste ponto que a minha primeira compreensão sobre o termo artificial presente na experiência analítica, conforme observado por Perez fundamentado em Lacan, se esboroa. Ou seja, a famigerada artificialidade preconizada pelo ato analítico não tem a ver com simulação, farsa ou engodo, tais sentidos foram evocados por um analisando que, estranhado pela expressão, definitivamente não queria se ver como tendo sido enganado, iludido e manipulado, em seu processo analítico, por uma tenaz prestidigitadora. Aventuro-me a dizer, então, que a artificialidade operada na experiência analítica é, na realidade, da ordem do artifício, isto é, de um recurso ao manejo clínico da linguagem, desde o qual, eu, na condição de analisando, portanto, como sujeito do inconsciente, sou mobilizado a entrar num processo de desautomatização do meu discurso cotidiano, de minha fala vazia5. Desse modo, o sujeito da experiência analítica, na perspectiva do artifício, de acordo com Sirelli,  “[…] não é da ordem do natural; ele é efeito de linguagem, marcado pelo significante e, ao mesmo tempo, causado pela ausência de objeto, o que o caracteriza como desejante e pulsional”6 (2017, P. 17).

A intrincada trama de transmutação do significado unívoco e reducionista da expressão articial para o seu imperativo de significante plurívoco e complexo foi o que me permitiu compreender que a experiência analítica não é uma experiência pura e nem natural. Pelo fato de o inconsciente ser estruturado como uma linguagem, no momento de sua ocorrência na análise são postos em jogo diversos artifícios, ou seja, um teimoso investimento em dispositivos analíticos tendo em vista a “captura do ‘quem’ do Real”7 (HANSEN, 2000, p. 20).

Notas

 1 Psicanalista e professor de filosofia na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), pesquisador PQ 1D no CNPQ com investigações sobre o sujeito e a loucura a partir de Kant. Atualmente a pesquisa aborda a relação entre linguagem e natureza humana (antropologia) em torno do fenômeno da loucura. Ele Também desenvolve um projeto sobre A constituição do sujeito a partir das relações de identificação (filosofia e psicanálise).

2 PEREZ, Daniel Omar. O que é a psicanálise? Parte III. 2022. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=_4dlHUc2HA0 >. Acessado em: 26 set. 2022.

3 Em relação a esse processo de entrega enunciativa que opero na experiência analítica, fruto do processo mutuamente transferencial entre eu, o analisando, e a minha analista, há uma curiosa declaração de Lacan no Seminário 10, no qual o psicanalista francês problematiza a questão da angústia: “Entre o sujeito $, aqui ‘Outrificado’, se posso me expressar desse modo, em sua estrutura de ficção, e o Outro, A, não autenticável, nunca inteiramente autenticável, o que surge é esse resto, a, é a libra de carne. O que quer dizer que podemos fazer todos os empréstimos que quisermos para tampar os furos do desejo, assim como os da melancolia, mas lá está o judeu que, por sua vez, entende um bocado do balanço das contas e que, no fim, pede a libra de carne — creio que vocês sabem o que estou citando. É essa a marca que vocês sempre encontrarão no que é acting out” (LACAN, 2005, p. 139. O primeiro grifo é meu, o segundo é do autor). LACAN, J. O Seminário Livro 10: a angústia. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.

4 Lacan esclarece que “o efeito de uma fala plena é reordenar as contingências passadas dando-lhes o sentido das necessidades por vir tais como as constitui a escassa liberdade pela qual o sujeito as faz presentes” (LACAN, 1998, p. 257).

5 Conforme Lacan, na fala vazia: “o sujeito parece falar em vão de alguém que, mesmo lhe sendo semelhante a ponto de ele se enganar, nunca se aliará à assunção de seu desejo” (LACAN, 1998, p. 255). LACAN, J. O Seminário Livro 3: as psicoses. Tradução Aluísio Menezes. 2 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.

6 SIRELLI, N. M. Objeto a e Outro: cede-se uma libra de carne. Trivium: Estudos Interdisciplinares, Rio de Janeiro. v. 9, n. 2, p. 257-267, jul./dez. 2017.

7 Segundo Vladimir Safatle, “Lacan insistirá cada vez mais que a experiência humana não é um campo de condutas guiadas apenas por imagens ordenadoras (Imaginário), por estruturas sociossimbólicas (Simbólico) que visam a garantir e a assegurar identidades, mas também por uma força disruptiva cujo nome correto é Real. Aqui, o Real não deve ser entendido como um horizonte de experiências concretas acessíveis à consciência imediata. O Real não está ligado a um problema de descrição objetiva de estado de coisas. Ele diz respeito a um campo de experiências subjetivas que não podem ser adequadamente simbolizadas ou colonizadas por imagens fantasmáticas. Isso nos explica porque o Real é sempre descrito de maneira negativa, como se fosse questão de mostrar que há coisas que só se oferecem ao sujeito sob a forma de negações”. (SAFATLE, 2018, p. 76-77, grifos do autor). SAFATLE, V. Introdução a Jacques Lacan. 4 ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2018.

*Roberto Amaral é psicanalista, escritor, professor de filosofia, doutor em filosofia e pós-doutor em estudos literários. Autor de Veredazinhas eleitas – rasuras lacanianas em Grande sertão: veredas (Caravana, 2022), entre outros livros.

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