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A super-física dos super-heróis

Por Luciano Denardin de Oliveira*

Eles usam roupas coladas e capas tremulantes. Uns são mascarados, outros vêm de planetas distantes. Eles atuam em New York, ou em cidade fictícias, como Metrópolis e Gotham. Seu propósito: proteger os fracos e oprimidos. O Super-Homem salvou a Terra das terríveis artimanhas do Lex Luthor incontáveis vezes. O Capitão América já foi à guerra e o Homem-Aranha ajudou no resgate das vítimas do atentado de 11 de setembro. Histórias em quadrinhos que mostravam Batman, Capitão América e outros heróis esbofeteando Hitler e seus aliados eram enviados aos soldados americanos que estavam no front durante a Segunda Guerra Mundial. O objetivo: motivá-los. Enfim, eles encaram os mais terríveis vilões e se envolvem nas piores enrascadas possíveis. Mas é verdade também que eles desafiam a gravidade, a teoria da relatividade, Isaac Newton e Albert Einstein… O fato é que os super poderes desses destemidos heróis contrariam em muito a Física básica que aprendemos no colégio. O vôo sem nenhum tipo de propulsão do homem de aço, a elasticidade do Senhor Fantástico e a produção de calor interminável do Tocha Humana não estão fundamentados em nenhuma teoria científica. 

Segundo a fisiologia humana, enxergamos um objeto porque a luz emitida por ele atravessa nosso cristalino (que se comporta como uma lente convergente) e a imagem se forma na retina. O Super-Homem faz justamente o contrário. Utilizando sua visão de raio-x ele emite esta radiação, conseguindo, desta forma, enxergar através das paredes. Além de inverter o funcionamento do olho humano, Clark Kent correria sérios riscos de adquirir câncer no cérebro, devido à elevada exposição à radiação. Ademais, super-heróis como a Mulher Invisível do Quarteto Fantástico e o Space Ghost, ficariam cegos ao tornarem-se invisíveis. Isso aconteceria porque a luz de um objeto atravessaria diretamente a retina, uma vez que ela estaria transparente! 

Um super herói não muito conhecido é o Homem-Formiga. Um de seus poderes é a habilidade de reduzir seu tamanho a níveis subatômicos. Caso ele tivesse um tamanho menor que a molécula de oxigênio, como ele respiraria? Em uma de suas histórias, este intrépido aventureiro telefona para o vilão. Durante a conversa telefônica ele se reduz ao tamanho de um elétron e entra no telefone, viajando pela fiação elétrica e saindo do outro lado da linha, capturando, desta forma, o bandido. Acontece que a velocidade de deriva de um elétron num fio é de aproximadamente 0,01cm/s. Se o vilão estivesse a uma distância de 10 quilômetros da casa do Homem-Formiga, o herói demoraria 3 anos para percorrer este trajeto. Certamente o bandido desligaria o telefone antes disso! 

Diversas vezes assistimos ao Magneto movimentando objetos metálicos e até mesmo o corpo do Wolverine, cujo esqueleto é constituído de uma liga metálica fictícia denominada adamantium. Considerando que o Magneto tenha o poder de produzir campos magnéticos, sabe-se que apenas o ferro, o níquel e o cobalto (classificados como materiais ferromagnéticos) poderiam ser atraídos pelo vilão. Outros metais (como o alumínio e provavelmente o próprio adamantium) não interagem magneticamente!

Como fica a Terra nesse salto, Hulk?

Quanto ao Flash, ele tem a capacidade de superar a velocidade da luz. Em altas velocidades, o atrito entre o ar e o super-herói seria tão grande que a temperatura do seu corpo aumentaria significativamente, acontecendo um efeito semelhante ao de um ônibus espacial quando ingressa na atmosfera terrestre. Segundo a teoria da relatividade, sabe-se que nada pode ser mais veloz que a luz. Além disso, Einstein propõe que quanto mais rápido estiver um objeto, mais lentamente passa o tempo para ele. Desta forma, o Flash seria um herói fracassado, pois quanto mais rápido ele correr para resgatar uma criancinha indefesa, mais devagar passará os segundos no seu referencial, ao passo que para a criança o tempo continuaria transcorrendo no mesmo compasso. Conclusão: o Flash sempre chegaria atrasado! Esdrúxulo? Isso é a teoria da relatividade!

Sabemos que um mergulhador não pode sofrer variações significativas de profundidade, sob o risco de ter uma embolia pulmonar. Já no universo dos quadrinhos, paladinos como o Aquaman e o Namor, afloram e soçobram dos oceanos na maior tranqüilidade, variando de profundidade rapidamente.

Existem inúmeros outros exemplos. Com a sua super força, o Hulk já ergueu edifícios, ilhas e dividiu montanhas ao meio.  Ele inclusive consegue a proeza de dar saltos de alcances quilométricos. Para um salto típico de 50 km, a força que ele exerceria contra o solo seria a mesma de 40 mil caixas de leite empilhadas!

Mas nem sempre as histórias em quadrinhos contrariam a física. Uma das primeiras namoradas do Homem-Aranha, Gwen Stacy, foi vítima do Duende Verde. O vilão lançou-a do topo de uma ponte e o Homem-Aranha, na tentativa de resgatá-la, prende sua teia nas pernas da moça. Naquela época, a teia do herói não tinha elasticidade suficiente e Gwen sofreu uma abrupta frenagem durante a queda, que fez com que ela quebrasse o pescoço. Esta situação está diretamente relacionada com o princípio da inércia e é fisicamente correta.

Enfim, por mais que achemos que seus uniformes não sigam as tendências da moda (dificilmente algum deles desfilaria nas passarelas do São Paulo Fashion Week), ou que os heróis tirariam zero em uma prova de Física, o fato é que os quadrinhos vieram para entreter, é isso eles fazem há décadas e com muita competência.

*Mestre em ensino de física e professor do curso pré-vestibular Anglo. Também mantém o blog www.cotidianohermetico.blogspot.com

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3 thoughts on “A super-física dos super-heróis

  1. Cara, teu texto é fantástico. Quem não gostou é: burro, babaca ou não tem capacidade de avaliação contextual fina. Coitados! Um abraço

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