Ilustração: Katarina Scervino/Nonada Jornalismo

Fora do eixo: autores e autoras refletem sobre o rótulo de “literatura regional”

*Reportagem originalmente publicada na Redemoinho, nossa newsletter de literatura. Assine gratuitamente.

Na literatura brasileira ainda faz sentido falar de literatura regional? O que é ser universal? Como funciona a experiência de recepção de leitura nesse sentido? Em busca de respostas para questões complicadas, conversamos com os escritores e escritoras Cristhiano Aguiar, Fernanda Bastos e Monique Malcher.

Aguiar nasceu em Campina Grande, na Paraíba, e é autor de Gótico Nordestino, além de ser professor de literatura na Universidade Presbiteriana Mackenzie; a paraense Malcher é antropóloga, artista plástica e ganhou o prêmio Jabuti de literatura em 2021 na categoria contos com o livro Flor de Gume; já Fernanda Bastos é jornalista, poeta, editora na Figura de Linguagem e também uma das curadoras da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), um dos eventos mais consagrados na área.

Confira as reflexões:

Nonada – Atualmente me parece que muito do que era tratado como literatura “regional” antigamente atualmente é considerado “brasilidade”, embora sempre exista essa questão do local x universal.  Como você observa essa questão? 

Monique Malcher:  É muito perigoso falar de brasilidades na literatura, me soa como se algumas coisas fossem Brasil e outras não. Me preocupa essa tentativa de tradução do que uma comunidade é para caber na visão do outro, e esse outro se vê muitas vezes como aquele que descobre, que dá voz. Como se nossas vozes não existissem ou precisassem de um salvador para contar nossas histórias, impasses, lutas. Não se compreende ainda sobre a diferença entre centros econômicos e centros culturais. A centralidade é pautada pelo capital, essa é a verdade. As noções territoriais estão atreladas aos olhares colonizados que construíram esse país. 

Por isso nas artes também nos olham como os exóticos e/ou os que estão na moda. O que não enxergam é que desde sempre construímos não só os prédios, as ruas, a força de trabalho desse país, como construímos a história da palavra, da poesia que nos cerca. Estamos e somos faz um bom tempo, mas pensam que podem nos descobrir como se nossa existência tivesse gênese apenas no olhar que nos exotifica. Até quando seus livros vão se passar no norte? Uma vez me perguntaram. E posso afirmar que respondo essa pergunta quando ela for feita para outro autor assim: até quando seus livros vão se passar no centro de São Paulo?

Cristhiano Aguiar (Foto: Renato Parada/divulgação)

Cristhiano Aguiar: Desde ao menos o romantismo, as ideias de local e regional, em nossa literatura, são colocadas como fundadoras daquilo que parte da nossa literatura e considerável fatia da crítica considerou como a nossa vocação literária primordial: construir, bem como revelar, a nossa identidade nacional. Assim, neste sentido, desde sempre o regional é considerado como um índice de brasilidade, a ponto de muitas vezes o local, na literatura, ser lido, em especial pela crítica, como uma obrigatória alegoria da nação como um todo.

É importante refletir sobre como cada época interpreta, para além da função de revelação da identidade nacional, o conceito de “regional”. E com frequência o conceito de regionalismo é utilizado para reforçar um jogo de poder simbólico no qual produções culturais fora do eixo Rio-São Paulo são vistas como o que sobra da suposta universalidade produzida por este mesmo eixo. Assim, cabe à produção do “centro” a liberdade criativa e cosmopolita, ao passo que cabe a nós, nas margens simbólicas, papéis bem definidos que se resumem à afirmação da nossa regionalidade. Eu acho que devemos questionar com profundidade este jogo de poder, que muitas vezes é aceito acriticamente por nós mesmos, nós que não estamos no centro simbólico do poder cultural.

Faz sentido falar em regional? Depende dos termos do debate. Se eu usar regional como um contexto inicial de compreensão das particularidades culturais, sociais e históricas de uma obra, pode haver utilidade para o termo, em especial se a via for de mão dupla: por que o meu “oxe” deveria ser mais regional do que o “mano” paulistano, por exemplo? 

Fernanda Bastos: O Sudeste segue sendo o espaço-tempo da autoria brasileira. Os autores e as autoras se sentem mais autores e autoras quando fazem lançamento no Rio de Janeiro e sobretudo em São Paulo. As editoras em que todos desejam publicar funcionam nessas localidades e também os veículos de comunicação que fazem a cobertura literária circulam em torno das pessoas que publicam por essas editoras e pelos autores e autoras que vivem nesse eixo. Mesmo que o mercado comece a ser cobrado a olhar para outros cantos do país, em geral há um desejo e uma pressão para que se viva lá, pois é onde estão as rodas de legitimação e a grande maioria dos trabalhos bem remunerados. Incluo o fator tempo nessa resposta, porque o espaço Rio-São Paulo também cria temporalidades. 

Um autor de longa trajetória no Rio Grande do Sul, por exemplo, pode ser apresentado como uma novidade quando é publicado por uma editora do centro. E a estratégia publicitária de lançamento de novos títulos de antigos autores do underground pode desconsiderar as andanças anteriores dessas obras. São escolhas políticas do mercado, que aprendemos a fingir que são meramente técnicas. A FLIP navega por esses mares todos, tentando brechas, embora não seja possível viver isolado do impacto dos mecanismos do mercado editorial sobre autores, autoras, editoras, agentes, livreiros, etc. Com relação ao meu papel como co-curadora, tenho sempre olhado para o lugar de onde escrevem, onde vivem e por onde publicam os autores e as autoras, pois isso faz parte da trajetória editorial e artística que eles escolhem escrever.

Monique Malcher (Foto: Duda Viana/divulgação)

Nonada – Talvez a questão mercadológica implique também em colocar autores e autoras em certos nichos. O que fazer para termos um mercado editorial mais diverso?  

Monique Malcher: Para termos um mercado editorial mais amplo e diversificado precisamos estar no currículo escolar e que os professores desse país sejam bem remunerados, são eles que formam os futuros leitores e são os leitores que fazem esse mercado ser o que é. Precisamos sim de um país com mais leitores, mas também de pessoas que escrevam e possam pagar suas contas com essa profissão. É o escritor que nos conta coisas sobre o mundo que ignoramos, não sabemos ou esquecemos. Quem escreve está tão perdido quanto quem lê, mas segue firme em narrar a vida.

Cristhiano Aguiar: A nomenclatura “regional” como um valor de mercado implica em usar um termo consolidado e já testado no mercado consumidor da cultura, por exemplo. Ou seja, se é um conceito conhecido, sobre o qual ainda se tem interesse, é mais fácil criar uma narrativa de apelo para aquele produto – no caso, o produto editorial. É uma estratégia preguiçosa, porém percebo que bons profissionais do mercado estão contornando esta solução fácil e dando conta das obras nas complexidades e contradições inerentes a elas, entendendo um sotaque como uma potência estética e não como um constrangimento ou curiosidade exótica.

Fernanda Bastos: Falo mais do Rio Grande do Sul porque é onde atua a [editora] Figura de Linguagem. Aqui, é necessário que o mercado amadureça e perceba o que acontece fora do estado. Não é por que fomos referência em determinados períodos históricos que podemos nos acomodar com a tradição, perdendo a força dos acontecimentos que trazem mudança e evolução. Ainda estamos carentes de políticas públicas e ações na iniciativa privada que promovam, de fato, a bibliodiversidade e o antirracismo para além de episódios centralizados em figuras e datas específicas.

Nonada – Você já sentiu alguma espécie de preconceito ou percebeu que seu trabalho foi tratado de uma forma “exótica”?

Fernanda Bastos (Foto: Gustavo Schossler/divulgação)

Monique Malcher: Com certeza, sinto falta em algumas entrevistas de perguntas sobre meu trabalho literário/poético. Como crio minhas personagens, qual minha metodologia de trabalho, dentre outras curiosidades que perguntam para a maioria dos escritores que não são considerados regionais. Escrevo em uma perspectiva que acha importante falar sobre o norte do país, mas é preciso lembrar que não somos cristalizados e nossa história é muito mais complexa do que esse olhar exótico que nos jogam. Várias vezes fui desacreditada em eventos como uma escritora que também é antropóloga e usa esse conhecimento para compor seu trabalho. Se você vem de uma região como a minha, inevitavelmente as pessoas esperam que você escreva autobiografias, autoficção. Eu amo essas formas de escrita, mas trabalho com ficção. 

Cristhiano Aguiar: Estou convencido de que, para parte da crítica, o regional é um rótulo de controle de interpretação de obras. É como se esta parcela da crítica cercasse a obra e controlasse a recepção para deixá-la em um local “seguro”, “confiável”, “digerível”. Como assim estes escritores “regionais” estão ousando chegar até este ponto aqui, esta crítica diz a si própria, em silêncio. Senti um tanto deste mecanismo em ação em algumas das leituras e reações ao meu livro mais recente, Gótico Nordestino, assim como vi o mecanismo em ação na recepção de obras como as da escritora cearense Jarid Arraes, por exemplo.

A mudança física de um autor nordestino como eu para São Paulo ou Rio de Janeiro não necessariamente mudará para melhor ou pior a recepção da minha obra. Esta recepção é mais influenciada pelas formas como uma obra é editada e como ela é posta em circulação. Assim, um autor paraense, digamos, ou goiano, pode ter uma recepção considerada mais ampla por publicar em editoras do Rio-São Paulo e por ter espaço na mídia destes dois lugares, do que um paulistano, morador de uma região distante do centro da capital, que constrói uma carreira se auto publicando. Se trata mais de como sua obra e seu nome circulam em espaços de legitimação do que onde você fisicamente está morando. Evidentemente, morar em São Paulo ou Rio de Janeiro, em termos editoriais, pode abrir oportunidades com mais frequência do que se alguém mora em um local distante destas duas cidades. 

Fernanda Bastos: Quando lanço um livro como Selfie-purpurina, que é fruto de pesquisa e memória sobre o carnaval de Porto Alegre, sei que meu público se restringe. Embora eu possa viver o carnaval de outras localidades e tenha interesse de ler sobre eles, sei que este não é comportamento majoritário de certas camadas de leitores narcísicos típicos dos dias que vivemos, em que o desejo de identificação radical interfere nas escolhas de leitura. Mas não me atenho a isso, meu projeto estético é de contrariedade de interesses em muitos níveis, e tenho orgulho de que ele seja assim.

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Jornalista, Especialista em Jornalismo Digital pela Pucrs, Mestre em Comunicação na Ufrgs e Editor-Fundador do Nonada - Jornalismo Travessia. Acredita nas palavras.
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