Laura Galli

Fotos: Leo Zanini

A situação da Cinemateca Brasileira, que já era frágil, ganhou maiores proporções desde o dia 29 de julho, após o incêndio de um galpão na Vila Leopoldina, em São Paulo, onde ficava parte do acervo. Há mais de um ano sem gestão na instituição, o incêndio vem sendo classificado por profissionais do setor como tragédia anunciada. No último sábado, dia 07, manifestantes se reuniram em cinco cidades do Brasil para protestar contra o descaso do governo federal em relação à Cinemateca Brasileira. Além de São Paulo, onde fica a Cinemateca, apoiadores também se reuniram no Rio de Janeiro, em Curitiba, em Brasília e em Porto Alegre, onde o ato ocorreu em frente à Cinemateca Capitólio, no centro da cidade.

Em Porto Alegre, o ato foi convocado pela Associação de Amigos da Cinemateca Capitólio – AAMICA e pela Associação Profissional de Técnicos Cinematográficos – APTC e reuniu dezenas de pessoas entre artistas, profissionais da cultura e militantes com faixas, cartazes e gritos em defesa da preservação da memória audiovisual e da cultura.  A manifestação se estendeu pela tarde de sábado e assim como nas outras cidades, teve leitura pública da carta em defesa da Cinemateca Brasileira, que pode ser vista na íntegra abaixo, além de falas de representantes das entidades responsáveis pela organização do ato e performances artísticas.

Em articulação com as manifestações pelo país, o ato denunciou o projeto de desmonte da Cinemateca Brasileira e da cultura por parte do governo federal. A importância de preservar acervos audiovisuais encontrou eco na conjuntura local de Porto Alegre, em que a Cinemateca Capitólio enfrentou em 2019 uma tentativa de mudança da gestão pública para uma espécie de terceirização, chamada de contratualização, semelhante ao que ocorreu na Cinemateca Brasileira. 

Contudo, especialistas da área reforçam a importância de uma estabilidade do corpo operacional dessas instituições para garantir a manutenção do patrimônio, que deve ser uma política de estado, não de governo. Assim como a Cinemateca Brasileira, a Capitólio também necessita de profissionais especializados e com estabilidade suficiente para manter o acervo, além de investimento em equipamentos adequados para a preservação de rolos de filmes, VHS, DVDs e documentos em papel.

O incêndio e a situação da Cinemateca Brasileira

Ato na Cinemateca Capitólio, em Porto Alegre. Foto: Leo ZaniniHá um ano, a gestão da Cinemateca Brasileira está sob responsabilidade do governo federal, após o contrato rompido com a Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto, que desde 2018 administrava a Cinemateca. Os servidores concursados já haviam sido dispensados e os funcionários terceirizados foram demitidos. Desde então, o governo Bolsonaro não contratou novos servidores, não realizou concurso público e tampouco assinou convênio com uma possível entidade gestora da Cinemateca.

A situação do acervo já era delicada, e sem o investimento adequado e sem profissionais técnicos para assumir os cuidados, uma tragédia como o incêndio que ocorreu era uma questão de tempo, conforme foi alertado inúmeras vezes pela comunidade artística e por ex-funcionários da instituição. O governo federal manteve funcionando apenas serviços de manutenção, como segurança e limpeza, sem funcionários especializados na administração do acervo que requer cuidados especiais. Conforme o pesquisador e crítico de cinema Marcus Mello, integrante da equipe da Cinemateca Capitólio, “estamos diante de um crime contra o patrimônio público, cometido justamente por quem tem a obrigação constitucional de defendê-lo.”   

Entre as perdas do incêndio do galpão da Vila Leopoldina, estão documentos de órgãos públicos federais de audiovisual como Embrafilme, Instituto Nacional de Cinema e Conselho Nacional de Cinema, filmes da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, parte do acervo da distribuidora Pandora Filmes, documentos do arquivo Tempo Glauber, que reúne diários, anotações pessoais e cartazes originais do cineasta Glauber Rocha, cópias de filmes brasileiros e estrangeiros em 35 mm, matrizes e cópias de cinejornais únicos, trailers, filmes domésticos e filmes publicitários. Um dos maiores arquivos audiovisuais da América Latina, que reunia 100 anos de cinema no Brasil, um patrimônio que conta nossa história, perdido de forma irrecuperável.

Leia abaixo a carta em defesa da Cinemateca Brasileira:

Ato na Cinemateca Capitólio, em Porto Alegre. Foto: Leo ZaniniNeste sábado, 7 de agosto de 2021, completou-se um ano desde que o Governo Federal tomou as chaves da Cinemateca Brasileira, deixando a principal instituição de salvaguarda do patrimônio audiovisual do país sob imenso risco.

A Cinemateca Brasileira, uma das mais importantes instituições de memória da América Latina, com quase 250 mil rolos de filmes, obras audiovisuais nos mais diversos suportes e formatos, um milhão de documentos e um valioso parque tecnológico, agoniza ante a negligência e omissão do Governo Federal. Até hoje não foi posto em prática um plano de trabalho emergencial para contratação de corpo técnico especializado para zelar pelo patrimônio público e o acervo sob sua guarda, ocasionando a interrupção de diversos serviços essenciais ao setor e ao público em geral, como o depósito legal, a pesquisa e a difusão do audiovisual brasileiro em suas salas de exibição.

Conforme denunciado reiteradas vezes pelas entidades, coletivos e diversos setores do audiovisual, sem trabalhadores e monitoramento contínuo, a iminência de uma tragédia era real. Justamente o que aconteceu no último dia 29 de julho, quando a unidade da Vila Leopoldina foi parcialmente consumida por um incêndio, com a possível perda de 4 toneladas de documentos históricos de órgãos extintos do cinema (como o Instituto Nacional do Cinema, o Concine, a Embrafilme e outros), equipamentos cinematográficos, bem como cópias de filmes e cinejornais potencialmente únicos. Parte de nossa memória foi destruída pelas chamas.

Em fevereiro de 2020, essa mesma unidade já havia sofrido uma enchente que danificou parcialmente seu acervo. Somado a isso, a demissão de todos os funcionários em agosto de 2020 sem o pagamento de salários atrasados e rescisões indicava o caminho que a instituição estava tomando.

Evitemos uma nova tragédia! Cabe ao Governo Federal correr contra o relógio para garantir a imediata contratação da equipe técnica especializada. O chamamento para a seleção de uma nova organização social, lançado um dia após o incêndio, não atende os requisitos para a administração de um órgão com essa dimensão e complexidade e precisa ser repensado urgentemente. Não podemos permitir que seja perdida, para sempre, nossa memória audiovisual, a exemplo do que restou do cinema silencioso brasileiro, dos filmes da Atlântida, da Vera Cruz e do Cinema Novo, das partidas de futebol do Canal 100 e dos programas da TV Tupi, além de muitas outras preciosidades.

Como entidades representativas do setor audiovisual brasileiro persistimos, resistiremos e lutaremos: o patrimônio audiovisual brasileiro é de todos nós!

+ MULHERES LIDERANÇAS DO AUDIOVISUAL BRASILEIRO
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE CINEMA DE ANIMAÇÃO – ABCA
ABCV – ASSOCIAÇÃO BRASILIENSE DE CINEMA E VÍDEO (ABD-DF)
ABD-SP – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE DOCUMENTARISTAS E CURTA-METRAGISTAS DE SÃO PAULO
ABD-APECI ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE DOCUMENTARISTAS E CURTA-METRAGISTAS DE PERNAMBUCO /
ASSOCIAÇÃO PERNAMBUCANA DE CINEASTAS
ABD-ES ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE DOCUMENTARISTAS E CURTA-METRAGISTAS DO ESPÍRITO SANTO ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PRESERVAÇÃO AUDIOVISUAL – ABPA
ABRACI/RJ – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE CINEASTAS DO RIO DE JANEIRO
ACADEMIA BRASILEIRA DE CINEMA E ARTES AUDIOVISUAIS
AMC – ASSOCIAÇÃO DOS MONTADORES DE CINEMA
API – ASSOCIAÇÃO DAS PRODUTORAS INDEPENDENTES DO AUDIOVISUAL BRASILEIRO
APTC-RS ASSOCIAÇÃO PROFISSIONAL DE TÉCNICOS CINEMATOGRÁFICOS DO RIO GRANDE DO SUL
APTR – ASSOCIAÇÃO DOS PRODUTORES DO RIO DE JANEIRO
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE GESTÃO CULTURAL
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE AUTORES ROTEIRISTAS
ASSOCIAÇÃO CULTURAL CINEMATECA CATARINENSE – ABD/SC
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE CINEMATOGRAFIA (ABC)
ASSOCIAÇÃO DE PROFISSIONAIS DO AUDIOVISUAL NEGRO – APAN
ANDAI – ASSOCIAÇÃO NACIONAL DAS DISTRIBUIDORAS AUDIOVISUAIS INDEPENDENTES
APROCINE – ASSOCIAÇÃO DAS PRODUTORAS DE CINEMA E AUDIOVISUAL DE BRASÍLIA
ASSOCIAÇÃO DE TRABALHADORES DO CINEMA INDEPENDENTE DE MINAS GERAIS
ASSOCIAÇÃO DE VÍDEO E CINEMA DO PARANÁ – AVEC-PR
ASSOCIAÇÃO TOCANTINENSE DE CINEMA E VIDEO
BRAVI – BRASIL AUDIOVISUAL INDEPENDENTE
CÂMARA SETORIAL DE AUDIOVISUAL DO CONSELHO MUNICIPAL DE POLÍTICA CULTURAL DE POÇOS DE CALDAS
CAS – COLETIVO DE ARTISTAS SOCIALISTAS
COLEGIADO SETORIAL DO AUDIOVISUAL DO RIO GRANDE DO SUL
COLETIVO FILMARIO
CONNE – CONEXÃO AUDIOVISUAL CENTRO OESTE, NORTE E NORDESTE
DBCA DIRETORES BRASILEIROS DE CINEMA E DO AUDIOVISUAL
elaSCine – MULHERES DO AUDIOVISUAL CATARINENSE
FAMES – FÓRUM AUDIOVISUAL DE MINAS GERAIS, ESPÍRITO SANTO E DOS ESTADOS DO SUL DO BRASIL
FEDERAÇÃO DE ESCOLAS BRASILEIRAS DE ARTES CÊNICAS
FÓRUM BRASILEIRO DE ENSINO DE CINEMA E AUDIOVISUAL
FÓRUM DOS FESTIVAIS DE CINEMA
FÓRUM SETORIAL AUDIOVISUAL FLORIANÓPOLIS
FRENTE AMPLA EM DEFESA DA CULTURA SP
FRENTE DOS PRODUTORES DO AUDIOVISUAL
MULHERES DO AUDIOVISUAL BRASIL
REDE DE ECONOMIA CRIATIVA BRASIL
REDE DE PRODUTORES CULTURAIS DA FOTOGRAFIA NO BRASIL – ROCFB
SANTACINE – SINDICATO DA INDÚSTRIA AUDIOVISUAL DE SANTA CATARINA
SICAV – SINDICATO INTERESTADUAL DA INDÚSTRIA AUDIOVISUAL
SINDAV MG – SINDICATO DA INDÚSTRIA AUDIOVISUAL DE MINAS GERAIS
SINDCINE – SIND TRAB IND CINEM. AUDIOVISUAL SP/RGS/MT/ MTS/TO/GO/DF
SINDICATO DA INDÚSTRIA AUDIOVISUAL DO RIO GRANDE DO SUL
SINDICATO DA INDÚSTRIA CINEMATOGRÁFICA DO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO
SINDICATOS DOS ARTISTAS E TÉCNICOS DO ESTADO DE SANTA CATARINA
SINDICATO DOS ARTISTAS E TÉCNICOS EM ESPETÁCULOS DE DIVERSÕES DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
SINDICATO DE ARTISTAS E TÉCNICA EM ESPETÁCULOS DE DIVERSÕES DO ESTADO DO PARANÁ
SINTRACINE – SINDICATO DOS TRABALHADORES DA INDUSTRIA AUDIOVISUAL E DO CINEMA
SOCIEDADE BRASILEIRA DE ESTUDOS DE CINEMA E AUDIOVISUAL