Rafael Gloria

Uma nuvem rosa surge pelo mundo e todas as pessoas que estiverem ao ar livre acabam sendo mortas em poucos segundos. A solução é buscar o confinamento por tempo indeterminado. Parece fácil se identificar com a situação devido a pandemia da Covid-19, mas A Nuvem Rosa, com uma pequena e importante intervenção, avisa logo no início que o roteiro e as filmagens foram realizados antes do acontecimento real do coronavírus. A produção teve sua estreia mundial no Festival de Sundance em 2021 e vem chamando a atenção da imprensa internacional desde então.

É redutor falar em premonição, quando na verdade a diretora e roteirista Iuli Gerbase criou um ótimo argumento para explorar a intimidade de dois personagens que são obrigados a conviver e a lidar com diversos problemas em uma situação extremamente caótica. Giovana (Renata Lélis) e Yago (Eduardo Mendonça) se conheceram em uma festa na noite anterior ao aparecimento da misteriosa nuvem rosa e foram para casa dela juntos.

Foto: divulgação

A situação pode parecer muito claustrofóbica e angustiante para todos que passaram muitos meses em quarentena, porque o que se vê a partir disso é semelhante à realidade: o crescimento do uso de telas para se comunicar, a adaptação do trabalho, o distanciamento e como tudo isso afeta as emoções.

É claro que no filme a situação é levada ao extremo, mas A Nuvem Rosa toma cuidado para não apressar a história e construir bem seus protagonistas, quase como se dividisse em fases o relacionamento confinado do casal. Aqui, a questão parece ser o que os distancia mais do que aproxima. Enquanto Giovana nunca aceita a ideia de se acostumar à nuvem, Yago começa a tratá-la cada vez mais como uma espécie de entidade divina. Interessante notar também o uso da fotografia para transmitir as mudanças nos personagens. Com uma bonita paleta de cores, o rosa vai dando lugar por vezes a um roxo marcante ou até a um assustador verde em um momento crucial da trama, marcando um trabalho muito delicado e, ao mesmo tempo, potente.

É importante citar que apesar de focar no casal, o filme consegue abrir outras pontas de relacionamentos de forma bem satisfatórias, de forma que a relação de Yago com seu pai e a de Giovana com a irmã se destacam nesse sentido. É quando eles têm um filho, entretanto, que as angústias e medos de ambos são elevadas ao extremo. Talvez porque a criança represente a ideia de continuidade, e isso em uma realidade confinada Giovana não consegue imaginar. Yago, por sua vez, aceita com muito mais facilidade, quase que agradecendo. A diferença de ambos também fica evidenciada em como procuram outras pessoas, enquanto Giovana “troca” carícias à distância pela janela com um vizinho, Yago arranja uma namorada virtual e recorre ao vídeo para o sexo.

Foto: divulgação

Mesmo com toda a grande parte da ação acontecendo em uma locação apenas – o apartamento -, os cenários conseguem ter uma ambientação diferente e vão mudando também durante a trama. Quando acontece a separação do casal, Yago assume o espaço do segundo andar, e Giovana fica com a área principal. O céu também é pontuado para mostrar a continuidade do confinamento, sempre de longe através das janelas. As telas virtuais via dispositivos móveis também ajudam na interação com outros personagens que aparecem pouco, como o pai de Yago e a irmã de Giovana, mas que são importantes para lembrar de como a nuvem causa todo tipo de tragédia e afeta todas as pessoas ao redor.

Uma nuvem rosa que paira sobre todos e é capaz de nos “apagar” em poucos segundos é quase uma inversão da ideia de “nuvem” na tecnologia, que carrega todas as nossas memórias virtuais. Mas o que é virtual e o que é real nos dias de hoje? Enquanto somos corrompidos por nuvens, vírus, atrocidades políticas no mundo lá fora, internamente continuamos com conflitos deveras humanos, buscando o contato. A Nuvem Rosa nos angustia por imaginar essa espécie de processo pós-apocalíptico de alguma forma já presente em nossas vidas. E, ao trazer para o microcosmo da intimidade a ação, torna ainda mais fácil a identificação pela experiência de relações que todos nós dividimos, na pandemia ou não.

Jornalista, Especialista em Jornalismo Digital pela Pucrs, Mestre em Comunicação na Ufrgs e Editor-Fundador do Nonada - Jornalismo Travessia. Acredita nas palavras. Twitter: @rafaelgloria
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