Sagrado segregado: o impacto das chuvas nos terreiros de Juiz de Fora 

Comunidades de terreiro lutam para reconstruir barracões e manter viva a cultura afro-religiosa em meio ao desastre socioambiental que devastou o município mineiro

Juiz de Fora (MG) – Terreiros e comunidades de matriz africana, patrimônios históricos e agentes culturais de Juiz de Fora (MG) foram duramente atingidos pelas fortes chuvas na Zona da Mata. Segundo dados da prefeitura, o desastre provocou, até o momento, a morte de 65 pessoas e deixou mais de 8 mil desabrigados e desalojados na cidade. 

Em meio a um cenário de luto e vulnerabilidade social das famílias, junto à reconstrução do próprio município, entre ruas, casas e bairros inteiros atingidos, as Comunidades Tradicionais de Terreiro também seguem lutando para manter a cultura negra e afrorreligiosa viva na cidade mineira. 

Um desses pontos de resistência está no bairro Cruzeiro do Sul. Lá, o Ilê Ewé Bara Akesan, fundado em 1988 pelo já falecido pai de santo Jorge Luiz de Costa Mattos, enfrenta os danos de uma chuva que parece carregar um peso histórico de exclusão para o povo de santo de Juiz de Fora. Originário do Centro Espírita Caboclo Sete Espadas, o terreiro é também sede da Associação Cultural Acorda Quilombo, projeto social do barracão. 

Em uma breve retrospectiva, nota-se que a história da família com as enchentes na cidade é antiga. Segundo a atual liderança da casa, o Bàbálorisa Deivid T’Èsù, filho carnal de Jorge Luiz, seu pai enfrentou chuvas severas na região, motivo que fez com que a comunidade migrasse de bairro para bairro, diversas vezes, na tentativa de encontrar um chão seguro para desenvolver sua tradição. 

A casa de Candomblé Ilê Ewé Bara Akesan, localizada em Juiz de Fora, registra o antes do desastre. Foto: Arquivo Pessoal/Nonada

A jornalista e filha de santo da casa, Samara Miranda conta que o prenúncio dessa tragédia começou no dia 15 de dezembro de 2025, quando a primeira chuva histórica, em anos, atingiu o município. O que se viu na noite de 23 de fevereiro foi, então, o ápice de um colapso anunciado: o deslizamento, vindo da rua acima, sobrecarregou o terreno e destruiu parte do Ilê Ewé Bara Akesan. A Dofona de Iansã, termoketu-nagô utilizado para designar a primeira pessoa iniciada para um Orixá durante os ritos de iniciação, relatou que, naquela noite, ninguém do Ilê estava no terreiro, mas que logo receberam a notícia da tragédia na casa e no bairro.

O Bàbálorisa Deivid T’Èsù relata que, desde então, a área foi classificada pela Defesa Civil como zona de risco e se encontra evacuada. Para ele, o deslizamento do terreno é o resultado de uma demanda negligenciada pelo poder público há alguns anos.

Em 2025, ele publicou um vídeo nas redes sociais em que cobrava da Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) o asfaltamento da via e, principalmente, a instalação de um sistema de captação de água. Segundo a liderança, embora parte da rua tenha sido asfaltada após muitos pedidos e cobranças, a ausência de infraestrutura adequada para o escoamento da água da chuva contribuiu diretamente para o deslizamento que atingiu o terreiro.

Em outra região da cidade, o Ilè Iyá Ominibú, casa de Candomblé liderada por Mãe Janaína de Osun, também foi severamente atingido. O terreiro possui atividades distribuídas em dois endereços — nos bairros Santa Tereza e Grajaú — e funciona não só como barracão de santo, mas também como residência da família, ilustrando uma realidade vivida por diversas famílias de axé que fazem da fé ancestral sua travessia, quitanda e propósito.

O Ogã da casa, Pai João de Osaguian, filho carnal de Mãe Janaína, contou que a família está abrigada em casa de amigos por conta do risco de deslizamento e desabamento da estrutura do terreiro. Para eles, a dor é imensurável: “Esse espaço não é só nosso. É casa de acolhimento, de cultura, de tambor, de reza, de ensino e de cuidado com a comunidade. Reconstruir não será fácil, mas não vamos desistir’’ relatou ele.

Para além do patrimônio material

Sua fala ecoa uma realidade que vai além da estrutura física. Historicamente, a importância dos terreiros no Brasil ultrapassa as práticas litúrgicas: diversos barracões funcionam, na prática, como espaços de acolhimento, educação ancestral e assistência psicoterapêutica para as populações negras, periféricas e pobres das comunidades onde estão localizadas. 

A paralisação desses trabalhos, muitas vezes invisibilizados pelo Estado, torna a tragédia ainda mais profunda. Em entrevista, o Ogã João lamentou o fato de o terreiro não poder se colocar na linha de frente da assistência ao bairro neste momento, justamente pelo fato de também ter sido atingido. 

Terreiro Ilè Iyá Ominibú é ponto de cultura e lugar de festas populares, como a tradicional Cosme e Damião. À esquerda, a situação atual do Ilê. Foto: Arquivo Pessoal/ Nonada

Para ele, os impactos não envolvem somente o patrimônio físico e material, mas atingem a memória ancestral, os ritos sagrados, o vínculo comunitário e o próprio laço dos filhos de santo com a casa e com a sua ancestralidade. Ao falar sobre os assentamentos dos Orixás – elementos sagrados onde estão plantados o axé (força vital) e a ligação espiritual com as Divindades – que foram destruídos pelas enchentes, ele disse: “O assentamento é o símbolo do nosso renascimento. Eram vidas ali dentro, eram batalhas e o esforço de cada pessoa que lutou por sua existência e pela sua ancestralidade”. 

Ele contou, ainda, que a tragédia vai dificultar a realização de outras atividades culturais que promoviam no Santa Tereza. Lá, aconteciam aulas de atabaque e de cânticos, por exemplo, junto à comunidade do bairro, para além de festas populares, como a de Cosme e Damião. O projeto Samba D’Ilê, realizado pelo barracão, estava ganhando o coração da cidade e também se vê agora ameaçado. 

“Nós estávamos com um projeto de trazer shows, de fazer o nosso samba de terreiro, o Samba de D”Ilê, para o bairro, ali dentro mesmo. Queríamos fazer do terreiro um ponto de cultura para as pessoas”, afirma ele. Sorrindo, ela também relembrou cenas cotidianas, mas preciosas, da relação que tinham com vizinhos do bairro: “Era muito legal ver a comunidade chegando na janela e pedindo: ‘Ó, me chama lá no próximo ensaio, eu quero assistir'”.

O cenário é ainda mais crítico na Casa de Maria, situada no bairro Grajaú, onde eram realizadas as giras de Umbanda. Após as chuvas, o local também teve sua estrutura destruída pelo deslizamento de terra, restando apenas as paredes de pé no terreno. 

O espaço, que estava em fase de obras, teve seus planos de ampliação interrompidos, sem previsão de retorno pela ausência de recursos financeiros. Junto a isso, a inviabilidade técnica de reconstrução em uma zona de risco, segundo a Defesa Civil, é um anúncio cruel de uma cidade que, sistematicamente, empurra o Sagrado negro para as margens.

Samara Miranda e Pai Daivid no Ilê Ewé Bara Akesan. Foto: Acervo Pessoal / Nonada

O sagrado segregado 

Os casos do Ilê Ewé Bara Akesan e do Ilè Iyá Ominibú, não são isolados. Na verdade, fazem parte de uma estatística alarmante. De acordo com um levantamento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Juiz de Fora é a 9ª cidade do Brasil com a maior população em áreas de risco de deslizamentos, enchentes e enxurradas. São mais de 130 mil moradores em encostas, morros e zonas periféricas vulneráveis. 

A destruição pelas chuvas atingiu outros pontos importantes da memória e da cultura juiz-forana, deixando um rastro de danos em espaços de referência histórica e artística. Entre os espaços atingidos estão, por exemplo, o Morro do Imperador, o Museu Mariano Procópio, o Centro Cultural Dnar Rocha e o projeto sociocultural “Colorindo Habitar” — no Morro do Esplanada, que abriga o maior macro mural do Brasil. Em contraste, o Centro de Artes e Esportes Unificados, conhecido como Praça Ceu, na Zona Norte, manteve-se preservado, tornando-se ponto estratégico de apoio e acolhimento para a comunidade neste momento.

Bairro Esplanada em Juiz de Fora. à direita, o projeto sociocultural ‘Colorindo Habitar’, que abriga o maior macromural do Brasil; à esquerda, a destruição das casas após as intensas chuvas na região. Fotos: Prefeitura de JF / Leonardo Costa]

As palavras ligeiras e reveladoras, feito Exu – Orixá da Comunicação nas tradições de Candomblé Ketu – do Bàbálorisa DeiDeivid, vão direto ao centro dessa encruzilhada de problemas sociais: “As pessoas sempre olham e falam assim: ‘Pô, a pessoa está vendo que ali é um lugar de risco e ainda vai construir?’. Mas vamos explicar uma coisa: a periferia sempre cresceu desordenada, sem infraestrutura, por questões sociais e econômicas. O povo de terreiro nasceu na periferia e nossas casas estão lá porque, muitas vezes, são os únicos locais onde conseguimos nos instalar”, argumenta.

A fala dele reforça que a concentração dos terreiros em áreas periféricas, justamente as mais suscetíveis a desastres climáticos, é um sintoma direto da desigualdade social e do acesso limitado a terrenos e moradias com infraestrutura urbana adequada e segurança habitacional.

Samara Miranda, também pesquisadora de cultura afro-brasileira, samba e carnaval, defendeu que a vulnerabilidade dos terreiros diante das chuvas é uma extensão da segregação racial e cultural que segue em curso na cidade: “A história de Juiz de Fora é uma história que nos nega a todo momento. Do calçadão ao acesso ao próprio Sagrado, tudo o que envolve negros e negras foi marginalizado e colocado à margem nessa cidade’’.

Barracão antes da tragédia. Foto: Acervo Pessoal / Nonada

Terreiros como lugares de memória

Embora os dados de religião do Censo 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostrem que as religiões afro-brasileiras no município triplicaram, saltando de 0,36% para 1,18% da população, o território continua marcadamente cristão quando olhamos para a paisagem atual da “Princesinha de Minas”, como é conhecida. 

Um exemplo concreto de conflitos entre diferentes tradições de fé na cidade, por exemplo, é o processo judicial enfrentado pelo próprio Ilè Iyá Ominibú. Sob alegação de perturbação de sossego, o barracão foi alvo de uma tentativa de impedir a continuidade de seus rituais. A vitória na causa, conquistada simbolicamente em 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, demonstra como a vida política, cultural e ritualística das populações de santo, na cidade, atravessa tensões e desafios a todo momento. 

Como lembra a escritora Carolina Rocha, no livro A Culpa é do Diabo (2025), a maior arma dos terreiros, em um cenário secular de guerra no Brasil, é a sua capacidade de negociação, passamos a olhar para todas as tecnologias que essas populações criaram para garantir sua existência, inclusive as desenvolvidas após eventos climáticos, e sociais, sobretudo, severos.

Ao avaliar o impacto desta catástrofe sobre a continuidade dos terreiros, a Secretaria Especial de Igualdade Racial (SEIR) da cidade, defendeu que sua atuação, neste momento de crise, tem sido a de articulação. Em entrevista, Giane Elisa, representante da pasta, disse que o reconhecimento desses espaços como patrimônios de memória é um trabalho contínuo, mas reconhece que a magnitude da tragédia — um evento que, segundo ela, Juiz de Fora jamais vivenciou com essa severidade — exige uma resposta em rede.

“A nossa primeira providência é o mapeamento. O papel da Secretaria é articular as políticas públicas, especialmente com a assistência social, para entender quem são as pessoas atingidas e assegurar que esses territórios permaneçam cumprindo seu papel na cidade”, explica. Para a educadora, embora a tragédia seja devastadora, a história das religiões de matriz africana é, em sua essência, uma história de resistência. A pasta acredita que, por meio de um esforço conjunto entre as esferas do poder público, será possível possibilitar a recuperação desses espaços.

Porém, para quem vive o cotidiano da cultura afrorreligiosa, a resistência é um fundamento que deveria estar amparado por políticas culturais de prevenção a danos causados por eventos extremos. Como enfatiza o Bàbálorisa Deivid T’Èsù: “Nós somos um povo de santo, um povo que é temente ao Sagrado e tem fé. Vamos resistir a mais esse empecilho”. Mas, o pedido dele é direto: “Que o poder público e as instituições nos enxerguem com igualdade”.

Enquanto a gestão municipal se organiza para o diagnóstico, Samara, Dofona de Iansã, alerta para a importância de representação política voltada à defesa das pautas e das agendas dos direitos das religiões de matriz africana. Isso tudo não é de hoje: falar de ancestralidade não é apenas reverenciar quem veio antes — é compreender que nossos modos de existir, criar e resistir foram cultivados por povos que transformaram dor em cultura, silêncio em linguagem e exclusão em comunidade.

Ao serem questionados sobre como os terreiros se manteriam de pé, todos os entrevistados responderam ao Nonada Jornalismo com uma mesma certeza: os ancestrais nos aguardam, girando e reluzindo; continuaremos em movimento. A importância de olhar para os terreiros e a ancestralidade negra, mesmo em meio a tragédias, reside na necessidade de preservar as heranças vivas que a diáspora espalhou pelo Brasil. Essas são pedagogias de reinvenção que nos sustentam e que não nasceram nos livros, mas na terra, nos rituais, nos corpos e na oralidade.

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