Rio de Janeiro e Duque de Caxias (RJ) — No buraco quente, na comunidade da Mangueira, havia um “preto rico”. A mulher dele era merendeira; ele, compositor. Quando ela adoeceu, a diabetes a impediu de cantar e de desfilar, e ele fez um samba para ela. Era ele quem cantava. Ela, da janela, chorava. Eu era criança e perguntava à minha mãe por que todo mundo chorava também. “É emoção”, ela me dizia. “Ele está cantando para ela, filha.” A mulher não podia mais sair. Assistia à escola passar, tentando suportar a mágoa de apenas ver, como contava o samba.
“Fiquei com pena dela”, cantou Dona Guesinha, ao telefone com o Nonada Jornalismo, relembrando a letra que decorou quando era criança. E ela seguiu: “Era uma veterana, que na ala das baianas…” emocionada, finalizou o verso: “foi a primeira.” Para Dona Guesinha, mais que para o carnaval, a mulher é a vida toda, a chave principal: “Nós somos a passista, a porta-bandeira, a costureira, nós que cantamos. Tudo depende da gente. A mulher é o coração do carnaval, do desfile. É o principal, e nós não nos valorizamos.”

Essa força é nutrida por uma história ímpar. Filha de Neuma Gonçalves da Silva, a Dona Neuma, baluarte histórica da Mangueira, e neta de Saturnino Gonçalves, primeiro presidente da escola, Márcia Gonçalves foi criada no miolo do samba. Aos 77 anos, a baluarte diz ter sido forjada na fortaleza do carnaval, no cotidiano da quadra e da casa, ouvindo e anotando canções de Cartola, Carlos Cachaça e Nelson Cavaquinho, ainda sem compreender plenamente a dimensão do que vivia.
Estar dentro da história enquanto ela acontece, explica, também pode relativizá-la. “Eu nem dava importância, porque a gente não valorizava, e nem eles mesmos tinham o valor que tinham que ter. Era normal.” Cercada por poetas, Márcia carrega na memória letras inteiras, sambas e poemas, e se perguntava como era possível tamanha realização: “Eu perguntava: ‘Como que pode, né mãe? Eles fazem essas músicas, esses sambas, e ninguém ensinou?’ E ela dizia: ‘É Deus, minha filha’.”
Entendendo o cotidiano como uma grande “escola de vida”, foi com sua mãe que aprendeu que a escola é cultura, e com o samba, tudo sobre o mundo que existia fora da comunidade da Mangueira, onde vive até hoje. “Só de a gente estar ali é uma vitória. O importante é o momento, é ser respeitada, ser reconhecida, ser valorizada porque você não imagina, ou pode imaginar, o que é nascer numa comunidade como a Mangueira.”
As culturas populares negras são um organismo vivo, pulsando na expressão de uma vida que reformula sua posição enquanto parte de uma ideia marginal. As escolas de samba no carnaval do Rio de Janeiro, em toda sua complexidade, seguem essa ideia, sendo a Velha Guarda, o cérebro; e a bateria, o coração. Mas, sobretudo, as mulheres, em maioria negras, são a estrutura desse sistema vital.
Maria da Paz, Guerreira: “O que me põe de pé é o samba”
Uma noite quente de verão caracteriza a temporada de ensaios das escolas de samba no Rio de Janeiro. Um entra e sai ainda descoordenado na entrada principal, enquanto a bateria do G.R.E.S. Acadêmicos do Grande Rio já ecoava. Fui ao encontro de uma senhora, sentada na rua, vestindo um abadá onde se lia, no estampado em vermelho, a palavra “presidente”. Nas costas, o símbolo do G.R.B.C. do China (Grêmio Recreativo Bloco Carnavalesco do China), e o nome “Milton Perácio: Bom de Bola, Bom de Samba”, enredo do ano, em letras garrafais. Milton Perácio, ex-marido de Maria da Paz, a “Guerreira”, é cofundador, ao lado dela, do bloco de enredo mais importante de Duque de Caxias — e também da escola que se aquecia para o ensaio naquela noite.
A união tem peso simbólico, já que, para ela, “em Caxias existem duas potências: o Bloco do China e a Acadêmicos da Grande Rio.” Usando uma saia branca de restilie, e um lenço de crochê branco na cabeça, Maria preservava simplicidade na elegância, própria de uma mulher da Velha Guarda da escola, e, sobretudo, da primeira mulher a presidir um bloco de enredo do município. E essas grandezas, para além de assistir nascer, ela construiu.

Desde 1971, data de fundação, Maria da Paz Jesus do Nascimento está “no China”, criado na comunidade da Mangueirinha por amigos que se reuniam para jogar futebol, outra cultura popular forte na baixada. Aos 74 anos, mãe de 5 filhos e avó de 7 netos, é reconhecida como a Guerreira no bairro do Centenário e na Grande Rio.
O apelido vem da luta: “não é fácil fazer carnaval.” Ainda assim, resistiu às dificuldades financeiras e ao esvaziamento do carnaval de rua em Duque de Caxias: “A desigualdade por eu ser mulher e ser presidente de uma agremiação, eu já enfrentei lá atrás. […] Nos piores momentos, eu me transformo. Sempre consegui fazer, e eu acho que quando a gente dá, a gente recebe muita coisa em troca. E sem ser dinheiro, que dinheiro não é tudo.”
Em uma perspectiva dissidente da lógica que rege o campeonato do carnaval, Maria preserva a importância da experiência adquirida ao longo dos anos à frente da diretoria do Bloco do China, que ocupa desde 1994. Valores como amizade e generosidade marcam sua gestão: “No meu ponto de vista, só o amor, o carinho que eles têm por mim, não tem dinheiro que pague. […] Basta você ter amor pelo que você faz, respeitar e ser respeitado.”
Inicialmente, o China era um bloco de embalo, encabeçado por Perácio, com quem era casada à época – o que afirma sua participação desde a fundação. Mas só por isso? Ela prontamente disse que não. Desde os 15 anos, ela e toda sua família já gostavam de samba, desfilavam em escolas, como no Capricho do Centenário. No funcionamento do bloco, coordenava atividades e mantinha uma ala, a das esposas.
No mesmo ano, nascia a chamada “antiga Grande Rio”, uma união das antigas escolas de samba (União do Centenário, Unidos da vila São Luiz, Capricho do Centenário e Cartolinhas de Caxias) espalhadas pelo município. Com pouca força de influência, Maria relata que paulatinamente as outras escolas foram “se acabando”. A pesquisadora Yasmin Menezes, direção do Departamento Cultural da Grande Rio, explica que as quadras localizadas no Centenário e na Vila São Luiz funcionavam como núcleos do Carnaval da cidade. Com a fundação da atual Grande Rio, essas escolas passaram a ocupar um território considerado “neutro”, onde hoje está a quadra da agremiação, redirecionando a relação com o território.
Perácio, então presidente do Bloco do China, junto a sambistas de outros blocos e com o apoio de Jayder Soares, patrono e presidente de honra da Grande Rio, fundou, em 1988, a Acadêmicos de Duque de Caxias. Maria conta que não era permitido haver duas escolas do mesmo município disputando o Carnaval e que, por decisão de quem financiava as candidaturas, optou-se pela união de blocos e escolas em uma única agremiação: a Grande Rio. “Eu participei de tudo. Eu sou fundadora também da Grande Rio. Vim participar em 88, junto com Perácio e outras pessoas. Aí houve a fundação da escola que é hoje.”
As escolas se dissiparam, mas os blocos não. Com a separação matrimonial, o ex-cônjuge ficou com um cargo na nova escola, e Maria escolheu ficar onde nasceu. “Para o China não acabar… passaram outros presidentes por lá, mas as pessoas não eram sambistas. Eu fiquei para o bloco não acabar.”
Pela composição da escola ter sido feita majoritariamente por pessoas oriundas do mesmo local de Dona Maria, ela é uma das principais responsáveis pela integração social e comunitária entre Mangueirinha, Periquitos, Vilar dos Teles, Vila São Luís e outras regiões com a Grande Rio. No início, mantinha uma ala na escola e não cobrava pelas fantasias, incentivando amigos a desfilar: “A ideia era ter uma grande escola. Muitas vezes me davam cem fantasias. Eu não vendia nenhuma. Eu dava na comunidade, e eles vinham desfilar comigo aqui na Grande Rio.” Mesmo sem influência direta nas decisões da agremiação, Yasmin observa que “se ela chegar na Grande Rio pedindo algo, vão ceder com carinho. Existe um respeito muito grande.”
O mesmo acontece no Bloco do China. A precariedade atravessa sua relação com o samba, mas Maria insiste em encontrar caminhos. Com lágrimas nos olhos, afirmou nunca ter vendido fantasias: “O que eu ganhei nesses anos todos, eu dividi. Nunca vendi uma roupa do meu bloco. Sempre dei. Mesmo passando dificuldade, como tô esse ano, continuo da mesma maneira.”
“A gente via aquelas pessoas que não conseguiam desfilar na Grande Rio, com isoporzinho, com refrigerante, com cachorro-quente, vindo para o centro e de Caxias para assistir o desfile dos blocos. Infelizmente acabou.” Atualmente, o desfile acontece na Av. Chile, no Centro do Rio, junto a outras entidades associadas à Federação dos Blocos. Maria lamenta a impossibilidade da realização de um desfile em Duque de Caxias, o que afeta significativamente a relação da comunidade sambista com menores condições de acesso com o carnaval.
Ao refletir sobre o protagonismo de mulheres negras, Maria, que nunca deixou a Mangueirinha, escolheu ser querida. A própria comunidade reivindica sua permanência, fazendo-a optar por deixar o filho para seguir com seu legado de presidente. Para Yasmin, essa valorização se relaciona ao fato de ela não ter abandonado o Carnaval. “Ter essa força, essa capacidade de administrar um bloco sem dinheiro e projeção é, em muitos sentidos, mais difícil do que administrar uma grande escola de samba.”
Dona Luzia: 90 carnavais. “Tudo meu é rodar”
Do outro lado da cidade, em Bangu, na Zona Oeste, o abafado dava lugar à chuva típica da estação. Ao entardecer, o assunto corria por todas as transversais da rua Ary Franco: o último ensaio de rua da Mocidade Independente de Padre Miguel. Dona Luzia chegou cedo, produzida, colorida, carregada de colares. Aos noventa anos, a estrela mais velha da ala das baianas estava acompanhada de duas passistas, sua neta e sua filha.
Me senti envergonhada por quase ter me deixado desanimar pela chuva, enquanto observava Luzia Moreira Ferreira, pronta para desfilar, se ajeitando em cadeiras improvisadas no meio da principal via do bairro. Prontamente, contou da primeira vez que pisou em Padre Miguel e por que não precisou de muito tempo para saber que ficaria: “Ih, eu vim de trem da Penha pra cá, né? Amei esse lugar! Disse: eu vou casar e vou morar aqui”. E mesmo diante da recusa do marido, ela insistiu, e permaneceu até hoje.

O amor pela Mocidade foi produto do que ela já nutria pelo território. Muito nova, em um contexto onde “baiana não era para pessoa nova, era para pessoa velha”, Luzia nunca optou por outra ala. De um jeito, ou de outro, ela queria sair na ala das baianas. Conversou com um vizinho influente, “todo dia eu amolava ele”, replicava o marido “ficava me enchendo o saco, falando que eu tinha que sair numa ala, que eu era nova…”, até conseguir.
Pioneira, assim como sua agremiação, foi ela quem inaugurou a tradição de carnaval e samba entre as mulheres da família, as únicas a seguirem o legado. A estreia na escola como baiana foi em 1974, com o enredo “A Festa do Divino”.
”Roda gira, gira roda
Roda grande vai queimar
Para a glória do Divino
Vamos todos festejar”
(Trecho do samba)
Na estreia, a baiana relembrou o quanto amou sua vestimenta branca e prateada, com um laço grande na cabeça, que anos depois ela descobriria serem cores associadas à Yemonjá, de quem é filha. Essa visão de valorização da ancestralidade ela atribui também à sua paixão por rodar, por ser filha de santo.
“Nunca saí. Porque tudo meu é rodar. É rodar a baiana”, ela se diz orgulhosa. A neta Luana, passista da escola há 11 anos, faz uma pequena intervenção na conversa: “É, eu falo para ela ir para a Velha Guarda, por causa do peso da fantasia, mas ela fala que não”, e Luzia responde: “É não, né?”
Nascida no interior do estado, em Miracema, no Rio, casou, e trabalhou anos como cozinheira em uma rede hoteleira. “Até nisso eu dei sorte”, ela diz. A companhia era francesa e amava a Mocidade. Sempre que necessário, a liberava para os desfiles. “Antigamente você tinha que pegar um papel da prefeitura para não descontar o dia, né? Para poder sair na escola. Quando souberam que eu saía na Mocidade, meu chefe virou e disse: ‘Não precisa trazer papel nenhum, porque nós somos Mocidade. Se der para você vir trabalhar, você vem. Se não der, não tem problema.”
Para ela, o samba é muita alegria e vida, e mesmo em momentos acometidos pela depressão, pensar em desfilar lhe dava forças. Com a nova geração, ela compartilha experiências e disse ter muitas amizades, além de adorar ser abraçada pelas mais jovens.

Se não fosse a avó como espelho, Luana Ferreira Santana não teria conhecido o amor pela Mocidade. A mãe não é tão apegada, mas sua tia Alcidineia foi passista por muitos anos. Desde novas, as mulheres da família buscavam as fantasias na quadra da escola e as carregavam até o trabalho de Luzia. Aos 38 anos, Luana disse se inspirar na garra e especialmente na determinação da avó: ”Eu sempre falei: ‘Eu só vou desfilar na Mocidade se eu for passista’. E eu sou passista.”
Há mais de 10 anos no samba, estar na ala auxiliou sua relação com o mundo, e a ter segurança de si, inclusive esteticamente. Em uma reflexão sobre o próprio cabelo, que habitualmente ela tratava com produtos para conter o volume, estar com mulheres que incentivaram o volume natural como referência de beleza fez total diferença: “Eu não usava o cabelo cheio. Aí eu comecei, na Mocidade, eu vi as garotas com cabelo cheio, e ficava: ‘Vou fazer de três em três meses, eu vou fazer de seis…’ Chegou uma hora que eu falei: ‘Ah, não vou fazer mais não!’ E agora, quanto mais cheio, melhor.”
Nove décadas de amor pelo território preservam a ideia de um exemplo, um amor que influencia o redor. Luana diz ser uma referência às mais novas. “A gente tá cansada, mas olha o pique delas.” A passista disse não saber se prosseguirá por tantos anos, ameaçando ser este carnaval o último. Dona Luzia deu um pequeno sorriso descrente.
Todas as entrevistadas, ao serem questionadas sobre quando sairiam do carnaval, e deixariam a avenida, responderam ao Nonada Jornalismo o mesmo: “Só quando eu morrer!”