As iniciativas mais inovadoras causam, naturalmente, mais estranheza ao público. É o caso de uma apresentação circense citada por um leitor do Nonada. (Crédito: Reprodução)

Já que várias pessoas vieram conversar comigo sobre isso (ok, não foram tantas assim), vou continuar o assunto já iniciado na primeira coluna. A tentativa, ali, foi justamente iniciar um debate sobre as possibilidades de entretenimento gratuito ou a preço justo. Sobre isso, Renato Paredes levantou dois pontos bem interessantes: “a teoria mais difundida é a de que ‘não existe divulgação suficiente’. Eu acho uma baboseira. O fato desses eventos serem baratos e mesmo assim não conseguirem público são ao meu ver uma prova de que as pessoas não estão se interessando pelo conteúdo exibido”, escreve ele. Concordo, em parte.

Eu explico: não culpo totalmente a imprensa, apesar de avaliar bem criticamente o seu papel.  Esse tipo de evento deveria sim ser mais bem divulgado, como são aqueles que dão retorno financeiro aos donos dos jornais devido, principalmente, aos anúncios. Mesmo assim, quem quer consegue o acesso à informação. Depende muito mais do consumidor, é verdade. Descobrir esses eventos não é barbadinha, mas também não é tão difícil assim. A internet – sempre ela – pode ser uma grande fonte de informações. Em vez de ficar olhando no Facebook as fotos dos seus amigos e seus gatinhos bonitos, assine feeds que ofereçam atividades diferentes de vez em quando. Siga no Twitter as pessoas que realmente podem levá-lo a algum lugar, dar alguma dica de filme ou teatro alternativos e, portanto, mais baratos.

Quanto ao segundo item questionado por Paredes, levanto uma ressalva: quais pessoas não estão se interessando? É a demanda do público que determina o que deve ser exibido? Não é justamente essa a crítica aos meios de comunicação de massa, que apostam sempre no que o público já está acostumado a assistir, sob o argumento de que a audiência é quem manda na programação? Posso ser suspeita para falar – afinal sempre me interesso pelos programas que vão contra a maioria, que fazem pensar, que instigam o espectador a agir e mudar o que está errado -, mas acredito que as duas vertentes merecem espaço. Não só de novela deve viver o brasileiro, nem de assistir incessantemente às obras de Shakespeare. O cérebro humano preciso de um tempo de descanso para conseguir processar todas as informações adquiridas. Tempo que pode ser durante uma peça de humor pastelão, por exemplo. Por que não?

Por outro lado, as iniciativas mais inovadoras, que causam, naturalmente, mais estranheza ao público – e por isso menos aceitação – também devem existir. O leitor relata o caso de uma apresentação circense em que o público saiu visivelmente insatisfeito no final – e até mesmo no meio – do espetáculo. Acredito que tenham acontecido diversos erros na comunicação entre público e artista. Em primeiro lugar, os artistas não conheciam o público, que esperava uma forma mais tradicional de circo. Em segundo lugar, quem foi assistir à peça precisava estar informado sobre o que se tratava, ou ter ido com o espírito mais aberto a experimentações. Afinal, me parece que era para isso que eles estavam lá. Deveriam ter-se despido dos preconceitos e encarado a exibição como de fato ela era: uma nova percepção da realidade. Não estou dizendo que todos precisem estar abertos, mas sim que o público precisa saber o que esperar da representação, mesmo que isso signifique não esperar nada.

Nisso tudo, o que percebo que o problema não está nas opções de atividades. Elas existem, estão em toda a parte. A dificuldade reside em dois fatores: a forma pela qual as alternativas chegam ao público nem sempre é a mais adequeda e, em contrapartida, os espectadores em potencial podem não estar tão preparados assim para receber um conteúdo diferente dos moldes tradicionais e consagrados.

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