Há como responder racionalmente a algo basicamente emocional? Começo com essa indagação porque é difícil escrever sobre um show como o de Kamasi Washington, considerado “embaixador do jazz”, e sua excelente banda neste 26 de março, de 2019, no bar Opinião, em Porto Alegre, sem acabar apelando para o que senti e o que presenciei. Encontrando um amigo no fim do show, brinquei que era preciso dormir e sonhar para absorver. E, então, tentar escrever. É claro que é possível abordar somente aspectos técnicos, e procurar o distanciamento, mas particularmente não acho que esse show peça isso, ao contrário.

Começando com a reação do público, completamente absorvido e íntimo com a performance de Kamasi e da sua banda, formada pelo contrabaixista Miles Mosley, o trombonista Ryan Porter, os bateristas Tony Auston e Ronald Brunner Jr e a vocalista Patrice Quinn, provavelmente a única pessoa que consegue ficar “cool” com uma camisa verde amarela do Brasil no momento. É uma banda de Kamasi? Ele pode levar o nome, mas a verdade é que, desculpe a expressão clichê, cada integrante é um show à parte.

Foto: Vitória Proença

O líder sabe disso e abre vários momentos da apresentação de cerca de uma hora e meia para verdadeiros solos, ou quase mini-shows de cada um dos instrumentistas, incluindo aí dos dois bateristas. Mais do que apenas o virtuosismo de cada um nos seus instrumentos, é muito interessante ver a reação dos outros integrantes da banda realmente curtindo o momento e empolgados com o que o colega está fazendo.

Essa empolgação não tinha como não contagiar o público, que entendeu essa troca de energia no palco, algo que só uma música livre consegue transpor. Algumas composições foram feitas para serem tocadas ao vivo. Parece-me o caso das seis canções que foram apresentadas: “Street Fighter Mas”, “The Rhytm Changes”, “Black Man”, “Truth, Fists of Fury” e com o bis de “Show Us The Way”. Parece-me o caso também porque cada uma delas influencia o momento e é influenciada por ela. Destaque para os vocais suaves e potentes de Patrice Quinn, que é também muito performática em palco, dançando, gesticulando durante toda a apresentação. Dança que o público tentava imitar, por vezes.

Washington tem dois álbuns lançados de modo independente: o primeiro é The Proclamation, de 2008; o segundo é Light of the World, de 2009. É em 2015 que vem por uma grande gravadora o fantástico The Epic, e mais recentemente, em 2018, Heaven and Earth. A presença do músico no mundo do jazz, entretanto, é muito anterior à carreira solo. Em 1999, venceu a John Coltrane Music Competition, e foi acumulando prêmios e parcerias de todos os tamanhos. Já tocou com Snoop Dogg, Ryan Adams e Lauryn Hill. Mas a parceria mais destacada foi com Kendrick Lamar, no disco “To pimp a butterfly” (2015), considerado o melhor do ano pela fusão perfeita entre jazz e hip-hop, premiado com o Grammy de Melhor Álbum de Rap em 2016 e nomeado na categoria Álbum do Ano, na mesma edição.

Em certo momento do show, Kamasi diz que “nós não precisamos falar a mesma língua para nos amarmos”. E acho que é isso. Falamos e entendemos a mesma língua da música universal viva e que transforma e se transforma naquela noite em que Porto Alegre estava de aniversário. Uma cidade que pede também uma mudança, uma ressignificação. Que se inspire em Kamasi Washington e sua sensacional banda.

Jornalista, Especialista em Jornalismo Digital pela Pucrs, Mestre em Comunicação na Ufrgs e Editor-Fundador do Nonada - Jornalismo Travessia. Acredita nas palavras. Twitter: @rafaelgloria
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