40% das pessoas não têm acesso à educação na língua materna, diz Unesco

Relatório da Unesco mostra relação entre cultura e educação e aponta que países do Sul Global são destaque na implementação de artes no currículo escolar

As oportunidades e os desafios da interseção entre cultura e educação são destaque no estudo “O ODS Ausente: Relatório Global da Unesco sobre Políticas Culturais”, um documento inédito lançado em 2025 que oferece um panorama global das políticas culturais em diferentes regiões do mundo e setores culturais. O Nonada analisou o relatório, em busca de dados relevantes sobre a interseção entre as áreas. 

Um dos dados que mais chamam atenção está relacionado à diversidade linguística na educação mundial. O estudo aponta que, apesar de a educação na língua materna das crianças e adolescentes desempenhar um papel comprovado no apoio à aprendizagem, esse está longe de ser um direito assegurado: cerca de 40% das pessoas ao redor do mundo não possuem acesso à educação na língua que falam em casa. O problema se agrava ainda mais na África Subsaariana, onde o índice sobe para 80%. A questão ocorre em razão da “dominação de línguas coloniais nos sistemas educacionais”, fato que revela falhas na inserção do patrimônio cultural dos países na educação. 

O relatório também aponta que o trabalho interdisciplinar entre cultura e educação é indispensável para o desenvolvimento social sustentável. A arte-educação é um exemplo prático de como os dois campos podem se unir, já que tanto o direito à cultura, quanto à educação, são considerados direitos humanos inalienáveis.  Sobre os currículos escolares analisados, o relatório afirmou, por exemplo, que o ensino sobre patrimônio cultural está presente em apenas 61% das escolas dos países da América Latina. 

Com base em 1.200 relatórios nacionais e locais submetidos entre 2019 e 2024, a estrutura das escolas também foi analisada na pesquisa. O acesso a internet dentro do ambiente escola não é amplamente difundido, em especial nas escolas localizadas em territórios rurais. No escopo analisado, 60% das escolas de anos iniciais não possuíam acesso à internet.

Lançado durante a programação do Mondiacult 2025, maior fórum internacional sobre cultura ocorrido em Barcelona, o documento inédito se baseia em 200 estudos de caso realizados entre 2019 e 2024, compreendendo todas as regiões do mundo.

O âmbito educacional do relatório é centrado em temas que valorizam desde a promoção do respeito à diversidade cultural global até a formação artística e cultural em contexto de transformações tecnológicas e digitais. Conforme o documento, “cada vez mais se reconhece que a educação não deve apenas dotar os alunos de competências acadêmicas, mas também cultivar a compreensão cultural, a variedade de expressões criativas e um sentimento de pertença”. 

Segundo o estudo, essas são áreas que não podem ser compreendidas separadamente. A perspectiva é enfatizada pela manifestação de líderes e autoridades, como a  Ministra da Cultura e do Turismo da Índia, Gajendra Singh Shekhawat: “A cultura e as artes são a alma da nossa nação, refletindo a diversidade e a profundidade das nossas tradições, línguas e expressões artísticas”, defende ela em uma conferência da Unesco em Nova Delhi de 2024. “Integrar esses elementos ao nosso sistema educacional não só enriquece a experiência de aprendizagem, como também fomenta um profundo senso de identidade e orgulho entre os nossos jovens.”

A pesquisa incentiva que as artes estejam presentes na sala de aula. Para isso, é importante que o trabalho pedagógico inclua abordagens baseadas no patrimônio dos territórios, a exemplo de tradições locais, artesanato e música, quanto práticas criativas contemporâneas, como artes midiáticas, tecnologias digitais de criação, design e outras formas de narrativa digital.

Relatório mostrou que o ensino sobre patrimônio cultural está presente em ainda não é abrangente. Foto: : Tina Coelho/Acervo Iphan

Destaque para o Sul global

Os países do Sul global foram os que mais implementaram medidas para garantir que as instituições de ensino fundamental, médio e/ou superior oferecessem programas curriculares voltados para a cultura e a criatividade entre os anos 2018 e 2022, com 93% da porcentagem. No Norte global, esse número é de 85%. Já no mundo como um todo, a porcentagem é de 87%. Os dados foram obtidos a partir de um relatório sobre as iniciativas das cidades que integram a Rede de Cidades Criativas (UCCN) da Unesco. 

Outro dado que se destaca é o de que 58% dos países do mundo ensinam sobre Patrimônio Cultural Imaterial em suas escolas como uma disciplina independente. “O principal objetivo dessas atividades é fomentar o desenvolvimento de habilidades artísticas e nutrir a criatividade, com abordagens comuns que incluem o ensino de artes visuais, música e teatro como formas fundamentais de expressão artística”, diz o documento.

O relatório também mostra o percentual de cada grupo de países no que tange ao ensino, dentro das instituições, do respeito e da reflexão sobre o patrimônio cultural imaterial de sua própria comunidade, por meio de programas e currículos educacionais. Países da América Latina e caribenhos, 28 no total, obtiveram o menor percentual, de 86%. Já os países da Europa e da América do Norte (39), do Leste e Sudeste asiático (5), do Centro e Sul asiático (4) e da Oceania (2) atingiram um percentual de 100%. 

Cultura e arte no ensino superior

Os dados mostram que os cursos de ensino superior em cultura e artes, incluindo programas de formação profissional e técnica, são caminhos importantes para a profissionalização da área. Instituições de ensino superior em todo o mundo oferecem uma ampla gama de disciplinas culturais, incluindo cursos teóricos, como teoria e composição musical; aulas práticas, como restauração de obras de arte; habilidades tradicionais, como artesanato; tecnologias de ponta, como desenho e projeto de engenharia; e disciplinas interdisciplinares como artes. 

Uma análise dos dados globais de cursos de 2022 do banco de dados World Higher Education, presente no relatório da Unesco, mostra que 15,3% de todos os cursos de ensino superior possuem relação com a cultura e com as indústrias criativas. A proporção de cursos ligados à cultura e às artes oferecidos nessas instituições acompanha os índices de renda.

Em países de baixa renda, a porcentagem de cursos oferecidos nessas áreas é de 11,2%, enquanto que nos países de alta renda é de 17,1%. O documento contextualiza que isso ocorre porque “em países de baixa renda, menos estudantes buscam o ensino superior, especialmente nas indústrias culturais e criativas, onde é mais provável que entrem no mercado de trabalho cedo e aprendam na prática”.

A predominância de mulheres em cursos de ensino superior ao redor do mundo também se reflete na presença desse grupo em cursos ligados à cultura e às artes. No caso da Europa, o relatório aponta que as mulheres representam 64,6% dos estudantes matriculados em cursos de ensino superior da indústria criativa, superando significativamente os homens.

Ao analisar com mais especificidade os programas de ensino superior voltados para a indústria cultural, o documento detalha que 78% dos países relatam a existência de instituições de ensino superior e cursos de graduação nesse campo. Apesar das disparidades regionais, pelo menos dois terços dos países em cada uma das regiões do mundo em que o relatório se baseia oferecem essa oportunidade.

Segundo Unesco, mulheres predominam no estudo das artes e cultura. Foto: Foto: Luan Faitanin Volpato / Iphan

Inteligência Artificial

A relação entre o aprendizado de tecnologias digitais e a comunidade cultural é apontada como uma das preocupações contemporâneas globais. O relatório mostra a importância de aprimorar as competências digitais de profissionais da área cultural e criativa e da população de modo geral geral. Os países do Norte Global se sobressaem nesse sentido, ao oferecerem uma número mais expressivo de formações e programas que permitem aos artistas aprofundarem os seus conhecimentos sobre tecnologias digitais. Os países do Norte global reportam uma aderência de 80% a esse modelo de programa, enquanto os do Sul ficam em 76%. 

O documento destaca, porém, que “embora as tecnologias digitais prometem uma participação mais ampla na aprendizagem cultural e artística, as disparidades no acesso a recursos e infraestrutura digitais persistem”. 

Em 2025, cerca de 2,6 bilhões de pessoas (32% da população mundial) vivem sem acesso à internet. Destas, 1,8 bilhões vivem em territórios rurais. Isso faz com que 60% das escolas de anos iniciais, metade das escolas de ensino fundamental e um terço das escolas de ensino médio desses lugares permaneçam desconectadas do mundo digital. O relatório destaca que uma preocupação que emerge a partir da desigualdade de acesso é a falta de representatividade de culturas marginalizadas e que existe um desafio latente para um mundo que utiliza cada vez mais Inteligência Artificial (IA) em seu cotidiano. 

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