Madalena Fontes, indígena baniwa, na performance Obra Pamürimasa - "Os espíritos da transformação" (Foto: TePI/divulgação)

Plataforma TePI reúne iniciativas da dramaturgia indígena, que convoca natureza para falar

Uma cobra feita de papel Kraft diz: “Ou a gente acaba com o antropoceno, ou ele acaba com a gente”. Enquanto rasteja, degrau por degrau das escadas do Theatro Municipal de São Paulo, sob o imponente tapete vermelho, anuncia em seu corpo: “A floresta não é feita de papel. O papel é feito de floresta.” 

A jibóia cheia de palavras fala na voz, no traço, e na obra da artista Daiara Tukano, que produziu uma Carta-Cobra, um manifesto, durante a mostra “ContraMemória” relativa aos 100 anos da Semana de Arte Moderna 22 no teatro mais antigo da capital paulista. “Vamos entrar aqui, sim, nessa casa sem memória, nesse teatro dourado, do ouro do sangue dos nossos avôs e avós”, falou a artista, em maio deste ano, durante uma ação performática. 

No palco do mesmo teatro, Ailton Krenak dirigiu uma remontagem do espetáculo modernista O Guarani. Diferente da versão original, reprodutora de estereótipos e de uma narrativa não-indígena, a peça que o intelectual e autor dirigiu tornou-se um marco por descolonizar e trazer artistas indígenas para subirem ao palco desta instituição cultural pela primeira vez. 

Demarcar a linguagem cênica como um território indígena é o que tem feito Ailton, ao lado da diretora Andreia Duarte, através da plataforma TePI, criada em 2018 e digitalizada em 2021. Em um encontro de longa data, a dupla passou a reunir artistas indígenas cosmopolíticos para debater sobre arte indígena nas artes cênicas. No início, TePI era um festival, com a participação de líderes, ativistas, artistas, intelectuais, escritores e performers. 

Carta-Cobra, de Daiara Tukano

Em entrevista ao Nonada Jornalismo, Ailton fala sobre a importância de se olhar para a criação indígena na cena e seus fundamentos. “O teatro dos povos indígenas descentraliza o humano como espécie excelente e convoca outros seres para falar. O céu fala, as nuvens falam. Ele dá a palavra aos não-humanos”, explica o autor de Futuro Ancestral (Ed.Companhia das Letras, 2022), A vida não é útil (2021) e O Amanhã não está à venda (2019). 

O projeto nasce também de inquietações. “Por que o corpo indígena não estava dentro dos festivais de teatro, das programações e das instituições?”, perguntava-se Andreia, doutora pela UFMG. “

Nasce um movimento

Em 2021, TePI torna-se também uma plataforma digital de conteúdo contínuo, híbrida. Os co-criadores e curadores o definem como um “movimento”, porque nestes anos promoveu Festivais, Livros, Lives, Espetáculos e, mais recentemente, residências artísticas. O ponto de encontro são as artes cênicas de autoria indígena, mas Andreia observa que essas taxações fazem mais sentido para nós, brancos, do que dentro das perspectivas indígenas. A maioria dos artistas circula entre linguagens e tem o teatro como uma dessas manifestações. 

A importância da emergência de produções e discussões sobre teatro e dos povos indígenas está nos corpos indígenas se auto representando e protagonizando a cena. Além disso, para os curadores, a dramaturgia indígena traz sentidos políticos, cosmológicos e ecológicos para a cena. É também uma inversão de formas europeias de entender o processo, inclusive o que acontece antes da entrada no palco.

Yepário e Saberes, com texto e direção de Sandra Nanayna, da etnia Tariano (Foto: TePI/divulgação)

“A criação acontece o tempo inteiro. Você não chega em uma sala de ensaio para fazer um alongamento, aquecer a voz, preparar o texto, e depois criar. Você chega criando”, observa. Para ela, o movimento é uma grande oportunidade de rever os modos de fazer cênicos. Andreia também ressalta a relevância do amigo e artista Jaider Esbell, que encantou-se em 2021, na formação do TePI. “Ele foi uma pessoa muito importante para todos nós, inclusive para mim, enquanto não-indigena, porque ele lutou e ampliou o reconhecimento do lugar da arte indigena na história da arte do Brasil.” 

Um teatro de portas sempre abertas 

O primeiro livro digital e gratuito publicado pelo TePI foi Teatro e Povos Indígenas: Janelas abertas para a possibilidade (2021, Ed.Outra Marga e Ed.N1 Edições). O e-book conta com textos escritos por 19 artistas indígenas, ou por parceiros indígenas e não indígenas  de várias regiões do Brasil, Chile e Equador. 

Em 2022, o segundo livro de dramaturgia“Os Sateré-Mawé e o Teatro dos Clãs” foi lançado. A obra inclui reflexões sobre teatro e permite a compreensão de que aquilo que atravessa e constitui os Sateré-Mawé como etnia — e não se referindo somente à identidade linguística, mas, sobretudo, sociocultural. Habitante da terra indígena Andirá-Marau, localizada no Baixo Amazonas/AM, o povo é considerado inventor da cultura do guaraná.

O projeto também promoveu lives durante o período da pandemia e que seguem disponíveis. As conversas entre intelectuais e artistas discutem questões como a curadoria e a relação das artes cênicas com outras linguagens. A plataforma também funciona como um teatro de portas sempre abertas, disponibilizando espetáculos gratuitos que podem ser assistidos a qualquer momento. 

É o caso de  “Ma’é Yyramõi – MAR À VISTA”, uma peça teatral encenada em Guarani Nhandeva com legendas em Português sobre a cultura, modo de vida e cosmovisão dos Guarani mais antigos. Com um elenco formado pelos moradores da Aldeia Guarani Awa Porungawa Dju, da Aldeia Tabaçu e da Aldeia Tapirema da Terra Peaçawera, a obra é produzida pela Cia. de Arte Teatro Interrompido em parceria com o Coletivo Nhandereguá de Teatro. Neste vídeo produzido para o TePI, apresentam uma primeira versão de Ensaio Aberto com a leitura dramática de duas cenas e depoimentos sobre o processo de construção do espetáculo.

O público também pode assistir a peça “Yepârio e Saberes”, escrita e dirigida por Sandra Nanayna, que relata o cotidiano de quatro pessoas indígenas residentes no contexto urbano. O espetáculo falado na língua nativa Tukano e mantém viva a oralidade de geração a geração. A Plataforma também reúne performances e leituras dramáticas de artistas de diferentes regiões e etnias. 

Rito, de Zahy Guajajara e Sallisa Rosa (Foto: TePI/divulgação)

TePI funciona como biblioteca viva ao tornar-se um lugar de encontro para textos, como “A dramaturgia indígena precisa respirar”, de Renata Tupinambá, e “Pela diluição do edifício teatral”, de Julia Guimarães. Fundadora da produtora indígena Originárias Produções, Renata explica que o teatro indígena é transgressor e anticolonial. “A dramaturgia indígena respira para que possa ser feita a passagem dos fantasmas que habitam as histórias que nunca puderam ser contadas”, afirma. Já Julia Guimarães, afirma que o teatro, como instituição, possui uma dívida histórica com os povos indígenas brasileiros.  

Laboratório de perguntas 

“A plataforma foi construída como um lugar que pudesse referenciar esse ensaio, essa pesquisa sobre Teatro e Povos Indígenas”, afirma Ailton Krenak. “É importante as pessoas pensarem no TePI como um laboratório. Nós não estamos afirmando que tem um teatro indigena, nós estamos perguntando se tem um teatro indigena.”

Para Ailton, o momento é de ampliar a interlocução com os coletivos, com grupos, indivíduos, que trabalham com uma dramaturgia expandida. O movimento reúne pessoas a artistas indígenas guiados em seus trabalhos pelas cosmovisões dos povos originários. “A maioria dos povos originários do continente rememoram eventos da criação do mundo em cada uma de suas tradições. Essas memórias são ativadas em textos, em roteiros de cinema, em roteiros para uma montagem de um espetáculo teatral, onde o tema vai ser sempre do interesse desses povos na prospecção do seu próprio mundo”, analisa. 

Embora haja um choque de referências, e um questionamento dos modos de fazer cênico eurocêntrico, o escritor afirma que não se trata do estabelecimento de hierarquias. “Não é uma concorrência com o que existe no mundo do teatro. Não é comercial, e também não tem a pretensão de ser a única iniciativa que se pergunta sobre teatro e povos indígenas, considerando que mais de 40% da população indígena do país está vivendo em centros urbanos, trabalhando, estudando nas universidades, em diferentes lugares que 20 anos atrás seria inimaginável.”

O título da Mostra Atual pode ser um bom caminho para adentrar o espaço cênico proposto por esses e essas artistas. “A metáfora sobre pensar acima das nuvens é porque se nós pensarmos cravados no cotidiano, na realidade, nós não vamos pensar em outros mundos. Não somos capazes de pensar, inclusive, o que faz com que esse mundo que nós estamos compartilhando na maneira mais bagunçada possível, esquentando o planeta, ameaçando a vida de outros seres.” 

Edição de 2023

Lithipokoroda, de Lilly Baniwa (Foto: TePi/divulgação)

Em 2023, o TePI chega em sua 3ª edição como uma mostra artística que acontece entre os dias 07 a 16 de julho, no Sesc Avenida Paulista,Sesc Santo Amaro,  Museu das Culturas Indígenas, Teatro Oficina e Instituto Goethe. A mostra deste ano propõe “Pensar acima das nuvens e outro céu cheio de estrelas”. Entre espetáculos, seminários e formações, a edição segue o trabalho que já vem fazendo há cinco anos ao cruzar as cosmologias de diferentes regiões do Brasil e do mundo, fortalecendo a pluralidade das visões poéticas. A mostra reúne convidados de mais de 30 etnias, entre elas, Baniwa, Terena, Mapuche, Shipibo, Guajajara, Krenak, Tariano, Tukano, Potiguara, Pataxó, Pankararu, Guarani, Maxacali, Desana, Kamayurá, Tupinambá, Makuxi, Kadiwéu, Kubeo, Tentehar, Corezomaé e Wapichana.

Ao articular com artistas de outros países, como Paula González do Chile e Tiziano Crus da Argentina, o festival proporciona o encontro de dramaturgias de contextos diferentes, mas que compartilham semelhanças.  Os espetáculos pautam a luta contra a colonialidade, a visibilidade indigena e a demarcação de um território de linguagem. “São artistas que trabalham na perspectiva ‘de que mundo estamos vivendo?’”, afirma Andreia.  

Com as características de um pensamento a partir da ecologia e de um bem-viver, o teatro de autoria indígena tem como seu público-alvo os povos de todo mundo. Ailton acredita que o TePI é uma experiência fundamental, porque se expande além das fronteiras, de linguagem e de território. 

“É uma iniciativa cultural da maior relevância. O meu engajamento nessa iniciativa é [com intuito] de pensar uma plataforma em que as experiências que confluem vão passar por esse caminho e seguir suas vocações, abrindo caminho também para que esses coletivos de arte indígena possam se espalhar, fazer outras coisa além de ficar limitados a suas experiências locais e regionais, porque eles têm também a expectativa de falar com o mundo”, finaliza.

Compartilhe
Ler mais sobre
cultura indígena
Repórter do Nonada, é também artista visual. Tem especial interesse na escuta e escrita de processos artísticos, da cultura popular e da defesa dos diretos humanos.
Ler mais sobre
Comunidades tradicionais Processos artísticos Reportagem

Primeira rede de cineastas indígenas reúne produções de mulheres nos diferentes biomas do Brasil