Foto – Gota d’Água {Preta} (crédito Evandro Macedo)

Quatro vozes atuantes nas artes cênicas contemporâneas, quatro falas sobre teatro e a questão negra no país. O Nonada apresenta a seguir depoimentos transcritos de Jessé Oliveira (fundador do grupo portoalegrense Caixa Preta), Celina Alcântara (atriz e professora da UFRGS), Jé Oliveira (dramaturgo e diretor do espetáculo Gota d’Água {Preta} e Juçara Marçal (cantora e atriz em Gota d’Água {Preta}), colhidos em setembro, no debate Dramaturgias Contemporâneas: Tradição e Reinvenção.

Com curadoria da jornalista Carol Anchieta e do artista Tiago Pirajira, o debate aconteceu em meio à programação do Porto Alegre em Cena. A partir da mediação de Maitê Freitas, os artistas foram provocados a responder a seguinte pergunta: É inerente a um artista negro fazer arte negra?

Jessé Oliveira

“Eu sou diretor de teatro aqui de Porto Alegre, formado pela Ufrgs. Estou diretor da Casa de Cultura Mario Quintana e é um lugar importante para nós negros estarmos e imprimir nossos olhares. Me sinto muito orgulhoso, nesses 3 anos a frente da Casa de Cultura, de dizer que ele é hoje um espaço de diversidade de pensamento, diversidade racial e de gênero, de orientação, de todas essas questões que estão dentro do processo de fruição artística institucionalizado. Ou seja, não vai mais depender de mim a continuidade desses projetos. Mas eu estou aqui pela minha trajetória como diretor, especialmente como diretor do grupo Caixa Preta, que é um grupo que tem quase 20 anos de existência na cidade de Porto Alegre. Nós não fomos o primeiro grupo de teatro negro de Porto Alegre. Porto Alegre tem uma história muito longeva. A gente tem relatos do século 19 já com produção dramatúrgica negra, com um importante autor que ainda não está publicado, chamado Artur Rocha. Foi um dramaturgo que escrevia e montava seus espetáculos no Theatro São Pedro, que era um lugar aristocrático. Eu gosto de dizer que nós viemos de uma linha ancestral. Nós somos herdeiros de muitas coisas que aconteceram nessa cidade. Enquanto grupo, produzimos talvez um efeito muito positivo, nós começamos a pensar a nossa articulação não somente na perspectiva da questão racial, mas pensando que estávamos criando um grupo profissional para disputar espaços profissionais. A gente ia ocupando os melhores espaços da cidade e isso era um ato de rebeldia. Conseguimos colocar uma marca na cidade que acho que tem produzido desdobramentos e reflexos. Lançamos o livro Hamlet sincrético, que é um apanhado com textos, clipagens desse espetáculo, que creio que foi um marco aqui na cidade, e que participou do Porto Alegre em Cena há 14 anos, em um período em que o teatro negro estava furando bloqueios. A gente hoje tem outro panorama, os festivais de teatro estão se abrindo para a diversidade de pensamento, de olhares.

Dizer que a é inerente ao artista negro fazer arte negra, quase como uma correia de transmissão, talvez seja um pouco complexo. Temos que pensar todo um processo colonial, de apagamento, de baixa autoestima. Todos esses elementos se refletem nessa “escolha”. Agora, é óbvio que uma pessoa negra, seja o que estiver dizendo, ele continua sendo um sujeito negro e a fala dele não tem o mesmo lugar que vai ter o sujeito branco. O Fernando Holiday, por mais que ele diga absurdos, eu ainda tenho uma certa identidade com ele que eu não tenho com quem o ataca. Toda vez que se fala nele, se diz que ele tem uma retórica branca, quer dizer, como se ele não tivesse autonomia de pensamento. Temos que pensar que, quando assumimos esse papel de trazer a questão racial para a cena, seja ela música, artes visuais ou teatro, qual é a perspectiva daquele trabalho e com quem eu me associo para fazer o que estou fazendo. Eu lembro que há 15, 20 anos, quando tivemos uma incidência maior, havia um certo desconforto por parte da classe artística da cidade. Tínhamos só pessoas negras em cena e diziam “Jessé, vocês não estão fazendo racismos às avessas?” Escutávamos isso de uma maneira muito repetida e com muita convicção”.

Juçara Marçal

“Sou uma iniciante nesse universo teatral, como atriz, mas participei de várias companhias como preparadora vocal. Essas reflexões sobre o teatro negro me tocaram mais proximamente a partir desse convite, dessa vivencia que eu estou tendo com o Gota d’Água {Preta}. Antes disso, era sempre pelo viés da música.  A arte, a música negra, apareceu com mais veemência no meu trabalho tardiamente, um pouco por conta desse apagamento que acontecia. Eu nasci numa família que tinha um terreiro de umbanda, mas meus pais eram católicos apostólicos romanos, então desde pequena essa proximidade que estava ali foi meio que desgastada. Eu me formei em Letras e Jornalismo e estava trabalhando com música já, mas todas essas formações eram sempre pelo viés europeu. Nesse ínterim, com amigos músicos, tomamos contato com a música popular tradicional brasileira. Dei uma volta imensa, uma das coisas marcantes para mim para eu perceber esse lugar foi justamente quando fomos numa festa de jongo, numa cidade do interior de São Paulo, Guaratinguetá. Eu lembro muito bem do momento em que eu, curiosa, entrei na roda, quando eu entrei na roda, senti como que um choque, de perceber os ancestrais todos ali.  Me senti ao mesmo tempo muito pertencente daquilo, mas também uma grande surpresa. A partir dali, isso passou a fazer muito parte da minha vida, cada vez mais procurando revelar isso, que está muito próximo e às vezes você não se dá conta. Esse apagamento ainda acontece o tempo todo. Então acho que além do que você faz como artista, tem essas coisa de você abrir os olhos das pessoas. É preponderante esse lugar de poder revelar e a gente como artista tem essa possibilidade de poder revelar isso para mais pessoas”.

Jé Oliveira

“Faço parte de um grupo em São Paulo que se chama Coletivo Negro, que completa 12 anos de existência. Sou ator, diretor, dramaturgo, formado pela Escola de Teatro de Santo André, que é uma escola de pensamento bastante progressista, já há quase 30 anos, na periferia de Santo André, uma cidade operária do ABC paulista, que vem movimentando bem intensamente a cena brasileira. É importante pontuar que só é necessário nomear como teatro negro para sair da hegemonia que parte do pensamento naturalista de que o teatro é branco. É uma oposição – um pouco do ponto de vista dramático, mas não só – ao teatro branco, que é a ordem do pensamento corrente. Cerca de 90% dos grupos de teatro de São Paulo só têm pessoas brancas e isso não é estranhado. Então por que estranham um grupo de pessoas que se debruçam em torno da racialidade de um ponto de vista mesmo da afirmação tanto da cor da pele quanto dos traços (sabemos que no Brasil, do ponto de visto sociológico, isso é muito difícil de caracterizar)? Não somos uma massa homogênea, por isso a questão talvez seja teatros negros. Tem uma pesquisadora que chama Claudia Ferreira Costa que diz que o que a gente vem fazendo hoje, já é possível ser encontrado desde o século 16. O que a gente chama de teatro negro já era encontrado na congada, no jongo.

Eu hoje estou muito mais preocupado em deter os meios de produção da arte que eu faço. Nosso corpos são entendidos como símbolos e não raras vezes nós somos utilizados em projetos que só nos acoplam para legitimar uma pesquisa do ponto de vista da presença da atualidade épica, o que é interessante para pensar do ponto de vista brechtiano, que em são Paulo é muito forte. Qualquer pessoa intelectualmente verdadeira com a construção do país não consegue desviar da questão racial e da questão de gênero. Pensando na cidade de São Paulo, os grupos brancos progressistas, quando tratam dessas questões, acabam acoplando pessoas negras nos projetos deles e utilizando nossos códigos para legitimar uma ausência na formação dura dos grupos. Isso é perigosíssimo, porque isso só reproduz toda a estrutura social que a gente já vive. Ou seja, nessa configuração, de novo os nossos corpos vão estar a serviço, porque a hierarquia se mantem intacta. Tem uma pensadora negra, a Audre Lorde, que fala sobre como o racismo e a questão de gênero estão tão em voga que agora nós somos chamados a ensinar os nossos opressores. E essa inversão no teatro acontece muito, recorrentemente. Por isso, cada vez mais eu tenho tentado fortalecer as instituições onde nós somos os detentores dos meios de produção”.

Celina Alcântara

“Sou atriz e professora de teatro da Ufrgs. O fato de uma pessoa negra estar em cena já tem um sentido de teatro negro? Acho que não necessariamente. Acho que o fato de uma pessoa negra estar em cena e se posicionando em relação às questões relacionadas à negritude acho que sim, constitui teatro negros, mesmo quando não há só atores negros. Hoje faço um espetáculo que se chama A Mulher Arrastada, conta a história da Cláudia Silva Ferreira, uma mulher negra da zona norte do Rio de Janeiro. A Claudia, numa manhã de domingo, foi na padaria comprar pão, e ela teve um encontro com a polícia, que estava subindo o morro. Primeiro, atiraram nela. A comunidade, mesmo acostumada com a violência policial, ficou tão assustada que as pessoas saíram das suas casas e foram interpelar a polícia. Os policiais resolveram jogar o corpo da Claudia dentro do camburão e sair correndo com a desculpa de que iam leva-la para o hospital. No caminho, a porta do camburão se abriu e o corpo caiu e ela ficou presa pela roupa e foi arrastada por 350 metros. Esse coletivo que criou esse trabalho sobre a vida da Claudia é um coletivo que só tem uma pessoa negra, que sou eu. As outras pessoas são brancas, inclusive o colega que escreveu, que transformou em palavras poéticas, em dramaturgia, esse fato. Ele trabalha também com a perspectiva de pensar esses outros, aquilo que a polícia carrega de sentido, como a polícia é representativa desse social, que é racista, que culpabiliza os corpos negros pela violência, que é conivente com a morte e com as atrocidades que acontecem com os corpos negros. Uma das coisas que me incentivou a fazer o trabalho, esse coletivo não é um grupo de teatro. Eu faço parte de um grupo de teatro que se chama Usina do Trabalho do Ator, que eu ajudei a criar, do qual fazem parte atores e atrizes negros e não negros. Durante um tempo, o Caixa Preta era o grupo que tinha mais negros e a Usina do Trabalho do Ator era o segundo grupo que tinha mais negros. Temos pensado a partir desses trabalho a obrigação das pessoas brancas de fazerem a sua parte em relação ao racismo. As pessoas que se privilegiam isso têm que resolver a sua parte, têm que se expor. É o que a Angela Davis diz, não basta não ser racista, tem que ser antirracista. O que você faz quando vê alguma coisa acontecendo?”