Ester Caetano

Foto: Januário Garcia/reprodução

Por toda América Latina e Caribe, no 25 de julho é celebrado o Dia da Mulher Negra Latino- Americana e Caribenha. Para marcar a data, símbolo da força, união e resistência da mulher negra, o projeto Lélia Gonzalez Vive, o Movimento Negro Unificado (MNU), o Mulheres Negras Decidem e o Instituto Afrolatinas se reúnem para lançar o Amefricanifesto.

As mulheres negras estão se levantando a cada dia, com múltiplas vozes que ecoam a luta contra a opressão de gênero, a exploração e o racismo. Mas a data, definida em homenagem a Tereza de Benguela, ainda se faz necessária para rememorar as lutas históricas e para que outras mulheres negras não precisem passar pelas mesmas situações, até porque os passos dessas mulheres vêm de longe. 

Benguela se tornou um ícone de resistência e liderança negra no país e comandou a estrutura política, econômica e administrativa do Quilombo Quariterê, em Mato Grosso. Após o legado de mulheres como ela, foi da luta contra as consequências da escravidão nos tempos atuais que surgiram líderes que levantaram as lutas das mulheres negras, como a intelectual, professora e ativista Lélia Gonzalez. Seu legado revolucionou o movimento negro atuante na defesa contra o racismo e contra opressões que subalternizaram as mulheres negras, a partir da reflexão sobre a latinidade e a não existência de uma democracia racial. 

Em entrevista ao Nonada Jornalismo, Melina Lima, historiadora e neta de Lélia salienta que a autora foi importante para as pessoas negras se verem, levantarem a autoestima e prezar por ocupar os espaços que antes não eram imaginados. E é desse pensamento que o Amefricanifesto parte, destacando a influência de uma ancestralidade que lutou e que deixou o legado de que é possível ocupar os espaços do centro  – e não das margens – , com as afro-brasileiras sendo protagonistas de suas histórias. 

“O Amefricanifesto é justamente para isso, dar a nossa voz, mostrar a nossa voz, a nossa luta,  mostrar que sempre estivemos aí e que temos como ocupar espaço de poder. Minha avó mostrou que precisamos escrever nossas próprias histórias”, destaca Melina. 

Confira a entrevista na íntegra abaixo e leia o Amefricanifesto neste link.

Nonada – Dia 25 de julho, o Lélia Gonzalez Vive vai lançar o Amefricanifesto. Qual a importância que você vê do dia para a cultura brasileira, e sobretudo, para as mulheres negras?

Melina Lima – A gente aqui no Brasil tem dificuldade de se entender como latinas. Então eu acho muito importante esse dia pra reforçar essa união, reforçar que fazemos parte dessa mesma diáspora. E é um dia de luta, dia que também aqui no Brasil a gente homenageia a Tereza de Benguela, então é um dia muito importante de resistência para mulheres negras mostrarem sua relevância para o mundo. 

Somos o maior grupo demográfico brasileiro, 28% são mulheres negras. Nós temos poder, porém somos completamente silenciadas e invisibilizadas. O Amefricanifesto é justamente para isso, mostrar a nossa voz. É isso que a gente busca, ocupar os espaços para de fato mudar alguma coisa nessa sociedade. Precisamos de todos para que entendam a nossa luta, para ajudar a gente nessa luta, porque sozinha  não conseguimos muita coisa, infelizmente. O Amefricanisfesto é um manifesto cultural e coletivo, então ele tem uma pegada artística também.

Nonada – Por quem o Amefricanifesto foi pensado, como se deu a construção? 

Melina Lima – O Amefricanifesto foi criado pelo Lélia Gonzalez Vive, um projeto muito legal que a gente está fazendo, com voluntários de todo o Brasil. Agora com a pandemia, ficou mais fácil de se comunicar fora dos estados. Acho muito legal que o projeto tenha gente do Rio de Janeiro, na Bahia, tem em Curitiba, Florianópolis. Então, nós do Projeto Lélia Gonzalez Vive, junto com o Movimento Negro Unificado, a Iêda Leal, coordenadora nacional do MNU e a secretária da mulher no MNU Ivonete Leal, a Laura Astrobio, do Mulheres Negras Decidem e da Tenda das Candidatas, e o Instituto Afrolatinos, que é um instituto super importante que promove o festival Latinidades, um festival de mulher negra para mulher negra. Nós nos reunimos e criamos esse Amefricanifesto. Foi uma explosão de ideia, explosão do que a gente sente, do que a gente precisa e não tem como não ficar artístico, porque o artístico é a sensibilidade. Ficou sensível e forte, ficamos muito felizes com o resultado. 

Nonada – O manifesto fala sobre as questões da decolonialidade, de ocupar espaços que antes não eram imaginados. Existe hoje no Brasil um avanço para essas questões, você enxerga que realmente as pessoas estão com um pensamento mais decolonial, as mulheres negras estão sendo ouvidas?

Melina Lima – Sim, a gente evoluiu com certeza, mas ainda estamos andando a passos de formiga. Estamos inclusive num momento político muito triste. O presidente da República diz que não existe racismo no país, como assim? Temos no poder uma pessoa que acha que não existe desigualdade racial no Brasil. Você imagina para uma mulher negra como é isso. Então, o feminismo negro ainda é muito necessário, a gente tem que ler mais, tem que expor mais as feministas negras, as intelectuais negras e é exatamente essa questão de decolonizar o pensamento. Temos que parar de ler brancos europeus. 

Evoluímos bastante, mas pensando politicamente, nesse momento, eu vejo uma estagnação no país. E, em relação às políticas públicas e à população negra, existe um retrocesso. Enfim, parece que estamos super para frente, mas temos que nos lembrar que as coisas ruins estão muito perto e elas nos alcançam. Na verdade, fomos alcançados, por isso tem que continuar fazendo trabalho de formiguinha, reagindo a qualquer tipo de violência racial, reagindo a qualquer tipo de racismo, para mostrar que existe, para parar com essa história.  

Quanto mais a gente reage, mais a gente vê a questão do mimimi e o da vitimização. Mas a população negra está mais consciente do seu papel, mais consciente de que tem que ter orgulho do que a gente é. É fundamental espalhar isso, porque o fato desse cara ter ganhado as eleições diz muita coisa. Muitas pessoas votam nele, o cara deixou muito claro que é racista, e as pessoas não se importam com isso. Como que a gente vai de fato chegar a uma democracia racial se a gente ainda não consegue nem se intitular um país racista? Ainda falta a consciência geral para de fato ter uma mudança. 

Nonada – E como que o legado de Lélia Gonzalez endossa o discurso e os saberes da luta antirracista e feminista no Brasil? 

Melina Lima – Minha avó, sendo uma das precursoras do feminismo negro aqui no Brasil, tem a importância de mostrar a relevância das mulheres negras e a importância do nosso eterno ativismo. Em todas as situações que a gente se encontra nesse país, a gente lutou e se sobressaiu. Mas sempre fomos apagadas, mais do que os homens, porque a gente, além do racismo, sofre com o machismo. A importância da minha avó é a necessidade de se espelhar, de mostrar que precisamos ser lidas por nós, precisamos escrever nossas histórias. 

Uma coisa que também é legal, a minha avó tem essa ideia de amefricanidade que cabe muito bem nesse 25 de julho. Somos amefricanos porque vivemos em um mesmo continente, passamos por várias coisas parecidas, fomos escravizados e temos esse mesmo fim. As sociedades são racistas e não é algo específico do Brasil. No caso da Argentina, que conseguiu de fato aniquilar a população negra, houve escravizados, houve população negra e há população negra hoje. 

Nonada – A Lélia Gonzalez foi uma figura de resistência que tivemos no feminismo e na luta do movimento negro. De que forma você enxerga essa resistência nos dias de hoje, vem acontecendo de fato?  

Melina Lima – Ela vem acontecendo. Minha avó faleceu em 1994. Dia 10 de julho, fez 27 anos que ela faleceu, e você vê que só agora, de fato, ela está tendo a visibilidade que ela merece. Isso no geral, porque o movimento negro sempre conseguiu entender a importância de Lélia Gonzalez, mas o feminismo demorou para entender, para retomar essa questão da decolonialidade. Mas acho até triste que a gente está em 2021 e os escritos dela de décadas atrás são super atuais, parece que ela está aqui com a gente. Ou seja, a gente demorou muito para avançar, mas a gente finalmente está conseguindo falar sobre essas questões.

No ano passado, teve um boom muito grande de Lélia Gonzalez, mas foi depois que, em 2019, Angela Davis falou: “como assim vocês ficam me lendo e me venerando? Vocês tem Lélia Gonzalez.” É também aquela ideia da síndrome de vira-lata. A gente precisa de uma  norte-americana para falar que existe alguém aqui no Brasil para essa pessoa de fato ter a visibilidade necessária. 

A gente passa por racismo diferente, existem tipos de racismo. A gente no Brasil passa por um racismo e o negro norte-americano passa por outro. Como que a gente vai se espelhar e como que a gente vai lutar só lendo norte-americano? A gente precisa se ler e se entender para entender o tipo de racismo que a gente sofre e tentar combater ele, porque o conhecimento é uma arma. Dessa forma, ter o conhecimento, ter a noção de que sofremos e do que a gente é capaz é muito necessário. Mas o pensamento da Lélia está sempre presente, ela viveu para isso, foi poliglota e autodidata. Viveu a vida dela para esmiuçar o racismo e mostrar que não vivemos em uma democracia racial.  

Nonada – A luta feminista ainda está muito segmentada? As mulheres brancas  estão entendendo qual é o lugar da mulher negra? Quando você fala da luta da mulher e que ela ainda quer o trabalho, hoje no Brasil,  qual o lugar do corpo da mulher negra? 

Melina Lima – Hoje em dia, estamos em um momento de conseguir fazer com que entendam que a nossa luta é diferente da luta feminista branca. A questão da interseccionalidade é muito importante, entender que existem vários tipos de mulheres, vários tipos de lutas feministas. Enquanto a mulher branca está lutando por equiparação de salário, a gente está lutando por formas dignas de trabalho. A gente está lutando para estar viva. O feminismo demorou, mas está começando a ter a noção dessa diferença. Estamos em 2021 e só agora que as pessoas [brancas] estão se tocando que existe essa diferenciação de feminismos e que o racismo é cruel.

Essa questão do lugar de negro, principalmente da mulher negra, de entender que a gente não é a mulata, preta gostosa do samba, enfim, ainda estamos nessa situação, estamos nos vendo como intelectuais. Somos intelectuais e podemos ocupar qualquer lugar e não necessariamente os lugares que são pré-determinados para nós. Estamos tendo que, por conta própria, voltar a lutar e demonstrar que a gente pode ocupar o que a gente quiser.

Nonada – Existe ainda  um processo em andamento do embranquecimento da cultura da história brasileira. Você acredita que esse embranquecimento apaga de certa forma a identidade latina amefricana?

Melina Lima – Tem muita ignorância ainda, as pessoas ainda têm muito o que ler, têm muito que aprender, entender de fato o papel do povo negro na construção desse país. Você vê que muitas pessoas não conhecem a história, [mesmo com] a obrigatoriedade do ensino e dos heróis negros nas escolas. As pessoas ainda não estão preparadas para falar sobre isso e é porque as pessoas não sabiam como, não sabiam onde aprender. Essa questão do embranquecimento, se você for pensar no início dos XX com a eugenia , ainda estamos muito perto disso tudo. Os resquícios são muito fortes, temos essa ideia de que os negros são inferiores, ainda vivemos nessa realidade, não tem como negar, eu sei, você sabe. 

Eu, por exemplo, moro em Brasília. Quando eu morava na casa da minha mãe, que é no Lago Sul, um bairro bom aqui, sempre que eu atendia a porta perguntavam “ah você pode chamar a patroa?”. É uma coisa que está arraigada na gente, não era só branco, qualquer pessoa que ia lá chamar. Isso ainda está no imaginário de que somos inferiores. O que não falta é caso de racismo toda hora, o menino que foi acusado de roubar a própria bicicleta, enfim, o que não falta é isso. 

O que está acontecendo é que a reação está mais exposta. O que antes a gente tinha dificuldade, as redes sociais e a internet, essa facilidade de expor tudo facilita a reação. Tudo que está acontecendo sempre aconteceu, a gente agora só está tendo provas. Porque falava e não era suficiente, a gente agora tem provas para mostrar. O Brasil ainda é um país com o pensamento embranquecido e quando a gente reage somos taxados de vitimistas e mimizentos, mas a gente não para de reagir porque a gente sofre, então a gente tem que reagir mesmo. 

E quando você nega a raiz, quando o país nega essa negritude, não consegue nem se enxergar como latino, enxergar que essa amefricanidade não é só daqui do Brasil, é da América Latina como um todo. Esse pensamento dificulta qualquer evolução como amefricanos que a gente possa ter. É mais uma vez a importância do 25 de julho com esse nome, dia da Mulher Afrolatina-americana e Caribenha.

Nonada –  Além da Lelia Gonzalez, quais outras autoras indica para ajudar na luta antirracista e feminista negra? 

Melina Lima –  Beatriz Nascimento, Djamila Ribeiro, que é da nova geração, e é muito importante, e a Sueli Carneiro que é a contemporânea da minha avó. A juventude, que esse pensamento contemporâneo, está também com essa visibilidade, então acredito que a gente tem que se ler para de fato algo mudar.

Esta reportagem é uma produção do Programa de Diversidade nas Redações, realizado pela Énois – Laboratório de Jornalismo, com o apoio do Google News Initiative.

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