Artistas com deficiência reivindicam maior presença nos acervos de arte do Brasil

Enquanto museus ainda carecem de dados sobre o quantitativo de artistas DEF em suas coleções, projetos independentes mostram a importância dessas iniciativas para a arte brasileira
A Orquestra Brasileira de Cantores Cegos foi criada em 2023 para articular canto coral e artes cênicas, com protagonismo de cantores com deficiência visual. Foto: Gabriel Lordello/Mosaico Imagem

Atualmente, já é de conhecimento público que renomados artistas da história da arte brasileira e mundial eram pessoas com deficiência. Mas nem sempre foi assim. Diante de apagamentos históricos, muitos artistas de renome não tiveram direito a uma biografia completa de suas trajetórias por um longo período. Foi o caso de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, escultor e arquiteto do barroco mineiro, e também de Anita Malfatti, pintora central do modernismo brasileiro. 

Quando o pesquisador Fábio Passos, artista visual, professor da Universidade Federal do Piauí, doutor em Filosofia e pós-doutor em Artes Visuais, percebeu que muitas vezes a deficiência era tratada como um tema secundário ou escondido na história dos artistas, decidiu tornar esse seu tema de pesquisa. Expandiu o trabalho também para nomes da música, com Nelson Ned, cantor e compositor, e Roberto Carlos, um dos nomes mais populares da música brasileira.

Pessoa com deficiência e cadeirante, Passos se dedica à reconstrução dessas histórias, mostrando a contribuição de artistas DEF para as artes visuais brasileiras. Fábio trabalha com a ideia de ancestralidade DEF e chama atenção para artistas do passado incorporados à historiografia sem o registro ou a análise da deficiência como parte de suas trajetórias. “Mesmo quando a deficiência é conhecida na biografia do artista, ela nem sempre aparece como parte da leitura sobre seus modos de criação”, analisa o artista.

Remontar essa memória, argumenta, não significa definir toda produção de uma pessoa como “arte sobre deficiência”. O objetivo também passa por observar como experiências corporais, técnicas e tecnologias utilizadas por esses artistas participaram de seus modos de criação. A questão trazida pelo pesquisador levanta outras perguntas importantes sobre a memória DEF nas artes brasileiras, na qual prevalece uma falta de dados sobre a presença de pessoas com deficiência no setor.  

As obras de Ana do Vale, arte educadora, brincante da cultura popular e pesquisadora de acessibilidade, retratam a partir do desenham a pluralidade das experiências de pessoas com deficiência. Foto: Divulgação

O Mapeamento Acessa Mais: Caminhos trilhados para o reconhecimento e valorização da Cultura DEF nas políticas públicas culturais brasileiras, lançado pelo Ministério da Cultura em 2024, surgiu para começar a dimensionar esse universo. O levantamento reuniu 3.476 cadastros válidos de pessoas inscritas voluntariamente na plataforma, entre elas 1.692 artistas com deficiência. Desse grupo, 442 declararam atuação nas artes visuais. No conjunto dos participantes, também formado por agentes culturais com deficiência e profissionais da acessibilidade cultural, 37,9% estavam no Sudeste, 32,6% no Nordeste, 12,4% no Sul, 9,9% no Centro-Oeste e 7,1% no Norte.

Ao indicar quem são, onde estão e em quais áreas atuam esses profissionais, o estudo abre uma nova pergunta: onde estão preservadas suas obras, seus arquivos e suas trajetórias, inclusive as de gerações anteriores? A lacuna reúne museus, arquivos pessoais, fotografias, vídeos, performances, repertórios e documentos de processos criativos em um mesmo problema. De um lado, instituições avançam na acessibilidade para receber pessoas com deficiência como público. De outro, permanece menos desenvolvida a presença delas como autoras da história cultural guardada nesses espaços.

Essa ausência de dados levou à criação do Mapeamento Acessa Mais, em 2024,  coordenado por Edu O., o artista, pesquisador e coordenador do levantamento. Ele atua há décadas no campo das artes e pesquisa as relações entre corpo, dança, deficiência e Cultura DEF. Durante o levantamento, não identificou nenhuma estrutura física, digital ou institucional destinada a reunir de forma sistemática a memória dessa produção no país. “A memória disso não sei onde está. Fica restrito a álbuns de fotografia, recortes de jornal e acervos pessoais. Não temos material que assegure nossa memória para um acesso coletivo.”

Para Edu, a dispersão ajuda a produzir a impressão de uma produção artística DEF recente, embora pessoas com deficiência estejam há décadas em diferentes áreas da cultura. O apagamento pode ocorrer inclusive após a entrada da obra em um acervo: o artista permanece na coleção, enquanto a deficiência e sua relação com os processos de criação ficam fora da narrativa construída sobre ele.

“Não apenas como público, mas sujeitos de memória”

Para verificar como essa produção aparece nas instituições, o Nonada questionou 20 museus de arte, públicos, universitários e privados, de diferentes regiões do país sobre a presença de artistas com deficiência em suas coleções: Museu de Arte de Belém (MABE), Museu da Universidade Federal do Pará (MUFPA) e Pinacoteca do Amazonas, no Norte; Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA), Museu de Arte da Bahia (MAB), Pinacoteca do Ceará e Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (MAMAM), no Nordeste; Museu de Arte de Brasília (MAB), Museu de Arte Contemporânea de Goiás (MAC-GO) e Museu de Arte Contemporânea de Mato Grosso do Sul (MARCO), no Centro-Oeste; MASP, Pinacoteca de São Paulo, MAC-USP, Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), MAM Rio e Inhotim, no Sudeste; e Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS), Museu Oscar Niemeyer (MON), MAC-PR e Museu de Arte de Santa Catarina (MASC), no Sul.

Até o fechamento deste texto, quatro instituições responderam integralmente às perguntas sobre seus acervos: o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS), em Porto Alegre, na região Sul; o Museu de Arte de Santa Catarina (MASC), em Florianópolis, também no Sul; o Museu da Universidade Federal do Pará (MUFPA), em Belém, no Norte; e a Pinacoteca do Ceará, em Fortaleza, no Nordeste. 

Nenhuma delas havia realizado anteriormente um levantamento específico sobre a presença de artistas com deficiência em suas coleções e, em resposta, relatam que, historicamente, não existe essa contabilização. Os casos apresentam estágios diferentes de organização, porém compartilham uma característica: a deficiência não foi incorporada de maneira sistemática à documentação dessas coleções.

No MUFPA, a ausência impede até uma estimativa. O museu não informou quantos artistas com deficiência estão representados em seu acervo nem identificou suas obras a partir da documentação existente. A condição de pessoa com deficiência também não é, de modo geral, registrada na catalogação, e não há uma diretriz específica de aquisição relacionada a artistas DEF. Parte da lacuna, segundo a instituição, decorre da forma como a documentação foi constituída historicamente, em períodos nos quais esse tipo de informação não era registrado. O museu passa por uma reestruturação de seus procedimentos e pretende ampliar os dados reunidos sobre obras e artistas.

O MARGS possui mais de 6 mil obras de cerca de 1.200 artistas e também não incluiu historicamente a condição de pessoa com deficiência na documentação de aquisição. Sem um levantamento consolidado, a equipe apontou, ao responder às perguntas, nomes como de artistas como Evgen Bavcar, Mariane Rotter e Kika Costa. A política de aquisições, publicada em 2025, prevê o enfrentamento às sub-representações e lacunas relacionadas ao cânone e às narrativas hegemônicas da História da Arte, mas não estabelece uma diretriz específica para artistas com deficiência.

No MASC, dois artistas foram nomeados: Fernando D’Acampora, com uma pintura, e Pazé, com quatro fotografias. A deficiência aparece nas biografias, mas o museu nunca realizou levantamento específico e não possui uma diretriz de aquisição voltada a artistas DEF.

A Pinacoteca do Ceará identificou Francisco de Almeida, com 15 obras, e Ruy Relbquy, com uma. A instituição também não havia feito um levantamento específico, mas começou a alterar sua documentação. Segundo a resposta enviada à reportagem, uma nova ficha catalográfica deverá incorporar indicadores como raça, gênero e deficiência, acompanhada de um documento de autodeclaração preenchido pelos artistas. 

Em São Paulo, o MASP chegou a responder à solicitação, mas não apresentou os dados. “Infelizmente, não conseguiremos realizar esse levantamento com facilidade, especialmente dentro do prazo solicitado [de 1 semana]. Mas ressalto que esse ponto é extremamente importante para o acervo do museu”, em resposta ao Nonada. 

Anahi Guedes de Mello, mestre e doutora em Antropologia Social pela Universidade Federal de Santa Catarina, pesquisa capacitismo, acessibilidade cultural e a relação entre deficiência e museus. Associada ao Núcleo de Estudos da Deficiência da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e pesquisadora da Anis – Instituto de Bioética, ela também cursa Museologia. Para Anahi, a acessibilidade conquistou espaço na museologia brasileira, mas muitas vezes permanece concentrada na eliminação de barreiras físicas e comunicacionais. “Não se trata apenas de garantir que as pessoas acessem os museus, mas de questionar o lugar que ocupam nas políticas de memória”. A pesquisadora propõe o reconhecimento “não apenas como público dos museus, mas também como sujeitos de memória”. A mudança envolve discutir quem é tratado como artista e produtor de conhecimento. 

De acordo com a estudiosa, é difícil apontar uma instituição brasileira com práticas consistentes, mas cita iniciativas voltadas à memória e à produção de pessoas com deficiência, como o espaço dedicado a esse grupo em Campinas, interior de São Paulo, o Espaço Demo, além do Museu Defiças, mas diferencia essas experiências de uma mudança mais ampla nas políticas de aquisição, documentação, preservação e curadoria.

O registro da deficiência também exige cuidado. Na avaliação de Anahi, reconhecer essa dimensão da trajetória de um artista não significa impor uma identidade a quem não pôde ou não quis se autodeclarar. Ignorá-la, por outro lado, pode reproduzir uma história da arte na qual determinados corpos e experiências desaparecem. 

Circular os trabalhos

Responsável pelo Mapeamento Acessa Mais, o artista e pesquisador Edu O. observa a necessidade de produção de lugares, espaços e iniciativas que guardem a memória DEF nas artes e na cultura brasileira. Foto: Aldren Lincoln/Acervo pessoal

“Vocês que lutem com a classe de vocês”. Foi o que a pesquisadora, artista DEF, performer e videoartista Estela Lapponi relata ter ouvido durante uma reunião realizada em 2024 para discutir as cotas destinadas a pessoas com deficiência nos editais da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) com gestores públicos do estado de São Paulo. Segundo Estela, cerca de 50 pessoas participaram do encontro. A artista conta ter reagido, questionando a resistência à ampliação da cota, embora o percentual pudesse ser aumentado. Na sequência, ouviu: “Ué, mas não é para acabar com as cotas?”.

A reivindicação se apoiava na regulamentação federal da PNAB. A norma estabelecia reserva mínima de 5% das vagas para pessoas com deficiência, mas permitia aos entes federativos ampliar esse percentual, considerando legislações locais mais favoráveis e o quantitativo de pessoas com deficiência na região. Os 5%, portanto, eram um piso, e não um teto. A Secretaria de Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo não respondeu aos questionamentos sobre o relato até a publicação desta reportagem.

O episódio exemplifica uma dificuldade presente em diferentes etapas da trajetória de artistas com deficiência. Se conseguir espaço em editais, programações e instituições já envolve barreiras, o problema continua depois da chegada de uma obra ao público: quem registra essa produção, quem a pesquisa e o que permanece quando a exposição, o espetáculo ou o projeto termina? 

Estela acompanha esse debate a partir da própria trajetória. Ela já trabalhava como atriz quando, aos 24 anos, sofreu um AVC durante uma apresentação. Depois de enfrentar capacitismo em grupos de teatro — discriminação e barreiras impostas às pessoas com deficiência —, se afastou dos palcos por um período, trabalhou com vídeo e mais tarde retornou à cena pela dança contemporânea. 

A artista Estela Lapponi defende a necessidade de as políticas irem além da ideia de inclusão. Foto: Jardiel Carvalho/Acervo pessoal

Hoje, busca em sua produção “renovar a informação da ancestralidade DEF”, contrapondo representações históricas associadas ao castigo, à falta de desejo ou à incapacidade. “Vamos sair desse papinho de inclusão, vamos adiante. A gente está aqui já faz tempo”. Para ela, o debate precisa alcançar aquilo que esses artistas efetivamente produzem. “Vamos ver o que a gente está fazendo, inspirando as pessoas”.

Para que os trabalhos de artistas com deficiência sejam mais conhecidos pelas pessoas, é necessário que tenham maior circulação. Morando em Teresina, no Piauí, há cerca de 11 anos, Fábio Passos relata ter alcançado maior projeção nacional principalmente por meio de projetos realizados fora do estado. Menor presença nos circuitos significa menos exposições, relações profissionais e possibilidades de chegar às instituições formadoras de coleções.

Em Belém, essa dificuldade de ampliar a produção para outros territórios aparece na experiência do artista visual Kattari Quadros. Ele já se inscreveu em alguns dos principais editais da cidade, mas, segundo seu relato, as seleções vieram apenas de chamadas destinadas especificamente a artistas autistas e relacionadas ao mês de abril, período dedicado à conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Durante uma formação, Kattari cita ter ouvido da própria equipe responsável por um edital a informação de que nenhuma pessoa com deficiência havia se inscrito. “Mas eu estava na lista”, critica. 

“A inclusão vira evento, não estrutura”

Há sinais recentes de ampliação dessa circulação, segundo os próprios artistas e agentes culturais. A Frestas – Trienal de Artes, apareceu ao longo das entrevistas desta reportagem como uma referência recente da presença de artistas DEF no circuito cultural recente. A quarta edição, de 27 de fevereiro a 16 de agosto deste ano, no Sesc Sorocaba, interior de São Paulo, reuniu 102 participantes, 188 obras e 26 trabalhos comissionados. O catálogo da Trienal permite identificar ao menos oito artistas ligados à Plataforma Demonstra, atual Demo, dedicada à produção de artistas DEF. A mostra também incluiu a acessibilidade desde a concepção, com audiodescrição, braille, legendas acessíveis, videoguia em libras, recursos táteis e outras medidas. 

No caso da iniciativa, o encerramento não significou o desaparecimento de seus registros. Segundo o Sesc, a documentação produzida pela Trienal foi incorporada ao acervo do Sesc Sorocaba e, em alguns casos, ao Sesc Memórias, centro de preservação e pesquisa da história institucional. O site da mostra também permanece disponível como acervo digital para consulta às obras e aos artistas. 

Em São Paulo, o Ọmọdé – Festival Sesc de Arte e Cultura Negra para a Molecada, realizado no Sesc Bom Retiro, de 20 de setembro a 6 de dezembro de 2026, também leva ao público artistas e trabalhos atravessados por experiências de deficiência. A programação reúne, entre outros nomes, Gaaby Pereira, artista autista e com TDAH, e Darília Ferreira, atriz cadeirante, além do espetáculo Iní Berê – Somos Todos Estrangeiros, cuja narrativa inclui uma personagem autista. Os dois casos exemplificam uma presença maior de artistas e experiências DEF na programação cultural. Os entrevistados, porém, chamam atenção para o que acontece depois que esses eventos terminam: quais obras passam a integrar coleções, quais registros permanecem acessíveis e em que condições essas trajetórias poderão ser pesquisadas no futuro?

Alexandra Martins, artista, comunicadora e profissional de acessibilidade, acompanha essa diferença na construção da Revista e do Museu Defiças, projeto on-line dedicado à produção de pessoas com deficiência. A revista surgiu em 2024 articulando registro, memória, comunicação e divulgação. O museu nasceu como desdobramento da experiência. Para ela, a ausência de obras DEF nos espaços institucionais não decorre da inexistência dessa produção. “A produção não está sendo perdida, mas ignorada”, resume.

Apresentação da Orquestra da Cantores Cegos em Vila Velha no Espírito Santo. Foto: Gabriel Lordello/Mosaico Imagem/Divulgação

Sua atuação nas áreas de Comunicação e Acessibilidade da Parada do Orgulho da Pessoa com Deficiência também a colocou em contato com artistas de longa trajetória, ainda restritos a circuitos específicos. Alexandra observa uma concentração de convites em períodos ligados às “datas de luta” das pessoas com deficiência, especialmente setembro e dezembro. Uma participação pontual pode render apresentação ou exposição, sem necessariamente gerar continuidade de carreira, pesquisa ou incorporação a acervos. “A inclusão vira evento, e não estrutura”.

“A instituição é aquela que transmite para um futuro”

Quando a preservação não está estruturada nas instituições, parte do trabalho fica com os próprios artistas e coletivos. Rejane Arruda dirige a Orquestra Brasileira de Cantores Cegos, criada em 2023 para articular canto coral e artes cênicas com protagonismo de cantores com deficiência visual. Em 2026, a iniciativa chegou à quarta temporada, projeto autorizado a captar R$ 1 milhão pela Lei Rouanet.

Rejane também integra os projetos desenvolvidos pela Companhia Poéticas e pela SOCA Brasil, onde mantém registros em vídeo dos processos de criação pensando em consultas futuras. O grupo reúne documentação de espetáculos e projetos desenvolvidos ao longo dos anos, transformando o próprio processo artístico em material de arquivo. O volume acumulado trouxe uma questão prática: “Onde a gente bota essa quantidade de dados e arquivos?”.

A diretora defende editais e políticas de financiamento específicas para essa documentação. Não se trata, explica, de produzir material para divulgação ou comunicação, mas registros destinados ao acervo, capazes de permitir consultas, estudos e novas interpretações. O trabalho exige espaço de armazenamento, equipamentos, equipe e catalogação. “Acho que tem que ter essas duas vias: a pulverização com um incentivo e a institucionalização com validação e transmissão para frente”.

Para Rejane, a responsabilidade também não deve ficar exclusivamente com os museus. Artistas e coletivos podem construir seus arquivos, desde que tenham infraestrutura e recursos. Às instituições cabe outra função. “A instituição é aquela que formaliza, valida. É aquela que transmite para um futuro”. Essa experiência se aproxima da preocupação presente no Museu Defiças: diante da falta de preservação estruturada em instituições tradicionais, os próprios artistas passam a criar espaços para registrar suas trajetórias. A continuidade dessas iniciativas depende de condições para não ficarem restritas ao esforço individual dos grupos.

Financiamento chega antes da política de memória

Uma constatação recorrente entre os entrevistados desta reportagem é a baixa — ou, em alguns casos, nenhuma — presença de pessoas com deficiência dentro das próprias instituições de arte e cultura, sobretudo em posições capazes de mobilizar debates internos, influenciar decisões e formular políticas. A questão apareceu tanto em relação a museus e espaços culturais quanto às estruturas públicas responsáveis pelo financiamento do setor.

Thiago Rocha é secretário de Fomento e Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura e responde pela área responsável pela gestão do principal mecanismo federal de incentivo fiscal à cultura. Dados enviados posteriormente pelo MinC mostram que, dos 73 vínculos ativos na Secretaria de Fomento e Incentivo à Cultura, sete eram de servidores declarados como pessoas com deficiência, segundo a folha de setembro de 2026.

O artista e pesquisador Fábio Passos investiga a ausência histórica de registros sobre artistas com deficiência no Brasil. Foto: Acervo pessoal

A secretaria também concentra parte das políticas de fomento relacionadas à deficiência. Dados do Sistema de Apoio às Leis de Incentivo à Cultura apontam 110 projetos classificados como voltados à inclusão de pessoas com deficiência, à participação ativa nas atividades culturais e à acessibilidade plena atualmente em execução no país. Em 2025, 152 projetos com a mesma classificação foram aprovados para captação. O MinC ressalva que os números não abrangem todas as iniciativas com artistas ou responsáveis com deficiência, pois consideram apenas projetos enquadrados nessa categoria específica.

A própria Orquestra Brasileira de Cantores Cegos, citada nesta reportagem, teve projeto autorizado a captar até R$ 1 milhão pela Lei Rouanet. O caso mostra como o mecanismo pode alcançar iniciativas protagonizadas por pessoas com deficiência, mas não resolve a questão da preservação a longo prazo. “É possível financiar itens, como, por exemplo, um site, um aplicativo, onde você consiga subir e deixar público a memória, o registro das partituras, das apresentações, de todo material que foi construído”, cita o secretário. 

Ele também menciona discussões, ainda em debate com universidades, para a criação de um repositório de registros de iniciativas financiadas pela Lei Rouanet. Na resposta enviada à reportagem, porém, o MinC não apontou uma política específica para mapear e preservar de forma contínua obras, arquivos e trajetórias de artistas DEF.

Acervos impactam o reconhecimento

A ausência de estruturas consolidadas faz da continuidade dessas políticas outra preocupação entre os artistas. Edu O. considera o avanço de projetos políticos de extrema direita um risco para políticas culturais e para a maneira como pessoas com deficiência são reconhecidas pelo Estado. Em sua leitura, uma das ameaças está no retorno a uma abordagem centrada prioritariamente no cuidado e na assistência, em vez do reconhecimento dessas pessoas como sujeitos de direitos, criadores e produtores de conhecimento.

“Quando você vê os planos de governo da extrema direita, a gente está pensando apenas pelo viés do cuidado. Não pelo viés do direito. Então, nós não somos seres pensantes e criadores”. Ele cita uma lógica responsável por retirar autonomia e condição de sujeito das pessoas com deficiência. No campo artístico, associa esse risco a uma visão restrita à saúde, ao cuidado e à dependência.

Para Fábio Passos, a preocupação está na continuidade das estruturas culturais. Ele lembra a perda do status ministerial do Ministério da Cultura no início do governo Jair Bolsonaro, em 2019, e sua recriação em 2023, com o governo de Lula“A continuidade política interfere também na preservação, pois revisar acervos, documentar trajetórias e construir arquivos demanda tempo, financiamento e instituições capazes de sustentar esses processos”, lembra. “Os acervos não apenas preservam informações, mas também participam da definição de quem será reconhecido na história da arte, por isso, a importância”, emenda Anahi Guedes de Mello.

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