Texto  Felipe Azevedo*

Fotos  André Feltes

Nos últimos meses, o Brasil e o mundo têm presenciado acontecimentos cruciais em embates, catástrofes, injustiças e desenlaces políticos.

Cito alguns: o enfrentamento dos estudantes paulistas frente ao projeto de (des) escolarização do governador Geraldo Alkmin; a catástrofe ambiental do Vale do Rio Doce em Mariana (MG); a morte de cinco jovens negros na cidade do Rio de Janeiro pela polícia militar; a formalização do pedido de impeachment da presidenta Dilma por parte do presidente da câmara Eduardo Cunha; e justamente, no dia 13 de novembro, sexta-feira, dia do show de Bebeto Alves, o Mandando Lenha no Teatro São Pedro em Porto Alegre, o massacre em Paris deixando 129 mortos, 352 feridos em seis ataques praticamente sincronizados por parte do Estado Islâmico (ISIS), grupo terrorista e fundamentalista do Oriente Médio, de linhagem sunita e wahabista.

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Músico apresentou o show Mandando Lenha no Theatro São Pedro

Em se tratando de Bebeto Alves, nada mais condizente com a vida e obra de um artista literalmente conectado com o mundo e com suas referências locais. Em meio a este “caldo” de acontecimentos neste mesmo período, há dois de significativa importância na cena cultural de nosso Estado e do país: o já citado show de Bebeto Alves, marcando o lançamento simbólico (dezoito anos depois) de um álbum gravado em 1997, o Mandando lenha; e o prêmio açorianos 2014-2015 de melhor DVD do ano para o documentário Mais uma canção (2012), sobre a vida e obra deste artista.

Para entenderem a importância daquilo que estamos tratando aqui proponho aos amigos leitores um pequeno exercício de visualização como se estivéssemos com uma câmera fotográfica.

Em um primeiro e grande plano, uma paisagem fictícia com seus lagos, árvores e colinas. Em proximidade e adequação, eis aqui um retrato deste artista: uruguaianense, nascido em 1954, com 27 álbuns gravados, criador, fotógrafo, músico, com uma noção diferenciada de fronteira e que já circulou e morou em diversos lugares do país e do mundo, dentre outros no Rio de Janeiro, São Paulo, Boston, Espanha, Portugal, Marrocos, e atualmente em São Leopoldo (RS).

Agora, um plano mais reduzido, tomando por referência o álbum que o lançou, Paralelo 30 (1978) e sua regravação em 2001, Paralelo 30, ontem e hoje. Com isso podemos visualizar nas proximidades o álbum solo Bebeto Alves (1981), e outros quatro de relevância conceitual, Bebeto Alves y la Milonga Nova (2000), Blackbagualnegovéio (2006), Devoragem (2008) e Milonga Orientao (2014), todos dentro de um mesmo recorte, ainda que em períodos distintos, os quais podemos caracterizar como de longa duração.

E finalmente, reduzindo ainda mais o foco, num pequeno plano de nossa paisagem fictícia, uma trilogia de álbuns de milongas de idêntica relevância (que podemos caracterizar como ciclos), porém com canções, não de autoria de Bebeto, e sim de Mauro Moraes; compositor também uruguaianense, e que esboça nas composições destes álbuns uma leitura de mundo, da vida e das coisas a partir do universo campeiro, de galpão, da lida do peão, no campo, etc: Milongueando uns troços (1993), Mandando lenha (1997), Milongamento (1999).

Em minha pesquisa de Especialização e Mestrado acadêmico, em que estudei a obra de Bebeto Alves constatei após avaliar sua discografia completa que 72% das canções são do gênero milonga, 52 % versam ou abordam o tema da fronteira e 65% tratam do tema “deslocamento”, ou do sentir-se “deslocado”. Se por um lado constatamos nesta paisagem fictícia um artista “deslocado”, em contínuo movimento no seu espaço-tempo; de outro, temos o “descolado”, ou seja, aquele que não se adéqua a rótulos, portanto atípico.

Especificamente sobre esse “deslocamento”, Bebeto Alves sempre se autodefiniu como alguém em constante movimento, deslocado, inquieto, traço comportamental que o produtor musical carioca Sérgio Carvalho definiu como peripatético em seu depoimento para o filme Mais uma Canção (2012). Graficamente , apenas para efeito ilustrativo, esse comportamento pode ser representado virtualmente por um ponto de origem, do qual o artista se desloca em duas linhas vetoriais, expande-se e abre-se para o mundo.

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(Crédito: Felipe Azevedo)

Voltando à trilogia dos álbuns de milongas onde nosso artista figura num primeiro momento como intérprete e noutros como coautor e produtor, chegamos especificamente no Mandando lenha show, o que assistimos no dia 13 de novembro, no Teatro São Pedro.

Num palco despojado de cenário com uma luz interagindo fluentemente com o trio formado por Bebeto Alves (voz), Marcello Caminha (violão) e Clóvis Boca Freire (contrabaixo acústico), o mesmo caráter inusitado que se percebe no tratamento das canções quando se escuta o álbum, transpareceu em cena: Bebeto vestindo uma túnica marroquina com um casaco por cima e por baixo desta uma calça vermelha, sapato preto e trazendo nas mãos uma corrente artesanal com um crucifixo; Marcello totalmente pilchado a caráter – bombacha, camisa, colete e boina vermelhos e calçando botas, típico gaúcho rio-grandense; e Clóvis, de calça e camisa, típico músico urbano.

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Bebeto Alves: entre o “descolado” e o “deslocado”

Em conversa após o show com o compositor Mauro Moraes pude saber mais detalhes sobre a feitura do álbum Mandando lenha: Mauro gravou uma voz “guia” – voz auxiliar, ainda não definitiva, para fins de orientação na gravação final – enquanto Lúcio Yanel (violonista argentino) juntamente com Clóvis, ambos foram simultaneamente inserindo os seus instrumentos improvisando fraseados e solos violonísticos, arcadas e pizzicatos no contrabaixo. Após, a partir da voz “guia” de Mauro, Bebeto inseriu sua voz de intérprete. Ou seja, o resultado desse processo é que as canções não soam no álbum como típicas do cancioneiro regional gaúcho e tampouco, como melodias cantadas e acompanhadas por um violão e contrabaixo. Pelo contrário, soam como três instrumentos dialogando constantemente e como se estivessem sendo tocados ao vivo, quando na verdade foram praticamente gravados dessa forma.

Das 14 canções apresentadas no show, praticamente na mesma ordem do disco, destaco quatro: “Milonga amarga”, “Charla de tropa”, “Na ponta dos dedos” e “Com cisco nos olhos”.

Enquanto “Milonga amarga”, “Charla de tropa” e “Na ponta dos dedos” foram interpretadas com forte teor ibérico nos vocalizes e na dramaticidade gestual de Bebeto, “Com cisco nos olhos” realçou o aspecto textural musical registrado no disco ao apresentar Bebeto cantando em diálogo contínuo com o contrabaixo de Clóvis e sem a participação do violão de Marcello; lembrando que no álbum esta canção não está gravada desta maneira. Aliás, durante todo o show, em momentos pontuais Bebeto circulou pelo palco sapateando e executando palmas como um típico andaluz.

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Com que cena a música de Bebeto dialoga?

Se no álbum o violão de Lúcio dá um caráter argentino, tangueiro; no show, o violão de Marcello soa misto, não deixando de referenciar a sonoridade de Lúcio, porém imprimindo a sua, também singular e muito à vontade com os gêneros das canções apresentadas como as milongas, chamamés e rancheiras.

Numa conversa certa feita, tempos idos em minha casa com Marcello Caminha, este me comentou: “Não acredito numa música que não me remeta a uma paisagem. Pra mim o Zeca Pagodinho é um baita milongueiro! Tu escuta qualquer canção dele e nos primeiros acordes já enxerga uma paisagem carioca”. Em depoimento no facebook alguém comentou, após o show, ter visto não um show, mas um filme, infinidade de cenas, ambientes e múltiplas sensações. Fica a pergunta: com que cena, com que ambiente a música de Bebeto dialoga? Até que ponto a música deste artista tem sido verdadeiramente compreendida?

Ainda sobre o aspecto textural musical, de um modo geral quando Bebeto se apresenta solo (ele e seus instrumentos – violão, guitarra ou o turco saz baglama, etc.) as canções soam como melodias acompanhadas, ou seja, típico cantautor (como um típico payador, cantando e se acompanhando no instrumento). Já com uma formação de trio ou banda o resultado sonoro é de uma textura mista: melodia acompanhada e com participação simultânea dos outros instrumentos, exatamente como no álbum e show Mandando lenha.

Desse modo o que vimos entre nossa paisagem fictícia e neste show são possíveis conexões que interligadas possibilitam vislumbrar o fechamento de um ciclo na obra deste autor: a noção de fronteira, de “deslocamento”, de “descolamento”, de uma forma singular de tratar e pensar a milonga (mais rock’n roll e andaluz que a própria milonga) e de possíveis e novos desdobramentos (qual a próxima esquina?). Ainda, vale lembrar, o show foi filmado via financiamento crowdfunding, e será lançado em futuro próximo possivelmente com nova apresentação.

Enfim, “deslocado” ou “descolado”, atualmente podemos constatar um artista na plenitude de sua produção e de suas inquietações criativas, contudo, para apreendermos o conjunto deste processo, desta paisagem vale o esforço de escuta, ainda que abrangente, de toda sua obra.

Finalmente, outra boa nova: em nossa conversa na mesma noite após o show o Mauro Moraes me comentou de um novo álbum inédito de milongas totalmente pronto e na espera das interpretações “deslocadas” e “descoladas” de Bebeto. E daí Bebeto, por que não?

*Felipe Azevedo é compositor, violonista, cantor, educador musical e ensaísta. Vencedor de seis prêmios açorianos (o mais representativo do Sul do Brasil) e Mestre em Letras (UFRGS), o artista já fez turnê por países como Suíça, Noruega, Uruguai e França. Com quatro álbuns gravados e lançados, atualmente está em divulgação do seu último “Tamburilando Canções – Violão com Voz”, projeto multimídia com livro-cd e hotsite interativo. Contatos: www.violaocomvoz.com.br

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