Texto e entrevista Suelem Freitas 

O Amargo Santo da Purificação (2008) - Cláudio Etges 22
(foto: Cláudio Etges/ Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz)

É muito barulho: o grito do vendedor, a buzina do ônibus, o ruído da obra. É muita pressa: o transeunte que passa, o carro que corre, a informação que circula. De repente algo irrompe do cotidiano, fragmenta-o com um jogo cênico de experimentações. Um devir revolucionário para desnaturalizar os padrões, subverter os códigos e desmistificar a ordem. Popular e democrático, além de provocador, é o teatro de rua do Ói Nóis Aqui Traveiz.

O grupo, que já tem 37 anos de atuação, começa sua trajetória em meados da ditadura militar, com seu primeiro espetáculo apresentado em 1978. Apesar da opressão, era um momento de ebulição cultural, movimentos populares e estudantis incorporavam as manifestações de rua em busca de liberdade política. O Ói Nóis Aqui Traveiz surge com a proposta de fazer um teatro político e social através da ação direta ou como os integrantes chamavam: o teatro de combate. O fundador do grupo, Paulo Flores, recebeu-nos para esta entrevista no espaço Terreira da Tribo, o lugar onde acontecem os ensaios e oficinas organizadas pelo grupo.

Quando o grupo decidiu fazer teatro de rua?

Desde a origem o grupo já traz uma ideia do uso de novos espaços para o teatro, então é claro que a rua surge como uma preocupação do grupo. O grupo tenta apresentar o trabalho “O Rei já era Parara Timbum”, em 1979, já voltado para esses espaços abertos. Foi em um campus universitário, mas a peça teve vários problemas por causa da repressão que ainda estava muito presente.

A partir daí, junto aos movimentos populares, o grupo vai criar suas primeiras intervenções cênicas, que eram esquetes teatrais que abriam manifestações, passeatas, mas ainda é um momento repressivo. O grupo vai para as ruas com movimentos populares, a gente queria levar à população questões que não eram discutidas na grande imprensa, como a questão ecológica, usinas nucleares, poluição dos rios. Como o momento ainda era repressivo o grupo sofreu muita violência policial, prisão de atores, interferência direta no momento da encenação, quebra de material cênico. Isso não deixava o teatro ser uma prática mais forte nas ruas de Porto Alegre. Consequentemente essas apresentações se davam apenas de maneira esporádica.

Conforme a abertura política avança, vai ficando possível se apresentar sem essa repressão policial, e as intervenções cênicas podiam ser repetidas em diversos dias. A primeira apresentação que realmente se concretizou chama-se “Teon”. Fala do povo originário da América e da chegada do europeu aqui.

Hoje existem diversos festivais de teatro de rua ou que o englobam. Como aconteceu essa tomada do teatro nas ruas hoje?

Acredito que ainda o teatro é marginal. Por mais que mesmo que já existam festivais específicos para o teatro de rua ou que todos os grandes festivais de teatro do Brasil sempre tragam o teatro de rua, ele ainda não tem o mesmo status que os espetáculos do teatro fechado. A gente ainda encontra um preconceito com a arte que acontece na rua. Editais que apoiam o teatro de rua sempre dão poucos recursos. Os festivais de teatro de rua já mostram uma evolução no pensamento dos fazedores de cultura, mas ele ainda é minoritário.

O Amargo Santo da Purificação é um espetáculo de rua que vocês já apresentam há seis anos. Conte-nos um pouco da experiência de levar esse espetáculo às ruas.

A concepção estética do Amargo Santo da Purificação retomou esta ideia de se deslocar pela rua, durante a apresentação. Desde o início a peça tem esse deslocamento de dois grupos que se encontram, formam uma roda, contam uma boa parte da história do Marighella; naquela roda acontece outro deslocamento e se forma uma nova roda. São coisas dessa experiência, da ideia de inovar no teatro de rua, colocando o público em deslocamento. O teatro de rua tem diversas possibilidades e o Ói Nóis não abre mão de experimentá-las. Se trabalha muito com a questão da alegoria também. A gente acredita que isso chegue mais profundamente ao espectador. A linguagem naturalista não é apropriada para o teatro na rua, para essa comunicação que se dá na rua. Se utiliza a dança, o canto, as máscaras, as pernas de pau, os bonecos gigantes. Elementos com grandes proporções, como o Carro da Opressão. Imagens impactantes na rua que criam uma grande empatia com o público, que ganham uma força muito grande. Nesse sentido a gente pode pensar na carnavalização desses elementos.

O Amargo Santo da Purificação se baseia em poemas de Carlos Mariguella (foto: Cláudio Etges/ Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz)
O Amargo Santo da Purificação se baseia em poemas de Carlos Mariguella (foto: Cláudio Etges/ Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz)

Por muito tempo a arte esteve limitada aos palcos, às galerias, às salas. Mas houve um rompimento disso, aconteceu um movimento de libertação da arte. Tu poderias falar da relação entre a arte e a rua?

Para nós é imprescindível estar na rua. É onde realmente o teatro se torna revolucionário, porque é o momento da fusão da vida com a arte. É um momento que se torna único na vida daquelas pessoas. Elas vão se envolver de alguma maneira, porque na realidade na rua tu vai ter diversos públicos: quem vai ficar durante todo o tempo da manifestação até aquele público anônimo passageiro que vai se defrontar com aquilo e sair em seguida. Talvez nas artes o teatro seria a que tem a linguagem mais direta para discutir a existência do ser humano, a sociedade. Então, para nós, o teatro de rua é o momento da plenitude do teatro, até porque se a gente pegar a origem do teatro, as primeiras manifestações teatrais já aconteciam em espaços abertos. Depois com a ascensão da burguesia que o teatro vai ser preso. Na sua origem ele é popular. No final do século XX tem essa libertação da arte.

O teatro de rua chega a todos. Se tu ver uma roda de teatro de rua tu vai ver distintas faixas etárias, distintas pessoas. É um momento de liberdade na cidade quando acontece o teatro de rua a correria do dia-a-dia para. É um momento subversivo muito grande, que está na contramão das exigências dessa sociedade capitalista.

Qual é a principal diferença que tu sente em fazer um espetáculo fechado e um espetáculo na rua?

A principal diferença no aspecto social é o acesso a todos, e para o ator é a preparação dele. Na rua o ator está sempre em risco, pois todo o tipo de imprevisto pode acontecer. Ele precisa ter uma preparação física muito maior. Não está em condições favoráveis como em uma sala de espetáculo, com luz, com acústica. Entre os exemplos de imprevistos estão o morador de rua embriagado, o cachorro que entra na roda. Já sofremos agressões de pessoas ligadas a igrejas evangélicas. O teatro foi perseguido pela igreja… é visto como algo demoníaco.

Viúvas - Performance sobre a Ausência é uma alegoria sobre a história recente da América Latina (Foto: Pedro Lucas/Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz)
Viúvas – Performance sobre a Ausência é uma alegoria sobre a história recente da América Latina (Foto: Pedro Lucas/Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz)

Quais são os problemas enfrentados hoje pelo teatro de rua?

Hoje as dificuldades são outras. Não existe a figura da censura, mas existe a dificuldade econômica, de apoio… um grupo independe tem dificuldade de conseguir um apoio maior dos poderes públicos. O Ói Nóis se caracteriza principalmente por fazer um teatro público. Atividades que são abertas à população. Nós temos um projeto de oficinas em bairros populares, chamado Teatro como instrumento de discussão social. O nosso teatro tem esse sentido democrático. A nossa ideia é fazer um teatro que chegue à maior parte da população, que é a parte que está quase sempre excluída, que não tem acesso à arte, nesse contexto que a gente está inserido, mas que, por outro lado, criam dificuldades para o grupo se sustentar.

Outra dificuldade que a gente vê crescer é a privatização dos espaços públicos, das praças, das ruas. Cada vez é uma dificuldade maior para a gente conseguir liberar o espaço para a atividade teatral. A gente vai viajar para o Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo e enfrenta estas mesmas dificuldades ou até dificuldades maiores. Por exemplo: tem cidades que estão cobrando pelo espaço da praça para apresentar um espetáculo teatral.

Vocês se apresentam em diversos lugares: cidades do interior, capitais brasileiras e até fora do país. Como é o encontro do Ói Nóis Aqui Traveiz com essa multiplicidade de públicos?

Na verdade o grupo tem como vocação, desde sua origem, falar para todos os públicos, chegar a todos os públicos, então o Ói Nóis já tem uma longa trajetória de trabalho na periferia, onde às vezes existem dificuldades maiores em função do espaço para encenação. O trabalho do grupo tem essa característica de levar questões políticas, que sejam essenciais para discutir o momento que a gente está vivendo, do aqui e agora. É um grupo inventivo no sentido da criação. Não usa a linguagem que o público está acostumado, como a da televisão. A gente pensa no crescimento do público, para que ele se torne mais exigente com o que assiste. Nós trabalhamos com essa linguagem provocadora, que mexe com o público, que não é complacente. Exigimos o máximo de nós mesmos e de nosso público também. O Ói Nóis sempre procurou trabalhar para todos os públicos, sem abrir mão de suas convicções ideológicas e estéticas.

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