Por Augusto Paim, jornalista, escritor e tradutor.

Logo do evento

Sempre que se fala de uma organização coletiva, deve-se trocar o “eu“ pelo “nós“. Afinal, nada se faz sozinho.

O nós do I Encontro Internacional de Jornalismo em Quadrinhos (EIJQ), ocorrido nos dias 28, 29 e 30 de outubro de 2010, em Porto Alegre, somos: a equipe do Goethe-Institut Porto Alegre; a Feira do Livro, parceira do evento; e eu, Augusto Paim, curador e organizador. Aqui usarei eventualmente a primeira pessoa para fazer um balanço final do encontro.

História do evento

Eu recém voltara de um intercâmbio na Alemanha, quando, por volta de maio de 2009, cheguei no Goethe-Institut Porto Alegre com a ideia de organizar um evento sobre quadrinhos alemães, já que havia conhecido muita coisa dessa área por lá. Eu queria trabalhar algo mais na linha da não-ficção, já que sou jornalista e é a área que mais me interessa. A direção do instituto adorou a ideia já de saída, e foi a partir dessa confluência de interesses e entusiasmos que tudo começou.

Ainda em 2009, organizamos um evento menor, uma espécie de piloto, para ver como o público receberia. Trouxemos para cá o quadrinista alemão Reinhard Kleist, que fez a biografia de Johnny Cash. Como houve grande aceitação dos participantes, ficou claro que poderíamos, em 2010, dar início à nossa ideia principal, que era abordar especificamente Jornalismo em Quadrinhos, e fazer isso num evento fixo. O público presente em 2009 demonstrou muito interesse e curiosidade sobre o tema, de modo que ficou essa certeza de que o I EIJQ não apenas traria algo novo, mas também corresponderia a uma necessidade e a uma expectativa.

Conceito

O Jornalismo em Quadrinhos é um gênero relativamente novo e por isso precisa ser discutido, debatido e estudado, tanto em seu sentido de produção – as especificidades da linguagem – quanto de repercussão – em que medida adequa-se ou não ao jornalismo. É nesse contexto que o EIJQ ocupa um espaço a ser preenchido. Espaço, esse, inédito: até onde se tem notícia, não há evento semelhante ocorrendo em nenhum outro país. Há, sim, um festival de quadrinhos-verdade que ocorre na Itália, mas o tema é mais amplo e envolve outros gêneros da não-ficção, de modo que o Jornalismo em Quadrinhos não é o foco do evento. Na França, já houve uma exposição de reportagens em quadrinhos, mas o evento não contou com debates. Além desses dois, sabe-se apenas de alguns pequenos eventos isolados.

Combinando teoria e prática e apostando no intercâmbio entre culturas, o I EIJQ teve a dupla missão de apresentar esse tema novo a todos os interessados, sem uma definição específica de público – todas as pessoas são potenciais leitores do Jornalismo em Quadrinhos –, ao mesmo tempo que visou estimular a produção de novas reportagens em quadrinhos.

Some-se a isso a vontade de fugir da lógica do eventismo. Ou seja: queríamos um evento que não se encerrasse nele mesmo, mas que, ao contrário, gerasse debates e reflexões prévias e posteriores.

E, ao contrário do que poderia parecer, o I EIJQ não foi um evento pró-Jornalismo em Quadrinhos. Ao contrário, foi um evento crítico sobre o tema.

Parte da exposição no Instituto Goethe

Curadoria

A  programação de um evento é crucial para seu sucesso, pois é aí que se constroi sua identidade. Não é tarefa fácil. Primeiro, porque há uma série de questões que influenciam nas escolhas e que dificilmente são percebidas pelo público. O exemplo mais em vista é o orçamento disponível, responsável por definir o número máximo de convidados nacionais e internacionais. Em relação aos últimos, surge então o problema da tradução simultânea, mais complexo do que parece: afinal, os tradutores trabalham um número X de horas e, com isso, as atividades que exigem tradução simultânea devem ser distribuidas de modo que não subutilizem o tradutor nem o sobrecarreguem. No caso do EIJQ, havia ainda a questão de as atividadades do último dia serem em um local diferente, com uma estrutura diferente, e isso influenciou na distribuição das mesas.

Houveram outros obstáculos nesse trabalho de curadoria. Primeiro, o fato de não haver tantos “HQ-repórteres” atuando; é ainda uma área muito incipiente, apesar de bastante promissora. E nem todos os trabalhos que vejo surgirem na área me agradam. Eu não queria convidar qualquer pessoa só por ser HQ-repórter. Como a ideia era gerar discussão e fazer crescer o campo desse gênero jornalístico, amadurecê-lo, eu dei preferência ao tema das mesas em detrimento do fato de o debatedor fazer ou não Jornalismo em Quadrinhos. Para falar sobre informação na imagem, trouxemos o Spacca, que trabalha com quadrinhos históricos, e é realmente uma pessoa excelente para falar sobre esse assunto. E também tem o alemão Atak, que trabalha com quadrinhos de vanguarda – nada  a ver com não-ficção – e por isso mesmo pôde dar um contraponto bom para as discussões sobre os limites entre ficção e não-ficção.

Tem também o trabalho de preparação dos convidados. Em abril, encontrei o Aristides Dutra e o Felipe Muanis no Rio de Janeiro. A minha intenção era trocarmos algumas ideias para ter a certeza se eles seriam bons convidados para essa primeira edição. O convite acabou vindo a partir dessa empatia e desse comprometimento com a causa.

O trabalho de curadoria é, realmente, como montar um quebra-cabeça. E um quebra-cabeça que deve ser montado de modo a surgir, no fim, uma imagem coesa. Ou seja: apesar de todos esses elementos que interferem nas decisões práticas, no final a programação do EIJQ precisava mostrar um panorama claro e coerente sobre o que é o Jornalismo em Quadrinhos e os pontos necessários de serem discutidos em um debate que dá seus primeiros passos. Trata-se de uma área curiosa: apesar de já existir há pelo menos 20 anos, o Jornalismo em Quadrinhos ainda é um campo desconhecido até mesmo de jornalistas e quadrinistas. Então a programação deste ano teve um fim mais autoexplicativo, didático até, para explicar às pessoas do que se trata.

Divulgação

Divulgar o EIJQ foi um outro desafio, em função das particularidades do tema. Um objetivo inicial da programação desse evento era apresentar a um público maior – que abarca inclusive pessoas que não pretendiam ir ao evento – esse tema novo, primeiro mostrando que existe algo chamado Jornalismo em Quadrinhos e, depois, dando uma mínima ideia do que seja isso. Por isso o cartaz do evento também precisava ser didático e despertar a curiosidade ao mesmo tempo, sem apelar para os clichês dos quadrinhos. Acredito que fomos muito felizes com nossa ideia, ao criar um estranhamento a partir da ligação dos quadrinhos com elementos clássicos do jornalismo. 

Augusto Paim, Spacca, Aristides Dutra e Felipe Muanis

 Como o evento tinha um caráter nacional, a divulgação foi ampla. Saíram matérias em diversos sites e blogues, além de em jornais na Paraíba e no Mato Grosso, dentre outros. O Jornal do Brasil e a Folha de São Paulo também publicaram matérias sobre o evento em suas versões online.

A divulgação regional foi ainda maior. O jornal Zero Hora deu duas páginas no caderno de cultura. No Correio do Povo, saiu uma nota. No Jornal do Comércio, foi a capa inteira do suplemento. Houveram ainda entrevistas para rádios universitárias e participações nos programas de televisão Camarote (TVCom) e Radar (TVERS). E os cartazes foram espalhados na capital em diversos centros culturais, livrarias e faculdades de jornalismo, letras e áreas afins. Com certeza, o público-alvo ficou sabendo do evento.

Público

Para que a divulgação nacional fosse possível, precisou-se de uma estrutura em que o evento fosse acompanhado a distância. Por causa disso, as mesas dos dois primeiros dias foram transmitidas via web e também via twitter. Houveram algumas falhas na transmissão via webcam mas, em se tratando de uma primeira experiência, valeu pelo registro do conteúdo (que, aliás, pode ser baixado aqui).

Uma parcela do público estava presente em outros estados, acompanhando via web. Houve, porém, casos de pessoas que se deslocaram até Porto Alegre em função do evento. Apesar de o público presencial ser menor do que o previsto, havia lá gente de São Paulo e Mato Grosso, além de outras cidades gaúchas.

O evento ofereceu diferentes níveis de participação. Como dito, era possível acompanhar algumas mesas via internet. Quem pudesse ir a Porto Alegre, teria acesso a uma série de outras atividades exclusivas, como as mesas do último dia (que não foram transmitidas) e as duas exposições: O Jornalismo em Quadrinhos pelo mundo, com sete reportagens de diferentes países, e a Comics, Manga & Co., de quadrinhos alemães contemporâneos. Todas essas atividades eram gratuitas e abertas ao público. Quem quisesse se envolver ainda mais com o evento, havia ainda outras duas oficinas com inscrições pagas.

Como o EIJQ procurou fugir da lógica do eventismo – o evento pelo evento –, pode-se dizer que os resultados serão aferidos a médio e longo prazos – e essa era mesmo a expectativa inicial da organização. O público, apesar de pequeno, mostrou-se bastante interessado, e todos os que compareceram tornaram-se assim difusores do debate. São eles que farão as discussões de Porto Alebre reverberarem. São eles que farão I EIJQ continuar acontecendo mesmo depois de findo.

Felipe Muanis e os alemães Atak e Jens Harder

 Houve também uma outra rede criada envolvendo as relações entre os convidados. Nos bastidores, começaram a surgir ideias sobre exposições de quadrinhos Brasil-Alemanha, contatos para trabalhos conjuntos e a possibilidade de publicar autores alemães no Brasil, assim como de divulgar o quadrinho brasileiro lá fora. Essas são garantias de que o evento não tem um fim nele mesmo, mas, ao contrário, tem tudo para ser apenas o ponto central de um processo e o catalisador de todo um esforço que já existe no estudo e na prática de Jornalismo em Quadrinhos.

Em verdade, há uma rede internacional sobre esse tema. Vale marcar o vídeo exibido no último dia do evento, uma entrevista com o jornalista Carlo Gubitosa, que publica na Itália a revista de Jornalismo Gráfico Mamma. Gubitosa mandou cumprimentos para Porto Alegre e anunciou ao público do EIJQ que haverá um encontro de Jornalismo Gráfico na Itália no início de 2011. Nas palavras dele, “o EIJQ e o nosso evento crescem como irmãos“. O vídeo está disponível no blog Cabruuum.

2ª  edição?

Não é exagero dizer que Porto Alegre, com o EIJQ, entra gradativamente no mapa internacional de Jornalismo em Quadrinhos. Já na primeira edição, havia especialistas da França, Alemanha, Itália, Argentina e Estados Unidos acompanhando a distância nosso trabalho. Se houverem apoiadores para se unirem ao Goethe-Institut Porto Alegre e à Feira do Livro nos esforços para bancar uma segunda edição, o evento tem muito a crescer e deve, inclusive, internacionalizar-se cada vez mais.

Como já foi dito, é um evento pioneiro, numa área pioneira, o que exigiu trabalhos específicos nessa primeira edição. Em futuras edições, talvez o EIJQ venha a tornar-se mais específico, trabalhando temas como pauta, apuração, edição e roteiro. Talvez até seja voltado cada vez mais para jornalistas e quadrinistas.

Acredito que, no futuro, haverá um maior reconhecimento da importância desse primeiro encontro, ocorrido aqui em Porto Alegre, em outubro de 2010. De qualquer forma, a nossa capital já está na memória do Jornalismo em Quadrinhos mundial.

Comentários

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Um comentário sobre “Os bastidores de um evento que não acabou

  1. o http://www.mandalagibi.blogspot.com tem um balanço do que flagrei do evento, que está super de parabéns, mas agora que li o balanço aqui, também notável, como o logo-cartaz, o elenco de convidados, a preparação de pauta e a repercussão nos próprios veículos jornalísticos (dado este de bastante ineditismo, e até pela disposição em aprofundar as temáticas). Foi ótimo papear com tigo e o Carlos, lá no centro cultural Érico Veríssimo, da C.E.E., e eu precisava retomar o assunto de balanço editorial que entabulávamos pelo viés da proposição que nos adiantas de uma HQ alemã já “estourada”, badaladíssima pela Europa, para uma editora inteligente que se dispusesse (que me pareceria um caso menos surpreendente de “ineditismo”, na minha opinião bem mais leiga do que gostaria, mas respeitada, por exemplo, pelo “Lobo Barba Negra” do RJ). O que sei é de gente que vive e vai viver de traduções, que estamos até contatando (uma amiga, empresária no ramo de T.I., de São Paulo, e eu, que também traduzo sim), mas a partir da idéia de fazer concretamente propostas às editoras, de modo a impulsionar a qualificação dos trabalhos para todos. Tu és um exemplo vivo desta idéia enquanto tal, que oxalá passe logo a outras conversas e se possa concretizar! De cá temos balanços para atualizar e um portal de tradução ou site da própria empresa (que já existe, estou dizendo!) para fazer (quando sair a página, te aviso. Qualquer coisa, estou na região, é só contatar, né?).

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