Lezeira, coco e repente: as histórias de mestres que mantêm vivas expressões culturais do nordeste

Baseadas na oralidade, brincadeiras e ritmos que são relíquias da região buscam reconhecimento como patrimônio cultural
Foto: reprodução/ "Vamo vadiá Nesta Lezeira", editora Corisco

Homem de voz doce e mansa, o Mestre Raimundão da Mutamba, de 64 anos, como é conhecido no quilombo de mesmo nome, não vacila quando o assunto é sapecar verso para fazer girar sobre o chão do terreiro de sua comunidade os corpos dançantes de seus parentes e vizinhos ao brincarem a Lezeira do Piauí. Em Paquetá, município do estado nordestino, a noite é uma criança uma vez que o mestre cantador se rende às quadras das cantigas centenárias e aos embalos dos giros e da bateção de pés sobre a terra batida, que dá ritmo à brincadeira. 

Independente da faixa etária, todos que giram ao som da voz do Mestre Raimundão e de suas próprias vozes, assim como fizeram os adultos e velhos de suas infâncias, fazem a mesma coreografia e cantam os mesmos versos desde que eram crianças, inclusive ele.

Da infância também veio a batida do pandeiro que embola o repente cantado pela potiguar Lindalva Dantas Lucena, de 75 anos, ou Lindalva do Pandeiro, seu nome artístico. Ao lado de sua irmã, a também repentista Terezinha do Pandeiro, Lindalva, ao longo dos anos 1980 e 1990, levou para o resto do Brasil, através de apresentações nas ruas de grandes metrópoles, de programas de televisão como Hebe Camargo e Faustão e de participações em comícios políticos, os versos que já cantava aos 10 anos nas feiras de Mossoró, Rio Grande do Norte, aprendidos com o pai, embolador de ganzá. 

Paraibana honorária, Lindalva subverteu a norma que dita contra a autonomia dos que não sabem ler e nem escrever: construiu sua vida e garantiu o seu sustento à base dos versos do coco de embolada e, de quebra, viajou por boa parte do país, levando a cultura nordestina Brasil afora. 

E por falar na Paraíba, é em Gado Bravo, município interiorano a 173km da capital João Pessoa, que se encontra um dos maiores redutos da cultura do coco fora de Pernambuco. Ao lado de uma comunidade fiel às suas tradições e festas populares, Mestre Pimbó, de 75 anos, não dá descanso à sua voz e nem ao ganzá. Ele canta e chacoalha o instrumento sempre que é possível para dançar o coco de roda, com ou sem remuneração. 

De festivais e encontros de mestres e mestras da cultura popular em Campina Grande e João Pessoa a encontros comunitários em Gado Bravo, Mestre Pimbó é figurinha carimbada quando o negócio é abraçar a herança cultural de quem é coquista, como são chamados os entusiastas do coco. 

Ainda que nunca tenham aprendido a ler e escrever, Mestre Raimundão, Lindalva do Pandeiro e Mestre Pimbó garantem na base da oralidade e da lembrança a conservação de saberes culturais que datam de séculos. 

É comum que quando se fale em manifestações culturais nordestinas, a primeira expressão artística que venha à cabeça seja o Forró, e, em alguma instância, o Frevo e o Axé. Mas a cultura nordestina é berço de uma diversidade cultural imensa que vai desde o Cavalo Marinho e os Reisados, de Pernambuco, até o Bumba meu boi, do Maranhão. 

O Nonada conversou com brincantes, mestres e mestras da cultura, agentes culturais e pesquisadores sobre três expressões culturais centradas na oralidade: a Lezeira, o Repente e o Coco. 

O coco na ponta da língua

No estado da Paraíba, à leste do Piauí, elementos que também caracterizam a lezeira — a roda e o cântico dividido entre mestres e brincantes — também são encontrados em outras expressões culturais, como o Coco e seus diversos tipos, a exemplo do Coco de Roda, em que se dança, e do Coco de Embolada, em que se canta de maneira improvisada. A expressão, assim como a Lezeira, também é de origem afro-indígena. 

Similar ao Repente, o Coco de Embolada é caracterizado pela rima e pelo improviso. Esse improviso é marcado por uma escolha de palavras que captam o cotidiano e seus personagens e os reconstitui através de um tom jocoso, onde o divertimento, a gargalhada e a perspicácia da observação, embalados pela rima, conduzem o processo. Nele, escuta-se o som da viola caipira, do pandeiro ou do ganzá. 

“O pessoal chama de coco de embolada porque é tudo misturado, é tudo embolado. Ajunta uma coisa na outra, vai-se embora e é desse jeito”, resume Lindalva do Pandeiro em conversa com o Nonada. Apesar de seguirem a mesma definição, o Coco de embolada de Lindalva, com o pandeiro, é feito para que as pessoas assistam, enquanto que o coco de roda, independente se improvisado ou não, é feito para ser dançado.

Beija Flor, Lindalva do Pandeiro e Condor da Paraíba. Foto: Adrielle Amorim/Acervo Coletivo Jaraguá

“Há diversas formas de se brincar o coco de roda”, explica o advogado e agente cultural paraibano Arthur Costa, de 27 anos. “Aqui, no contexto de João Pessoa, a gente costuma usar o bambo, a caixa e o ganzá. Se forma uma roda, onde as pessoas dançam, e no centro da roda sempre vai um par. Esse par dança, sai e depois entra outro par. Enquanto isso, tem os tiradores de coco, que são as pessoas que estão cantando o coco. Esse coco pode ser decorado ou improvisado. O coco improvisado é o chamado coco de embolada”, define. 

Entre os emboladores da antiga geração a qual Lindalva pertence, e alguns dos emboladores da nova geração, representada por nomes como Condor da Paraíba, atual dupla de Lindalva, há uma diferença na maneira de construir os versos. Para Arthur, essa diferença é marcada pela tentativa de cantar conforme a norma culta da língua. “Entre os emboladores mais velhos é comum você rimar ‘carnavá’ com ‘falá’, porque foneticamente terminam em ‘á’. Só que formalmente isso não seria uma rima, porque ‘carnaval’ não rima com ‘falar’. Entre alguns emboladores mais novos, e até alguns mais experientes, é comum que eles rimem ‘na letra’, para além de apenas fazerem a rima ‘no som’”, explana. 

Arthur se aproximou da cultura popular da Paraíba através das quadrilhas juninas, quando ainda era criança, sempre se apresentando na escola e nos grupos de crianças reunidos por sua avó, a Coronel das quadrilhas no bairro, responsável por fazer a marcação. Já adulto, buscou voltar a se envolver com a cultura popular se aproximando das rodas de coco, onde conheceu mestres como a Mestra Maria da Soledade, Mestre Zé Cutia e Mestre Pimbó, de quem é amigo.

Conforme aprofundou sua relação com o coco, passou a se envolver também com a organização de encontros de mestres e mestras do coco e suas lutas, bem como com políticas culturais. Além ser brincador e coquista e de auxiliar mestres e mestras na captação de financiamentos via editais de incentivo à cultura, Arthur também atua com o Coletivo Jaraguá, grupo de pesquisa que trabalha com o Iphan no processo de instrução técnica para o registro dos Cocos como patrimônio cultural brasileiro. 

O processo de reconhecimento do coco junto ao Iphan é um dos mais antigos, com registros de peticionamento que datam de 2009. Em 2024, oito estados do Nordeste se reuniram através do Coletivo Jaguará, em parceria com o Iphan, para mobilizar o registro dos Cocos. O processo segue em andamento.

Terezinha e Lindalva do Pandeiro, Caju e Castanha, Ivanildo Vila Nova e Geraldo Amâncio são alguns dos nomes que se popularizaram no Brasil como ícones do Repente nordestino. Por outro lado, em Campina Grande, na Paraíba, longe dos holofotes nacionais e sob a constante admiração da comunidade local, mestres e mestras da cultura mantêm viva a tradição do Coco, seja através do Coco de Embolada ou do Coco de Roda

Assim como ocorre no coco, na lezeira a figura do mestre e da mestra é central. “Tem que ter essa pessoa, e essa pessoa representa a tradição da poesia oral brasileira. Diferente do repente, o que ela tem em sua memória não são versos improvisados, mas são versos que são aprendidos e repassados de geração em geração com antepassados, com pessoas da comunidade, que esses mestres e essas mestras repetem carinhosamente década após década”, contextualiza Eduardo.

A lezeira na base do pé 

Livro sobre a lezeira foi vencedor do Prêmio Jabuti (Foto: reprodução)

O Lundu de Lezeira, ou Lezeira do Piauí, de origem afro-indígena, é uma das expressões culturais mais antigas do Nordeste, com registros que datam do século XIX. A dança – ou brincadeira, como preferem chamar as comunidades quilombolas onde a expressão tem suas raízes – mistura elementos da cultura indígena, como a bateção de pé no chão e o formato de roda, e da cultura africana, já que a base de sua dança é o lundu, ritmo africano ligado ao bantu trazido ao Brasil pelos povos negros africanos escravizados. 

Na lezeira, basta ter alguns pares para dançar, para rodar sobre o chão marcando o passo e o compasso da música com a batida do pé. Além dos pares, também é necessário disposição. Mas disposição é o que não falta numa dança criada como meio de resistência e mantida nos dias de hoje também como uma forma de suportar o trabalho árduo nas lavouras. É até uma ironia que a expressão cultural tenha esse nome, considerando que lezeira, no vocabulário nordestino, significa moleza de corpo, preguiça. 

Protagonizada pela voz, a estrutura lírica da cantoria na lezeira é essencial não só para organizar o cântico, mas também para preservá-lo ao longo de gerações. “A lezeira é composta por um um refrão intercalado com uma quadra. Aí fica quadra, refrão, quadra, refrão. Quem fala a quadra é o mestre cantador, e o refrão, todos os demais”, detalha o jornalista pesquisador de saberes ancestrais Eduardo Pontin. Eduardo, ao lado da também pesquisadora Francisca Santos, com quem é casado, escreveu o livro Vamô Vadiá Nesta Lezeira: ancestralidade e simbolismo na dança da Lezeira no sertão do Piauí.

Depois de décadas guardada no coração do Piauí, a lezeira encontrou no livro dos pesquisadores um meio de se espalhar pelo país. A obra, resultado de uma pesquisa de dois anos realizada em quilombos rurais do estado, foi semifinalista do 67º Prêmio Jabuti, de 2025. 

Nas comunidades quilombolas rurais do Piauí, a lezeira, embora brincada o ano todo, tem especial destaque durante as festas religiosas, como a Sexta-Feira Santa e as novenas de santos, em razão da adoção do catolicismo popular como religião oficial por boa parte dos quilombos adeptos da brincadeira na região. 

“Isso acabou acontecendo porque na Sexta-Feira Santa não se podia manusear tanto utensílios domésticos, como facas, e nem varrer casa, isso até hoje, quanto não se podia manusear instrumentos musicais. Ou seja, nesse dia não se podia fazer festa. Mas, a sagacidade de quem brinca a lezeira é tão grande que o pensamento foi, ‘se não pode tocar uma música com instrumento musical, vamos então brincar uma que não precise de instrumento’, muito embora eles só brinquem depois da meia-noite em respeito à religião, porque aí já é sábado. Essa pode ser até a razão da criação da lezeira”, explica Eduardo.

O período do estudo de Eduardo e Francisca coincidiu com a promulgação da política do Patrimônio Vivo no Piauí, mecanismo de salvaguarda cultural que reconhece, valoriza e protege mestras e mestres da cultura com o intuito de perpetuar saberes ancestrais. No estado, a lei, cujo projeto foi apresentado ainda em 2008, só foi oficialmente regulamentada em 2021. Desde então, foram registrados 69 representantes da cultura popular do estado como Patrimônio Vivo, entre indivíduos, com bolsa mensal de R$1.100,00, e grupos, com R$2.200,00. Do total de mestras e mestres certificados, 9 são da lezeira. Mestre Raimundão da Mutamba é um deles.

Tanto a lezeira do Piauí quanto o Coco ainda não são reconhecidas como patrimônio cultural brasileiro. Ambas as expressões se encontram em processo de registro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O repente, por outro lado, foi reconhecido pelo Iphan como patrimônio cultural brasileiro em 2021.

“Ei, vamos cantar lezeira?”

Seu Zé Marcelo, célebre cantador do quilombo da Mutamba, estava na casa dos 70 anos quando Raimundo Antônio Carlos Alves, o Mestre Raimundão, entre 8 e 9 anos, o viu entoar versos pela primeira vez. Era meados de 1960, e a comunidade do quilombo da Mutamba por vezes se reunia no terreiro de Seu Zé Marcelo para ouvir e dançar o Lundu com ele e outros cantadores. O homem, cheio dos gracejos ao mexer as mãos para o alto fazendo brincadeiras que logo captaram a atenção do menino Raimundo, foi certeiro em plantar no coração do futuro mestre o gosto pela lezeira.

“Lá se enchia de menino. Muitos deles nem ligavam, mas como eu era curioso, eu ficava ali prestando atenção. Calado, só prestando atenção. Quando ele acabava, eu pedia, ‘Seu Zé Marcelo, cante de novo?’, aí ele me dizia, ‘Tu achou engraçado?’, e eu dizia que achei foi bonito. Aí eles tornavam a cantar, e eu ficava ali, escutando”, diz Mestre Raimundão em uma chamada de áudio, falando como se tudo tivesse  ocorrido ainda há pouco.

Boa parte da infância de Raimundo se deu assim, indo de terreiro em terreiro na companhia dos pais para ouvir os mestres e as mestras cantarem as quadras elaboradas décadas antes, passadas de boca em boca, apreendidas por ouvidos atentos. Com o tempo, a participação de Raimundo na lezeira não mais se restringiu à escuta e à admiração. O menino foi deixando a timidez de lado, e o que antes era testemunhado com os olhos e guardado com atenção na memória, passou a ser praticado com todo o corpo e projetado na voz que convocava a meninada do quilombo para dançar Pisa na Fulô

“Eu comecei a inventar. Ficava dizendo pros meninos ‘Ei, vamos cantar lezeira?’ E eles diziam, ‘Vamos!’. Aí eu puxava aquela brincadeira, cantando os véu que eu lembrava. Quando eu não lembrava, eu inventava, ia comparando uma coisa com a outra dentro da minha cabeça. E a gente passava horas brincando”. 

Foto: reprodução/TV Clube Piauí

Do jeito que o quilombo da Mutamba valoriza um cantador de lezeira, não demorou até que Mestre Raimundão ficasse conhecido pelos versos que entoava. Ele deu continuidade e eco às gerações anteriores de mestras e mestres, ao mesmo em que se tornou reconhecido pela própria comunidade como o cantador oficial do quilombo — o que nunca impediu que outras vozes ecoassem noite adentro.

Vizinha de Mestre Raimundão, Mestra Dominga também embala as noites de lezeira e sapeca versos no meio da roda sempre que possível. Na Mutamba, a brincadeira costuma se revezar entre o terreiro de Mestra Dominga e de Mestre Raimundão, que não raro atravessa a noite e vai até a manhã do dia seguinte. “Quando eu me entendi por gente, eu já me entendi dançando a lezeira. Com ou sem saia para rodar, a gente brinca. O importante é dançar, de qualquer jeito. É muito bonito quando a gente vê as crianças todas em roda, formando seus pares para dançar a lezeira. É motivo de orgulho para mim.”

Ecos de pesquisa e política cultural

Apesar de ser reconhecido pela sua comunidade como um mestre cantador, a existência de Mestre Raimundão passou batida aos olhos das políticas culturais por muitas décadas. Mesmo com toda a riqueza da lezeira, que para além de uma dança, conta sobre a resistência de povos indígenas e africanos frente às opressões do colonialismo no Brasil, a expressão cultural, bem como a existência de seus mestres e mestras, passou anos na invisibilidade. 

É por esse motivo que a chegada do casal de pesquisadores de saberes populares Eduardo Pontin e Francisca Santos na casa de Mestre Raimundão, em 2021, lhe causou tanto espanto. Eduardo e Francisca empreenderam, durante a pandemia de coronavírus, um projeto de pesquisa para mapear a cultura da lezeira nos quilombos do município de Floresta do Piauí e arredores, onde a família de Francisca reside e há quatro gerações transmite a herança da expressão cultural. 

Quando foi morar em Floresta do Piauí com Francisca, Eduardo começou a se antenar nas expressões culturais do estado. Pesquisador sobretudo de samba e membro fundador do Instituto Glória ao Samba (IGS), chamou a sua atenção a falta de literatura sobre a lezeira nas pesquisas que fez. “Eu achei a lezeira muito original no primeiro contato que tive. Mas quando fui pesquisar sobre, não encontrei quase nada. Como a família da Francisca é de origem indígena e é toda de lezeira, eu fui me aprofundando, fiquei muito curioso e quis documentar”, conta.

O início da pesquisa coincidiu com a regulamentação da política do Patrimônio Vivo no estado. Com a articulação do estudo, 9 mestres e mestras da lezeira foram reconhecidos e beneficiados com a bolsa de R$1.100 mensais. Esse valor fez toda a diferença na vida de Mestre Raimundão, que mora junto da esposa e de outros quatro filhos. Alimentação, remédios, consultas médicas e reformas em sua casa estão entre os principais gastos a que o dinheiro se destina

“A nossa casa é de taipa, de barro. Agora a gente conseguiu colocar cimento no meio da casa pra não ficar na poeira direto”, conta Mestre Raimundão. Outra mudança que veio com a política é o reconhecimento de seu impacto na cultura por quem não é do quilombo. “O povo deu pra me chamar de mestre. E eu fico bastante satisfeito com isso. Estou empolgado.”

Uma história de repente

E é bonito de olhar
E a beleza do sertão
E o relâmpago e o trovão
E o vaqueiro caminhar
(Terezinha e Lindalva do Pandeiro durante apresentação em praça pública)

Na história do Coco de embolada, muitos nomes se destacam, principalmente quando o assunto é já ter na ponta da língua a rima do verso seguinte quando o verso anterior ainda nem terminou de ser rimado. Terezinha e Lindalva do Pandeiro, as duas irmãs que rodaram o Brasil no fim do século passado, se apresentando em praças públicas, programas de televisão e comícios políticos, têm um legado que ainda hoje é lembrado e que, recentemente, passou a ser resgatado em vídeos publicados no Instagram e no Tiktok

Tudo começou muito cedo. O pai era agricultor, mas também era embolador de ganzá. Em meados de 1960, eventualmente se apresentava nas feiras da região de Mossoró, Rio Grande do Norte, buscando meios de sustentar a família. Depois de um tempo, começou a levar os filhos. Terezinha e o irmão mais velho foram os primeiros a seguir os passos do pai, falecido em 1970. Lindalva, a mais nova, demorou algum tempo até fazer parte do grupo que cantava entre feirantes e compradores que encontravam no meio da feira um espetáculo à céu aberto. 

Depois que se juntou na embolada, Lindalva não largou mais o pandeiro, e nem a rima – e nem a parceria com a irmã. “Deus me abençoou, realmente. Aprendi a tocar sozinha. Não tem escola para aprender a tocar pandeiro, né? Essa foi a inteligência que Deus me deu. O pandeiro e a embolada”, observa a repentista. 

Em 1987, depois de tentar ganhar a vida embolando no Nordeste, com pouco retorno frente à parca valorização dada à cultura do coco, as irmãs migraram para o Rio de Janeiro em busca de novas oportunidades. Primeiro foi Terezinha, que passou a trabalhar em casa de família como doméstica. Em Mossoró, Lindalva continuava a bater no pandeiro onde quer que fosse, mas não se demorou sozinha e foi para junto da irmã. 

No Rio de Janeiro, cidade de João da Baiana e de Jorginho do Pandeiro, Lindalva começou a trabalhar como vendedora ambulante, mas não deixou de lado o instrumento que atuou como um auxílio à ausência de alfabetização em sua vida. O pandeiro ficava sempre à espreita, anunciando que sonhos não envelhecem e que o coco de embolada ainda podia ser sustento. 

Quando as irmãs voltaram a se apresentar, se juntaram a outros artistas do Nordeste que ocupavam as ruas do Rio de Janeiro com a cultura nordestina, em lugares como a Feira de São Cristóvão (o Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas) e a Praça do Largo da Carioca, chamando a atenção pelos versos rimados e sagazes no estilo do repente. E não se limitavam aos espaços públicos. “Como muita gente gostava muito do nosso trabalho, fizemos vários programas de televisão. Em São Paulo, fizemos com Rolando Boldrin, com Flávio Cavalcanti, com a Hebe Camargo, fizemos com o Faustão”, relembra Lindalva ao Nonada

Apesar de estarem em programas de televisão assistidos pelo Brasil inteiro, Lindalva destaca que a carreira da dupla não decolou como deveria. “Nós não tivemos ninguém pra dar uma força pra gente na época. Fazíamos tudo nós duas.” Sem um plano de carreira a longo prazo, tudo acontecia ocasionalmente. Numa noite, as irmãs brilhavam no palco de Hebe Camargo miradas pelas câmeras e transmitidas na televisão. Na manhã seguinte, voltavam às feiras, cercadas pelos olhares firmes e ouvidos atentos de quem passava e fisgava tanto a voz forte da dupla quanto o pandeiro insistente.

Mesmo assim, um meio de vida foi se construindo. Os “tempos de fartura” tiveram seu ápice no Rio. A casa própria, para cada uma, veio com muito esforço, mas veio na base do coco. Em São João de Meriti, Baixada Fluminense, fincaram raízes, que para Lindalva, anos mais tarde, apontaram para o norte de novo. Em 2011, voltou para o Nordeste. Se assentou na Paraíba, e hoje vive em Campina Grande. Já Terezinha faleceu em junho de 2020 no Rio de Janeiro, deixando um legado importante para a cultura do repente e do coco de embolada. 

Hoje, Lindalva faz dupla com Condor da Paraíba, da nova geração de emboladores. Juntos, fazem apresentações em eventos. Tal como se via décadas antes, a valorização dada ao coco ainda não é substancial. “Aqui na cidade o coco é bom. As pessoas valorizam, mas não tanto assim, sabe?”, relata. 

Se manter com o coco de embolada tem se tornado cada vez mais difícil. Raramente, a dupla é convidada para se apresentar em festivais de cultura promovidos pela prefeitura de Campina Grande e eventos particulares. O hiato entre um trabalho e outro pode chegar a cinco meses.

“Consegui o meu sustento graças ao coco de embolada. Naquela época, dava pra eu sobreviver, até hoje ainda dá. Só que eu trabalho menos, porque a idade também já não combina mais com tanto trabalho.”

A situação de Lindalva se assemelha ao caso de um sem-número de mestres e mestras que dedicam a vida em prol da cultura popular e da conservação de saberes tradicionais. O envelhecimento desses griôs é amparado por leis como o Patrimônio Vivo, mas na maioria dos casos, não é suficiente para remediar as dificuldades na terceira idade. 

Na Paraíba, a Lei Canhoto da Paraíba se assemelha à Lei do Patrimônio Vivo, com remuneração mensal vitalícia para mestres e mestras com no mínimo 20 anos de atuação na cultura popular do estado. Mas com a diferença de que apenas 30 são contemplados no cômputo geral. Essa remuneração é de dois salários mínimos. Para que mais mestres e mestras entrem na lista, é necessário que algum mestre ou alguma mestra beneficiária faleça. Enquanto esse tipo de benefício não chega, o que resta aos agentes é a subsistência através de editais e contratações pontuais.  

Para dançar o coco de roda

Mestre Pimbó no II Encontro de Coco de Roda, Ciranda e Mazurca da Paraíba em Gado Bravo. Foto: Diógenes Mendonça e Kécia Andrade

Ser beneficiário da Lei Canhoto da Paraíba seria uma mão na roda para a vida de Mestre Pimbó, de Gado Bravo. Assim como todos os mestres e mestras mencionados nesta reportagem, Mestre Pimbó sapeca verso no coco e chacoalha o ganzá desde menino. Aos 75 anos, o que tem de sobra na vida de José Agostinho de Souza é a paixão pelo coco.

Assim como o coco cantado por Lindalva, o coco de Mestre Pimbó também é de embolada, no improviso. “Esse coco começou com os povos indígenas e escravizados. Não tinha poeta, né? Então faziam as emboladas para dançarem, e nessa dança eles formavam uma roda. Por isso nós chamamos de coco de roda, um coco que é dançado”, explica o mestre. 

E é na dança e no recitar de versos que a noite, pano de fundo de todo o festejo, vai sendo tecida. No centro da roda, o mestre se posiciona junto dos instrumentistas, como se fossem o centro de um redemoinho. Quem compõe a roda são os brincantes, que giram de mãos dadas enquanto dançam, marcando o passo e entoando o refrão da embolada cantada por Mestre Pimbó, que improvisa ao som do triângulo, do tambor e do ganzá. Assim como a lezeira, a expressão do coco se dá com maior incidência em festejos religiosos, como nas festas de Santo Antônio, São José e São Pedro, em junho, período do ano em que as apresentações remuneradas são mais frequentes.

Mesmo que o legado atual do coco esteja bem representado na região, é visível a diminuição dos adeptos da expressão em comparação com décadas anteriores, em que até as madrugadas de São João eram abrasadas pelas chamas das fogueiras e pelo embolar do coco de roda. “Nesse povo novo a gente não vê nenhum interesse em cantar coco. Dentro da minha família mesmo ninguém se interessou. Mas dançar eles dançam, só não cantam”, diz Mestre Pimbó. 

Para ele, a ausência de incentivo público é um dos principais motivos para essa falta de interesse. “Por aqui tem muito coquista. Não tanto como antes, mas ainda tem. É que o coco tem pouco incentivo. Eu canto em escola, em igreja, faço apresentações em festas. Onde a gente chega a gente faz o coco. Não em todo canto, onde o povo quer. A gente canta e o povo dança. O coco aqui é muito usado em política, em aniversário, em um bocado de coisa.”

II Encontro de Coco de Roda, Ciranda e Mazurca da Paraíba em Gado Bravo. Foto: Diógenes Mendonça e Kécia Andrade

Desde que passou a se articular dentro de grupos de coco de roda, o agente cultural Arthur Costa colabora com a promoção de encontros de mestres e mestras do coco na região de Campina Grande. O último contou com a participação de 13 grupos, incluindo o de Mestre Pimbó e o de Lindalva do Pandeiro, e teve como finalidade promover uma troca de saberes entre os mestres e mestras para fortalecer o fazer cultural. Apesar da importância desse tipo de encontro, a remuneração recebida pelos grupos se limitou a uma ajuda de custos para o combustível do transporte.

Nesse cenário, os editais de incentivo à cultura, apesar de escassos e muito concorridos, são uma alternativa à escassez de trabalho remunerado com o coco. Com a ajuda de Arthur, responsável pela submissão, Mestre Pimbó foi contemplado no Edital Prêmio Patrimônio Vivo, da PNAB, em 2024. O edital remunerou com cinco mil reais um total de 120 mestres e mestras cujas trajetórias contribuíram com o “desenvolvimento artístico, estético, social e cultural da Paraíba”. Foi a primeira vez em muito tempo que Mestre Pimbó utilizou para fins domésticos e pessoais o retorno financeiro que teve a partir do seu trabalho.

No cotidiano, a situação é diferente. “O que a gente recebe, a gente inteira com alguma coisa em casa, né? Mas a gente canta e não ganha quase nada, e quando ganha é pro coco mesmo. Usamos para comprar instrumentos, um ganzá, uma caixa, um pandeiro. Quando vamos fazer alguma apresentação, algum evento em João Pessoa, a gente ganha só o lanche. A gente vai porque a gente gosta mesmo, porque é uma tradição aqui da região”, comenta. 

Mas os coquistas não se abalam. Manter uma cultura centenária e ser a causa para alegrias nas noites nordestinas são um retorno que, para Mestre Pimbó, não tem preço. Durante as novenas de São José que acontecem em março, em Gado Bravo, e que contam com programações que destacam a cultura local, a noite do coco é a noite que dá mais gente. “É a noite que todo mundo dança”, diz o mestre, orgulhoso.

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