Como Cety Soledad gera consciência ambiental com arte feita de lixo eletrônico 

Artista da Zona Oeste do Rio de Janeiro, utiliza interruptores, tomadas e outros componentes eletrônicos para falar de território e identidade
Cety Soledad posa em frente à sua obra no Mural Afetivo da ZO, com óculos de visão ancestral e anel em formato de tomada. Foto: Leticia Gonçalves/Divulgação/Nonada

A estética visual de Cety Soledad é construída a partir da gambiarra. O emaranhado de fios soltos, os cabos e a fiação, tão presentes no cotidiano das favelas cariocas e na paisagem das periferias, se ramificam e se encontram em suas criações. “Sou artista por sorte. Onde eu moro, eu tropeço em talentos bizarros”, afirma o multiartista autodidata, que reconhece o território periférico como lugar de mentes criativas.

Na artimanha de Cety, interruptores, tomadas, benjamins, carregadores e outros componentes eletrônicos descartados, se transformam em esculturas, máscaras, pinturas, performances e instalações. Por trás do nome artístico e da máscara que encobre seu rosto, está Tiago Soledade, de 42 anos, caçula entre cinco irmãos, criado pela avó, Maria da Soledade, no Complexo de Senador Camará, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Com mais de duas décadas dedicadas à arte, sua trajetória começou nas ruas, através do trabalho com grafite, em 2004. “Cety”, nome pelo qual ficou conhecido no universo dos muros, surgiu a partir da associação com o número sete, que ele ouviu no rádio ser um símbolo associado à perfeição. “Arrisquei minha vida para pintar”, relembra sobre o desejo de criar e a tensão e violência vividas, enfrentadas por grafiteiros.

Parte da carreira se desenvolveu nos barracões das escolas de samba. A cenografia entrou em sua vida em 2013, quando atuava na Unidos da Vila Isabel. Em 2022, entrou com sua assinatura no maior palco do mundo ao participar do desfile campeão da Acadêmicos da Grande Rio. Em 2026, alcançou um feito histórico ao apresentar sua identidade artística em três escolas de samba do Carnaval do Rio: Unidos da Ponte, Acadêmicos da Grande Rio e Império Serrano.

“Eu sempre fui essa pessoa de pesquisar e querer saber. Todo lugar eu passei, cada ponto foi a minha formação”, Cety destaca como sua atuação artística não parou de se expandir. Em um contexto de consumo acelerado de tecnologia, a mobilização do artista a partir dos resíduos eletrônicos (e-lixo) ganha destaque. O Brasil é o 5º maior produtor desse tipo de material no mundo, com cerca de 2,4 milhões de toneladas por ano, segundo a ONU e o relatório Global E-waste Monitor 2024

Instalação O Mensageiro, 2024. Ficha técnica: plug de tomada, parafuso, fio, cabo HDMI, cabo de rede, adaptador de tomada, adesivo com a etiqueta “atenção”, sisal e fita metálica; 38 x 20 cm. Foto: Lissa Nigra/Reprodução/Nonada

O descartável em questão

Indo na contramão do consumo desenfreado, a arte de Soledad abre caminhos. Assim como tudo que aprendeu, foi na prática que ele encontrou a própria identidade artística. A visualidade que se consolidou em seu trabalho nasceu de um improviso ordenado. “Retomada começa como um projeto de vida e, ao longo do tempo, vira minha pesquisa conceitual. O ponto de partida foi meu processo de cura, tudo aconteceu no meu pior momento da vida, quando eu não tinha mente para criar ou pensar em futuro, porque o que passava na minha cabeça só coisa ruim”, descreve o artista sobre um processo de adoecimento psíquico e espiritual que viveu.

Cety não dá ponto sem nó. Retomada, a série artística iniciada em 2020, traz as tomadas como elemento central, em um convite a olhá-las como elo para criar novas conexões.“Tu tem que dar um start na tua cabeça, senão vai dar ruim. Tu pode morrer, na próxima, pode estar morto”, relembra o artista sobre o que ouviu de uma médica que o atendeu durante um episódio de saúde mental. 

Ali teve origem o processo que deu início a toda a sua busca. A primeira pintura da série Retomada acontece nesse exato despertar: um autorretrato, no qual ele está de olhos fechados, forçando-os para ligar o interruptor na própria testa, remetendo ao processo de autoconhecimento. 

Primeira obra da série Retomada. Pintura acrílica sobre tela. Foto: Cety Soledad/Reprodução/Nonada

Na encruzilhada, onde tudo acontece ao mesmo tempo, ele mergulha junto aos materiais eletrônicos a partir de uma experiência íntima: o encontro entre sua dignidade e a sensação de se perceber descartável diante de sua fragilidade. Eu não tenho direito de estar triste, com raiva, com medo”, reflete Cety sobre a pressão do mercado da arte em produzir a todo momento. O artista vive a Retomada, no qual sua linguagem se manifesta em dois sentidos: ao mesmo tempo em que ressignifica a matéria, ele se reconstrói.

Sua estética se sustenta na provocação de olhar para os objetos e permitir que eles contem histórias e memórias. Os resíduos, geralmente recebidos de amigos ou já presentes em casa, carregam marcas do tempo. “Para mim, são mais valiosos os materiais que já têm alguma ação. um amigo fazia uma obra [construção de casa], tirava os fios, aí eu encontrava pedaços de tinta, coisas queimadas, coisas quebradas”, conta o artista.

“O artista não pode ser menor que a obra”

O uso de materiais descartados vai do início ao fim do processo, extrapolando, inclusive, as telas. As molduras são todas montadas por ele: utiliza madeiras e fios na composição, questionando também os altos custos para emoldurar uma obra artística. Ao refletir sobre esse cenário, enfatiza: “O artista não pode ser menor que a obra!”. E completa: “Eu mesmo não consigo comprar a minha obra”, evidenciando sua indignação com o mercado da arte.

Seu trabalho aponta para uma direção consciente: para Cety, trata-se de salvar a si e ao mundo, ao devolver a utilidade e valor às coisas. Ele evidencia que a tecnologia não deve se limitar à sofisticação, defendendo-a como uma ferramenta de bem comum e ancestral. Por isso, incorpora a contracolonialidade por meio de símbolos do axé e de filosofias africanas na construção de suas obras.

Outro destaque são os mascarados: trajes mais pesados, compostos por resíduos tecnológicos que cobrem o corpo de quem os veste, pensados para performances que transitam entre o mundo espiritual e o físico. “Funcionam como uma ferramenta de comunicação com os ancestrais, que retornam à terra para abençoar e oferecer conselhos”, elabora Cety.

Nesse movimento, surge também outro elemento que aparece e reaparece em seu trabalho: os óculos de visão ancestral, feitos com fios e em formato de tomada, que potencializam o olhar para a negritude e o território a cada encontro com a obra.

Máscara – O manipulador de energia. Ficha técnica: Plástico, fios, botões de controle remoto de TV e fone de ouvido. Foto: Reprodução/Lissah Nigra/Nonada

Sustentabilidade no Carnaval

Produções como a de Cety levantam debates sobre o uso de materiais sustentáveis para a criação artística. Diego Carbonell, especialista em sustentabilidade e diretor da área no Carnaval da LIGA RJ, defende a arte como ferramenta de transformação sustentável. e destaca que artistas periféricos despontam como protagonistas nisso há muito tempo. “Eles [os artistas periféricos] são a base do carnaval carioca, responsáveis por grande parte da estética e da identidade cultural das escolas de samba.”

O consultor aponta que já existem iniciativas sustentáveis no contexto da Marquês de Sapucaí, como o projeto Sustenta Carnaval. Nos últimos três anos, a ação coletou mais de 60 toneladas de fantasias na dispersão, contribuindo para a circulação desses materiais. “No entanto, quando falamos de escala, é importante fazer uma distinção. A reutilização na arte é, sim, uma prática sustentável e inspiradora, mas, sozinha, não resolve o problema estrutural da geração de resíduos”, afirma Diego.

Segundo o especialista, o uso de resíduos eletrônicos no carnaval enfrenta barreiras técnicas e logísticas: exige conhecimento para desmontagem e reaproveitamento seguro, pois envolve componentes tóxicos, além de depender de coleta, armazenamento e fornecimento em escala. Também precisa de adaptação criativa e estrutural, com testes, inovação e tempo, recursos escassos na rotina acelerada dos barracões.

Ainda assim, o carnaval é uma linguagem popular e democrática, o que amplia seu potencial de contribuir para a conscientização ambiental e a mudança de comportamento. Um exemplo disso ocorreu após a vitória da Acadêmicos do Grande Rio no Carnaval de 2022, com o enredo Fala, Majeté! Sete Chaves de Exu, quando as buscas pelo orixá cresceram mais de 400% no Google.

O tripé “Boca Que Tudo Come” reúne os diferentes elementos da série Retomada para o desfile da Acadêmicos da Grande Rio em 2022. Foto: Equipe FatPress/LIESA

Foi a primeira vez que o trabalho de Cety Soledad foi exposto na Avenida, durante o desfile da Acadêmicos do Grande Rio, em 2022. O tripé “Boca Que Tudo Come” aborda comunicação, conexões e a presença de Exu na contemporaneidade. A obra se conecta ao mundo por meio de uma linguagem composta por elementos como paredões de caixas de som, fiações, tomadas, benjamins, antenas e uma tela com autorretrato do artista. “Ali estavam todos os resíduos tecnológicos trabalhados dentro desse tripé”, enfatiza o artista, ao destacar a inserção de sua pesquisa Retomada no espaço do carnaval.

Em 2026, o artista apresentou o trabalho Óculos de visão ancestral e passou a incorporar resíduos eletrônicos, como conduítes [tubos instalados dentro de tomadas para proteger os cabos elétricos] e plugues de tomada às suas criações carnavalescas. No Império Serrano, transportou esses elementos para a bateria conectado ao enredo em homenagem a Conceição Evaristo. Já na Acadêmicos do Grande Rio, com o enredo A Nação do Mangue, sua estética se ligava à cultura sonora e tecnológica presente nesse movimento socioambiental. 

Na Unidos da Ponte, com um tema voltado ao funk, Cety desfilou na ala como DJ, vestindo uma calça larga feita de conduítes, em referência aos bailes black. Além disso, desenvolveu o carro Vem pro Baile Funk! – Carro dos Artistas Funkeiros, que integrou a cenografia. Nessa alegoria, a estrutura em lona estabelece um paralelo com os Egungun, entidades da tradição iorubá, enquanto os grafismos africanos conferem corpo e presença à composição.

Contra o sistema

O grafite é outro meio importante de expressão do artista. Criado em 2024, o Mural Afetivo da Zona Oeste nasceu com a proposta de levar cor aos conjuntos habitacionais da comunidade conhecida como Caixa D’Água, em Padre Miguel, bairro na capital carioca, situado entre Bangu e Realengo. A proposta surgiu como meio de representar sentimentos que conversam com o cotidiano das famílias do território. 

O produtor Roger Almeida reuniu artistas locais para devolver arte e memória a um espaço historicamente esquecido, entre eles Cety. “Esse território carrega um forte senso de comunidade e afetividade; as pessoas são mais calorosas aqui”, destaca ao comentar a ideia central do projeto. Ele complementa: “[Os moradores] gostam de falar desse pertencimento, de onde vieram e das histórias que circulam por aqui.” Almeida ressalta que o grafite busca revitalizar o espaço e construir um novo olhar sobre o urbano.

Cety assinou um mural de 7 metros de altura, trazendo o raio como expressão de axé e o símbolo Andrika, vinculado à tecnologia ancestral. Na obra, duas irmãs se abraçam, simbolizando o cuidado e a irmandade tão presentes nas favelas. “O grafite é sinistro! Eles pensam que somos uma arte inferior, mas somos contra o sistema, temos uma cultura e um movimento próprio”, afirma Cety. Independente do suporte, se é com resíduo ou com tinta, o trabalho do multiartista mostra que a periferia é lugar de se falar de arte e meio ambiente. 

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