O Nonada segue a sua cobertura do Oscar 2012 com o filme Histórias Cruzadas.  Acompanhe-nos para ficar por dentro dos filmes que têm (ou não) chance de levar alguma estatueta para casa.

Por Gustavo Dutra*

Ao longo dessa temporada de premiações, muito tem se comentado sobre o suposto racismo presente na narrativa de Histórias Cruzadas, ressaltando o fato de que a vida das empregadas negras passa a melhorar a partir da boa vontade de suas patroas brancas. Independente dessa polêmica (o filme não tem intenção discriminatória, mas também não se ajuda), pode-se ignorar que se trata de uma obra sempre óbvia, tola e absurdamente maniqueísta? A resposta, infelizmente, é um assertivo “não”: Histórias Cruzadas é um dos concorrentes mais aborrecidos em uma edição do Oscar particularmente cheia destes.

Adaptado pelo diretor Tate Taylor a partir de um romance de Kathryn Stockett, Histórias Cruzadas se passa no início dos anos 60 e traz a história de Eugenia “Skeeter” Phelan (Emma Stone), que volta a sua cidade natal após se formar em jornalismo e percebe pela primeira vez os constantes abusos infligidos às empregadas negras. Aspirando tornar-se escritora, ela sugere a uma editora em Nova York um livro com relatos das mulheres constantemente humilhadas por suas patroas cujos filhos criam. No processo, Skeeter recebe a ajuda de Aibileen (Viola Davis) e Minny (Octavia Spencer), domésticas fartas dos absurdos que sofrem e testemunham.

Viola Davis rouba a atenção como Aibileen (Crédito: Divulgação)

Um dos poucos pontos positivos de Histórias Cruzadas reside em seu cuidado com a recriação de época, que não se limita a cenografia e aos figurinos irrepreensíveis, mas também no racismo apoiado pelas leis do Mississippi da época: assim, é comum ver lojas com entradas exclusivas para negros, patrões tratando suas empregadas sem qualquer sinal de polidez e policiais abordando suspeitos com violência excessiva apenas em função de sua cor. Nesse sentido, o filme é tristemente realista no retrato de uma sociedade que considera os negros imundos a ponto de lhes reservar banheiros próprios. Contribuindo para esse painel de época, está a performance impecável de Viola Davis – a única do filme digna de ser premiada: cheia de pausas e inspirações súbitas, Aibileen mostra-se desconfortável em sua própria casa ao receber pela primeira vez uma convidada branca, torcendo as mãos e ocupando o braço da poltrona, já que foi condicionada a vida inteira a encarar a discriminação como natural. Emma Stone, por sua vez, empresta seu carisma habitual à independente Skeeter, ainda que seja eclipsada ao contracenar com Davis.

No entanto, nem mesmo Davis e Stone conseguem salvar o dramalhão que as cerca, tamanha a quantidade de cenas destinadas exclusivamente a arrancar lágrimas do espectador. Uma criança chorosa que comprime o rosto contra uma janela ao ver alguém partindo e um típico momento “eu sou Spartacus!” não são suficientes? Para o diretor-roteirista, aparentemente não: como superar o ridículo de cenas como aquela em que Minny encontra coragem para enfrentar o marido violento apenas porque sua patroa lhe preparou uma refeição? E outra pior ainda em que a mãe de Skeeter demite a empregada que trabalhou em sua casa por mais de 30 anos por pressão de quase desconhecidas da alta sociedade? E como a mãe de Skeeter muda de “case, case, case!” para “seja feliz” de repente?

Para piorar, o resto do elenco limita-se a dar vida a caricaturas: Bryce Dallas Howard é a perfeita vilã novelesca, já que é má por ser má. Octavia Spencer transforma Minny em um alívio cômico com suas explosões de raiva e olhos arregalados (e a violência que sofre do marido só é citada de passagem pelo roteiro, o que é vergonhoso) e Jessica Chastein vive o exato oposto de Howard, sendo a figura menos interessante em cena. As indicações de Spencer e Chastein ao Oscar, diga-se de passagem, só podem ser explicadas pelo desespero da Academia em soar liberal, mesmo que isso implique em apoiar atuações dignas de uma novela da Globo (e, ao que tudo indica, será triste ver Bérénice Bejo perder a estatueta por seu belo trabalho em O Artista em favor da caricata Spencer).

No fim das contas, o grande problema de Histórias Cruzadas não é o fato da caucasiana Skeeter tomar a iniciativa naquela cidade: o que realmente pesa contra o filme é dedicar tanta atenção às fúteis e mimadas personagens brancas, mesmo depois das “mudanças” provocadas pelo tal livro – além, claro, de simplificar demais uma questão séria como o racismo, limitando-se a pregar o evidente: é ruim.

* Estudante de jornalismo da UFRGS, autor do blog http://saladeprojecao.wordpress.com/

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