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Elis, uma multidão: onde está a cantora no imaginário de Porto Alegre?

Rafael Gloria
(Reportagem originalmente publicada no Jornal do Comércio)

Foto: reprodução

Em um dos seus versos mais famosos, o poeta estadunidense do século XIX, Walt Whitman, canta “Eu me contradigo? Pois muito bem, eu me contradigo. Sou amplo, contenho multidões”. Esse trecho do poema casa muito bem com a vida de Elis Regina, considerada por muitos críticos e especialistas como a melhor cantora brasileira de todos os tempos.

Há multidões em Elis, porque ela viveu de uma forma intensa desde que começou a cantar com apenas onze anos de idade. Muitas fases de sua carreira surgiriam depois, mas os anos de formação em Porto Alegre ajudaram a moldar a personalidade musical e o profissionalismo que sempre marcaram a sua trajetória. 

Segundo o artigo 1950-1960: Um milhão de melódicos melodiosos, de Arthur de Faria, os anos de 1950 e de 1960 são períodos de transição entre a Era do Rádio e o começo dos festivais universitários gaúchos. Foi durante esse momento que esteve em evidência um tipo de formação instrumental conhecido como conjunto melódico. Para ele, nenhuma outra cidade teve tantos agrupamentos de cinco a oito músicos tocando suavemente – e em diferentes combinações – acordeom, vibrafone, guitarra, piano, contrabaixo, bateria e percussão. Muitos desses músicos desses conjuntos também trabalhavam em programas de rádio na época. 

E é nesse meio que Elis Regina aparece, quando começa a se apresentar no Clube do Guri, em 1956, da extinta Rádio Farroupilha. Faz tanto sucesso lá, que em dezembro de 1958 acaba sendo contratada profissionalmente pelo então proprietário da Rádio Gaúcha, Maurício Sirotsky Sobrinho. Logo, é eleita a melhor cantora do rádio gaúcho em concurso realizado pela Revista de TV, Cinema, Teatro, Televisão e Artes, com apoio da sucursal gaúcha da Revista do Rádio, com sede no Rio de Janeiro. E fez tudo isso tendo que estudar e tendo boas notas, cláusula imposta por sua mãe, Dona Ercy. 

Apesar de ser ótima aluna no colégio, foi na escola formada por grandes músicos dos conjuntos melódicos e das orquestras de rádio que Elis gabaritou todas notas e harmonias. Além da sua atuação no rádio, ela também cantava em boates atuando como crooner em conjuntos como o de Norberto Baldauf e o Flamboyant – esse reunia um grupo de músicos adeptos aos sons mais modernos de então. Arthur informa em sua Elis – Biografia Musical que o conjunto era composto por artistas como Adão Pinheiro e do baterista Mutinho, compositor e futuro parceiro de Toquinho & Vinicius.

Para ele, esses primeiros anos e a experiência com os músicos dos conjuntos foram fundamentais. “Era um tipo de formação musical que praticamente só tinha no Rio Grande do Sul. Uma transição também entre os sambas dos anos 1950 e os grupos de samba jazz. E a Elis se apresentava com esses caras, ela aprendeu muito a cantar e a improvisar nesse momento”, diz. Para se ter uma ideia, muitos desses bailes, duravam cerca de cinco ou seis horas, com o grupo se apresentando continuamente. 

Nos anos 1960, entretanto, o contexto começava a se alterar: as mudanças culturais impostas principalmente pelo modelo de grupo popularizado pelos Beatles (guitarra, baixo, bateria) se tornava padrão, mudando a configuração dos conjuntos musicais. Somado a isso, também acontecia a popularização da televisão no Rio Grande do Sul que, gradativamente começava a tirar público do rádio, e levou os músicos migrarem para o novo formato.

“Em 1964,  surgiu um negócio chamado videotape e foi um dos responsáveis por acabar com as regionalidades, porque se tinha um programa feito no centro do País com todos artistas que as pessoas conheciam dos discos ou rádio nacional, por que se pagaria um cachê para os artistas locais quando se poderia simplesmente ter a fita?”, explica Arthur. A partir disso, muitos músicos perderam o emprego e tiveram que começar a tocar na noite, mudaram de profissão ou foram embora do estado. É nesse contexto também que Elis Regina embarca para o Rio de Janeiro, chegando alguns dias antes de 31 de março de 1964, o golpe militar. Já era considerada a melhor cantora do Rio Grande do Sul e, agora, conquistaria o Brasil. 

Intérprete de muitos talentos

Foto: reprodução

Elis Regina gravou 36 discos, e em todos os seus eles havia, pelo menos, uma música de algum compositor que nunca tinha sido gravado ou que tinha uma produção pouco conhecida. Segundo Arthur de Faria, ela gravou nos seus terceiro e quarto discos, muitos compositores do Rio Grande Sul. “São, inclusive, os únicos registros que se tem dos compositores dessa geração do começo dos anos 1960.

O primeiro hit dela, do primeiro compacto, quando tinha apenas 15 anos, foi a música ‘Da Sorte’, de um compositor gaúcho, o Eleu Salvador, que nunca tinha sido gravado. Ela sempre manteve essa tradição que começou aqui”, avalia. Entre outros amigos compositores que conheceu na época dos bailes e rádio e gravou foram Sérgio Napp, João Palmeiro, Mutinho e Luiz Mauro.

O músico Raul Ellwanger relembra a gravação do dueto que realizou com Elis da sua música “Pequeno Exilado”, em 1980. Devido à ditadura militar, Ellwanger ficou boa parte da década de 1970 exilado, vivendo em países como o Chile e a Argentina. Na época, o diretor da gravadora sugeriu convidar a cantora para participar e ela topou. “Fomos gravar em um estúdio na Avenida Paulista, era de manhã. Eu cantei a minha parte e aí ela foi e cantou a parte dela, e em certo trecho ela dá um soluço, porque ela teve um princípio de choro, mas decidiu que deixasse, que mostrasse a emoção dela ao falar de um dos bairros da vida dela, da cidade dela”, explica. 

Com o fim da gravação, a ideia de Ellwanger era sair para comemorar, mas Elis tinha outro compromisso. “Ela foi para outra sala de gravação do estúdio e foi gravar a base de ‘Alô, alô, Marciano’. Uma música com outro estilo, alegre, brincalhona, irônica. Enquanto a minha era uma toada, bem diferente. Acho que isso diz muito do talento dela”, explica.

O músico ainda revela que Elis anotava as letras da música em uma espécie de caderneta. “Ela tinha uma estenografia pessoal, em que anotava as partes expressivas, as partes mais difíceis, as armadilhas. Por exemplo, na minha música tinha uma armadilha onde eu mesmo caí. Eu digo em um trecho Vinte Mil Léguas de Sonho,e que pode ser confundido com Éguas. Eu tenho esse manuscrito dela e nessa parte tem um risquinho separando os dois éles”, conta. 

Elis ainda apoiou o movimento Frente Gaúcha de Música Popular, participando de um show para cinco mil pessoas no Grêmio Náutico União em 1968. “Foi um coletivo daqui muito influenciado pelos Festivais da época, como o da Excelsior, da Record, da Tupi, da Cultura. Aí nossos ídolos eram Edu Lobo, Sérgio Ricardo, Chico Buarque”, explica Ellwanger.  No grupo, havia nomes como Cláudio Levitan, Geraldo Flach,Carlinhos Hartlieb, Laís Marques e Hermes Aquino.

Lugares de memória 

O acervo Elis Regina na Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre (Foto: divulgação)

Foi o mesmo compositor e amigo de Elis, Sérgio Napp, então diretor da Casa de Cultura Mario Quintana, que propôs a criação do Espaço Elis Regina em 2005 a partir de uma campanha de arrecadação de itens para compor o acervo. A sala abriga uma série de documentos e materiais doados por colecionadores e algumas raridades como o primeiro LP, intitulado “Viva a Brotolândia”. No momento em que visitamos o local, os dois fones que proporcionam escutar as músicas dos álbuns não estavam funcionando.

Conforme Cássio Pires do Núcleo de Acervo e Memória da CCMQ, os equipamentos são trocados constantemente, mas, devido ao grande uso, seguidamente estragam. “ É tradição da Casa valorizar artistas das mais diversas expressões por meio de exposições, eventos e outras atividades. Como intérprete da música brasileira de grande renome, nascida em Porto Alegre, Elis Regina é homenageada em espaço nobre da CCMQ, em frente ao Quarto do Poeta, exposição que celebra o patrono da Casa, Mario Quintana”, diz. 

Ao contrário do poeta, porém, a cantora Elis Regina parece não ter muitos lugares de memória em Porto Alegre, apesar da sua vasta importância para a cultura brasileira. Seria a cantora pouca lembrada – e celebrada – por aqui? Para Raul Ellwanger, o problema está no tipo de memória que é valorizada. “Vai lá no Parcão para ver qual é a memória que é exibida, tem quarenta toneladas de ferro enfeiando e vai ver o nome daquilo. Não é a memória em geral que é fraca, é a memória dos que mandam que é forte”, afirma. Já Arthur de Faria concorda que há pouco espaço para a memória ou celebração de Elis em Porto Alegre. “Tem aquela estátua e o Teatro Regina que estamos esperando há um bom tempo. Tem alguma coisa de material disperso, talvez no museu Hipólito da Costa. E tem o prédio onde ela morou que ninguém sabe exatamente onde fica. Acho que até hoje tem um certo ranço gaúcho com a Elis”, diz. 

Em 1952, Elis Regina, com, então, sete anos, se mudou para o bairro do Passo D’Areia, mais especificamente a Vila do IAPI – projeto concebido pelo governo Vargas para acolher as famílias de operários. Como era o caso do pai da cantora, Romeu, chefe do almoxarifado da Companhia Sul-Brasileira de Vidros. Foi nesse ambiente de clima de cidade de interior que ela cresceu e morou até os 18 anos, quando se mudou para o Rio de Janeiro. A edificação onde residiu Elis é preservada desde 2011 por meio do Inventário do Patrimônio Cultural de Bens Imóveis de Porto Alegre, Lei Complementar N.º 12.585 de 2019.

O IAPI é considerado uma Área de Interesse Cultural (AIC), tendo regime urbanístico diferenciado pelo Plano Diretor da Cidade. Em frente ao prédio onde Elis cresceu há uma grande Figueira que está incomodando os moradores, devido aos galhos já apodrecidos a árvore se inclina – e o medo é de desabamento. Assim como a possibilidade das raízes invadirem o edifício por baixo e destruam a construção. Segundo a arquiteta Manuela Costa, que trata dos assuntos pertinentes à Vila do IAPI como Patrimônio Cultural, ligada à Coordenação de Memória Cultural da Secretaria Municipal de Cultura, alterações internas e algumas esquadrias já não são originais. “Entendemos que a figueira neste caso compõe a ambiência do local, por isso deve ser igualmente preservada”, diz. 

Inspirações vivas 

Apesar dos poucos lugares que evocam a memória de Elis em Porto Alegre, o seu legado segue forte, principalmente como inspiração para muita gente fazer música. Como é o caso do Tributo Elis Regina – Camila e o Arrastão. Quando adolescente, Camila Lopez tinha um sonho com certa frequência de cantar O bêbado e a equilibrista em um palco enorme. “Seguidamente me pegava pensando nisso, então acho que acabei trazendo este sonho pra realidade. Mas no mundo prático e já adulta, eu entendia que eu deveria estudar música brasileira junto com os músicos e a forma que encontramos em conjunto foi fazer o tributo”, conta. Para ela, a Pimentinha levava a sério o papel da arte no mundo. “Não aceitava mediocridades. Estava sempre em busca de melhoramento, de apontar o justo, de dizer coisas legais. De alertar. Era muito lúcida”, explica. 

Além de Camila, o Tributo é formado pelos músicos Alexandre Alles (teclado), Rafael Branco Müller (bateria), Mateus Albornoz (baixo), Matheus Herrmann (guitarra) e Rafael Pavão (percussão). O Arrastão recria a formação clássica do grupo que acompanhou Elis na década de 70 e com cerca de dois anos já passou por mais de trinta teatros do Rio Grande do Sul. Para ela, essa experiência mudou tudo. “Nos deu a oportunidade de viver de música. Foi abrindo muitas portas, colocando numa vitrine, me deu a oportunidade de trocar com o mercado da música de fato. E principalmente foi me dando ‘cancha’. Podendo tocar em teatro sendo praticamente uma cantora nova no pedaço. Isso é quase que um milagre”, conta. Ela acredita, entretanto, que o mais importante foi aprender a cantar e a tratar a arte como se deve. “A Elis me ensina todo o dia. A música me ensina todo o dia. Esse projeto ainda vai longe e dele vai nascer mais mil outras coisas”, finaliza Camila. 

Não é só na música, entretanto, que Elis segue inspirando. O Coletivo Elis Regina – Tribuna 77 nasceu no dia 7 de novembro 2018 com a ideia de discutir pautas no contexto de uma torcida de mulheres gremistas, feministas e antifascistas. Segundo Hayane Leotte, uma das participantes, o Coletivo ganhou esse nome pois em em fevereiro de 1962, sob o número 688, Elis Regina Carvalho Costa, ainda com 17 anos, tornou-se sócia do Grêmio Foot-ball Porto Alegrense. “Em abril de 1968, Elis voltou à Porto Alegre para fazer um show, contratada pela Rádio Guaíba e o jornal Folha da Tarde. A direção do Grêmio aproveitou sua estadia na capital e promoveu uma homenagem à sua sócia, que já nessa época havia conquistado o Brasil”, conta. A figura feminista de Elis também é exaltada. Conforme Hayane, a marca da rebeldia, do discurso forte, ainda hoje é referência. “Ela sempre foi muito assertiva em defender os direitos humanos e a democracia. Elis é insurgência, é inconformidade com uma sociedade marcada por papéis de gênero, sexualidade e raça muito bem marcados”, reflete. 

Livros resgatam trajetória

Elis com os filhos Marcelo Boscoli e Maria Rita (Foto: arquivo pessoal)

Entre os primeiros livros publicados sobre Elis Regina, está o de  Zeca Kiechaloski, dentro da coleção Esses Gaúchos, intitulado apenas Elis Regina, e é de 1984, apenas dois anos após a morte da cantora. Trata-se de um livro curto, e quase uma carta de amor a trajetória da cantora gaúcha. Logo depois, foi a vez de Regina Echeverria escrever a primeira biografia de mais fôlego: em 1985, surgiu a primeira edição de Furacão Elis. Echeverria já acompanha a carreira de Elis, tendo feitas diversas entrevistas com a cantora. “Foi através dos organizadores do espetáculo Falso Brilhante, que comecei a ter um contato maior com a Elis, e foi nascendo uma amizade”, diz. A biografia já teve outras edições, mas, segundo a autora, não mudaram muitas informações e sim foram sendo acrescentadas novas entrevistas. Ela recorda que Elis parecia insegura antes de subir no palco. “Mas quando estava lá nunca aparentava isso, dominava. É que essa espécie de insegurança é digna de quem tem muito talento”, explica. 

A já citada biografia do jornalista e pesquisador, Arthur de Faria, intitulada Elis: Uma biografia musical é de 2015, e narra a trajetória muito a partir de uma visão dos profissionais da música que a acompanharam em muitos momentos, sendo a fonte primária. “Queria saber como é que eles a viam como colega de trabalho e chefe. E todos eles foram unânimes em amar Elis. Pelo senso de justiça, por se sentir um profissional como qualquer outro, e que todos tinham a mesma importância naquele momento”, conta Arthur.

Em 2016, ainda ocorreu a publicação Elis Regina – Nada será como antes, do jornalista Julio Maria. Ele procurou traçar um perfil mais humano e menos divino, tratando como também uma grande reportagem, sem nenhuma tese a defender. Já a mais recente, lançada em outubro de 2019, é Elis & Eu do filho primogênito de Elis. “Eu tive um gatilho inicial, que foi o fato de muitas pessoas perguntarem se eu me lembro da minha mãe. Essa foi a segunda motivação. A primeira foi para deixar alguma coisa escrita para os meus filhos, que não vão conhecer a avó fisicamente. É uma maneira de deixar um documento, um olhar de um menino de 11 anos sobre a sua avó. E o momento surgiu porque eu to perto dos 50 anos, acho que a gente tem, eu no caso, algum nível de maturidade para poder visitar essas memórias”, revela.

Jornalista, Especialista em Jornalismo Digital pela Pucrs, Mestre em Comunicação na Ufrgs e Editor-Fundador do Nonada - Jornalismo Travessia. Acredita nas palavras.
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