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Em 2013, a fotógrafa Laryssa Machado viajou à África. No Maláui, conheceu mulheres marcadas pelo HIV. Mulheres lindas, cujos corpos “representavam muita força e [cujos] olhos brilhavam solarmente”, como descreve Laryssa. Toda a força e a beleza dessas mulheres foram o motor de uma série de retratos. O resultado desses encontros empoderadores podem ser vistos em 24 fotos expostas a partir do dia 15 de maio na Usina do Gasômetro, em Porto Alegre, na mostra “Elas mergulham na carne vermelha do solo”. A exposição foi nomeada a partir de uma obra do poeta Aimé Césaire, um dos expoentes do orgulho negro. Abaixo, seguem as ideias da fotógrafa sobre temas como inspiração, gênero e empoderamento:

Nonada – Como tu conheceu essas mulheres e como chegou à concepção das fotos?

Laryssa Machado – Em 2013, eu fui passar um tempo na África e desde que cheguei lá queria fazer trabalho voluntário – para conhecer melhor pessoas de outros núcleos que-não-o-de-turistas e ver como os projetos comunitários funcionavam. Mas na África do Sul, que foi o país que eu fiquei os primeiros dois meses, rola meio que uma “indústria da filantropia”, sabe? Todas as ONG’s que entrei em contato tinham que pagar pra ajudar. Aí, quando eu e um amigo começamos a mochilar e perguntar por isso, um pessoal nos falou sobre o Maláui, sobre Nkhata Bay – que lá tinha um espaço-albergue que desenvolvia atividades com a comunidade no intuito não só de receber estrangeiros, mas de possibilitar uma real troca entre os que moram e os que viajam.

Foi lá que as conheci. Uma das propostas que estavam sendo realizadas era o grupo de mulheres com HIV: um encontro semanal de apoio, no qual eram conversados alguns temas que perpassavam o vírus – desde alimentação até o reflexo que ele causava nas relações sociais. Então, num desses encontros, algumas revelaram baixa autoestima. Se sentiam feias por estarem muito magras, por algumas pessoas terem receio de tocá-las por medo de “pegar a doença”. E aquilo me deixou impressionada porque elas eram as mulheres mais lindas que eu tinha visto até então. Seus corpos representavam muita força e seus olhos brilhavam solarmente, apesar do esforço diário. Foi aí que surgiu a ideia: precisava mostrar pra elas o quão maravilhosas elas eram. E o mais me chamou atenção, desde o início, foi a potência das mãos e a vivacidade dos rostos. Conversamos, elas aceitaram a ideia e, quando fomos fazer os retratos, pediram que fossem adicionadas também fotos com as famílias.

Nonada – Por que a escolha pelo preto-e-branco?

Laryssa – Na verdade essas fotos eram, inicialmente, coloridas. Quando mostramos e demos as cópias a elas, os retratos não eram monocromáticos porque achava importante expressar esse vigor e energia. Agora, quase dois anos depois, morando numa cidade, elas adquiriram outro significado pra mim: um esmaecimento de ter virado memória, ao passo que seus contrastes aumentaram por conseguir perceber melhor o que elas representavam naquela comunidade e o que podem representar pra nós, aqui: resistência. A partir disso, o preto-e-branco deu mais profundidade à subjetividade de cada uma.

Nonada – Acredita que a fotografia pode ser uma forma de empoderamento das pessoas fotografadas?

Laryssa – Com certeza. Empoderar é fazer ser visto, fazer ser ouvido, o que está “esquecido”, silenciado. É as pessoas se enxergarem de uma forma diferente, de conceberem que guardam muitas belezas, de [re]lembrarem que tem muito valor só por [r]existirem. E de saberem que outros também têm interesses nelas – só o fato de tu estar ali fotografando, dependendo da maneira como for feito, já é um gesto de atenção. É uma forma de empoderamento pra quem tá na frente da lente e pra quem vai olhar depois também, né? Ver outras representações – que não as padrões, as difundidas pela mídia – que possibilitem uma identificação.

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Nonada – No texto de apresentação da exposição, tu diz que não sabe mais “se a maneira de abolir a diferença de gênero é através da faca que descasca ou dos tijolos fabricados um por um sob o mormaço africano“. De que forma essa experiência te fez refletir sobre gênero?

Laryssa – De todas as formas possíveis, acho. Me fez refletir sobre a força feminina, sobre o quanto, em alguns lugares, elas movem materialmente as coisas. Algo que tenho pensado muito é sobre [re]tomarmos posse dos nossos corpos – não aceitarmos mais a fragilidade construída sobre a imagem deles. E essas mulheres eram a personificação disso: braços, pernas e veias preenchidas de ação. Outra coisa que me chama a atenção, também, é que estamos constantemente inseridos em debates acadêmicos sobre gênero, com discussões esmiuçadas sobre o que cada termo pode significar (e não tiro o valor das mesmas) e lá era um feminismo que quase dava pra pegar nas mãos de tão concreto, sabe? Hehe. Não se ficava falando sobre, mas se via nitidamente o papel fundamental daquelas mulheres dentro daquela sociedade. Por fim, o que eu quis dizer com essa frase do texto de apresentação é que não acho que haja um só caminho, o caminho certo, pra abolir a diferença de gênero – se mais contundente ou mais didático. Respondemos conforme podemos quanto ao que vivemos, às vezes mais agressiva, às vezes mais pacientemente – mas que devemos seguir caminhando.

Nonada – Quais tuas principais influências na fotografia? O que procura representar no teu trabalho?

Laryssa – A Nair Benedicto, que é uma das primeiras grandes fotógrafas brasileiras; a Diane Arbus, que tinha uma sensibilidade incrível pra capitar o estranho; o Ernest Cole; o Pierre Verger; o Bill Steber e, talvez especialmente, os amigos que fotografam e têm livre acesso pra criticar.

Quanto ao que eu procuro representar, nossa, acho que precisaria de dias pra ficar respondendo. Sempre achei interessante esses fotógrafos que possuem uma linha que transpassa todos os seus trabalhos, mas acho que a minha muda muito de acordo com a fase da vida, a cor do céu, as pessoas ao redor. Respondendo sucintamente, diria que busco retratar o que está à margem, algo que vá trazer reflexões sobre as questões sociais. Mas me soaria muito vago. Talvez “o que toca com visceralidade” seja mais próximo. Uma vontade de desconfortar que caminha junto com uma certeza de que ainda existe esperança, que sempre existe esperança.IMG_0264a-2

Nonada – O que pensa sobre a discussão em torno da chamada “estética da miséria” de Sebastião Salgado?

Laryssa – É bastante complexo apenas embalar a fotografia do Sebastião Salgado com o rótulo de explorador da miséria. O fato de combinar “engajamento” com preocupações estéticas não me remete diretamente a isso. Além disso, “trazer um ar místico a essa cruel realidade” não me parece exatamente um problema – pelo contrário, relativiza também onde pode ou não existir beleza, criando um desconforto inicial que pode transformar-se em empatia. Talvez a construção detalhada das sombras tornem mais expressivas as denúncias – não necessitando estar explícito, em cada foto, o que gerou aquilo. A própria escolha dos temas a serem retratados já é um discurso – e é essencial que tenham pessoas preocupadas em construir um registro histórico de refugiados, trabalhadores, indígenas. Mas acho importantíssima toda essa polêmica sobre a obra dele, sobre o “lugar de fala” anterior ao clique, sobre a questão de que a imagem nunca é absoluta, nunca resume-se só àquilo. Somos acostumados a hipervalorizar a imagem, a achar que só porque “podemos ver” o objetivo torna-se verdadeiro e inquestionável.

Na verdade, qualquer resposta que eu dê aqui é superficial em relação às mil coisas que podemos levantar sobre as várias obras dele, ao papel do fotógrafo, à ética de como retratar a pobreza, à função social e política presente em tudo que criamos.

Nonada – Tu encara tuas obras como arte, fotojornalismo ou nenhum dos dois?

Laryssa – Ambos. Nascem a partir de uma necessidade de registrar uma realidade, de fazer uma denúncia, de passar uma informação. No entanto, carregam um desejo de transcender o “fato”, de recriar sensações, de apresentar beleza na dor. Acho bem difícil encontrar um limite entre os dois.

Exposição Fotográfica “Elas mergulham na carne vermelha do solo”
De 15 de maio a 14 de junho
De terça a sexta, das 9h às 21h; sábados, domingos e feriados, das 10h às 21h
Galeria dos Arcos
Usina do Gasômetro – Térreo
Porto Alegre/RS
Entrada Franca

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