Foto: José Cruz/Agência Brasil

Proposta do Museu da Democracia deve partir de olhares que descolonizam os museus, defendem especialistas

O projeto do Museu da Democracia deve começar “com uma descolonização de todas as lógicas da modernidade, da colonialidade e que seja o fim de desigualdade, racismo, genocídio, apropriação de terras, apropriação de matérias-primas, e, principalmente, uma descolonização na própria forma de construção do museu, que é reconhecer as diversidades dentro do corpo que vai compor esse museu”. É o que propõe Débora Santos, museógrafa da Universidade de Brasília (Unb), que abriu a mesa Construindo o Museu da Democracia Brasileira, parte do Seminário Internacional de Memória e Democracia, promovido pelo Ministério da Cultura na sexta-feira (15).

A mesa colocou em diálogo diferentes autores para pensar a construção coletiva do museu, tanto espacialmente, quanto no planejamento do conteúdo, nas exposições e no corpo integrante do espaço. O Museu da Democracia foi anunciado pela ministra da Cultura Margareth Menezes logo após os ataques de 8 de janeiro, quando extremistas bolsonaristas invadiram, vandalizaram e depredaram o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF) em tentativa golpista fracassada. 

Diversas foram as reações da sociedade civil, que protestou a favor da democracia um dia depois dos ataques. Em primeira instância, foi anunciada a criação de um memorial do 8 de janeiro, mas a ideia foi ampliada para o museu, que planeja contar a história da construção da democracia brasileira – que ainda está acontecendo. A iniciativa terá verba inicial de R$40 milhões pelo Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), com previsão de definição do acervo e dos equipamentos de forma coletiva por meio de consultas populares.

Na mesa, o articulador da Rede Indígena da Memória e Museologia Social no Brasil Suzenalson Santos expôs sobre a criação do Museu Indígena Kanindé, uma experiência que ele coordena e que foi criada no interior do estado do Ceará criada em 1995 pelo cacique Sotero após muitos anos de silenciamento.  

Sotero e seu irmão sempre ouviam o avô alertar que eles não podiam falar para ninguém que eram indígenas, senão iriam morrer.  Foi somente quando se reuniram com outros indígenas em outra aldeia que eles resolveram que era hora de contar a história de sua aldeia. 

A iniciativa “instigou a população da região do maciço de Baturité, que é a região onde a gente vive, em torno não somente da auto-identificação de um povo indígena naquela região, como também a busca por direitos dentro do próprio território e a luta pela demarcação da própria terra”, explicou Suzenalson. 

Foi também nos anos 1990, a partir da ocupação de fazendas improdutivas, que as Ligas Camponesas começaram a gestar na Paraíba um memorial para preservar e cultivar sua memória. “As pessoas precisavam e precisam nos ver e nos reconhecer do quanto é importante fazer memória com autonomia e com o protagonismo daqueles e daquelas que fazem a história todo dia”, contou a presidente do Memorial das Ligas e Lutas Camponesas Alane Silva. 

Ela relembrou que o plano museológico foi construído coletivamente pela comunidade.  “E é por essas famílias que dedicaram suas vidas, que dedicam suas vidas, que nós permanecemos dizendo que é preciso haver democratização de terra para haver democracia. Porque sem terra, não há democracia. Nós não fazemos história, memória, se não houver camponeses, camponesas, indígenas, quilombolas, pessoas LGBTQIA+. Não existe democracia sem nós”. 

O papel da cultura na produção de conhecimento e memória coletivos foi lembrado pela doutora em História da Cultura pela Universidade de São Paulo (USP) Andréia  Nogueiro. “E esse papel da cultura, que está implicada em todas essas produções e que constitui o elemento de formação, é uma travessia justamente das nossas histórias, do que guardamos como nossas memórias mais básicas da vida, e o que aprendemos, e as promessas desse futuro, que se desenham, permitindo que cada pessoa se reconheça como produto e produtor de cultura”, enfatizou. “A cultura perpassa e envolve esse epiderme que nos acontece, e perpassa e envolve as próprias representações que fazemos dos acontecimentos, o que geralmente foge essa percepção imediata”, complementou Andréia. 

Já o diretor da Spectaculu Escola de Arte e Tecnologia Gringo Cardia explicou sobre novos modelos de exposição de conteúdo nos museus. A forma de comunicação mudou com as novas gerações – e os espaços do conhecimento devem se adequar a essa demanda. “Há uns 15, 20 anos, os museus começaram a ter que mudar a sua linguagem, porque a juventude do século 21 já não se interessa muito por determinados tipos de linguagens que os museus tinham”, explica Gringo. Sua proposta agora é fazer mais conteúdos audiovisuais e relacionados aos sentidos como tato e audição, por conta de um baixo índice de leitura observado nas exposições. 

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Repórter e fotógrafa. Escreve prioritariamente sobre cultura e meio ambiente, culturas populares e educação
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