Extinto. Por quase dois séculos, foi com essa palavra que o povo indígena Charrua foi definido pela história oficial, narrativa consolidada após o Massacre de Salsipuedes, em 1832, quando tropas do recém-formado Estado uruguaio assassinaram centenas de indígenas sob o pretexto de um acordo de paz. Ocupantes da região dos pampas do Rio Grande do Sul, do Uruguai e do sul da Argentina, os descendentes relatam que alguns “parentes” cruzaram a fronteira com o Brasil e se instalaram na região das Missões, no noroeste gaúcho. Escaparam.
Hoje, sob a liderança de Acuab, de 71 anos, primeira mulher cacica-geral da etnia na aldeia Polidoro, no extremo-sul de Porto Alegre, a comunidade utiliza o turismo para reafirmar sua existência a partir do território e da memória, com vivências que se recusam a ser enquadradas apenas como produto. “Nós não praticamos um turismo de lazer, mas de acolhida e Sepé [termo que significa caminho ou luz]. Protagonizamos um processo histórico de retomada”, afirma a comunidade, em entrevista guiada pela liderança e enfermeira Angela Charrua.
Organizadas semanalmente de forma coletiva, com recursos destinados a um fundo comum, as atividades estabelecem limites claros à exploração cultural e funcionam como fonte regular de renda, com sustento às famílias envolvidas e a manutenção de estruturas compartilhadas. Ao chegar, os visitantes são avisados de que estão em solo sagrado. Em seguida, são organizados em roda e conhecem a história da comunidade e de suas lideranças. A depender do dia, também participam de atividades como plantio, manejo de fibras para artesanato e até produção de pão.
“O maior desafio foi romper o negacionismo. Manter a cultura índigena viva em uma metrópole como Porto Alegre exige esforço dobrado para que o barulho da cidade não atrapalhe nossa espiritualidade”, resume a comunidade. Apesar do reconhecimento pelo Estado, os Charrua afirmam que “ainda falta o apoio financeiro para que nossa cultura seja sustentável”. Ao mesmo tempo, observam o turismo como uma forma de aproximar os mais jovens da comunidade da própria história do povo.
A proposta de abrir a aldeia para atividades externas começou em 2008, e desde lá, gera uma renda que permitiu a criação de espaços coletivos para a comunidade, como cozinhas e Centros de Sabedoria. Segundo dados oficiais do Censo de 2022, o Rio Grande do Sul possui oficialmente 4 etnias indígenas presentes no estado, compostas por uma população total de 36.096 entre os Charrua, Kaingang, Mbyá-Guarani e Xokleng.
À exemplo dos Charrua, a ideia de um turismo feito a partir das comunidades desloca o centro da narrativa: não se trata apenas de visitar territórios, mas de compreender quem define as regras, os limites e os sentidos da experiência. Em iniciativas de comunidades tradicionais indígenas, negras e quilombolas, o turismo surge como ferramenta de geração de renda, organização econômica local, fortalecimento cultural e afirmação política, mas também acirra tensões estruturais, como a falta de financiamento estável.

O que dizem os dados
O Mapeamento do Turismo em Comunidades Indígenas no Brasil, divulgado em novembro de 2025 pelo Ministério do Turismo, identificou 146 iniciativas em comunidades indígenas no país, concentradas majoritariamente nas regiões Norte e Nordeste. O levantamento indica que a maioria dessas experiências ainda se encontra em estágios iniciais ou em desenvolvimento, campo em expansão, mas distante da consolidação.
Mais de 90% das comunidades relatam impactos positivos, especialmente geração de renda, fortalecimento cultural e permanência de jovens no território. Ainda assim, apenas 14% consideram o turismo consolidado, e menos de 20% possuem planos de visitação plenamente implementados. A principal demanda apontada é o acesso a financiamento e capacitação técnica, seguida por infraestrutura básica e apoio à comercialização.
Esse cenário dialoga diretamente com o Diagnóstico das Políticas Públicas de Afroturismo no Brasil, publicado em 2024, a partir de cooperação entre o Ministério do Turismo, a UNESCO e a Agência Brasileira de Cooperação. A pesquisa, baseada em questionários enviados aos órgãos oficiais de turismo dos 27 estados e a municípios do Mapa do Turismo Brasileiro, teve baixa adesão institucional: 109 respostas, sendo 5 estados e 104 municípios.
Entre os principais achados, o estudo aponta que 74,8% dos entes não possuem políticas ou programas específicos de afroturismo, apenas 22% contam com um setor dedicado ao tema, e menos de 26% estão integrados ao Sinapir (Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial).
Os dados reforçam um padrão observado ao longo da reportagem: o turismo comunitário existe, produz efeitos concretos, mas opera de forma precária, sustentado sobretudo pela organização local, com apoio limitado de políticas públicas contínuas.

Mais do que roteiros culturais
Independentemente da região, algumas situações se repetem. Em Belo Vale (MG), estimular a permanência dos adolescentes no território é um dos principais desafios apontados por Grasiele Regina Ribeiro, Secretária Municipal de Cultura e pesquisadora da negritude. “A gente precisa estimular os mais jovens a ficarem aqui, mas qual é o estímulo que temos?”, questiona. Para ela, iniciativas ligadas ao turismo feito a partir das comunidades podem cumprir esse papel, mas esbarram em limites estruturais como a falta de oportunidades de trabalho, formação técnica, equipes especializadas e acesso a financiamento.
De qualquer forma, Grasiele avalia que “a cidade está começando a evoluir nesse quesito”. Na sua análise, o turismo comunitário pode funcionar como cadeia produtiva local, articulando cultura, trabalho e permanência no território, desde que haja formação contínua e políticas públicas estruturadas. “O afroturismo vem chegando agora com as políticas públicas culturais, mas enfrenta resistência”, afirma. “Iniciativas ligadas à memória da escravidão, ao Congado e às comunidades quilombolas não podem ser reduzidas a roteiros culturais, mas precisam ser compreendidas como disputas por reconhecimento”, arremata.
Em meio a tantos desafios, o Quilombo Kalunga, no Centro-Oeste, um dos maiores em extensão do país, reúne 39 comunidades nos municípios de Cavalcante, Teresina de Goiás e Monte Alegre de Goiás, com aproximadamente 9 mil moradores. No território, o turismo de base comunitária vem sendo desenvolvido há mais de duas décadas e se consolidou como um caso de sucesso ao combinar governança local e geração de renda.
Entre 2020 e 2023, as atividades turísticas no Engenho II geraram um retorno aproximado de R$ 12 milhões para a comunidade, com impacto direto na renda das famílias, no financiamento de infraestrutura comunitária e em ações coletivas nas áreas de educação, saúde e cultura. A organização envolve cerca de 200 condutores locais, além de restaurantes, meios de hospedagem e transportadores comunitários, formando uma cadeia econômica que mantém os recursos circulando dentro do próprio território.
Do Nordeste, outra iniciativa bem sucedida. Sediada na região de Coroa Vermelha, em Porto Seguro, na Bahia, a Pataxó Turismo é uma agência indígena localizada em território histórico do povo Pataxó, no sul do estado. A iniciativa organiza experiências turísticas construídas em parceria direta com as comunidades locais, como vivências culturais na Reserva Indígena da Jaqueira, caminhadas guiadas pela Mata Atlântica com explicações sobre plantas medicinais e manejo ambiental, rodas de conversa com lideranças e oficinas de artesanato e gastronomia tradicional. Por lá, a geração de renda incentiva os mais jovens, preserva o meio ambiente e ampara uma continuidade nas tradições indígenas locais.


Dificuldades estruturais
Denise dos Santos Rodrigues, doutoranda em sociologia e guia de turismo, avalia que o crescimento dessas iniciativas no Brasil é recente e ainda está em consolidação. “O afroturismo, por exemplo, vem crescendo nos últimos oito anos. Até bem pouco tempo, a gente chamava de turismo étnico. Ele foi se remodelando e trazendo esse protagonismo para as pessoas”, afirma. Para ela, mais do que um segmento, o turismo de base comunitária deve ser entendido como um movimento e um modelo econômico comunitário, que atravessa trabalhadores do setor, territórios de memória, quilombos, comunidades tradicionais e os próprios viajantes. “É protagonismo em todos os níveis.”
Na prática, Denise aponta que um dos principais desafios enfrentados pelas populações tradicionais é o acesso à informação e formação. Segundo ela, não são raros os casos em que comunidades passam a ser vistas como potenciais destinos turísticos antes mesmo de decidir se querem, ou como querem desenvolver essa atividade. “Quando a gente fala de territórios quilombolas, é um espaço comunitário”, afirma. Além da burocracia e da ausência de políticas públicas contínuas, ela aponta desafios básicos de infraestrutura, como estradas, sinalização e acesso, que afetam moradores e visitantes. “Para haver um bom turismo, a comunidade que vive ali precisa ser bem tratada. Esses investimentos não são turísticos, mas ajudam o turismo”, resume.
O diagnóstico ganha contornos concretos em Alter do Chão (PA). No território, a indígena Samara Borari descreve um turismo organizado a partir da própria comunidade, com gestão coletiva das atividades e da renda, envolvendo hospedagem familiar, alimentação, passeios pelos rios e vivências conduzidas por moradores locais. “É o turismo que hoje garante a sobrevivência de muitas famílias daqui”, confirma.
Um dos benefícios citados pelos entrevistados se confirma no exemplo de Samara: a permanência dos mais jovens nos territórios. “Com certeza, minha história é a prova disso. Fiquei e atuei por aqui graças ao turismo”, relata. “Agora a juventude está entendendo que a gente pode viver na comunidade, né? Crescemos ouvindo que só vence quem vive em São Paulo e nas cidades grandes, mas hoje a gente consegue construir uma vida digna, com qualidade e renda sem sair”.

Apesar de forte, o modelo convive com desafios, como a queda no fluxo de visitantes, a precariedade da infraestrutura básica e a pressão de um turismo comercial que não dialoga com a cultura local. “O Estado não está presente para proteger o território nem para apoiar quem vive aqui”, diz. Ela se refere a especulação imobiliária, grandes eventos privados e ocupação desordenada como expressões da exploração econômica crescente na região.
Para além das experiências nos territórios, especialistas apontam que afroturismo e turismo indígena compartilham uma mesma base, ainda que partam de culturas e cosmologias distintas. “A principal diferença se estabelece pela cultura e território, que dão o tom das atividades e experiências turísticas desenvolvidas”, explica Lucas Xavier, turismólogo e co-organizador do Congresso Brasileiro de Afroturismo (CBAfro).
Segundo ele, as práticas dialogam com o Turismo de Base Comunitária, modelo em que “os produtos são criados, executados e gerenciados pelos próprios atores da comunidade”, concentrando a renda e a tomada de decisão no território. “São iniciativas que visam contar histórias que a história não conta, principalmente na perspectiva do protagonismo preto e ou indígena”, afirma. Ainda assim, enfrentam resistência do mercado tradicional. “Apesar de existir demanda, o mercado evita ter que se esforçar para vender produtos que o público geral não está habituado”, observa.

Sem estereótipo
Um dos pontos mais sensíveis do processo, segundo Lucas, está na definição dos limites do que pode, ou não, ser compartilhado com visitantes. “É comum comunidades se depararem com o turismo em seu território sem mesmo saber, querer e entender do que se trata”, diz. Para ele, a pergunta central deveria ser formulada desde o início pela própria população: “qual turismo queremos desenvolver aqui?”
Esse debate, ressalta, precisa ser acompanhado por políticas públicas que defendam os direitos dos povos tradicionais, respeitando o Protocolo de Consulta Prévia, Livre e Informada, previsto na Convenção 169 da OIT. Na prática, é o direito que comunidades tradicionais têm de ser consultadas antes de qualquer decisão do Estado ou de terceiros que possa afetar seus territórios, modos de vida, culturas ou formas de organização.
Na prática, alguns povos têm buscado governar esse processo internamente. Na Terra Indígena Tenondé Porã, no extremo sul de São Paulo, a liderança Verá Poty afirma que a recepção de visitantes só acontece quando há tempo e disposição coletiva. “A gente só recebe quando a gente tem esse tempo. Não pode receber e deixar as pessoas de lado”, explica. Estabelecer limites é parte central da preservação do território e da cultura, o que inclui orientar previamente guias e visitantes para desmontar expectativas estereotipadas.
Ele relata que é comum que algumas pessoas façam os passeios em busca de indígenas nus, além de imagens deles com cocares e pinturas corporais. “As pessoas não vão ver a gente de cocar, pintado. Não representa nada pra gente”, afirma.
Para Lucas, embora o turismo possa ser uma ferramenta de fortalecimento econômico, político e cultural, isso só ocorre quando o planejamento é feito “de forma profissional e responsável”, com envolvimento do poder público, do terceiro setor e dos próprios empreendedores comunitários. “A principal limitação vem da estrutura burocrática”.

O diz o que governo
O Ministério do Turismo afirmou que tem reestruturado o turismo em territórios indígenas e afro-brasileiros com foco no protagonismo comunitário, na sustentabilidade e na reparação histórica. A estratégia prioriza o turismo de base comunitária, com gestão feita pelas próprias comunidades. Entre as ações estão o Mapeamento do Turismo em Terras Indígenas (2025), o Programa Rotas Negras (2024), o Guia do Afroturismo no Brasil (2025) e o projeto Experiências do Brasil Original, além de oferta de crédito e investimento de cerca de R$ 5 milhões em 2024.
Por sua vez, o Ministério da Igualdade Racial afirmou que atua em territórios quilombolas e comunidades tradicionais principalmente por meio do Programa Rotas Negras, criado em 2024 e coordenado pela pasta. A iniciativa busca fomentar o afroturismo como política de Estado, combinando valorização cultural, desenvolvimento econômico e reparação histórica, com ações de formação técnica, apoio à gestão comunitária e editais de fomento. Até 2026, o programa prevê cerca de R$ 63 milhões em investimentos. Até o fechamento desta reportagem, o Ministérios dos Povos Indígenas não se manifestou às demandas apontadas ao da reportagem.