Foto: Arquivo Pessoal/Lilian Rocha

A entrevistada da semana da seção Ouvidoria é a escritora e poeta, Lilian Rocha. Ela é natural de Porto Alegre, farmacêutica e analista clínica. É autora de livros como “A Vida Pulsa: Poesias e Reflexões”, de 2013 e “Menina de Tranças”, de 2018. É membro da coordenação do Sarau Sopapo Poético, acadêmica da Academia de Letras do Brasil- Seccional-RS e diretora de Organizações Sociais da ALB-RS. Também é conselheira da Associação Negra de Cultura (ANdC), membro da Sociedade Partenon Literário e da International Writers and Artists Association (IWA).

Leia aqui todas as entrevistas da série.

Início da carreira: 

Comecei a escrever ainda muito cedo, na infância, mas realmente foquei na literatura a partir de 2011. Comecei a participar de vários saraus e utilizar a poesia e a música nas minhas oficinas de Biodanza e Educação Biocêntrica.

Livros publicados:

“A Vida Pulsa”- Poesias e Reflexões, Editora Alternativa, 2013

“Negra Soul”, Editora Alternativa, 2016

“Menina de Tranças”, Editora Taverna, 2018

Coorganizadora de “Sopapo Poético- Pretessência”, Editora Libretos, 2016

Coautora de “Leli da Silva- Memórias: Importância da História Oral”, Editora Alternativa, 2018

Participação em 32 Antologias Poéticas brasileiras e portuguesas.

Como você descreveria a sua essência como artista? 

Como múltipla, eu me interesso por uma gama enorme de assuntos, sou extremamente observadora. A literatura, a escrita e a música sempre foram importantíssimas na minha essência criadora = criatura. Sou uma mulher das Ciências e das Artes, o que muitas vezes me torna perfeccionista e crítica e outras vezes me faz seguir o pulsar da vida.

O que mais irrita na cena cultural?

A invisibilidade do diverso, as vezes me parece que só existe um único grupo que faz cultura em Porto Alegre.

Quais qualidades são imprescindíveis a um artista?

Não se afastar do momento Aqui-Agora. Saber respeitar as suas pausas e silêncios. Estar em constante aprendizado, amar a sua expressão artística e ser fiel aos seus princípios.

Qual o momento de maior dificuldade que já passou na carreira?

Quando publiquei o meu primeiro livro e percebi o quanto era difícil divulgar, distribuir, torná-lo conhecido. E ainda o fato de ter de enfrentar o mercado editorial sendo uma escritora negra, é derrubar obstáculos dia a dia, parece que você tem que provar sempre que esse espaço de sabedoria também é seu.

E de maior felicidade?

Recebo muitas mensagens valorizando a minha escrita, pessoas que agradecem o fato de terem lido algo que eu escrevi. Ou ainda quando vou em escolas e vejo os olhos brilhantes e atentos admirados por estarem ao vivo com uma escritora negra.

Um artista não deve…

Ter medo da sua arte e deixar que momentos históricos nefastos o afastem da sua autenticidade. E nunca perder o seu senso crítico.

Cinco coisas que mais te inspiram a criar

Ah, sempre em primeiro lugar a música, o cotidiano (também chamado de ordinário), as relações humanas, as viagens (internas e externas) e as pausas.

Acredita em arte sem política?

Jamais, a vida é política, não partidária, mas nas suas relações, na formação de redes, afetos e comprometimentos. A Arte está inserida, submersa nessa circunstância.

Qual seria o melhor modelo de financiamento da arte?

Os artistas têm se valido de financiamentos eletrônicos (vaquinhas eletrônicas), pois vários projetos de fomento foram extintos por todas as esferas de governo, não acho seja a melhor solução, pois joga para a sociedade uma responsabilidade que deveria ser pública. A cultura brasileira ainda precisa do financiamento público, é algo que precisamos reivindicar.

Existe cultura gaúcha?

Existe, e é extremamente rica nos mais variados segmentos. É uma pena que só apenas uma pequena parte dessa cultura é valorizada pela mídia e pelos críticos.

Que conselho você daria a Jair Bolsonaro?

Não sei se perderia o meu tempo dando conselhos, não me parece ser uma pessoa que daria ouvidos ou mesmo se compreenderia a minha sugestão, mas se tivesse que dar algum conselho acho que seria: Respeite a Ciência e a Cultura do seu país.

Todo o artista tem de ir aonde o povo está?

Sofremos de um grave problema: o distanciamento, não existe o povo e o artista, o homem e a natureza, somos povo, somos natureza. É desse lugar que surge a nossa humanidade, caso contrário estamos distantes da nossa própria essência.

Ser brasileiro é…

Se reinventar todo o dia, é descobrir a cada instante a sua história que foi escondida e modificada e ter que ressignificá-la para poder acreditar em dias menos sombrios.

O que você modificaria no jornalismo cultural?

O acesso que ainda é bastante limitado para classes sociais menos favorecidas. O conteúdo com temáticas mais diversificadas, saindo do padrão normatizado das agendas culturais e buscando em loco assuntos de interesse das comunidades.

Um livro:

“Cachorro Velho” da escritora cubana Teresa Cárdenas, uma história sobre a escravidão, cotidiano ordinário, resistência, vida e luta pela liberdade.

Um espetáculo:

“Traga-me a cabeça de Lima Barreto” com Hilton Cobra, espetacular, a história da vida do escritor Lima Barreto em um momento histórico que o Brasil vivia em plena eugenia.

Um álbum:

Difícil…Ouço música de todos os gêneros todos os dias. Fico então com Erikah Badu no álbum “Live”, negritude na veia.

Um filme

Blade Runner com certeza, vi várias vezes no Baltimore e depois em vídeo em casa. Mexeu com minhas entranhas na época, até hoje não me sai da cabeça algumas cenas. Sem falar que a trilha sonora é do Vangelis.

2 comentários em “Ouvidoria: 20 perguntas para Lilian Rocha”

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: