Ouvidoria: 20 perguntas para Alexandre Dill, do GRUPOJOGO

Foto: Gabriel Pontes/divulgação

Na série Ouvidoria desta semana, entrevistamos Alexandre Dill, diretor do GRUPOJOGO há 13 anos. Dill já conquistou o Troféu Açorianos de direção  com o espetáculo Fauno, venceu o Prêmio Novos Diretores, para a montagem de A Noite Árabe de Roland Schimmelpfennig. Dirigiu a primeira a montagem As Trevas Ridículas de Wolfram Lotz na edição 1ª edição do Projeto Transit. Já na 2ª edição produziu o espetáculo Tremor de Maria Milisavlievic.

Além de ser contemplado com a Bolsa de Pesquisa em Artes Cênicas Décio Freitas para o projeto Fausto e o Espectador, Dill foi selecionado para participar do Fórum International em Berlim, programa para profissionais de teatro no âmbito do festival Theatertreffen do Berliner Festspiele. Na Alemanha, estudou com Grada Kilomba sobre Performance, PósColonialismo e Gênero, além de participar de cursos como Lat’s happy Change, sobre arte e migração. Atualmente, Dill coordena o projeto pedagógico do GRUPOJOGO, que visa a fomentar novos artistas. Em 2020, ele se tornou o primeiro diretor do Rio Grande do Sul a criar um espetáculo reinventado especialmente para as redes sociais, Deus é um DJ_Live, em parceria com o Goethe-Institut Porto Alegre.

Confira neste link todas as entrevistas da série Ouvidoria.

1. Início da carreira:  

Eu comecei a fazer teatro bem cedo, na igreja, sim na igreja ou no culto, por mais estranho que pareça. Eu não sou católico nem evangélico, mas no interior as práticas artísticas estão muito a serviço da doutrinação religiosa. Eu enxergo isso hoje, antes não tinha noção disso, mas foi assim, com autos de natal, paixão de cristo, etc… depois foi na escola, que já aflorava em mim a comunicação no grêmio estudantil, as ações culturais da escola, eu estava sempre envolvido. Aí veio o CTG, os grupos de folclore “gaúcho”, as aulas na Adágio Academia de dança, o jazz, o Centro de formação da dança da Jussara Miranda.

Depois veio um convite para fazer uma oficina de teatro com o Grupo Máschara da cidade de Cruz Alta, minha cidade natal. Foi no dia 09 de março de 1996 que eu pisei pela primeira vez em um palco com artistas de teatro, e a partir desse dia eu nunca mais parei. Fiquei 11 anos da minha vida no grupo teatral Máschara, foi onde aprendi e entendi o que era ser uma pessoa de teatro.  Depois cursei alguns estilos de interpretação teatral, no TEPA e logo em seguida fiz minha formação na Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo (2007/2008), e quando terminei o curso, o GRUPOJOGO estava dando os primeiros passos. O GRUPOJOGO é uma junção de alunos formados no Tepa e na Terreira. 

2.. Principais trabalhos: 

Meus principais trabalhos  foram como diretor (eu acho), quando dirigi A NOITE ÁRABE de Roland Schimmelpfennig pelo Prêmio novos Diretores, que era uma iniciativa do Goethe-Institut Porto Alegre com a Secretaria de Cultura do município; MEDEAMATERIAL que me levou para a Alemanha para estudar, depois As Trevas Ridículas de Wolfram Lotz pelo Projeto Transit; 

Depois veio DEUS É UM DJ de falk Richter, tanto a versão para palco, como a versão para LIVE no Instagram. Neste espetáculo eu experimentei o modo de operar que aprendi na Alemanha, montar um espetáculo em um curto período de tempo (20 ensaios, nesse caso).

E claro, meu trabalho como oficineiro/professor na Oficina de Criação e montagem, trabalho pedagógico que desenvolvo junto com outros artistas do GRUPOJOGO. Acredito que estes trabalhos são marcas que deixei em Porto Alegre como encenador. 

3. Como você descreveria sua essência enquanto artista?

Eu sou Inquieto, questionador, inconformado com o mundo e com a política colonial em que estamos inseridos. Sou um artista metade Dionisíaco, metade Apolíneo (risos), metade bagunça, outra metade organizado. Metade droga, metade salada.

4. O que mais irrita na cena cultural?

Na cena cultural em que eu estou inserido (Porto Alegre), o que mais me irrita e me incomoda é essa subserviência da classe artística a uma oligarquia que domina a cena, as curadorias, os espaços, as políticas públicas (quando existem), os cargos há mais de 30 anos. O modo como os artistas se curvam e se contentam com essas MIGALHAS que há décadas são jogadas e impostas pelas mesmas pessoas. 

Me irrita a falta de coragem de uma boa parte da classe, por um  enfrentamento radical, para construir uma cena cultural que de fato se desenvolva com estruturas sólidas. Velhas ideias não solucionarão velhos problemas. 

5. Quais qualidades são imprescindíveis a um artista?

Ser ético. Isso basta!

6. Qual o momento de maior dificuldade que já passou na carreira?

Foram tantas vezes… qual o artista que não passa por dificuldades? Uma das piores situações que já passei foi quando subi no palco do teatro Renascença, e fiz uma intervenção/ reivindicação política/cultural durante a cerimônia do prêmio Açorianos de Teatro em 2016, quando estava trocando o mandato do ex-prefeito José Fortunati para o atual Marchezan Jr. Eu subi no palco durante uma apresentação com um cartaz dizendo “SR, PREFEITO, ANTES DE SAIR, FAVOR PAGAR O QUE DEVE”.

Isso na época causou um furor, fui atacado pela própria diretora nas redes sociais, me chamaram de pequeno Pinochet, me acusaram de ter estragado a apresentação, de ter acabado com a cena da peça. Eu fiquei muito triste com isso, caí em depressão, e me perguntei: será que uma cena, numa cerimônia de um prêmio é mais importante do que 10 grupos que trabalharam durante 12 meses sem receber e estão reivindicando aquilo que lhes é de direito legal? Receber esses ataques foi a coisa mais pavorosa e assustadora que já pude receber dos colegas da mesma profissão, mais pavoroso do que ter de escolher almoçar ou pegar o ônibus para ir pras aulas na época da minha formação. 

Convidei a diretora para uma conversa, um café, mas nunca obtive resposta. Sem problemas, vida que segue e mais uma dificuldade acumulada, isso faz a gente crescer de certa forma. Bom, o cartaz fez efeito, a dívida foi paga, mas o projeto continua enfrentando dificuldades ainda maiores. A diretora da performance interrompida em 2016 passou a ensaiar e a frequentar o espaço pelo qual eu ergui o  cartaz para questionar estruturas que detém o poder dessa cidade. Aprendi a viver com as dificuldades e com a perseguição aos artistas, às vezes pelos próprios artistas.

7. E de maior glória? 

Sem dúvida ter meu trabalho reconhecido internacionalmente foi uma glória!  Quando tu é o único brasileiro entre 156, e é  escolhido para participar de um Festival gigantesco que é o Theater Treffen em Berlim, tu diz:  Glória Dels! 

8. Um artista não deve… 

1- Se candidatar a um cargo político;

2- Trabalhar de graça, ou em troca de favores políticos;

3- Roubar a ideia de outro artista;

4- Reproduzir na sua arte estereótipos racistas, homofóbicos, misóginos, etc ;

5- Ser de Direita;

9. 5 coisas que mais te inspiram a criar:

1- Estar apaixonado;

2- Ir ao mar;

3- Escutar música;

4- Banhos demorados;

5- Ir a museus.

10. Acredita em arte sem política?

Claro que não. Não existe arte sem política. A política está em tudo e quando você faz escolhas estéticas no seu trabalho  artístico você está se posicionando politicamente, está transformando em imagens aquilo que se pensa sobre o mundo, sobre os indivíduos, e assim você está fazendo política. 

11. Qual seria o melhor modelo de financiamento da arte?

O [financiamento] público, óbvio. É dever do Estado preservar a memória de um povo, a cultura é a nossa  memória, a cultura é o maior patrimônio. Em qualquer país sério,com governantes que realmente defendam os interesses do povo,  o financiamento da arte é levado a sério, desde a formação intelectual e pessoal até o cotidiano das pessoas.  O problema é que a arte abre os olhos do povo, incentiva o pensamento político e social, faz o povo enxergar, e  não é isso que quem governa quer, quem governa quer um povo não pensante, para atender interesses privados.  

12. Existe cultura gaúcha?

Depende do ponto de vista. Se cultura gaúcha é a bombacha, o chimarrão, a prenda, o peão, o 20 de setembro, etc… NÃO, não existe. Nada disso é nosso, aliás é uma cultura do machismo, da misoginia, da Lgbtfobia, do genocídio, do racismo. Essa cultura tem problemas estruturais e na minha opinião deve ser destruída. 

Agora se a gente falar da cultura gaúcha, cultura que se produz no Rio Grande do Sul, aí sim podemos dizer que existe a cultura gaúcha. 

13. Que conselho você daria a Jair Bolsonaro? 

Quando vós tiverdes-vos suicidado, o povo estará livre!  

14. Todo artista tem de ir aonde o povo está?

O artista está no povo. O artista vem do povo, é o povo. 

15. Ser brasileiro é….

ter dois lados, o do que explora e o do que persiste e cala-se. 

16. O que você mudaria no jornalismo cultural? 

Dependo de qual jornalismo cultural: esse jornalismo/entretenimento, essa cultura da fofoca, da revista de variedades, etc, isso que fazem o povo acreditar que deva ser um jornalismo cultural, isso deve ser exterminado.

Mas o jornalismo que investiga, que denuncia, que busca dar visibilidade ao trabalho da arte e da cultura como crítica à sociedade, esse eu gosto, porque é um  jornalismo radical, direto, sem medo de retaliações, porque as retaliações, né, já estão aqui no nosso cotidiano. 

17. Um livro: 

Raízes do Brasil, do Sérgio Buarque de Holanda

18. Um espetáculo: 

A missão, do Ói nóis Aqui Traveiz

19. Um álbum: 

Construção, de Chico Buarque (1971)

20. Um filme:

Som ao redor, de Kleber Mendonça Filho  

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