Fotos: Estúdio By Paz

Vamos começar pelo óbvio: Ringo Starr NÃO é Paul McCartney. Posto isto, não era preciso ser nenhum gênio para prever que a apresentação do eterno baterista dos Beatles passaria longe do que seu companheiro de banda mostrou aos gaúchos quase um ano antes. O show de Ringo no dia 10 de novembro, em Porto Alegre, foi uma sucessão de altos e baixos, contornada (em parte) graças ao carisma do músico.

Eterno baterista dos Beatles mostrou carisma em seu primeiro show no Brasil

Com duas baterias no palco (a de Ringo e a de Gregg Bissonette, que faz parte de sua All Starr Band), foi um pouco estranho ver a Dingo Bells abrir a noite com o batera Rodrigo Fischmann à frente, tocando apenas um pandeiro. Exigência da produção? De qualquer forma, o trio gaúcho fez uma bela apresentação e teve uma receptividade acima da média para uma banda de abertura.

Com uma estrela enorme pendurada e algumas flores pintadas (bem bregas, por sinal) ao fundo, o palco do Gigantinho recebeu a All Starr Band por volta das 21h05min. De barba, brinco e óculos escuros (visual que vem adotando há uns bons anos), Ringo começou seu primeiro show em terras brasileiras com um sucesso de sua carreira solo, “It Don’t Come Easy”. Dançando de forma engraçada ou fazendo o sinal de paz e amor inúmeras vezes, ele mostrou o porquê de, a despeito de ficar à sombra de McCartney e John Lennon (e, musicalmente, também de George Harrison), é o favorito de muitos beatlemaníacos. Ringo esbanja simpatia, a ponto de fazer a gente pensar se ele não gostaria de tomar uma cerveja e jogar sinuca após o show.

Após “Honey Don’t” (de Carl Perkins, mas cantada pelo batera em Beatles for Sale), ele finalmente pegou nas baquetas em “Choose Love”. Muitos aplausos do público, claro.

A partir daí, Ringo dividiria a atenção com os outros integrantes da All Starr Band. Ok, é tudo muito bonito e democrático, e ele faz isso desde 1989, mas a mistureba que sai desse conceito (“cada membro é uma estrela no palco”) nem sempre é fácil de engolir. Quando o guitarrista Rick Derringer canta “Hang On Sloopy”, sucesso de sua ex-banda, The McCoys, de 1965, a coisa funciona a contento. “Free Ride”, cantada pelo saxofonista/tecladista Edgar Winter – uma espécie de Ray Coniff cabeludo –, também agita a plateia, mas logo vem uma ducha de água fria: “Taking in Your Sleep”, cantada por Wally Palmar, vocalista e guitarrista dos Romantics, é a primeira de uma série de composições fracas e extremamente comerciais. Um momento indicado apenas para ouvintes de rádios de easy listening, soft rock e trilhas de novela dos anos 80.

Ringo tocou bateria em quase todas as músicas, mas empolgou mesmo nas de sua carreira solo e, claro, nos clássicos dos Beatles

O alívio vem quando Ringo manda “I Wanna Be Your Man”, mais uma clássica dos Beatles (embora os Stones tenham se apropriado dela com absoluta competência). Infelizmente, a alegria durou pouco: o tecladista Gary Wright, com “Dream Weaver”, e o baixista Richard Page, com “Kyrie”, hit do Mr. Mister, retornaram aos microfones para “amornar” o show.

Sem fugir do script, Ringo voltou a ficar sob os holofotes com a nova, porém nostálgica “The Other Side of Liverpool”, e o grande momento da noite até então: “Yellow Submarine”. Foi a primeira vez que o público – que não lotou o ginásio – cantou junto o tempo todo.

Como de praxe durante o show, após um bom momento, outro nem tanto. “Frankenstein”, de Edgar Winter, serviu para que o ex-Beatle descansasse um pouco e para mostrar o virtuosismo da All Starr Band. Quase todos os músicos solaram, o que tornou a faixa instrumental um pouco cansativa.

A atração principal voltou para apenas uma faixa (“Back Off Boogaloo”) antes de mais músicas que pouco interessavam à maioria da plateia, como “What I Like about You”, de Palmar, e “Rock and Roll Hochie Koo”, de Derringer. É interessante notar que nas músicas dos parceiros Ringo jamais toca sem a companhia de Bissonette, o que demonstra preocupação em encobrir alguma possível falha. E, convenhamos, por mais beatlemaníaco que se possa ser, dizer que Ringo é um grande baterista é fanatismo cego.

Momentos solo da All Starr Band acabaram esfriando um pouco a apresentação

O revezamento se repetiu com “Boys”, faixa do primeiro disco dos Beatles, Please Please Me, seguida pelas (felizmente) últimas músicas dos demais membros da All Starr Band. “Love Is Alive”, de Wright, e, principalmente, a chorosa “Broken Wings” – outro sucesso radiofônico do Mr. Mister –, são recebidas com um misto de apatia e incredulidade pelos fãs.

Felizmente, o encerramento foi digno da história de Ringo Starr. Primeiro rolou “Photograph”, seu maior sucesso solo; depois, “Act Naturally”, um country empolgante gravado em Help!

O grand finale não poderia ser outro: “With a Litlle Help from my Friends”, uma das melhores faixas de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, fez muita gente se emocionar. Ainda deu tempo para um trecho de “Give Peace a Chance”, de Lennon, que pareceu meio deslocado pelo fato de Ringo ter deixado o palco antes de seus companheiros.

Não importa qual é o show; sempre falta esta ou aquela música. Mas no caso de Ringo Starr, um cara que praticamente não compõe e que cantou pouquíssimas canções com os Beatles, uma “Octopus’s Garden” viria bem a calhar no setlist, assim como a hilária “No No Song”, um de seus raros sucessos solo.

A ideia de democracia da All Starr Band esbarra na escolha de músicos competentes tecnicamente, mas marcados por velhos hits de FM que ficaram datados, e de pouca ou nenhuma afinidade com o som dos Fab Four. Mesmo assim, como ver um Beatle ao vivo é sempre uma oportunidade inesquecível, dificilmente alguém saiu do Gigantinho decepcionado.

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4 comentários em “A “montanha-russa” de Ringo Starr”

  1. É muito bom ler textos desta qualidade. O profissional de hoje já tinha esta visão ampla de tudo desde a faculdade. Tu melhorastes como o universo que se revela em teus olhos e que te permite viajar no mundo das letras. Fico feliz por teu sucesso e por ter dado os primeiros passos do jornalismo com um jornalista que é o cara em tudo que faz.

  2. Beleza Sanes!! Cara, como sempre muito preciso teu texto. Só pra clarificar aqui e espalhar o boa compreensão das idéias pelo mundo (rsrs) , sim, foi uma exigência de técnica da produção que utilizássemos somente percussões “de mão”. E só porque minha tradição familiar me obriga a fazer esta correção, na verdade é Rodrigo Fischmann e não brochmann. Um grande abraço e keep on rockin’!

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